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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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DA ÁSIA 

D E 

DIOGO DE COUTO 

DOS FEITOS , QUE OS PORTUGUEZES FIZERAM 

NA CONQUISTA , E DESCUBRIMENTO 

DAS TERRAS, E MARES DO ORIENTE* 

DÉCADA DECIMA 

PARTE SEGUNDA* 




LISBOA 

Na Régia Officina Typografica 

ÁNNO M.DCC.LXXXVIÍÍ, 

Com licença da Real Meza da Comnvheo Geral feire 9 
Mxamc « Cenjara dos Livres % c Vrivihgie Real, 



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411 
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ÍNDICE 

DOS CAPÍTULOS , QUE SE CONTEM 
NESTA PARTE SEGUNDA 

DA DÉCADA X. 



LIVR O VI. 

CAP. I. De como D. Duarte de Me^ 
nezes , Senhor da Ca f a de Tarou- 
ca , foi eleito por Vtfo-Rey da ín- 
dia : e das mercês que lhe EIRey fez y 
e da Armada que partio : e do que lhe 
fuccedeo na viagem até Cochim , e das 
coufas em que logo proveo. Pag. I. 

CAP. IL Das coufas em que o Vifo-Rey 
D. Duarte proveo : e do modo que teve 
no negocio da Alfandega com aquelles mo- 
radores , por onde lha concederam. 13. 
ÇAP. III. Das coufas em que o Vifo-Rey 
D. Duarte de Menezes proveo antes de 
partirem as náos : e da viagem que o 
Conde D. Francifco Mafcarenhas teve 
até ao Reyno : e dos Fidalgos que nefta 
Armada fe em b arcaram a requerer def- 
pachos pelos ferviços que tinham fei- 

r* *^ # ® as cou f as <2 ue aconteceram a 
D. Jeronymo Mafcarenhas no Malavar : 



ii Índice 

e de como fevio com oC>amorzm, e jurou 
as pazes : e de como dejlruio o JSaique 
de Sanguicer. 27* 

C AP. V. Das pazes que o Naique de San- 
guicer pedio ao Vifo-Rey : e de como eu* 
tregou o corpo de D. Gileanes Mafcare- 
nhãs : e dos Capitães que o Vifo-Rey dej~ 
p achou pêra fora. 33. 

CAP. VL Das coufas que aconteceram em 
Maluco : e do Joc corro que veio das Fi- 
lippinas : e de como a Armada de ElRey 
de Ternate tomou duas fragatas deHef 
panhoes : e da grande batalha que teve 
com outras três. 40 • 

CAP. VIL De como chegou a Maluco o 
Galeão da carreira : e da razão por que 
Diogo de Azambuja não quiz entregar 
a Fortaleza a Duarte Pereira', e do ou* 
tro foccorro que chegou das Manilhas % 
de que veio por General João de More* 
ties. 46. 

CAP. VIIL De como os woffos partiram 
pêra Ternate ■: e de como def embarcaram 
em terra : e do que lhes fuccedeo até 
ajfentarem feu campo naquella Fortale- 
za. 52 • 

CAP. IX. De como os nojfos começaram a 
bater a Fortaleza de Ternate : e das 
coufas que fuccedêram no cerco até oí 
nojjhs fe ^levantarem delle* yfl. 

J CAP. 



dos Ca pi ttí los. ih 

-CAP. X. Das coufas que aconteceram em 
Ormuz , fendo Capitão Mathias de Al- 
buquerque : e de como os Niquilús que* 
br aram as pazes 5 e o Capitão mandou, 
fobre elles alguns navios que fe perde* 
ram. 6f m 

CAP. Xt. De como o Turco mandou fazer 
hum Forte fobre a (.idade de Tabrizz 
e das coufas qUe álli Juccedêram entre 
os Turcos , e Perfas. 72. 

CAP. XII. Do f tio da Cidade de Tabriz, 
e dos defpiedofos i e cruéis facos que os 
Turcos lhe deram : e dos ajfaltos que o 
Principe da Perfia deo nos Turcos , em 
que lhes matou muitos, 81. 

CAP. XIII. De como os Turcos fe levanta- 
ram de fobre Tabriz : e de como o Prin- 
cipe da Perfia deo febre elles : e da fa- 
mofa vitoria que alcançou : e da morte 
de Ofinan Baxdé 91. 

CAP. XIV. Que dá conta de quem são 

r huns Cafres , que fe chamam Ambios y 

* e Macabires : e de hum a paffagem que 
os cafados de Moçambique fizeram d 

• outra banda pêra darem em hum Forte 
que lá tinham ^ no qual foram moftof 
todos os nojfos* 98. , 

,CAP. XV. Das revoltas que efe anno hou- 
ve no Reyno de Nizamoxd : e de como 
alguns Capitães daquelle Reyno fugiram 
Çqi\iq, Tom, VI. P. lu ** pe~ 



iv Índice 

pêra o Mogor , e mettêram feus Caph 
tães no Keyno de Ver ar a. 109. 

CAP. XVI. Das novas que chegaram ao 
Vifo-Rey do Norte : e de como mandou 

• lá Ruy Gomes da Gram com huma Ar- 
mada : e de outras que mandou pêra o 
Sul, e pêra Malaca. 115-. 

LIVRO VIL 

CAP. I. Da Armada que ejle anno âe 
i^^. parti o do Keyno , de que era 
Capitão Mor Fernão de Mendo ç a : e do 
novo contrato que EIRey fez ejle anno 
da pimenta : e do que aconteceo a todos 
na jornada : e de como Fernão de Men- 
do ç a fe per de o nos Baixos da índia. 121. 

CAP. II. Da defcripção dejle baixo , em 
que a não deo : e das pejjoas que fe f al- 
var am em o batel \ e do que lhes aconte- 
ceo até chegar a terra. 12$. 

CAP. III. Do que aconteceo aos que fica- 
ram nos baixos : e das jangadas que or- 
denaram : e de hum efpantofo milagre 
que fez o Lenho da Cruz de Chrijlo : e 
do que aconteceo a Fernão de Mendoça y 
e aos do batel até chegarem a Moçam- 
bique. 137. 

CAP. IV. De como o Vifo-Rey D. Duarte 
tratou de mandar huma Armada ao ef- 

trei- 



í)OS G A PITULOS, V 

tf eito : e do fegreâo que nijfo teve : e de 
como ordenou fazer huma Fortaleza em 
Panane , e foram nomeados pêra Capi- 
tães Ruy Gonfalves da Camará da ter~ 
ra , e D. Jeronymo Mafcarenhas do mar : 
e do que aconteceo a Ruy Gomes da Grani 
no Norte , e a António de Azevedo no Co* 
morim. 143. 

CAP. V. De algumas dijferenças que houve 
entre Ruy Gonfalves da Camará , e D* 
Jeronymo Mafcarenhas : e de como Ruy 

. Gonfalves par tio pêra Panane , e Je via 
com o Camorim : e de como fez a Forta- 
leza em Panane. 15*4, 

CAP. Vi. De como D. Jeronymo Mafcare* 
nhãs fe defaveo com o Vifo-Rey fobre 
a ida a Panane : e de como foi por Ca* 
pitão Ruy Gomes da Gram. 165V 

CAP, VII. Da grande Armada com quê 
Ruy Gonfalves da Camará partio pêra o 

i eftreito de Meca : e de como o Vifo-Rey 
mandou por Cofme Faya lançar na cofia 

. da Aibaffia João Baptijla Briti , e que 
homem era ejíe : e dos Capitães que fo- 
ram entrar em fuás Fortalezas. 170. 

CAP. VI II. De como huma Galé de Turcos 
foi ter á Cofia de Melinde : e dos darmos 
que por ella fez : e de como cativou Ro- 
que de Brito. 178* 

CAP. IX. Do que fez Ruy Gomes da Gram 
** ii em 



íri Índice 

em Panam , e tornou de novo a fortifi* 
car aquella Fortaleza : e de como fe foi 
ver com o Çamorim. i86* 

CAP. X. Do que aconteceo a João Caiado 
de Gamboa em Surrai e fobre huma não , 
que Caliche Mahamede queria lançar 

. pêra fora fem cartaz. 193. 

CAP. XI. Dos Capitães que foram entrar 
nas Fortalezas : e do que aconteceo a 
Bernardim de Carvalho até Panane : e de 
como Ruy Gomes da Gram prove o as ef- 
t anciãs. 199. 

CAP. XII. Das coufas que aconteceram 
em Malaca , depois que João da Silva 
tomou pojfe daquella Fortaleza até che- 
gar lá D. Manoel Pereira : e de como o 
Rajale determinou jazer guerra áquella 
Fortaleza : e do foc corro que o Vijo-Rey 
viandou. iof. 

CAP. XIII. De como o Rajú matou o Ma- 
dunch feu pai : e da Cidade nova que fez 
fobre o rio do Canale : e do cerco que co- 
meçou a pôr á Fortaleza de Columbo. 
213. 

CAP. XIV. Das coufas que aconteceram 
em 'Ceilão até chegar efte provimento : e 
da grande viãoria que os nojjos houve- 
ram da gente do Rajú dia da Exaltação 
da Cruz : e de hum cafo efpantofo que 
aconteceo em hum Jobrinho do Rajú. 218. 

CAP, 



dos Ca? xt trios. vn 

CAP. XV. De como Cofme Faia foi morto 
na Ilha de Gamaram com todos os que 
com elle hiam: e do que aconteceo a Ruy 
Gonfalves da Camará no efireito. 226. 

CAP. XVI. Do que aconteceo a Francifco 
de Soufa Pereira , e a Trifião Vaz da 
Veiga , indo fazer aguada : e de huma 
briga que tiveram com os Turcos : e do 
que aconteceo aos navios da Armada que 
andavam defgarrados. 2 33- 

CAP. XVII. Do que mais aconteceo a Ruy 
Gonfalves da Camará y e a D. Francifco 
Mafcarenhas , que ficou no Eftreito : e 
de como Ruy Gonfalves chegou a Mafca- 
te , e dejpedio Pedro Homem Pereira, 
com a Armada de remo pêra Ormuz. 
240. 

CAP. XVIIL Da Armada que Ruy Gon- 
falves da Camará mandou contra os 
Nequilús , de que foi por Capitão Mor 
Pedro Homem Pereira : e do que lhe acon- 
teceo na jornada : e de como def embarcou 
na fua Cofia , e foi desbaratado com 
morte de quafi todos os Capitães , e mais 
de trezentos homens. 247. 



LI- 



Tílí ÍNDIO K : 

LIVRO VIII. 

CAP, I. Do que ejle anno acontccco na 
Per fia : e de como mataram o Prin-* 
cipe Mizhazem Mirta : e de como o Tur* 
co mandou Serat Paxá a prover o For- 
te de Tabriz ? e fazer outro em Gazat > 
e do que o Xd fez. ióo. 

CAP. II. De como chegaram a Malaca os 
navios da índia : e de como D. Jerony* 
mo de Azevedo fe foi pêra o eftreito de 
Sincapura : e do que lhe aconteceo , ejlan- 
do nelle com a Armada do Jor. 268. 

CAP. III. De como Artur de Prito chegou 
a Maluco : e do que lhe aconteceo naquel- 
las Ilhas : e da Embaixada que ãeo a 
EIRey de Ternate fobre a entrega da^ 
quella Fortaleza : e do que fobre ijfofe 
pajfou. 274. 

ÇAP. IV. De como Duarte Pereira veia 
das Manilhas , e tomou pojje da Capi- 
tania de Tidore : e das coifas que mais 
fuccedêram : e do diabólico eflratagema 
que EIRey de Ternate ufou pêra matar 
o Príncipe Manar ax a. 285% 

CAP. V. Do que aconteceo â gente da não 
Sant-Iago depois de fer em terra até 
chegar a Moçambique : e de como fe par^ 
tiram pêra a índia. 292. 

CAP, 



D O S G A P I T U L O St IX 

CAP. VI. Da Armada que ejle anno de 
586. par tio do Reyno: e do novo arren- 
damento que EIRey mandou fazer da Ca- 
fa da índia : e de como o Galeão Reys 
Magos , que hia pêra Malaca , peleijou 
com os Inglezes : e do grande naufrágio 
que pajfou a não S. Lourenço , indo pêra 
o Reyno : e de como chegou a Moçambi- 
que. 295*. 

CAP. VIL Da Armada que o Vifo-Rey D. 
Duarte mandou a Surrate , de que foi 
por Capitão João Barriga Simões : e do 
que lhe aconteceo com huma náo de Me- 
ca , e com Caliche Mahamede Senhor de 
Surrate. 30^. 

CAP. VIIL Das Armadas que o Vifo-Rey 
lançou fora : e do que fuccedeo as nãos 
do Reyno até chegarem a Goa: e da mu- 
dança que EIRey mandou fazer nàs cou- 
fas de jufliça 5 e ordenou Cafa da Rela- 
ção em Goa. 314. 

CAP. IX. Das coufas , em que o Vifo-Rey 
"mais proveo : e de como as nãos forarif 
tomar a carga a Cochim , e o Arcebifpo 
jD. Fr. Vicente fe embarcou pêra o Rey- 
no: e de como fe perdeo a náo Relíquias 
na barra de Cochim, e o Draque tomou 
a ndo S. Filippe , indo pêra o Reyno. 
322. 

CAP. X. De como o Vifo-Rey mandou hu- 
ma 



se Índice 

ma Armada a Melinde , de que foi Ca* 
pitão Martim Ajfonjo de Mello : e da 
Fortaleza que mandou fazer em Mafra* 
te : e de como Ruy Gonf alves da Gram 
foi por Capitão Mor de Malaca. 328. 

CAP. XI. Da Armada que o Cunhale lan- 
çou fora : e dos navios que o Vijo-Rey 
mandou armar no Norte , de que veio por 
Capitão Mor D. Ruy Gomes da Silva, 
dando guarda d cáfila : e dos navios que 
mandou o Vifo-Rey apôs huns pardos , 
que pajfáram por Goa com huma mio to- 
mada ; e de alguns cafos graves que acon- 
teceram a alguns cativos na Fortaleza 
de Cunhale. 334. 

CAP. XII. Dos achaques que o Rajú to- 
mou pêra quebrar as pazes : e de alguns 
Chingalas que fugiram pêra a nojfa For- 
taleza : e das grandes cruezas que o 
Rajú ufou com os f eus : e do modo que 
João Corrêa de Brito teve em fe forti- 
ficar, ^ 343. 

ÇAP. XIII. Do 'que aconteceo a Diogo de 
Azambuja , depois de entregar a Forta- 
leza a Duarte Pereira : e de como foi a 
Banda , e carregou pêra Malaca : e dos 
juncos que o Rajale tomou : e da cruel 
fome na Cidade de Malaca. 3^ 2. 

CAP. XIV. De como Diogo de Azambuja 
fqi dar em huma povoação dos Mana* 



do< C ap ir trios. xi 

cambos , e a àeftruio : e da grande Ar* 
mada com que o Achem fe fazia prejies 
pêra ir contra Malaca , a qual não hou- 
ve e ff eito pelo matarem. 357. 

CAP. XV. De como o Rajale foi com hu- 
ma poderofa Armada contra Malaca : e 
dos recados que pajfáram entre elle > e o 
Bifpo : e de como alguns Capitães feus 
defembarcáram em terra : e da batalha 
que tiveram com os noffos , em que elles 
ficaram desbaratados. 363. 

CAP. XVI. Do que aconteceo a D. Jerony- 
mo de Azevedo no ejlreito : e de como fa- 
lèceo João Gago , e Diogo de Azambuja 
foi pêra Capitão da não do Reyno : e do 
que lhe aconteceo na viagem : e do grande 
foccorro que a Cidade de Cochim mandou 
a Malaca. 371. 

CAP. XVíl. De como chegaram a Goa as 
novas de Malaca : e do foccorro que o 
Vifo-Rey negociou: e da grande Armada 
com que D. Paulo de Lima partio pêra 
a que lia Fortaleza. 375. 

LIVRO IX. 

AP. I. Do que aconteceo a Martim 

Affonfo de Mello na viagem de Me- 

linde : e de como defiruio as Cidades de 

Ampaza , e Mombaça. 386. 

CAP. 



3tn Indi c b 

CAP. II. Do foccorro que o Alferes Mor 
mandou á cojla de Melinde : e do que 
mais acmteceo a Martim Affonfo em 
Mombaça : e de como foi alli dar a não 
Salvador dejiroçada , e perdida : e de co+ 
mo Martim Affonfo a levou a Ormuz , 
e elle foi com a Armada ao Efireito de 
Baçord , e faleceo de doença : e de como 
fe começou a Fortaleza de Mafcate. 398. 

CAP. III. Do que ejie anno acontece o na 
Perfia : e de como Abax Mirza prendeo 
EIRey feu Pai , e os irmãos ? e fe fez> 
Rey : e de como os Husbeques entraram 
na Provinda de Coboraçone. 409, 

CAP. IV. Dos grandes apercebimentos que 
o Rajií fez pêra contra Columbo : e de 
como o Capitão João Corrêa fe fortifi- 
cou. 416. 

CAP. V. De como o Rajú fe fortificou , e 
começou a efgotar a alago a : e de alguns 
a/faltos que os noffos lhe deram , em que 
fempre lhe fizeram ãamno. 426. 

CAP. VI. Do que aconteceo á Armada de 
D. Paulo de Lima na jornada : e de co- 
mo fizeram aguada na terra do Achem : 
e de alguns navios que tomaram no mar , 

* com hum Embaixador que o Rajale man- 
dava ao Achem. 436. 

CAP, VII. Do que nefte tempo aconteceo em 
Malaca : e de como os navios da compa- 
nhia 



t> O 3 C AP ITULOS. *III 

vhía de D. Paulo fe foram, a Jor : e de 
como D. António de Noronha def embar- 
cou em terra > e ganhou a Fortaleza da*- 
praia. 447. 

CAP. VIII. De como D. António de Noro- 
nha tratou de commetter a Cidade , e 
foi contrariado dos Capitães da Arma- 
da de D. Paulo : e de como contra pare- 
cer de todos defembarcou : e das coufas 
que lhe aconteceram. 45 o. 

GAP. IX. De como chegou D. Paulo de Li* 
ma : e do confelho que tomou fobre a def 
embarcação : e do fitio da fortificação 
da Cidade de Jor. 466, 

CAP. X. De como os nojfos defembaredram 
na Cidade de Jor 9 e de como a entra* 
ram : e da efpantofa , e duvido] a bata- 
lha que dentro nella tiveram com os ini- 
migos : e dos ca [os que nella fuecedê^ 
ram. 473. 

CAP. XI. De como a Cidade de Jor foi entra- 
da : e do grande , e perigo fo conflito em 
que os nojfos fe viram : e dos cafos que 
pajfãram até os inimigos ferem de to- 
do vencidos , e defpejarem a Cidade. 
487. 

CAP. XII. De como fe arrematou a vito- 
ria , e fe deftruio , e ajfolou a Cidade to- 
da : e dos defpojos que nella tomaram : e 
dos mortos, e cativos que houve de am- 
bas 



xiy Índice 

bas as partes : e de como D. Paulo foi 
recebido em Malaca. 504. 

CAP. XIII. Das coufas que fuc cederam em 
Maluco : e das intelligencias que Duarte 
Pereira teve com Cachiltulo pêra lhe en- 
tregar a Fortaleza de Te mate , e de ou- 
tras coufas. 5 11. 

livro x. 

CAP. I. Do que aconteceo em Ceilão , de- 
pois da alagôa efgotada : e do pri- 
meiro foccorro que de fora chegou : e de 
alguns ajfaltos que os nojfos deram em 
os inimigos : e dos apercebimentos que fe 
fizeram pêra efperarem o primeiro com- 
bate que o Rajú determinou de dar d 
Fortaleza. 5*18. 

CAP. II. Do muito grande , e apertado 
combate que o Rajú deo d nojfa Forta- 
leza : e do que nella aconteceo. S 2 4' 

CAP. III. Do damno que houve da parte 
dos inimigos : e de alguns foccorros que 
de fora chegaram : e de como o Capitão 
reformou os baluartes , e ejlancias. 543. 

CAP. IV. De como a Cidade de Cochim 
mandou de foccorro a Ceilão huma Ar- 
mada : e de como o Rajú ttatou de com- 
metter a Fortaleza por mar , e por ter- 
ra: e do que mais fuccedeo* 551. 

CAP. 



dos Ca pitulos. xv 

GAP. V. De alguns foccorros que mais vie- 
ram de fora d Fortaleza de Columbo : 
e dos ajjaltos que os nojfos deram nas 
tranqueiras dos inimigos : e de como a 
nojfa Armada peleijou com a do Rajú. 
5-60. 

CAP. VI. De como o Vifo-Rey mandou Ber- 
nardim de Carvalho a Ceilão : e da Ar- 
mada que efíe anno de 1587. par tio da 
Reyno : e do contrato que EIRey fez das 
nãos da carreira : e do ejlanco que fez 
do anil: e da altercação que na Cidade 
de Goa houve fobre ifjo ? e outras coufas. 

CAP. VIL De como Bernardim de Carva- 
lho chegou a Columbo : e das coufas que 
mais aconteceram no mefmo tempo : e das 
minas que o Rajú mandou fazer , que 
foram fentidas y e os nojfos lhas desfize- 
ram. 58o. 
CAP. VIII. De alguns foccorros que mais 
; partiram pêra Ceilão : e de como Filip- 
pe de Carvalho foi de foc corro em huma 
náo de provimentos : e de como Thomé 
de Soufa de Arronches peleijou com a 
Armada do Rajú , e do que lhe fuccedeo. 

593- 
CAP. IX. Dos tratos que o Rajú teve 

com os Naiques da cofia de Negapatão, 

per a lhes tolher os mantimentos., que pão 



*XVI 



I K 



D I C Ê. 



P a JT a ff em a Columbo : e ãosfoccorros quê 
chegaram de fira : e de alguns affaltof 
que os nojfos deram no Arraial : e do 
grande combate que o Rajú deo d Forta- 
leza. 6o i. 
CAP. X. Do outro recado que o Vifo-Rey 
teve do aperto de Columbo : e de como 
mandou de foc corro João Caiado de Gam- 
boa em huma náo com cento e fincoenta 
homens : e de como D. Francifco Mafca- 
renhas partio com duas Galés pêra o 
Malavar. 611. 

«CAP. XI. Do que aconteceo na jornada a 
D. Francifco Mafcarenhas : e de como 

• Manoel de Soufa foi com huma Armada 
ã Cofia do Norte : e do que aconteceo na 
jornada a joao Caiado de Gamboa até 
chegar a Columbo : e das coufas que mais 

- aconteceram naquella Fortaleza. 615. 

. CAP. XII. Da revolta que em Malaca hou- 
ve com hum Amouco : e de como D. Pe- 
dro de Lhna foi aos Ffir eitos de Sinca- 

' pura ? e Sabão : e do que lhe aconteceo: e 
de como D, Paulo mandou Simão de A- 
breu de Mello com recado da viãoria 
ao Vifo-P^ey : e de como fe per deo na cof- 
ta de Ceilão : e dos trabalhos que pajjw. 
624. 

CAP. XIII. Das coufas que nefie tempo 

v aconteceram em Columbo : e dos ajf altos 
~ . que 



dos Capítulos. xvji 

que o Rajú deo , dquella Fortaleza : e da 
que nelle fuccedeo. 635'. 

CAP. XIV. Das coujas em que D. Paulo 
proveo em Malaca antes de fe partir 
pêra Goa : e de como o Vifo-Rey mandou 
Manoel de Soufa a Ceilão : e do que fez» 
Tl home de Soufa de Arronches nas povoa- 
ções do Rajú. 642. 

CAP. XV. Dos grandes ajf altos que Tho- 
mé de Soufa mais deo por aquella Cofia : 
e de como deftruio a Cidade , e Pagode 
de Tancuarem. 648. 

CAP. XVI. De como Manoel de Soufa Cou- 
tinho chegou d Cofia de Ceilão : e dos 
grandes efiragos que foi fazendo por eU 
la até chegar a Columbo. 6$y. 

CAP. XVII. De como o Rajú Jecretamente 
fe def alojou , dando fogo ao arraial : e de 
como os no ff os lhe fahiram : e do que 
lhes aconteceo no alcance , e do que mais 
p a ff ou. 664. 

CAP. XVIII. De como Ruy Gomes da Sil- 
va andou na cofia do Norte o rejlo do 
verão : e de como chegaram a Goa Ma- 
noel de Soufa , e D. Paulo de Lima : e 
dos Capitães que o Vifo-Rey defpachou 
pêra fora. 6y6. 

CAP. XIX. De como faleceo o Vifo-Rey D. 
Duarte de Menezes de humas febres : e 
das partes, e qualidades defuapefjoa. 680. 

DE- 



Pag.r 

DÉCADA DEGIMA 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO VI. 



CAPITULO I. 

De como D. Duarte ãe Menezes , Senhor 
da Cafa de Tarouca , foi eleito por Vifo- 
Rey da índia : e das mercês que lhe El- 
Rey fez ? e da Armada que partia : e do 
que lhe fuccedeo na viagem até Cochim % 
e das coufas em que logo proveo. 




Avendo tres annos que o Con- 
de D. Francifco Maícarenhas 
governava a índia , e vendo 
ÉlRey com quanta lealdade, 
e amor todos o receberam , e 
fervíram naquelles portos , determinando 
de o mandar ir , e prover em feu lugar 
Couto. Tom. VI. P. li. A ou- 



a A S I A de Diogo de Couto 

outro, mandou pedir ao Confelho de Por- 
tugal que lhe apontaííem alguns homens, 
de que fe pudeíle fervir naquelle negocio ', 
e mandando-lhe de Portugal huma Conful- 
ta, em que hiam alguns nomeados , e en- 
tre elles D. Duarte de Menezes , Senhor 
da Cafa de Tarouca, do Confelho deEfta- 
do , Capitão , e Governador da Cidade de 
Tangere , que então eítava por Governador 
no Reyno do Algarve , fez eleição EIRey 
fó delle , fem o pôr em Confelho , pelas 
muitas, eboas partes, e qualidades de fua 
pelica, e pelas muitas que de feu esforço, 
faber , e prudência tinha dado no tempo 
que efteve por Capitão, e Governador na 
Cidade de Tangere , em que alcançou mui- 
tas ? e famofas vitorias dos Capitães , e 
Alcaides do Rey de Fez, e Marrocos, que 
ião de obrigação das Chronicas do Reyno 
do tempo de EIRey D. Sebaíljão. 

Feita a eleição ao gofto de EIRey, 
logo lhe efcreveo huma carta honrada , em 
que lhe mandava fígnificar o gofto que le- 
vava de o ir fervir á índia , e que no Con- 
felho de Portugal requereííc feu defpacho , 
e fez feus apontamentos , em que pedio 
coufas muito honeftas , e licitas, e que elle 
muito bem merecia, fegundo nos cá difle- 
ram ; e indo a Confulta a Madrid , foi re- 
fpcndido com as coufas feguintes. 

» Que 



Década X. Cap. I. 3 

» Que lhe dava o Titulo de Conde de 
» Tarouca, que elle não quiz acceitar por 
» lho não darem de juro , e de herdade, 
» como pedia : *e que pudefle logo pôr no 
» filho mais velho a fua Commenda de 
» Albufeira ; e que da do Sardoal , que fo- 
» ra de D. Duarte de Almeida, que rende 
» fçiecentos mil reis , lhe fazia mercê pêra 
)> feu filho fegundo D. António de Mene- 
» zes , e da Capitania de Malaca , e de 
» huma viagem de Japão ; e lhe dava mais 
» vinte mil cruzados de mercê pêra ajuda 
» de pagar fuás dividas ; e que pudeíTe 
» prover os cargos todos da índia de Fei- 
» torias abaixo por huma fó vez cada hum 
» ás peífoas que elle quizeíTe , fendo aptas, 
» e fufficientes pêra ilTo ; e que lhe dava 
» féis hábitos de Cavallarias de Portugal , 
» dous de cada huma , pêra elle poder dar 
» na índia ás peflbas que quizeíTe , e ou- 
» trás muitas coufas que deixamos por nos 
» não parecerem neceífarias. » Com iíto co- 
meçou logo D. Duarte de Menezes a cor- 
rer com as coufas da Armada que havia 
de levar , e com os defpachos das coufas 
da índia , e tratou de cafamento de fua fi- 
lha mais velha Dona Maria de Vilhena com 
D. Francifco da Gama , Conde da Vidi- 
gueira , que fe eíFeituou , e como a recebeo 
fegunda feira da femana Santa, dia de N„ 
A ii Se- 



4 A S I A de Diogo de Couto 

Senhora da Encarnação a 25. de Março* 
Eíte anno proveo EIRey em muitas coufas 
pêra o bom governo do Eftado da índia , 
aíTim da Guerra , Juftiça , como da Fazen- 
da ; fobre o que deo grandes regimentos , 
e iníirucçoes a D. Duarte de Menezes , e 
a principal foi acudir a algumas delbrdens 
dos Vifo-Reys , e mandar-ihes na índia ti- 
rar fuás reíidencias primeiro que fe embar- 
caíTem 5 pêra pagarem , e fatisfazerem ás 
partes o que lhes deveílem , e pêra outras 
muitas coufas, 

E porque queria começar logo , man- 
dou íignificar a D. Duarte eíla fua tenção , 
rogando-lhe que havia de haver por bem 
começar por elle huma coufa tanto do fer- 
viço de Deos , e feu , porque não íicaífe 
aos mais lugar de fe efcandalizarem. A if- 
to lhe refpondeo D. Duarte , que antes 
lhe fazia naquillo mercê mui grande ; por- 
que elle efperava de viver tão juftificado, 
que não houveíle de que lhe porem culpas. 
E fobre iílo mandou EIRey novos regi- 
mentos, que não vimos na Torre do Tom- 
bo , onde iílo havia de eftar ? nem até ago- 
ra nenhuma outra ccufa das que EIRey 
manda que nella fe lancem , pelo que ou- 
vimos , por onde não nos devem pôr cul- 
pa na falta das informações , antes nos de- 
vem agradecer quanto temos efcrito , e ca- 
va- 



Década X. Cap. L 5 

vado á pura força , e trabalho noílb , fem 
nenhuma ajuda, nem favor dos Vifo-Reys, 
pois nos Fidalgos da índia achámos me- 
lhor negocio ••> porque havendo-nos elles 
de peitar , e trazer apontamentos de fuás 
coufas pêra lhes continuarmos na hiftoria y 
aífim efíam efquecidos de não haver na ín- 
dia quem efcreva nada por ordem de El- 
Rey , que não fei fe nos fabem o nome, 
nem fe nos tiram o barrete ; mas façam to- 
dos o que quizerem , que nós lhes fegura- 
mos que o que fizer feitos dignos de efcri- 
tura , que elle os não perca , e que fempre 
tenham nella o feu lugar, porque nos não 
moveo a eíle trabalho mais que o zelo da 
gloria , e honra dos noíTos naturaes , e de 
não ficarem em perpétuo efquecimento ; 
porque pêra fatisfação diílo nos baila as 
muitas honras , e mercês que EIRey nos 
faz, e grande goíto que nos moftra ter de 
fe tirarem á luz os feitos de feus vaílallos , 
o que elle todos os annos tanto nos en- 
commenda : em fim deixamos efta maté- 
ria , em que tinhamos bem que dizer. 

As nãos que haviam de ir pêra a ín- 
dia, que eram féis, foram-fe fazendo pref- 
tes \ e como foi tempo , embarcou-fe o 
Vifo-Rey , mas não teve tempo pêra dar á 
vela , fenão a 10. dias de Abril deite ânno 
de 1584. em que andamos. Hia o Vifo-Rey 

em- 



ÁSIA de Diogo de Couto 



embarcado na náo Chagas , de que era Ca 
pitão Gonfalo Ribeiro Pinto ; as outras 
náos eram o Bom Jefus , por outro nome 
Carajá , de que era Capitão João Paes , e 
nelía hia embarcado D. Jorge de Menezes 
do Confelho de EIRey , Alferes Mor do 
Reyno de Portugal , que hia pêra entrar 
xia Capitania de Sofala , e Moçambique , 
de que era provido ; a náo Boa Viagem , 
Capitão Lourenço Soares de Mello , a náo 
N. Senhora das Relíquias , que foi de D. 
Miguel da Gama , Capitão Gomes Henri- 
ques ' y Santa Maria , Capitão Mathias Lei- 
te, em que vinha João Alvares Soares por 
Veador da Fazenda , e o Galeão Sant-Iago , 
Capitão AíFonfo Pinheiro , que havia de ir 
a Malaca , vieram neíla Armada muitos , e 
muito honrados Fidalgos , e aílim defpa- 
chados com as mercês , e os mais delles 
na náo do Vifo-Rey ; e os que nos lem- 
bram são : D. João Pereira , que depois 
foi Conde da Feira, que levava a Capita- 
nia de Ormuz , de que lhe EIRey fez mer- 
cê no próprio tempo , em que a tinha D. 
Nuno Alvares Pereira feu Tio , que lhe 
cabia apôs João Gomes da Silva , que nella 
eftava; D.Nuno Alvares Pereira feu irmão, 
Ruy Gomes da Gram , defpachado com a 
Capitania de Ormuz ; Duarte Moniz Bar- 
íeto defpachado com a meíma Capitania , 

que 



. 



Década X, Ca?. 1. f 

que o Governador António Moniz feu Pai 
tinha, Aires da Silva, eLuiz da Silva, fi- 
lhos de Lourenço da Silva , e fobrinhos 
do Vifo-Rey D. Duarte , filhos de fua ir- 
mã Dona Ignez de Caftro ; D. Diogo Cou- 
tinho , filho de D. Francifco Coutinho de 
Santarém o Marialva ; D. Miguel de Caítro , 
filho de D. Álvaro de Caftro , Veador da 
Fazenda que foi do Reyno , e Neto do 
bom Governador , que foi Vifo-Rey D. 
João de Caftro ; Bernardim de Carvalho , 
Capitão, e Governador que foi da Cidade 
de Tangere; D. Manoel de Almada, filho 
de D. Antão d 5 Almada , Capitão de Lis- 
boa ; João da Silva , filho de Fernão da 
Silva, que então era Regedor ; Fradique 
Carneiro de Aragão , e feu irmão Martim 
Aífonfo Carneiro , filhos de Francifco Car- 
neiro , irmão de Pedro de Alcáçova , Con- 
de das Idanhas ; D. Gileanes de Noronha , 
e D. Leão de Noronha irmãos , filhos dè 
D. Thomaz de Noronha ; D. Francifco de 
Noronha , irmão do Conde de Linhares ; 
Simão de Mendoça , Arthur de Brito , quê 
levava as viagens de Maluco , e hia por 
Embaixador ao Rey de Ternate , e com 
cartas de fatisfações que EIRey mandava 
fobre a morte de feu Pai , e outros muitos 
Fidalgos , e Cavalleiros que hiam , aífuti 
neíla náo, como nas outras. Efeguindo fua 

via- 



8 AS I A de Díogo de Couto 

viagem , por acharem contraíles , fizeram 
diíFerentcs caminhos; Caranja, e Boa Via- 
gem pafíaram por dentro fem tomar Mo- 
çambique , e foram a Goa de 20. de Se- 
tembro por diante ; o Galeão paliou a Ma- 
laca muito bem , as outras náos foram to- 
mar Cochim por fora. O Vifo-Rey D. Duar- 
te chegando á Ilha de S. Lourenço em 
Agoílo , teve na cabeça delia tempos 'tão 
contrários , que andou mais de quinze dias 
ao pairo ; e eftando elle em cama tão en- 
fermo que fe receava fua vida , e vendo 
os Officiaes o tempo gaitado , foram-fe ao 
Vifo-Rey , e lhe diíferam , que aquillo era 
muito tarde pêra paliar á índia por dentro; 
e que pêra irem por fora de S. Lourenço 5 
era a viagem muito arrifcada, que lhe ha- 
via de morrer muita gente , e que nem a 
faude d elle Vifo-Rey cumpria a iíío , que 
eram de parecer que foliem tomar alguns 
dos portos da' Ilha de S, Lourenço que 
havia da banda de fora , e muito bons a e 
que fe deixaífem ficar até o Vifo-Rey con- 
valefcer, e que de alli iriam a invernar a 
Moçambique; e o Vifo-Rey lhesdifle, que 
trataífem do quç mais folie do ferviço de 
EiRey y que era paliar aquella náo á ín- 
dia , e não de fua faude i porque por elle 
arrifcaria muitas vidas , fe as tivera ; e com 
iíto aífen taram todos que tomaífe 3 derrota 

por 



Década X. Cap. I. 9 

por fora ; e favorecendo Deos noíTo Se- 
nhor ambos os intentos de D. Duarte de 
Menezes , lhe foi logo dando íaude , e tão 
boa viagem , que não tiveram contraíie, 
nem fobrefalto algum , e lhe morreo pouca 
gente na náo , e a 20. de Outubro foram 
haver viíla da Arvore de Porca , quatro 
léguas affima de Cochim, aonde eíliveram 
furtos finco , ou féis dias até lhes entrar o 
tempo , com que foram furgir na barra de 
Cochim. Na Cidade onde já havia nova do 
Vifo-Rey , porque lhas mandou elle de 
Porca , houve grande alvoroço pela fama 
que havia de fua Chriítandade , zelo i e 
pouca cubica , partes principaes que ha de 
ter o que governar efte Eftado. O Vifo-Rey 
fe embarcou logo , e fe apofentou em ter- 
ra Y e tratou em Confelho do modo que 
teria pêra mandar alevantar a homenagem 
do Eftado ao Conde D. Francifco Mafca- 
renhas , pêra que lhe ficaífe tempo de fe 
ir embarcar pêra o Reyno; e affentando-fe 
que foífe a iíío o Doutor Duarte Delgado 
de Varejão , que vinha provido de Juiz 
dos Feitos da Fazenda da índia 5 lhe deo 
papeis , e procurações baílantes , e trasla- 
dos da Patente , e Alvará de Guia pêra o 
Arcebifpo D. Fr. Vicente p e os mais De- 
putados tomarem entrega da índia pelo 
modo que no Capitulo atrás temos contado, 

Par- 



io ÁSIA de Diogo de Couto 

Partido Duarte Delgado , ficou oVifo- 
Rey entendendo no defpacho das náos, 
porque poucos dias depois deiles chegaram 
áquella barra a náo N. Senhora das Relí- 
quias, e Santa Maria, que também foram 
por fora da Ilha de S. Lourenço ; e na 
carga delia começou a entender Pedro Co- 
chim , que veio o anno atrás de ^83. pro- 
vido do cargo de Veador da Fazenda de 
Cochim, e da carga das náos. OComorim 
tanto que foube da chegada do Vifo-Rey, 
foi a confirmar as pazes que tinha feitas 
com D. Gileanes , que o Viíò-Rey recebeo 
mui bem , e lhas confirmou ; ao que fe fi- 
zeram muitas feitas , e foi a língua fiel del- 
ias D. Pedro Real , Arei Mor de Cochim , 
que tem jurifdicção de Cochim fobre todos 
os Marinheiros da Armada. 

E porque os íbldados das náos anda- 
vam deíagazalhados , e padeciam neceífida- 
des , ordenou o Viib-Rey dar-lhes duas 
mezas , pêra o que fe oíferecêram D. João 
Pereira, e Ruy Gomes da Gram, que cor- 
reram com elles abaftadamenfe , em quanto 
b Vifo-Rey alli efteve. Chegado Duarte 
Delgado a Goa , foi-fe vèr com o Conde 
D. Francifco , eftando prefente ò Arcebifpo 
D. Fr. Vicente , c o Capitão da Cidade , 
Veador da Fazenda > Secretario , e Fidal- 
gos velhos 5 e moítrados os papeis , paten- 
tes. 



Década X. Cap. 13 ir 

tes , e cartas de guia , que tudo leo em 
alta voz o Licenciado João de Faria , Se- 
cretario do Eftado ; e achando-íe folemnes , 
logo alli fez o Conde entrega da índia nas 
mãos do Arcebifpo D. Fr. Vicente , que 
havia de ficar governando , e com elle o 
Capitão da Cidade , Veador da Fazenda, 
Ouvidor Geral. Feito iílo , logo Duarte 
Delgado , por bem de hurfta inftrucção que 
levava , nomeou por Veador da Fazenda a 
Fernão Gomes Cordovil , e por Secretario 
a Rodrigo Monteiro pêra ficar correndo 
em Goa com aquelles cargos até chegar o 
Vifo-Rey ; e mandou que Diogo Corvo , 
que fervia de Veador da Fazenda, e o Li- 
cenciado João de Faria Secretario , fe fof- 
fem ver com elle a Cochim pêra onde lo- 
go fe embarcaram. 

O Conde D. Francifco, depois de ti- 
rar inftrumentos , e certidões das Fortale- 
zas, Armadas, artilherias , munições, e de 
todas as mais coufas que deixava entregues 
ao Vifo-Rey D. Duarte , embarcou-fe , dei- 
xando pofto feu retrato na cafa em que os 
Vifo-Reys dormem, por não caber (como 
já diíTemos) na outra , em que eílavam os 
mais retratos : e a 22. de Novembro deo 
á vela pêra Cochim na Galé baftarda, indo 
em companhia D. Jeronymo Mafcarenhas 
com toda a Armada , e juntamente foram 

mui- 



12 ÁSIA de Diogo de Couto 

muitos Fidalgos , parentes , e amigos do 
Vifo-Rey D. Duarte pêra o virem acom- 
panhando , que em chegando as novas a 
Goa , fizeram prefces navios pêra partirem 
pêra Cochim com grandes , e exceffivos 
gaftos ? e deípezas ; e os que nos lembram 
são D. Jorge de Menezes , Alferes Mor , 
com dous navios feus , hum em que elie 
hia , e do outro fez Capitão Garcia de Mel- 
lo , leu cunhado ; João da Silva outros dous 
navios ; Ruy Gonlalves da Camera Tio do 
Vifo-Rey três ; Ayres Falcão , Pedro Lopes 
de Soufa, Guterre de Monroi , com quem 
hia embarcado D. Fernando de Caítro , que 
fe havia de ir pêra o Reyno na fua náo , 
que tinha já em Cochim, e outros Fidalgos 
com quem hia toda a frol da Índia ; e na 
companhia do Conde tornou a voltar Duar- 
te Delgado com os papeis da entrega da 
índia. Chegados a Cochim , foi o Conde 
ver o Vifo-Rey , e depois fe recolheo ás 
fuás cafas , e começou a tratar da fua em- 
barcação , e correndo o Vifo-Rey D. Duar- 
te muito pontualmente com elle > pofto que 
não deixou de haver quem defejaífe de elles 
quebrarem , e de os atiçarem pêra iífo. 



CA- 



Década X. Cap. II. 13 

CAPITULO II. 

Das coufas em que o Vifo-Rey D. Duarte 

proveo : e do modo que teve no negocio da 

Alfandega com aquelles moradores , 

por onde lha concederam* 

QUando o Vifo-Rey D. Duarte de Me- 
nezes chegou a Cochim , achou os mo- 
radores da Cidade unidos todos em 
hum corpo (como no derradeiro Capitulo 
do Livro IV. diíTemos) , tão determinados 
a fe defenderem pelas armas , que não baf- 
tou pêra os mover , e abrandar muitas 
amoeftações de Letrados , muitas pregações , 
e púlpitos ? em que lhes lembravam a fide- 
lidade Portugueza, trazendo grandes exem- 
plos pêra iíío ; antes aos Religioíos , que 
pregavam fobre iíío, não quizerarn depois 
(na compoíição que fizeram com o Vifo- 
Rey) ouvir , nem que correífem com cou- 
fa alguma ; e em todos os proteftos com 
que fe fempre feguravam , declaravam que 
em nenhuma coula daquellas perturbavam , 
nera encontravam ao ferviço de EIRey de 
Portugal , porque por elle eftavam todos 
preíles , e apparelhados pêra porem as vi- 
das , e as fazendas ; mas que ao Rey cie 
Ccchim não deviam nada ? nem por elle 
haviam de confentir coufa alguma nas lí- 
ber- 



14 ÁSIA de Diogo de Couto 

berdades antigas, em que havia tantos an- 
nos eftavam de poíTe , e que EIRey D. Fi- 
lippe lhes tinha confirmadas pelos muitos 
ferviços que aquella Cidade tinha feito aos 
Reys de Portugal. Eílando as coufas neítes 
termos, e os moradores namefma conítan- 
cia , chegou áquella Cidade a Galé de An- 
tónio de Azevedo , e o Viíb-Rey recebeo 
muito bem aos Religiofos , e a Heitor de 
Mello , que nella hiam ao negocio da Al- 
fandega , e lhes encommendòu muito que 
trabalhaílem por moderar aquellas coufas, 
e ver fe podiam reduzir aquelles morado- 
res a algum bom modo de compofição , en- 
commendando primeiro aquellas coufas a 
Deos; e fabendo António de Azevedo co- 
mo a Cidade de Goa não confentíra que o 
Conde D. Francifco Mafcarenhas o provef- 
fe da Armada doCanará, fobre o que elle 
trabalhou muito , porque pelos contratos 
que tinham feitos com EIRey , quando el- 
les concederam o hum por cento pêra as 
Galés , e fortificações , foi com condição 
que de aquelle dinheiro ordenariam huma 
Armada pêra andar na Coita do Canará 
pêra dar guarda ás cáfilas , que vam tra- 
zer delia mantimentos pêra aquella Cida- 
de ; e que o Capitão Mor delia feria apre- 
fentado pelo Veador, e que fempre prefen- 
tariam hum Fidalgo , cafado nella : pelo 

que 



Década X. Cap. II. 15* 

que vendo o Vifo-Rey que era neccífario 
prover com que a Cidade não ficaíTe falta 
de mantimentos , defpedio logo ao mefmo 
António de Azevedo pêra fe ir a Goa a 
levar a João Alvares Soares , que tinha 
vindo com elle por Veador da Fazenda 
da índia , e efcreveo aos Vereadores huma 
carta de muitos mimos , em que lhes ro- 
gava que fem embargo de elles haverem 
de aprefentar Capitão Mor pêra a Armada 
do Canará , confentiíTem em António de 
Azevedo andar aquelie verão nella , porque 
nem por ilTo fe lhes tirava a poífe em que 
eítavam, antes lha havia fuítentar em todo 
o feu tempo mui inteiramente ; e deo por 
regimento a António de Azevedo que de 
paíTagem demandaífe D, Jeronymo Mafca- 
renhas 5 a quem efcreveo que lhe déífe 
quatro navios dos feus pêra andarem aquel- 
ie verão na Coita do Canará , por cumprir 
aíTim ao ferviço de EIRev. António de 
Azevedo chegou a Goa , e deo a carta do 
Vifo-Rey em Camará aos Vereadores ; e 
fcm embargo de já terem nomeado Miguei 
de Abreu de Leiria pêra aquelia Armada , 
quizeram dar gofto , e fazer aquella corte- 
zia ao Vifo-Rey, por fer em fua aufencia : 
e concederam a António de Azevedo a Ar- 
mada , dando-Ihe quatro fuftas , que já ti- 
nham armadas pêra ella , de que eram Ca-. 

pi- 



i6 ÁSIA de -Diogo de Couto 

pitaes João Borges Corte-Real , João de Pai- 
va ? Damião Pacheco, e Duarte Teixeira; e 
defpedidos os navios que D. Jeronymo lhe 
tinha dado de paflagem , todo efte verão 
gaitou eíta Armada neíta coita , e levou , e 
tornou a trazer três vezes grandes cáfilas 
de mantimentos , com o que aquella Ci- 
dade ficou bem provida. 

Agora tornaremos a continuar com as 
coufas de Cochim , porque quizemos con- 
cluir com as doCanará, por não pejarmos 
depois outro lugar. Os Padres Religioíbs, 
Fidalgos \ e peflbas , a quem o Viíc-Rey 
tinha encommendado o negocio de abran- 
darem aquelles moradores 5 puzeram pri- 
meiro as coufas nas mãos deDeos, encom- 
mendandc-ihe as diípuzelTe como foíTe feu 
ferviço , e bem j e quietação daquelle po- 
vo , pêra o que lhe offereciam facrificios , 
orações, jejuns , e diciplinas , e outros íuf- 
fragios , e com iíto começaram a tratar com 
os moradores , aíiim em particular , como 
em geral , perfuadindo-os a quietação , e 
paz, com muitas, e fantas amoeítaçóes, e 
humildades , pondo-lhes diante dos olhos 
aquella antiga lealdade Portugueza , em que 
todos fe extremavam de todas as mais Na- 
ções do mundo , e Iembrando-lhes as obriga- 
ções que todos tinham afeuRey , que com 
tantos gaftos, defpezas, riícos, e trabalhos 

de 



Década X, Cap. II. 17 

de feus VaíTallos defcubríra efte eftado , e 
trabalhava pelo íuítentar, com outras mui- 
tas coulas que elles mui prudentemente lhe 
reprefentáram ; e tanto debateram nifto , e 
tantas vezes o encommendáram a Deos , 
que começou elle a obrar em feus corações 
novos accidentes , e movimentos 3 e vieram 
a refponder, que elegeriam hum certo nu- 
mero de homens pêra em nome de todos 
tratarem aquelle rregocio , e comporem-fe 
de maneira, que nemElRey de Portugal fi- 
caíTe defervido , nem elles padecendo de- 
trimento em fuás liberdades ; e aíTim fize- 
ram huma eleição defíncoenta, ou feílenta 
dos principaes , e ainda deites tornaram a 
fazer outra , e reduzilla ao numero de vin- 
te e quatro ; e porque ainda era numero 
grande , tiraram ametade , e ficaram em 
doze , a que deram poderes baílantes em 
nome de todos pêra correrem com aquelle 
negocio , e aflentarem o que fofle ferviço 
de EIRey de Portugal , e bem daquella Ci- 
dade ; mas que não fe refumiriam em na- 
da , íem darem conta de tudo á Cidade, 
que todos os dias fe ajuntariam em Came- 
ra a fe concluir efte negocio , e aífirn o fi- 
zeram ; porque eíles eleitos fe ajuntaram 
em huma cafa , onde ouviam os Procura- 
dores , e peíToas que o Vifo-Rey elegeo 
pêra tratarem com elles os negócios todos y 
Couto. Tom. FLP. Ir. B e 



1 8 A S I A de Diogo de Couto 

e de alli le hiatn áCamera, e davam conta 
do que fe paliava , e do que o Vifo-Rey 
pedia , que por muitas vezes os amoeftou , 
c lhes pedio quizeííem fazer aquelle ferviço 
a EIRey , e que confiaílem que com outras 
honras , e mercês fatisfaria , a que elles 
não ficaíTem perdendo nada : em fim de- 
batido o negocio 3 vieram a concluir, que 
fe EIRey fe compuzeíie com elles, efizeife 
alguma moderação , que lhe concedeíTem a 
Alfandega , pois tanto puxava por iífo. 
Com efta refoluçao fe foram os Vereadores 
aonde o Vifo-Rey fe agazalhava com os 
Padres de S. Francifco , e lhe diíferam que 
a Cidade de fua livre vontade queria fazer 
ferviço a EIRey de confentir na Alfande- 
ga \ mas com condição que tiveífe elle com 
ella alguma equidade , e bom meio , pêra 
que de todo não ficaíTem desfraudados nem 
em fuás fazendas , nem em fuás liberda- 
des. O Vifo-Rey os abraçou a todos com 
grande alvoroço , dizendo-lhes muitas , e 
graves palavras em louvor da fua lealdade, 
promettendo-lhes da parte de EIRey hon- 
ras , e favores, e lhes diíTe que era muito 
contente de fazer com elles toda a honefta 
compoíiçao , e que deífem elles com os 
Officiaes de ElPvey o talho que lhes pare- 
ceífe; mas que peias muitas differenças que 
pedia haver entre os Officiaes de EIRey 

de 



Década X. Cap. II. if 

de Portugal, e os de EIRey de Cochim á- 
cerca da pertenção que entre ambos havia 
fobre os direitos , por pertenderem havei- 
los cada hum por jufto titulo : que por ef- 
cufar alguma quebra , fe a podia haver en- 
tre tão antiga amizade de ambos, lhes pe- 
dia que tomaíTem naquelle negocio algum 
termo jufto, pêra que efta amizade fe não 
viefíe a perturbar, porque eíTe era o inten^ 
to de EIRey D. Filippe, e o mor fefviço 
que naquella matéria lhe podiam fazer ; e 
que também EIRey de Cochim daria a or- 
dem que melhor pareceffe. 

Concluído iíto , ajuntáram-fe os Depu- 
tados hum dia de Santo António , e com 
elles Diogo Corvo , Veador da Fazenda, 
João de Faria, Secretario, Jorge de Quei- 
rós , que vinha pêra Provedor dos Contos 
de Goa, o Doutor Duarte Delgado doVa- 
rejão, Juiz dos Feitos da Coroa, que tam- 
bém fervia de Ouvidor Geral ; e por parte 
de EIRey de Cochim Itacanacamena feu 
Regedor , e Capitão Geral , e Jão Gara- 
mena Língua. Juntos todos , prefente o Vifo- 
Rey D. Duarte , diíleram aos Procuradores 
da Cidade que elles de fua livre vontade 
concediam , e faziam ferviço a EIRey de 
confentirem fazer-fe naquelle feu porto Al- 
fandega com as condições declaradas nos 
apontamentos que alli aprefentáram , do 
B ii que 



20 A S I A de Diogo de Couto 

que fe fez logo hum Termo , em que todos 
aíTináram. E logo pelos Officiaes de EIRey 
de Cochim foi diro que elles tornavam a 
deííílir em nome de EIRey de Cochim , e 
de todos os feus fucceííores que ao diante 
forem , de todo o direito , e acção , e per- 
tenção que até então tinha , e podia ter , 
affim por bem de hum Alvará que tinha de 
EIRey D.João, como por huma Carta que 
EIRey D. Filippe lhe eferevêra , em que 
lhe confirmava tudo , como por qualquer 
outra via quefoíle, porque elle tiveíle di- 
reito nas fazendas dos Portuguezes , a que 
chamam Solteiros , que fam todos os não 
cafados em Cochim ; e que o direito , pof- 
fe , e aução que até alli nellas tivera, re- 
nunciava, e trafpaílava em osReys de Por- 
tugal , pêra que pudeífem haver , e arrecadar 
por feus Officiaes todes os direitos que até 
então IhQ pertenciam , com as condições , 
e contratos que alli aprefentavam , que huns , 
e outros são os feguintes: 

» Que todos os cafados de Cochim , 
» e Mouros , e Gentios , e Judeos pagarão 
» a EIRey de Cochim os direitos feguin- 
» tes : os co fados a três e meio por cento 
» de entrada fomente , e que todas as fa- 
» hidas foífem francas, e libertas, fem pa- 
)) gar coufa alguma. 

» Que todos os mais Portuguezes , que 

» não 



Década X. Cap. II. 21 

» não foíTem cafados naquella Cidade , íi- 
» lhos de Portuguezes , mefliços , e Chri- 
» ítãos da terra pagariam os direitos a El- 
» Rey de Portugal , aílim de entradas , como 
» de fahidas , a féis por cento , e as lagui- 
» mas aos Officiaes , affim como fe paga- 
)) vam na Alfandega de Goa : e que aífim 
» mefmo pagariam hum por cento pêra as 
» obras da fortificação da Cidade de Co- 
;> chim , e que os cafados não pagariam. 

)> Que todas as peíibas de jurifdicção, 
» e obrigação de Cochim, como famMou- 
)> ros , Gentios , e Judeos , pagariam a El- 
» Rey de Portugal as fahidas de fuás fa- 
)> zendas pêra fora. 

» Que fendo cafo que todas as náos 
» que vem da banda da China , Malaca , 
» Maluco j e mais partes , a que chamam 
)> do Sal , em que vinham fazendas dos 
» tafados de Cochim , acertando por cafo 
» fortuito de defgarrarem , e irem a Goa, 
» ou a qualquer outra Fortaleza , em tal ca- 
» fo não feriam obrigados a pagar direi- 
» tos, antes livremente defembarcariam fuás 
)> fazendas 3 e iriam defpachallas a Cq- 
» chim. 

» Que o Vifo-Rey proveífe aos Offi- 
» ciaes da Alfandega pela ordem da de 
)) Goa ; e que EIRey de Cochim proveria 
)) hum dos Contadores > e o officio de Lin- 

» gua 



21 ÁSIA de Diogo de Couto 

» gua em quem elle bem quizeffe , ou Por- 
» tuguezes , ou Naires ; e que o Licencia- 
)> do Francifco de Frias , a quem EiRey 
y> de Cochim tinha prefentado pêra Juiz da 
» Alfandega , não ferviria tal cargo pelo 
» efcandalo que aquella Cidade tinha delle, 
» mas que poria em feu lugar huma peífoa 
» á vontade do Vifo-Pvey , com outros a- 
y> pontamentos mais , que nos não parece- 
» ram neceíTarios trazer aqui. » 

Diílo tudo fe fizeram autos em públi- 
ca forma , em que fe aífináram todos , e fe 
trasladaram cm os livros da Feitoria , e 
Fazenda de Cochim. Todos eíles papeis 
fe continuaram , fem fe fazer menção do 
Conde D. Francifco Mafcarenhas , que ti- 
nha primeiro tratadas eftas couías da AL- 
fandega , de que elle fe houve por aggra- 
vado, e tirou papeis do que tinha feito pê- 
ra levar ao Reyno. O Vifo-Rey D. Duarte 
de Menezes ordenou logo na praia hum lu- 
gar pêra fe fazer a Alfandega , e nomeou 
osOffieiaes delia, e lhes deo toda a ordem 
pelo modo de como a Alfandega de Goa 
corria. 



CA- 



Década X. Cap. IIL 23 

CAPITULO IIL 

Das coufas em que o Vifo-Rey D. Duarte 
v de Menezes provéo antes de partirem as 
nãos : e da viagem que o Conde D. Fran- 
cifeo Mafcarenhas teve até ao Reyno : e 
dos Fidalgos que nefla Armada fe em- 
barcaram a requerer defpachos pelos fer- 
viços que tinham feito. 

DEfejava o Viíb-Rey D.Duarte de Me- 
nezes defembaraçar-fe das coufas de 
Cochim pêra fe partir pêra Goa , primeiro 
que entraffem os Noroeftes , porque lhe da- 
riam trabalho ; pelo que mandava dar a 
mor preífa que podia á carga das náos que 
fe nao faziam com tanta como elle queria , 
por correr a pimenta ao pezo muito de va- 
gar, com o que andava muito enfadado; e 
em quanto fe ííto fazia , deo defpacho a 
muitas coufas neceflarias , e na entrada de 
Janeiro foi defpedindo as náos , affim co- 
mo hiam tomando a carga , e a primeira 
foi a náo Chagas , em que hia embarcado 
o Conde D. Francifco Mafcarenhas , e to- 
das as mais fe partiram até os 10. de ja- 
neiro, e a derradeira foi a náo de D. Fran- 
cifco de Caílro , de que o anno paíTado 
dêmos conta que tinha arribado. Foram-fe 
neíta Armada muitos Fidalgos a requerer 

feus 



24 ÁSIA de Diogo de Couto 

feus ferviços, e dos que pudemos faber os 
nomes , fam os feguintes : 

Manoel de Souía Coutinho , que tinha 
lido Capitão de Ceilão; Fernão de Miran- 
da de Azevedo , que o fora de Damão ; 
André Furtado de Mendoça , D. Manoel 
Henriques , filho de D. Affoníb Henriques , 
cafado em Baçaim ; Coime de Lafetar, Fer- 
não de Caítro , D. João Rolim , D. Diogo 
Rolim feu Primo , D. Manoel de Mene- 
zes , filho de D. Pedro de Menezes o Rui- 
vo y e outros Fidalgos , e Cavalleiros. Def- 
tas náos a do Conde foi ter a Cezimbra 
vefpera de S, João , e a náo Reliquias , e 
Caranja foram depois : a náo Santa Maria 
invernou em Moçambique , e partio dalli 
em Dezembro , e a náo Boa Viagem defap- 
pareceo no caminho fem delia fe faber na- 
da: perdêram-fe nella Fernão de Miranda 
de Azevedo , D. Manoel Henriques , D, 
Manoel de Menezes , D. João Rolim , e 
D. Diogo Rolim , e o Padre Fr. Simão da 
Conceição da Ordem de Santo Agoftinho, 
Provincial que fora: levava hum Embaixa- 
dor do Rey da Períia , aonde elle tinha ido 
por ordem de EIRey , e do Summo Pontí- 
fice fobre coufas contra o Turco , como 
melhor fica dito na Década IX. 

Partidas eílas náos , embarcou-fe o Vi- 
fo-Rey D. Duarte logo na Galé baftarda, 

e 



Década X. Cap. III. 2^ 

c com elle Heitor de Mello , Ruy Gomes 
da Gram , D. Manoel de Almada , Francif* 
co da Silva de Menezes , Bernardim de 
Carvalho , D. Jorge da Gama , Guterre de 
Monroi de Beja, D. Manoel Pereira, e os 
mais Fidalgos , que foram bufcar o Vifo- 
Rey nos mefmos navios que levaram de 
Goa ; e armou mais a D. Jeronymo Maf- 
carenhas , primeiro que fe embarcaíTe , três 
navios , de que eram Capitães Garcia de 
Mello , Triítao Vaz , e Fernão Gonfalves 
da Camera ; e o navio de Lopo de Atou- 
guia , que fe foi pêra o Reyno , deo a Nu- 
no Alvares de Atouguia , e o navio de 
João Barriga Simões a Gaítão Coutinho , fi- 
cando elle por feu foldado ; e aílim foi D. 
Jeronymo com toda a fua Armada acompa- 
nhado do Vifo-Rey até Mangalor , donde 
o defpedio pêra fe tornar a Calecut a jurar 
as pazes com o Çamorim , como eílava af- 
fentado , que ficaíTe com ordem naquella 
Coita todo o refto do verão até recolher os 
navios da China , Malaca , Maluco , e Coita 
de Coromandel , e S. Thomé. 

Chegado o Vifo-Rey a Goa, deteve-fe 
no Colíegio dos Reys Magos em Berdez a 
rogo de toda a Cidade alguns dias até fe 
lhe preparar feu recebimento , e aíTun lho 
fizeram mui grande, e com muito alvoroço 
de todo o povo pelas muitas efperanças 

que 



26 ÁSIA de Diogo de Couto 

que tinham todos de governar mui bém ; e 
entrando nos negócios ] do primeiro que tra- 
tou , foi fobre o caftigo que merecia o Nai- 
que dcSanguicer, onde mataram D. Gilea- 
nes , porque defejava de tomar huma gran- 
de íatisfação deíla , e dar-lhe hum muito 
exemplar caftigo ; e tendo já informação 
de como aqueile Naique não obedecia ao 
Idalcao , e corria todas aquellas aldeias por 
força , communicou aquellas coufas com 
Coge Fatadim , Embaixador do Idalcao , 
que reíidia em Goa , e períuadio a que elle 
trataíTe com os Capitães do Idalxá que fof- 
fe contra aqueile Naique por terra , porque 
elle mandaria o Capitão Mor do Malavar 
por mar, e que a deftruiífem de todo , fem 
lhe ficar coufa alguma em pé , e que tiraf- 
fem de alli aquella ladroeira. O Embaixa- 
dor tomando aquillo á lua conta, eícreveo 
a Ruftricão , hum Capitão que eftava em 
Ponda , e andava vifitando todo o Canean , 
e lhe deo conta das coufas que o Vifo-Rey 
tratara com -elle , affirmando-lhe que feria 
hum muito grande ferviço que fe fazia ao 
Idalxá. O Ruftricão coníiderando aqueile 
negocio , vendo quanto importava , oífere- 
ceo-fe a fe achar nelle com quatro mil ho- 
mens , e mandou poderes ao Embaixador 
pêra em feu nome aífentar com, elle o mo- 
do que naquillo fe havia de ter , e o Embai- 

xa- 



Década X. Cap. III. 27 

xador fe havia de ver, como fe vio , com 
o Vifo-Rey ; e concluíram que no fim de 
Março fe acharia D.Jeronymo na barra de 
Sanguicer, eque fe foífe elle caminhando, 
pêra ao mefmo tempo fe achar fobre eile ; 
e que ao dia que lhe defíem recado , da- 
riam ambos hum por mar, e outro por ter- 
ra, pêra que lhe não pudeíle efcapar coufa 
alguma: diílo fizeram feus papeis, em que 
o Embaixador fe obrigou por íi , e por 
Ruítricão. Feito iíto , avifôu o Vifo-Rey 
logo de tudo a D. Jeronymo , e lhe man- 
dou ordem do que havia de fazer ; e que 
quando foíle tempo , acharia na barra de 
Sanguicer mais navios , e mais gente pêra 
fe acharem naquella jornada com elle. 

CAPITULO IV. 

Das coufas que aconteceram a D. Jerony- 

mo Mafcarenhas no Malavar : e de 

como Je vio com o Camorim , e jurou 

as fazes : e de como dejiruio o 

Naique de Sanguicer. 

APartado D.Jeronymo Mafcarenhas do 
Vifo-Rey, voltou pêra o Malavar; e 
fendo avifado de caminho que no rio do 
Canharoto fe negociavam alguns navios de 
coífarios pêra fe irem a roubar , chegando 

á- 



18 ASIÀ de Diogo de Couto 

áquella barra 3 deixou fobre elles féis , ou 
fete navios , de que eram Capitães D. Fran- 
cifco Mafcarenhas, Francifco Barbofa , Pe- 
dro Rodrigues, e outros , dando-lhes por 
regimento que fe não apartaflem de alli até 
feu recado ; e por ter novas que também 
no rio de Bandegar havia outros navios , 
Capitães Pedro Velofo , que ficava por ca- 
beça , Gafpar de Carvalho de Menezes, 
Nuno Alvares Pereira , Francifco de Soufa 
Rolim, João Rodrigues Cabral, Fernão de 
Macedo , e outros , elle com a mais Ar- 
mada paliou a Calecut , e da bahia tratou 
com o Çamorim o modo como fe haviam de 
ver pêra jurarem as pazes ; e aífentou-fe 
que foífe na praia , onde depois de dar 
feus reféns, defembarcou D.Jeronymo com 
os principaes Capitães , e Fidalgos que com 
elle andavam , e alli veio o Çamorim com 
todos os feus Regedores , Bramenes , ePani- 
caes , e ambos a feu modo juraram as pa- 
zes com grande folemnidade ; e dos Capí- 
tulos delias , e do juramento mandou o Ça- 
morim paliar fuás Ollas , e Alvarás em fo- 
lhas de prata aílinados por elle , e pelos 
do feu Confelho , e nas mefmas Ollas , e 
folhas fe aífínáram os principaes deTanor, 
que eítavam prefentes , e nellas fe obriga- 
vam, e offereciam por jangadas da Forta- 
leza, que fe havia de fazer em Panane , e 

pc- 



Década X. Cap. IV* 29 

pêra ferem guardas do campo pêra fegu- 
rança dos que nas obras trabalhaíTem ; o 
que tudo, além de efcrito, e aífínado , foi 
jurado por elles pêra mais firmeza , e alli 
adernou o Capitão Mor logo com o Çamo- 
rim o modo de como fe haviam de ajuntar 
as achegas que o Çamorim havia de dar por 
dinheiro , que no verão feguinte começou 
a pôr mãos áobra. A {Tenta do tudo, deo o 
Capitão Mor preíTa ao Çamorim , e aos Re- 
gedores principaes , e fe defpedio com 
grande íatisfação de todos ; e fendo tudo 
concluido , deixou-fe andar pela coita até 
recolher asnáos de Malaca, emais partes, 
a que deo muita preíTa , porque fe havia 
de achar no negocio de Sanguicer ; e re- 
colhendo-fe com ella , foi levando os na- 
vios de fua Armada , que deixou fobre a- 
quelles dous rios , que em ambos os por- 
tos , e por aquella coita tomaram por ve- 
zes féis Cataculões , e outras embarcações 
pequenas , e lhe deram em algumas povoa- 
ções que lhas queimaram , e deílruíram , e 
cativaram algumas peffbas , que fe mettê- 
ram nas Galés. 

Neíte caminho achou o Capitão Mor 
cartas do Vifo-Rey, em que lhe mandava 
que fe apreíTaíTe pêra o negocio de San- 
guicer : e que naquella barra acharia mais 
navios, e gente, e ordem do que havia de 

fa- 



30 ÁSIA de Diogo de Couto 

fazer ; e apôs eftas cartas defpedio o Vi- 
Fo-Rey féis navios , e fete manchuas , em 
que mandou embarcar duzentos foldados , 
e quatrocentos e fincoenta Peaes da terra y 
e fez Capitão Mor a António de Azeve- 
do , que Fe fez á vela entrada de Abril, e 
lhe deo cartas pêra o Capitão Mor , em 
que o avifava do que havia de fazer. 

Os Capitães que nefta jornada foram 
com elle, são os feguintes : Diogo Soares 
de Mello , Miguel Dias Picoto , Fernão 
Pegado , AíFonfo Ferreira da Silva j João 
Caiado de Gamboa , e outros. D. Jerony- 
mo chegou á barra de Sanguicer a 4. de 
Abril , e achou já huma embarcação com 
recado do Ruílricão , em que lhe fazia Fa- 
ber que ficava já nos matos , e que o dia 
Feguinte no quarto da Lua commetteíTe a 
defembarcação , porque ao mefmo tempo 
elle havia de dar pela banda do Cerião. 
D. Jeronymo deo recado a Feus Capitães 
pêra eftarem preítes ; e tanto que o quarto 
da Lua começou , mandou entrar treze na- 
vios de remo com Pilotos que já pêra iíTo 
levava , e elle deixou-Fe ficar na fua Galé , 
porque lho mandou aílim oVifo-Rey. Eftas 
chegando á povoação, antes de amanhecer, 
puzeram as proas em terra , e faltando 
nella com muita determinação, commetté- 
ram logo huma tranqueira , que eftava na 

en- 



Década X. Cap. IV. 31 

entrada da povoação , onde tinha muita 
gente , e artilheria ; e poílo que nella a- 
cháram grande refiftencia , ella foi entrada 
com morte de muitos inimigos , e a arti- 
lheria foi tirada logo delia , e embarcada 
nos navios pelos marinheiros. Não fe fe/, 
iíto tanto a laivo, que na primeira commet- 
tida não feriffem alguns dos nofíbs , e que 
não mataílem Nuno Alvares Barreto , íb- 
brinho de António Moniz Barreto. Ruftri- 
cao quafi ao mefmo tempo entrou pela ban- 
da do Certao , deftruindo , alfaiando , e 
queimando tudo fem perdoarem nada , e 
affim entraram pela povoação, onde já os 
nofíbs andavam vidloriofos , e pondo tudo 
a ferro , e fogo ; e os moradores com mu- 
lheres , e filhos, que fen tiram o incêndio > 
e dam.no , foram fugindo pêra o Certao >. 
onde encontraram com a gente de Ruítri- 
cao, que fez nelles hum muito grande ef- 
trago : e o Naique vendo-fe perdido , lar- 
gou tudo , e á efpora feita fe acolheo aos 
mais efpeíTos matos que alli havia , cujas 
entradas , e fahidas elle fabia muito bem. 
Feito tudo á vontade dos nofíbs 5 pofta a- 
quella povoação por terra, e feita toda em 
cinza , recolhêram-fe os nofíbs aos navios , 
e Ruftricão foi deftruindo todas as aldeias 
do Certao , fem lhes deixar coufa alguma 
em pé. 

Ao 



32 ÁSIA de Diogo de Couto 

Ao outro dia defembarcou D. Jerony- 
mo em terra com toda a gente da Arma- 
da : elle por huma parte , o Ruítricao pela 
outra , acabaram de desfazer em pó , e cin- 
za todas as aldeias , e povoações daquelle 
alevantado , e nem aos matos perdoaram , 
porque até eíTes arderam muitos dias ; e em 
quanto fe ifto fazia , mandou o Capitão 
Mor lançar ao mar os dous navios que lá 
ficaram entre as pedras , quando foi da deí- 
aventura de D. Gileanes que eftavam em 
eftaleiro , e outros alguns navios que foram 
dos Portuguezes , que aquelles corfarios 
Sanguiceres tinham tomado , e mandou quei- 
mar todos os navios da terra que achou, 
que foram muitos , que a nada fe perdoou. 
Feito ifto* , mandou D. Jeronymo cha- 
mar outro Naique feu vizinho , chamado 
Arcepe Naique, e lhe entregou aquella ter- 
ra toda, pêra que apoífuiííe, e alograífe, 
em quanto o Vifo-Rey da índia não man- 
daífe o contrario ; com condição que dei- 
xaífe fahir por aquelle rio , e pelos mais de 
fua jurifdicção toda a pimenta , madeira , 
mantimentos , ferro , e outras coufas que a 
terra dava , que os moradores de Goa fof- 
fem bufcar pêra levarem áquella Cidade. 
Deíla entrega mandou D. Jeronymo fazer 
feus autos, e papeis, em que o Naique, e 
alguns dos feus fe aílmáram 5 e com ifto fe 

re- 



Década X. Cap. IV. 33 

recolheram os nofíbs ; e quando já o fa- 
liam , chegou António de Azevedo com o 
foccorro de Goa , porque não pode chegar 
mais cedo , e o Capitão Mor defpedio 
Affoníb Ferreira da Silva , que em íua com- 
panhia chegou com recado ao Viíb-Rey 
do que tinha feito , e elle fe foi pôs elle , 
e a 10. de Abril chegou áquella Cidade* 

CAPITULO V. 

Das pazes que o Naique de Sanguicer pe- 

dio ao Vifo-Rey : e de como entregou o 

corpo de D. Gileanes Mafcarenhas : 

e dos Capitães que o Vijo-Rey ãef- 

p achou pêra fora* 

PArtida a nolTa Armada , e recolhido o 
Ruítricao, acudio o Naique de Sangui- 
cer á fua povoação , e a achou pofluida de 
Arcepe Naique, que o não quiz recolher, 
pelo que lhe foi neceíTario mandar a Goa 
logo algumas peflbas ? e que encommen- 
daííem lá a outras pêra em feu nome pe- 
dir ao Vifo-Rey perdão de fuás culpas , e 
que lhe quizeíTe fazer pazes com todas as 
condições que houveífe por bem ; porque 
pêra tornar a povoar , e negociar as fuás 
aldeias , e povoações , havia de miíter mui- 
to tempo, e muita quietação , e á princi- 
Çouto. Tom. VI. P. //. C pai 



§4 ÁSIA de Diogo de Couto 

pai peflba a que fe encommendou , foi £ 
Miguel Dias Picoto , Capitão do Paço da 
Madre de Deos , de que tinha muito co- 
nhecimento , mandando-lhe procurações 
baílantes pêra tudo iflb ; e affim elle, co- 
mo outras pefíbas travaram efte negocio 
com o Vifo-Rey , que tomando confelho 
fobre ifto , lhe veio a conceder o que pe- 
dia , com eftas condições : 

» Que elle Naique entregaria logo o 
» corpo de D. Gileanes Mafcarenhas , e to- 
» dos os Portuguezes cativos que em fuás 
» terras houveíTem , com toda a artilheria ; e 
» que nunca já mais em feus portos fe fa- 
» riam navios de remo , nem confentiria 
)> recolherem-fe a elles Mala vares , nem 
» outros alguns corfairos ; e que toda a 
» pimenta 3 ferro", madeira, e mais coufas 
y> que fuás terras deííem , as venderia aos 
» moradores Portuguezes , e Chriílaos pêra 
y> levarem pêra Goa , com outros pontos 
)> que não são muito fubítanciaes, e de tu- 
» do íe fizeram autos , e papeis » e com 
iílo defpedio o Vifo-Rey lego a D. Fran- 
cifeo Mafcarenhas , irmão de D. Gileanes, 
em huma Galé pêra ir trazer o corpo de 
feu irmão , e com elle o mefmo Miguel 
Dias Picoto em hum catís a confirmar com 
squelle Naique as pazes , e a entregarem- 
Jhe as terras que eítavam em poder do 

Ar- 



Década X. Cap. V. 3? 

Arcepe Naique. Efta Galé partio a 24. de 
Abril; e chegados a Sanguicer, foi-fe Mi- 
guel Dias ver com o Naique , e confirmar 
as pazes, e logo fez entrega do corpo de 
D. Gileanes , que eftava já todo comido, 
fomente o braço direito com todo o hom- 
bro eftava ainda são, e inteiro, que pare- 
ce que quiz Deos noíTo Senhor refervalío 
da corrupção pelas muitas vezes que com 
clle peleijou por fua Santa Fé Catholica , 
até por ella , e pelo ferviço de feu Rey 
morrer: entregara m-Jhe mais quatorze Por- 
tugueses , quatro Falcões , fete Berços , tudo 
de metal. Feito ifto , botaram pêra Goa, 
aonde chegaram já alguns dias andados de 
Maio, e o corpo de D. Gileanes foidefem- 
barcado no cães de Goa , aonde o Vifo- 
Rey o efperou com todos os Fidalgos , e 
Cidadãos veílidos de preto, e o Cabido, e 
todas as Freguezias , e Religiões , e com 
grande pompa , e aparato , dor , e fenti- 
mento de todos os Fidalgos, e mais povo 
foi levado a S. Francifco , e no Capitulo 
foi depoíitado , e alli lhe fizeram feus Of- 
ficios com muita folemnidade , como era 
juílo fe fizeíTe por hum Fidalgo de tantas 
partes , e de tantos merecimentos ,• e fer- 
viços , ficando de três irmãos que neftas 
partes andaram fó efte D. Francifco Mas- 
carenhas , porque D. Filippe, que doRey- 

C ii no 



36 ÁSIA de Diogo de Couto 

no veio com o mefmo D. Gileanes , foi 
também morto pelos Malavares na coftá 
do Norte , como na Década IX. fica dito. 
E nem efte D. Francifco efcapou ao revés 
da fortuna , porque também na índia aca- 
bou em tempo de Mathias de Albuquer- 
que da mais miferavel morte que fe vio. 
Eftando já defpachado com a Capitania 
de Ormuz , como também a tinha feu ir- 
mão D. Gileanes, cujas partes , e inclina- 
ções do ferviço de feu Rey dava a todos 
efperanças de maiores honras , e fatisfa- 
ções que a ventura lhe atalhou com tão 
infelice morte, poíto que também vingada 
por outro Fidalgo tanto feu parente, e do 
leu appellido , c por hum próprio irmão, 
que foi D. Francifco Mafcarenhas , que a- 
quelle dia da defembarcaçao em Sanguicer 
foi dos primeiros que delia tomou mui boa 
fatisfaçao. 

Deixando eítas coufas , continuaremos 
com os Capitães que o Viíb-Rey defpedio 
pêra fora antes difto , que deixamos por não 
tirar a mão das coufas de Sanguicer , e 
por não miíturarmos humas com as outras. 
Em quanto o Vifo-Rey tratou eítas coufas 
de Sanguicer , não fe defcuidou das mais 
a que era neceílario acudir , pelo que en- 
tendeo nos provimentos de Malaca , e Ma- 
luco , e defpachou Artur de Brito pêra ir 

a 






Década X. Cap. V. 37 

a Tidore por Embaixador a coufas que EI- 
Rey mandava ; e pêra ver fe com mimos , 
e dadivas queria aquelle Rey tornar a fa- 
zer entrega daquella Fortaleza : e ordenou 
hum prelente pêra lhe dar a elle, que era 
de duas peças de veludo de cores , e hu- 
ma de eícarlata , huma pipa de vinho , e 
hum fombreiro alto de tomar o Sol de 
tafetá com feu peão dourado ; dando-l.he 
por regimento, que fe EIRey não quizeífe 
entregar a Fortaleza , lhe não déffe nada , 
e defpachou pêra ir em fua companhia 
hum Hefpanhol chamado Fernão de Pran- 
da : que EIRey mandou naquella Armada 
pêra lhe mandar recado por via das Filip- 
pinas , e da Nova Hefpanha de tudo o que 
paíTaíte : e efcreveo o Vifo-Rey cartas de 
muitas fatisfações aquelle Rey, e com el- 
las lhe mandou outras que EIRey D. Fi- 
lippe lhe efcrevia muito honradas , em 
que lhe promettia toda a fatisfação juíta 
que pudefle fer de fuás queixas , e aggra- 
vos ; e no mefmo tempo defpachou o Vilb- 
Rey a João da Silva pêra ir entrar na Capi- 
tania de Malaca , e lhe notificou huma in- 
ftrucção de EIRey D. Filippe , em que de- 
fendia que nenhum Capitão daquella For- 
taleza tiveífe Feitor no porto de Jor pelo 
grande damno que a Alfandega de Malaca 
diíTo recebia , porque á conta daquelles 

Ca- 



38 A S 1 A de Diogo de Couto 

Capitães terem naquella Cidade feus Feito- 
res pêra fe comprarem as drogas pelos pre- 
ços de Maiaca por hum concerto que ti- 
nham íbbre ifto reito com o Rajale, acar- 
retavam todos os Juncos de Jaoa a feu 
porto, e contentava-fe com os direitos dei- 
les , e deixava aos Capitães de Malaca com- 
prar fuás drogas pelos preços que difíe- 
mos , porque não pertendia mais aquelle 
Rey que acreditar , e continuar feu porto ; 
e os Capitães porque tinham na fua Cida- 
de feus Feitores , e lhe hiam ás mãos todas 
as drogas , como em Malaca , dava-lhes 
pouco da perda da Alfandega, e o Rajale 
engroílando com os direitos que perten- 
ciam a EIRey de Portugal , e os Capitães 
nas refidencias que lá lhe mandavam tirar 
com pedras de bazar, com peças de ouro, 
e prata , ficavam fazendo o campo franco , 
e fe hiam foltos , e livres , e que requereí- 
fem ferviços das grandes perdas, edamnos 
que deram a EIRey , e do grande defcre- 
dito em que puzeram aqueila fazenda. 

Pela mefma maneira mandou EIRey 
D. Filippe outras Provisões , porque fob 
graves penas defendia que nenhum Caíle- 
lhano foífe de Manilha aos portos da Chi- 
na pelo grande perjuizo que niílb recebia 
oEftado da índia todo, porque com muito 
dinheiro que mettiam em fuás feiras por 

com- 



Década X. Cap. V. 3^ 

comprarem tudo , alteravam os preços em ; 
exceffivo modo *, e os mercadores todos da 
índia ficavam perdendo niííb tanto , que 
onde fe ganhava afmcoenta, efeíTenta por 
cento, veio a menos de vinte e finco. El- 
Rey perdia em fuás Alfandegas muita co- 
pia de dinheiro , porque toda a feda , e fa- 
zendas que os Caítelhanos levavam , lhe fal- 
tavam- Eíta Provisão entregou o Vifo-Rey 
a Domingos Monteiro , que hia fazer a via- 
gem de Japão que comprou , pêra que a 
mandaífe pregoar em Malaca , e China. 

Defpachou mais o Vifo-Rey D. Manoel 
de Almada, Capitão de Lisboa, e fobrinho 
de D. João da Silva , filho de fua irmã pêra 
ir por Capitão Mor dos mares de Malaca, 
e lhe armar duas galeotas , cujas Capitanias 
deo a Diogo Pereira Tibao , e a Simão de 
Almada pêra com a mais Armada, que em 
Malaca houveífe , andar no eftreito pêra fa- 
zerem vir os Juncos a Malaca; e chegando 
áquella Fortaleza, lha entregou Roque de 
Mello , e o Rajale Rey de Jor o mandou 
logo viíitar, ecommetter com grandes pro- 
meíTas, que mandaífe feu Feitor áquellafua 
Cidade , o que elle não quiz fazer pelas 
notificações que oVifo-Rey lhe tinha feito. 



CA- 



40 A S I A de Diogo de Couto 

CAPITULO VI. 

Das coufas que aconteceram em Maluco : 
e do foc corro que veio das Filippinas : e 
de como a Armada de EIRey de Ternate 
tomou duas fragatas de Hefpanhoes : e 
da grande batalha que teve com outras 
três. 

TEmos deixado as coufas de Maluco 
em Diogo de Azambuja ter mandado 
pedir ao Governador das Manilhas íbecor- 
ro de gente , e mantimentos por fe ter ido 
D. João Ronquilho ; e vendo aquelle Go- 
vernador as neceffidades em que aquella 
fortaleza eftava , mandou logo negociar 
quatro fragatas cheias de mantimentos , e 
munições, enellas mandou embarcar oiten- 
ta Hefpanhoes , e por Capitão delles Pe- 
dro Sarmiento. Eftas fragatas paliando pela 
Ilha de Moutel , que he do Rey de Ter- 
nate, onde efteve por Governador Majapor 
Sangage , cunhado de EIRey, calado com 
fua irmã , que não eítava ao prefente na 
Ilha , do que foi avifado Pedro Sarmiento , 
defembarcou em terra com todos os Hef- 
panhoes , com tenção de dar hum falto á- 
quella Ilha de paílagem ; e fendo já em 
terra , acudiram os Regedores principaes 
com bandeiras de paz} e chegando á falia 

com 



Década X. Cap. VI. 41 

com Pedro Sarmiento , trataram com elle 
de pazes , porque não deftruiffe a terra , e 
fe fizeram vaffallos deElRey de Portugal, 
e logo juraram vaíTallagem , e fizeram au- 
tos , e papeis, em que fe todos a/finaram , 
e de alli fez eleger hum daquelles pêra Go- 
vernador daquella Ilha , a quem todos ju- 
raram de obedecer. 

Feito ifto 3 deram á vela pêra Tido- 
re , onde foram muito bem recebidos de 
Diogo de Azambuja, e de todos pelo bom 
fueceflb de Moutel. Manjapor, Governador 
da Ilha , tanto que teve avifo do que os. 
Hefpanhoes fizeram na fua Ilha , ajuntou 
muita gente , e entrou por ella , e caíligou 
todos os Regedores , e fortificou a Ilha o 
melhor que pode fer ao Rey de Ternate, 
o que elle fez; e chegando a Moutel, que- 
rendo defembarcar, como em terra de vaf- 
fallos deElRey de Portugal, lhe defendeo 
o Sangage a defembarcação , e com alguns 
feridos o fez embarcar aífrontado , pelo 
que lhe foi forçado ir-fe refazer a Tidore. 

Diogo de Azambuja lhe armou algu- 
mas canoras , EIRey lhe deo outra com 
gente fua ; e voltando com toda eíla Arma- 
da , defembarcou naquella Ilha ,. poílo que 
achou grande refiftencia ; mas por força ar- 
rancou do campo aquelle Sangage , e o fez 
recolher a hum forte > em que o cercou , e 

mau- 



42 A S I A de Diogo de Couto 

mandou recado a Diogo de Azambuja que 
o foccorreíTe, porque determinava de não 
fe apartar dalli até haver o Sangage ás 
mãos. Diogo de Azambuja havendo que 
não tinha poíTe pêra o íbccorrer , por ter 
eom elle o mor cabedal daquella fortaleza , 
pedio áquelle Rey quizefle ir em peíToa á- 
quelle negocio , o que elle fez com muita 
preíTa ; e embarcando-fe com a mais gente 
que podia ajuntar, foi-fe a Moutel , e fe 
ajuntou com Pedro Sarmiento; e afíeílando 
a artilheria que lhe pareceo neceífaria , co- 
meçaram a bater a Fortaleza por efpaço 
de quatro dias com tanta importunação, e 
damno dos de dentro , que houveram por 
feu partido preitearem-fe com Pedro Sar- 
miento , valendo-fe pêra iflb de EIRey, 
debaixo de cuja fé fe entregaram , e o 
Sangage tornou a jurar vaíTallagem a El- 
Rey de Portugal com certos bahares de 
cravo de páreas cada anno. 

Feito ifto , fe recolheo EIRey , e o 
mefmo fez Pedro Sarmiento ; e porque fal- 
tavam mantimentos na Fortaleza, mandou 
Diogo de Azambuja três daquellas fragatas 
a Bachão a bufcallos, e nellas por Capitão 
Paulo.de Lima, Manoel Ferreira deVillas 
Boas , e o Alferes Guerreiro da Companhia 
do Sarmiento. Deíla ida foi avifado EIRey 
de Ternate , que eítava affrontado , e ma- 
goa- 



Década X. Cap. VI. 43 

goado das coufas de Moutel ; e defejando 
de fe fatisfazer, armou doze corocoras , e 
mandou á Ilha de Naquien por outras do- 
ze que lá tinha ; e provendo-as de muita 
gente , e munições , mandou Cachiltulo 
feu irmão que foíle efperar as fragatas á 
volta que fizeflem de Bachão , e as tomaf- 
fem. O Cachiltulo as foi efperar ; e an- 
dando na paragem por onde haviam de 
vir , foram cahir-lhe nas mãos duas fraga- 
tas , que vinham das Filippinas pêra Tido- 
re carregadas de mantimentos, e munições 
pêra a noífa Fortaleza , em que vinha hum 
Hefpanhol de alcunha o Duenas que vio 
aquella Armada ; e como lhe não podia 
fugir , poz-fe em armas , e foi-a inveítir, 
pondo o Duenas a proa na Capitânia , e 
da primeira pancada a metteo no fundo > e 
a gente delia fe falvou nas outras coroco- 
ras , que todas juntas ferraram nas fraga- 
tas , em que não hiam mais de doze Hef- 
panhoes , que peleijáram valeroíiffimamen- 
te , matando muitos inimigos ; mas como 
o numero era deíigual , foram todos mor- 
tos , e as fragatas tomadas. Diogo de 
Azambuja teve logo recado de como pelei- 
javam; e porque as fragatas do Sarmiento 
eftavam varadas , elle (fegundo diziam) 
poz pouca diligencia em as lançar ao mar, 
e mandou embarcar Fernão Boto Machado 

no 



44 ÁSIA de Diogo de Couto 

no batel do feu Galeão com íincoenta ho- 
mens , pêra que lha foíle foccorrer, e le- 
vava o batel por proa hum falcão , e dous 
berços. Sahido Fernão Boto da Bahia af- 
faftado hum pouco da terra \ teve Diogo 
de Azambuja recado que as fragatas eram 
rendidas ; e receando acontecer algum de£ 
aílre a Fernão Boto Machado , mandou 
huma corocora ligeira com hum homem, 
que lhe requereo da parte de EIRey , íbb 
pena decaio maior, que fetornaíTe, o que 
elle fez ; e pofto que depois o Governador 
de Manilha prendeo o Sarmiento por eíle 
cafo , e alguns lhe punham culpa de pouca 
diligencia , o cafo foi bem differente , 
porque hum foldado que aquella noite fe 
achou na vigia , nos affirmou que toda a 
noite trabalhara pêra lançar as fragatas ao 
mar, e que não pudera. O Tulo irmão de 
EIRey de Ternate ficou foberbo com eíla 
vitoria , e deixou-íe ficar efperando pelas 
fragatas com os mantimentos que haviam 
de vir de Bachão, repartidas as corocoras 
em duas paragens , porque lhe não pudef- 
fem efeapar ; e andando affim , voltando as 
fragatas com os mantimentos que foram 
bufear, que eram as de Maquien , e com- 
mettendo-fe huns aos outros , travaram 
hum fermofo jogo de bombardadas , e ef- 
pingardadas , de que de ambas as partes 

hou- 






Década X. Cap. VL 45* 

houveram bem de damno ; e paliada eíla 
primeira fornada , inveftíram huns com os 
outros , e de bordo a bordo começaram 
huma afpera briga 5 em que todos os nof- 
fos peleijáram valerofamente j e o Alferes 
Guerreiro andando na mor força da briga, 
quiz a defaventura que fe ateaíTe o fogo á 
polvara , e que a força delia déffe com el- 
le , e com todos ao mar abrazados , e quei- 
mados. Os outros Capitães das duas fraga- 
tas vendo aquelle defaílre, pofto que efta- 
vam travados com os inimigos , acudiram, a 
recolher os companheiros que andavam no 
mar , e o fizeram a pezar dos inimigos. 
Durou ifto até que anoiteceo, que fe apar- 
taram deftroçados todos , porque os inimi- 
gos ficaram com mais de duzentos mortos, 
e os mais todos feridos , e iílb mefmo os 
noíTos , poílo que fe não perderam mais de 
oito. O Cachiltulo vendo-fe daquella ma- 
neira ? houve por feu partido recolher-fe a 
Ternate pêra fe curar , e os noífos deram 
á vela pêra a noífa Fortaleza, onde foram 
muito feftejados de todos, e com os man- 
timentos que trouxeram fe remediarão. A- 
conteceo ifto em o fim de Novembro paf- 
fado de 1^84. 



CA- 



ifi ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIL 

De como chegou a Maluco o Galeão da car- 
reira : e da razão por que Diogo de A- 
zambuja não quiz entregar a Fortaleza 
a Duarte Pereira : e do outro foccorro 
que chegou das Manilhas , de que veio 
por General João de Morenes. 

POuco depois diílo furgio naquelle por- 
to de Ternate o Galeão da carreira, 
de que era Capitão Fernão Ortiz de Tá- 
vora , em que hia embarcado Duarte Pe- 
reira de Sampaio , provido daquella Forta- 
leza , como já atrás diíTemos no Livro V. 
Diogo de Azambuja fendo avifado de fua 
ida , lhe mandou notificar que não defem- 
barcafle , e que fe tinha algum negocio 
com elle, lhomandaífe requerer, e moftrar 
feus papeis \ e Alvarás. Efta notificação lhe 
foi fazer hum Notário público , porque Du- 
arte Pereira lhe mandou dizer que hia pro- 
vido daquella Fortaleza por EIRey D. Fi- 
lippe, e mandou notificar a todos os Offi- 
ciaes cafados , e moradores que ao outro 
dia pela manha fe achaíTem todos á porta 
da Fortaleza, porque prefentes elles fe que- 
ria ver com Diogo d 5 Azambuja, e moftrar- 
lhe fuás Patentes , e Alvarás. Eíta notifica- 
ção não quiz Diogo de Azambuja que o 

No- 



Década X, Cap. VII. 47 

Notário fizefle , porque lhe pareceo união; 
pelo que tanto que Duarte Pereira foube 
iíto ? efcreveo huina carta a EIRey, em que 
lhe fazia faber de fua vinda , e de como 
era provido daquella capitania por Provi- 
sões de EIRey : que lhe pedia quizefle ao 
dia feguinte achar-fe á porta da Fortaleza 
pêra diante delle moítrar a Diogo de Azam- 
buja feus papeis. Dada eíla carta a EIRey, 
embarcou-fe logo em huma corocora , e foi 
ao Galeão , e tomou comíigo a Duarte Pe- 
reira, e o leveu pêra terra; e prepaíTando 
pela fragata de Pedro Sarmiento, o tomou 
também comfigo , e foi defembarcar á por- 
ta da Fortaleza , donde mandou a Diogo 
de Azambuja recado que lhe vieífe dar hu- 
ma palavra, Diogo de Azambuja fe veio 
logo pêra EIRey, e Duarte Pereira lhe dif- 
fe que EIRey D. Filippe *lhe tinha feito 
mercê daquella Capitania por virtude da- 
quella Patente que alli aprefentava , e que 
trazia aquella carta de guia doVifo-Rey da 
Índia pêra lha entregar , e elle ficar defo- 
brigado da homenagem que delia rinha da- 
do : que lhe pedia mandaíTe ler os papeis, 
e lhe déííe poíTe da Fortaleza conforme a 
elles ; e querendo mandar ler a Patente, 
e Carta por hym Official , diíTe Diogo de 
Azambuja que não era necefíario , que elle 
punha tudo na fua cabeça - 7 mas que elle 

ti- 



48 ÁSIA de Diogo de Couto 

tinha quatofze mezes perafervir pêra cum- 
prir o tempo de três annos , de que ElRey 
D. Filippe lhe tinha feito mercê por huma 
Carta fua , de que acabado o feu tempo ef- 
tava preftes pêra entregar-lhe a Fortaleza, 
e que eíperava pelo foccorro que tinha 
mandado pedir ás Filippinas pêra tomar a 
Fortaleza de Ternate , o qual não tardaria 
muito, e que náo queria que elle lhelevaf- 
fe a honra do que elle folicitára ; e com 
iílo virou as coitas , e fe metteo na Forta- 
leza , deixando EIRey , e Duarte Pereira 
fora. Vendo Duarte Pereira aquillo, man- 
dou ler a fua Patente , e Carta de Guia 
por hum Official , pêra que todos os ou- 
viíTem ; e depois de lida , requereo a El- 
Rey que lhe entregaffe aquella Fortaleza, 
e que pediíTe as chaves a Diogo de Azam- 
buja: diíto fe efcufou EIRey , porque vio 
aquelle negocio de má feição pelas defcor- 
tezias que com elle ufou Diogo de Azam- 
buja, de que ficou como affrontado ; e to- 
mando comíigo Duarte Pereira , o levou até 
a cafa dos Padres da Companhia , e lho 
entregou por hofpede , e depois mandou 
tomar cafas , e defembarcou fua mulher, e 
familia que comíigo levava. Com iíto co- 
meçaram a haver proteítos de parte a par- 
te , e alguma alteração entre os criados de 
hum, e outro , com o que mandou Diogo 

de 



Década X. Cap. VII. 49 

de Azambuja notificar Duarte Pereira , que 
logo fe embarcaífe pêra Bachao , ou aAm- 

boyno até lhe caber feu tempo , porque não 
era ferviço de EIRey eílar naquella terra 
pelas uniões, e alvoroços que pedia haver. 
Duarte Pereira tornou a refponder á noti- 
ficação , que era provido por EIRey daquel- 
la Capitania, onde vinha entrar, eque não 
era bem fefoífe pêra terra de Mouros com 
fua mulher, e filhos, e que eítava quieto 
em fua cafa fem bolir comfigo , que o bom 
feria cumprir as Provisões de EIRey , e do 
Vifc-Rey da índia, e aííim ficaram as cou- 
fas em bem ruim eftado. Tratando Duarte 
Pereira de femetter na Fortaleza por todas 
as vias que fe pudeíTe , até fe determinar 
a prender Diogo de Azambuja , eftando 
hum dia na Igreja , de que elle foi avifa- 
do , e fe precatou , determinou de o ir 
prender a elle ; e parece certo que neftas 
Ilhas do Maluco andava o diabo folto , 
porque entre os Capitães que foram del- 
ias , tem acontecido as mores roturas , e 
diífensões que em todas as da índia. De- 
terminado Duarte Pereira , ajuntou toda a 
gente que pode , e lhe foi commetter a ca- 
ía , que elle deíendeo muito bem até acu- 
dir EIRey, efeu fobrinhoCachilmale, que 
era o herdeiro, e fe mettèram em meio, e 
levaram Diogo de Azambuja pêra fua ca- 

Couto.Tom.FLP.il. D fa, 



5*0 AS IA de Diogo de Couto 

fa, íícando-fe temendo hum do outro rija- 
mente. 

Eítando aíTim a coufa , chegou áquel- 
le porto huma Armada de vinte eíinco fra- 
gatas ? e hum barchote , e hum junco, de 
que era Capitão Bartholomeu Vaz Landei- 
ro Portuguez , com quem vinham outras 
quarenta , que naquelle tempo fe acharam 
na Manilha , e vinha feparado de João de 
Morenes, que vinha por General defta fro- 
ta , Hefpanhol , homem esforçado , mas de 
pouco governo , e trazia quatrocentos Hef- 
panhoes ; e deíembarcando em terra , foi 
muito bem recebido , e apofentado com to- 
dos osfeus; e tratando da jornada de Ter- 
nate , dizem que achou frio a Diogo de 
Azambuja , a cujo requerimento vinha , e 
que já lhe não convinha deixar aquella 
Fortaleza , porque eflava certo metter-fe 
nella Duarte Pereira ; e também porque 
ElPvey , que era a principal parte naquelle 
negocio , andava defgoííoib , e enfadado de 
Diogo de Azambuja , com o que o More- 
nes fe não fabia determinar. 

Vendo Duarte Pereira as coufas em tal 
cafo 5 não querendo que por razoes parti- 
culares fe perdeííe o ferviço de EIRey , 
elcreveo huma carta áquelleRey, em que 
lhe pedia que deixafie aggravos , e que fe 
trataííe do que importava ao ferviço de EI- 
Rey 



Década X. Cap. VIL ?i 

Rey de Portugal , e que fe folie ver com 
Diogo de Azambuja, e fe lançaíTe com el- 
le , e trataífe daquella jornada , pêra que 
foi mettido tão grande cabedal , e que elle 
fe oíferecia pêra o acompanhar nella com 
vinte homens á fua cufta ; com condição 
que elle Diogo de Azambuja nas coufas 
daquella guerra não faria , nem determina- 
ria nada fem feu confelho, por authoridade 
de hum homem que vinha pêra fer Capi- 
tão daquella Fortaleza , e entre tantos Mou- 
ros , e tão inimigos do nome Chriftão. Com 
efta carta fefoi aquelleRey ver com Diogo 
de Azambuja , e lha moftrou , e fez com 
elle amizade, e trataram ambos da jornada, 
e dosoíferecimentos de Duarte Pereira , que 
elle lhe não acceitou , e lhe mandou dizer 
que o melhor feria embarcar-fe no Galeão 
de Fernão Ortiz de Távora , que havia de 
ir na jornada com fó dous criados íeus , o 
que Duarte Pereira acceitou, e fe fez pref- 
tes pêra fe embarcar , porque logo aífentou 
Diogo de Azambuja com o Morenes , Ca- 
pitão dos Hefpanhoes , de irem cercar Ter- 
nate, e não fe alevan tarem defobre aquel- 
la Fortaleza fem a tomar. 



D ii CA- 



<T2 A S I A de Diogo de Couto 

CAPITULO VIII. 

De como os nojjos partiram pêra Ternate : 

e de como clefemb arcaram em terra : e do 

que lhes fuccedeo até affentarem feu 

campo naquella Fortaleza. 

EM quanto fe negociavão as coufas pê- 
ra o cerco , mandou Diogo de Azam- 
buja a Fernão Boto que fe folie pôr fobre 
a Fortaleza de Ternate, e acomeçaífe aba- 
ter até elle chegar , o que elle fez , e foi 
furgir junto do arrecife de pedra , e entre 
elle , e a Fortaleza puderam navegar coro- 
coras , e furgíram defronte da praia : affaf- 
tados hum tiro de falcão , e da banda de 
fora , onde os Galeões ílirgem , quando 
chegao a carga da índia , anda o mar de 
continuo tão cruzado , e de levadia , que por 
não poderem eílar alli á carga , fe paliam 
ao porto deTalangame meia légua da For- 
taleza ; e depois que EIRey Babu tomou 
aquella Fortaleza , como fica dito na Dé- 
cada IX. porque entendeo que osPortugue- 
zes haviam de trabalhar pela tornar a haver 
ás mãos 5 a fortificou de novo mui bem; e 
a povoação que foi noífa, que fazia a roda 
delia , mandou cercar , e fazer huma pare- 
de coufa mui groíía com feus baluartes , e 
guaritas ^ que vai com duas pontas fechar 

no 



Década X. Cap. VIIL 5*3 

no mar, quanto diz adiftancia do arrecife > 
com o que fica huma Cidade murada, e a 
Fortaleza com feu caílello íbbre o mar; e 
fabendo aquelle Rey os apercebimentos que 
em Tidore faziam contra elle , fortificou- 
fe de novo , e proveo os baluartes , e cu- 
bellos da cerca da artilheria que havia na 
Fortaleza , que era mui groíTa, por eftar 
nella quaíi toda a da Armada de Gonfalo 
Pereira Marramaque , e repartio por elles 
a melhor gente que tinha , em que entra- 
vam os Jaós de mais de trinta juncos , que 
eftavam naquelle porto tomando carga , que 
defpejou , e mandou metter pelo canal , e 
abicar á Fortaleza , e porque não pudef- 
fem entrar as noíTas fragatas 5 e çoroçoras 
do arrecife pêra dentro. 

Epera lhos não queimarem, nem des- 
embarcarem naquella parte osnoílbs, man- 
dou entulhar efte canal com muitas embar- 
cações de pedra , çom que ficou fechado 
por todas as partes. Fernão Boto fe poz á 
bateria com os juncos , que lhe ficavam 
mais em barreira, e arrombou alguns, e na 
terra fez bem damno. Vendo EIRey o mui- 
to que lhe fazia de alli , mandou fazer ha- 
111a grande jangada dç materiaes pêra fogo 

Í>era ver fe com ella podia queimar o Ga- 
eão , e huma madrugada a mandou levar 
por embarcações pequenas > e perto do Ga- 
leão 



5^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

leão lhe derão fogo , e a largaram ; e co- 
mo ella trazia muitos materiaes , affim era 
o fogo medonho que parecia fogo infernal j 
e porque a agua hia efpaimando pêra fora, 
foi ella cahir fobre as amarras do Galeão, 
com o que todos fe acharam embaraçados , 
e acudiram logo os Officiaes á proa com ef- 
peques , c entenas pêra defviarem a janga- 
da ; e fe cahíra no coitado do Galeão , íem 
dúvida o abrazára. Os officiaes trabalharam 
todo o poffiveí fem poderem fazer coufa al- 
guma , nem defviar a jangada ; o que vilto 
por hum foldado , fem dar conta a peíloa 
alguma , foi-le ás amarras pela banda dos 
efcurvos, e lhe deo pique; e o Galeão co- 
mo fe fentio defamarrado , foi-fe defcahin- 
do contra o arrecife pêra onde corria a 
agua , ao que acudiram os officiaes , e fol- 
iaram o traquete, e foranvfe fahindo pêra 
o mar, e por ficarem fem ancoras , foram 
a Tidore tomar outras. 

Diogo de Azambuja hia-fe fazendo pref- 
tes com grande cabedal, e tinha mandado 
chamar EIRey de Bachao , grande amigo 
dos Portuguezes , que fe tinha tornado á 
Lei de Mafamede, e aElRey dosCelebes, 
também amigo , pêra o virem ajudar naquel- 
la guerra , o que elles fizeram , e chegaram 
áquella Fortaleza em fuás embarcações , e 
com fua chegada fe embarcaram os noflbs > 

EU 



Década X. Ca?. VIII. 57 

EIRey de Tidore em fuás corocoras com 
a melhor gente que tinha , e foram furgiv 
fobre aquelle porto. 

Os Galeões de Fernão Boto, e Fernão 
Ortiz , e outro que alli eítava peraferviço, 
e guarda da nofía Fortaleza , de que era 
Capitão António Carneiro , furgíram ao 
longo do arrecife pêra de alli baterem a 
Fortaleza. Diogo de Azambuja tanto que 
furgio , mandou recado a EIRey de Ter- 
nate a requerer-lhe que entregaífe aquel- 
la Fortaleza, que era de EIRey de Portu- 
gal , pois fe lhe tinha feito juítiça da mor- 
te de EiRey Ahiro feu Avó : que ficaflem 
amigos , e tornaífem a correr com feu com- 
mercio, e que EIRey D. Filippe o fatisfa- 
ria muito baílantemente em íuas queixas , 
com muito amor, e largueza. Pêra efte re- 
cado elegeram a Pedro Sarmiento , que foi 
mui bem recebido daquelle Rey , que o 
ouvio com muita attenção , e difTimulaçao , 
e lhe refpondeo que elle eílava muito pref- 
tes pêra fervir a EiRey de Portugal em tu- 
do , como feu vaífallo que era , e que elle 
efperava por recado de Portugal pêra ver 
a conta que com elle fe tinha ; que em 
quanto tardaífe, elle eílaria alli com o feu 
Caftellão , e Alcaide Mor guardando aquel- 
la Fortaleza ; e que fe entre tanto quizeí- 
fem que correífem em amizade , e paz , el- 
le 



$6 ÁSIA de Diogo de Couto 

le fe obrigava a dar carga pêra os Galeões > 
como fempre dera , em quanto foram 
amigos, e comilto outras palavras de cum- 
primento. 

Dada a refpofta , entenderam todos fer 
aquillo entretenimento , e defengano , com 
o que fe tratou logo da defembarcaçao , e 
do lugar em que feria. Praticado entre to- 
dos , aílentáram que o Capitão Morenes fof- 
fe notar a parte em que melhor fe poderia 
fazer ; e que achando lugar commodo , e 
decente , fizefie logo final pêra accommet- 
terem primeiro que aqueíleRey a mandaífe 
fortificar. O Morenes foi em algumas em- 
barcações pequenas 5 e rodeou de huma 
parte , e outra , indo reconhecendo á fua von- 
tade tudo , e da banda do Sul achou huma 
aberta , onde havia humas arvores , a que 
chamam Çapatas , e em íima delias eftavani 
alguns negros com efpingardas que lhe ati- 
raram bem de efpingardadas \ e chegando- 
fe bem á terra, difparáram nas arvores al- 
guns arcabuzes com que os fizeram affu- 
gentar ; e pondo a proa na terra , fizeram 
linal á Armada. Diogo de Azambuja como 
eftava já poílo em armas com todo o po- 
der embarcado nas corocoras \ fizeram que- 
rena de accommetterem a Cidade pela fa- 
ce 5 a que acudio ElRey com todo o poder 
pêra lhe defender a defembarcação ) e co- 
mo 



Década X. Cap. VIII. 57 

mo o teve alli embebido , virou o remo 
em punho , e chegou áquella parte , onde 
o Morenes eítava já em terra , onde def em- 
barcaram todos os noiTos fem acharem re- 
íiítencia, e logo ordenaram fuás bandeiras, 
dando a dianteira ao Capitão Morenes com 
todos os Hefpanhoes , e Diogo de Azam- 
buja com a bandeira de Chrifto , com os 
Portuguezes na retaguarda , e de huma , er . 
de outra banda os Reys Bachão , e Tido- 
re , e Celebes , e neíra forma começaram a 
marchar pêra a Fortaleza. EIRey de Ter- 
nate, que tinha acudido com todo o poder 
á praia , cuidando que os noiTos defembar- 
caíTem nella , tanto que vio arrancar as co- 
rocoras pêra aquella parte , lançou fora 
muitos Jaós, eTernates com feu irmão Ca- 
chiltulo pêra lhe ir defender a defembarca- 
ção ; e quando chegaram hiam os noífos 
marchando em muito boa ordem ; e toda- 
via houve entre os dianteiros algumas efca- 
ramuças , de que os inimigos ficaram tão 
mal que fe recolheram. Em todo eíle tem- 
po foram os Galeões continuando a bate- 
ria com grande eítrondo , e terror: os Ca- 
pitães chegaram a vifta da Fortaleza, e da 
parte que lhes melhor pareceo atontaram 
feus exércitos , e foi em huma das portas 
do muro da povoação , que hia dar no 
mar, e alli fe fortificaram de cavas, vallos, 

e 



$$ ÁSIA de Diogo de Couto 

c trincheiras á fua vontade , o que fe en- 
carregou ao Morenes , que naquelíe dia fe 
fechou todo com muita ordem, e trabalho. 

CAPITULO IX. 

De como os nojfos começaram a bater a 

Fortaleza de "Tematc : e das coufas 

que fuc cederam no cerco até os nof- 

fos fe alevantarem delle. 

EM quanto fe fortificaram , defembar- 
cáram naquella parte a artilhem que 
lhe pareceo , fem lho poderem eftorvar ? e 
o Morenes aflentou na parte que vio fer 
mais a propolito , porque lhe foi commet- 
tido oOfficio deMeílre de Campo; e pref- 
tes tudo, começou a bateria affim dos Ga- 
leões por parte do mar , como das eílan- 
cias, o que fe fez com tanto eílrondo que 
atemorizava quem o ouvia : os de dentro 
não eftiveram também ociofos , porque re- 
■fpondêram também com fua artilheria , com 
o que mettêram muitos pelouros nos Ga- 
leões-, que ficaram mais perto da Fortale- 
za , e por muitas partes os desfizeram , e 
arrombaram , principalmente o Galeão de 
Fernão Ortiz de Távora , que lhe deram 
com hum pelouro, ao lume d 5 agua que o 
varou todo, e deixou huma portenhola de 

hum 



Década X. Ca?. IX. ^9 

hum palmo , e quatro dedos de altura, e 
eíieve arifco de fe inetter no fundo, fenáo 
fora a diligencia do feu Capitão , e de 
Duarte Pereira que nelía eítava , que man- 
daram acudir com paílas de chumbo , com 
que remediaram aquelle damno. Ào outro 
dia , andando os noiTos em terra occupados 
ainda na obra da fortificação do exercito , 
fahio Cachiltulo irmão de EIRey com qui- 
nhentos Jaós, eTernates aventureiros, e fo- 
ram commetter os noííos com tanta deter- 
minação que chegaram ate os vallos. O Ca- 
pitão Morenes vendo aquelle defavergonha- 
mento , lhes fahio com huns poucos de 
Hefpanhoes , e Portuguezes mui bem orde- 
nados , e travou com os inimigos huma af- 
pêra batalha , em que houve mortos , e fe- 
ridos ; e todavia os noiTos apertaram tanto 
com elles , que os arrancaram do campo, 
e os levaram de vencida , e elles fe defviá- 
ram da Fortaleza , e fe foram recolhendo 

Í>era o certão : e porque o Morenes hia de 
eição que parecia querellos feguir , lhes 
mandou Diogo de Azambuja recado , pêra 
que fe recolheíTe , porque parecia aquiilo 
alguma cilada, o que elle fez. 

Os noífos foram continuando a bateria 
da parede , porque pêra o fazerem á\For- 
taleza era neceíTario fazer-fe porella entra^ 
daj ecomo ella era muito groíTa ; nenhum 

da- 



6o ÁSIA de Diogo de Couto 

damno lhe fizeram em treze , ou quatorze 
dias que fe bateo. Vendo o Capitão More- 
nes aquillo , diffe a Diogo de Azambuja , 
que fe fenao tomafle por aíTalto , que por 
bateria não poderia fer , e que eftaria alli 
gaitando *o tempo fem fazerem nada, e que 
elle fe oíferecia com os feus Hefpanhoes a 
commetteila á efcala viíla , e que fe fizef- 
íem pêra iflb as efcadas neceffarias } por- 
que affim lhe parecia que feria melhor a 
todos. Pareceo bem aquiilo, e fó a EIRey 
de Ternate não , que foi de contrario pa- 
recer, affirmando-lhe que aquillo a que fe 
oíferecia era coufa muito arrifcada , por ef- 
tar dentro muita , e boa gente , e tão de- 
terminada , como eram os Jaós , que fe fa- 
ziam logo amoucos ; que pêra fe commet- 
ter aquelle negocio com rifcos , e ganha- 
rem-fe as paredes a troco de muitos que 
nella lhe haviam de matar , que mais fe 
poderia chamar difparate queviítoria, por- 
que com iífo não fe conciuia o negocio da-- 
quella guerra ; pois o fubílancial delia era 
a Fortaleza que elles haviam de bater , e que 
pertendiam tomar , e era muito mais forte 
que aquellas paredes , e eftava muito pro- 
vida de artilheria , e com todo o poder, e 
cabedal daquelleRey, pêra o que fe havia 
de mifter todo o poder á força inteira , o 
que já não podia haver ; porque forçado 

ha- 



Década X. Ca?* IX. 61 

haviam de ficar diminuídos com a perda 
dos que fe arrifcaíTem nas paredes (a feu 
damno) e os qije efcapafTem haviam de fi- 
car tao quebrantados , e canfados que não 
poderiam fazer nada , e feria forçado tor- 
nar a largar as paredes a feu dono > e re- 
colherem-fe todos envergonhados , e def- 
acreditados , com que os inimigos cobra- 
riam mais brio ; mas que fe por lima de 
tudo lhes parecia bem commetter-fe aquelle 
negocio , que elle eftava preíles pêra fe 
achar também neiía , e fer dos dianteiros. 
Eftas razões de EIRey pareceram a alguns 
que era de homem que lhe não vinha bem 
tomar-fe aquella Fortaleza , nem que fe 
tornalTem os Portuguezes a fanear com os 
Ternates pela perda que lhe veria de fe 
mudar outra vez ocommercio pêra aquella 
Ilha, e deixar a fua, o que feria caufa de 
tornar á fujeiçao paífada , de que fe tinha 
livrado com o braço , e favor dos Portu- 
guezes , e enriquecido com o feu comrner- 
cio y mas bem pode fer que fe enganaíTem 
es que ifto cuidavam , pofto que Mouros 
fempre tiram o feu proveito ; e fem em- 
bargo de parecerem a todos .muito bem 
aquellas razoes , não deixou o Morenes de 
requerer a jornada que lhe concedeo , e 
aíTentáram que ao dia feguinte foífe Pedro 
Sarmiento com cento e lincoenta Hefpa- 

nhoes 



6z ÁSIA de Diogo de Couto 

nhoes a reconhecer primeiro as paredes, e 
que levafíe algumas efcadas , pêra que fe 
achaíTem alguma parte defcuidada , e ac- 
commodada, commetteííem por ella afubi- 
da , e que os Capitães , e Reys com todo 
o poder ficaíTem no campo pêra acudirem 
logo com muita preífa; e o Sarmiento ao 
outro dia fahio-fe com os foldados que ef- 
colheo , e mandou levar duas efcadas , e 
foi cingindo as paredes de longo a longo , 
notando-as , evendo-as devagar; e chegan- 
do a huma parte que lhe pareceo mais fá- 
cil pêra fe íiihir, arremetteo a ella, e com 
muita preífa lhe encoftou as efcadas , e co- 
meçaram alguns a fubir por elías. Os de 
dentro , que citavam á lerta , vendo arre- 
metter os noflbs pêra aquella parte , acu- 
diram Já , e puzeram-fe em defensão ; e 
poílo que osHefpanhoes com grande esfor- 
ço , e determinação trabalharam por fe po- 
rem em íima , todavia os de dentro os re- 
bateram com morte de dezefeis , e muitos 
feridos , pelo que lhe foi forçado ao Sar- 
miento affaftar-fe pêra fora pelos muitos 
inílrumentos de morte que de íima cahiam 
fobre todos. Os noííbs Capitães ao tempo 
que viram arremetter os Hefpanhoes , acu- 
diram com todo o poder, e encontraram já 
o Sarmiento recolhcndo-fe com tanta preífa , 
que não puderam trazer as corpos dos mor- 
tos 



Década X. Cap. IX. 63 

tos pêra os fepultar: com ifto cahíram to- 
d©s em grandes defconfianças de ter aquelle 
negocio bom íim ; mas os Capitães não dei- 
xaram de mandar continuar na bateria. 

Já nefte tempo faltavam mantimentos 
a ElRey de Ternate , e os tinha mandado 
bufcar ao Maro , e a outras Ilhas , e cada 
dia efperava por elles ; e receando-fe que 
lhos mandaffem tomar fe ofoubeíTem, quiz . 
embaraçar os noffos , e lhes mandou pedir 
que fobreeííiveíle naquelle negocio por ef- 
paço de féis dias , que queria nelles to- 
mar confelho com os feus fobre a entrega 
daquella Fortaleza , porque aquellas coufas 
não fe faziam com pouca confideraçao : os 
Capitães lhe concederam aquilio , porque 
não fabiam os intentos daquelle Rey , e 
aílim ficaram em tregoas os leis dias , em que 
chegaram huma madrugada mais de qua- 
renta navios de mantimentos , que logo fo- 
ram recolhidos, eapôs elles oito corocoras 
carregadas de muita gente , que lhe vinha 
de foccorro da Ilha deMaquien: eftas pre- 
paflaram pelos noííos Galeões a boga arran- 
cada , e foram defembarcar na face da For- 
taleza , onde os juncos eítavam abicados ,fem 
receberem damno algum pela preíía com que 
pairaram. Vendo os Capitães aquilio, e fa- 
hendo das embarcações dos mantimentos 
que eram chegados , entenderam logo que 

as 



64 ASIÀ de Diogo de Couto 

as tréguas foram manhas daquelleRey pê- 
ra nos embaraçar 5 e reformar, e prover de 
gente , e mantimentos ; e ajuntando-le a 
confelho com os Reys , aíTentáram todos 
que aquella Fortaleza fe não podia tomar, 
fenão por hum cerco muito prolongado , e 
com tomarem todos os portos daquella Ilha, 
e defendendo-lhe as entradas aos foccorros ; 
que fe deixaílem por então daquelle nego- 
cio , pois também o Capitão Morenes ti- 
nha dito que não vinha pêra devagar, por- 
que não trazia ordem do Governador pêra 
mais que até á monção em que fe navegava 
pêra as Manilhas, que era já chegada , ealli 
no confelho o tornou a notificar, e pedio 
o efcufafíem , porque queria acudir ás coufas 
de Manilhas que eftavam frefcas , e que pê- 
ra o anno feguinte tornaria com maior ca- 
bedal pêra concluírem aquelle negocio. Com 
iílo começaram a embarcar a artilheria , e 
elles fe recolheram a Tidore , e logo o Mo- 
renes com toda a fua Armada fe partio, e 
Duarte Pereira fe foi em fua companhia 
com fua mulher, ecafa; porque já que ha- 
via de efperar hum anno, quiz tirar-fe de 
enfadamento , e defgoílos, que fe não po- 
diam efcufar entre elíe , e Diogo de Azam- 
buja, fe ficaíTe naquella Ilha* 



CA- 



Década X. Cap. X« 6$ 

CAPITULO X. 

í)as coufas que aconteceram em Ormuz % 

fendo Capitão Mathias de Albuquerque : e 

de como os Niquilús quebraram aspa* 

zes , e o Capitão mandou fobre elles 

alguns navios que fe perderam. 



N 



Aó tratámos até agora das Coufas úuú 
Mathias de Albuquerque fez em Or- 
muz , porque nos pareceo bem guardallas 
pêra o fazermos a todas juntas* Chegado 
efte Capitão á fua Fortaleza % etitregou-lhe 
D. Gonfalo de Menezes a poífe delia , e 
depois tiveram grandes quebras , e defa* 
venças por caufas que não he neceífario 
contar; e querendo remediar algumas cou-> 
ias que andavam defordenadas * e prover 
na boa guarda, e vigia daquella Fortaleza , 
poi* eftar, como já diífe , em braços com 
os Turcos , que quail eftavam feitos fenho- 
res dâquelle eftreito , cuja vizinhança era 
muito pêra recear , pelo que mandou re-» 
novar, e reformar a Fortaleza por dentro, 
e por fora nas partes que lhe pareceram 
neceífarias , e o mefmo fez aos armazéns, 
e ás vafilhas em que a pólvora eftava > por- 
que tudo eftava muito damnificado, e def- 
baratado ; e porque os foldados da obriga^ 
çao daquella Fortaleza fe agazalhavam fora 
Couto. Tom. VI. A //. E d«l* 



66 ÁSIA de Diogo de Couto 

delia efpalhados pela Cidade, fem os Ca- 
pitães os poderem obrigar nem por força , 
nem por mimos a Te recolherem dentro, 
havendo nellagazalhados 5 que D. Antão de 
Noronha , fendo Capitão daquella Forta- 
leza , tinha feito ao longo dos muros, quali 
como cellas dos Frades fobradadas, e com 
ferventias pêra o muro pêra no tempo das 
Calmas , que são muito grandes , poderem 
dormir em fima , e tudo o mais que cahia 
pela banda de fora fobre ornar pêra maior 
limpeza da Fortaleza; e parecendo a Ma- '■ 
chias de Albuquerque que era coufa muito 
arrifcáda eftarem fora , porque podia fuc- 
ceder huma alteração na Cidade , ou hum 
fobrefalto de Galés, que de noite lançaífem 
gente em terra tão de preffa , que não hou- 
vefle tempo pêra os ioldados acudirem á 
Fortaleza > que feria caufa da-perdição de 
todos, e da Fortaleza, que de noite fe fe- 
chava com fós os criados dos Capitães , e 
ainda deífes ficavam de noite fora , tratou 
de os recolher dentro , no que fazia duas 
coufas mui neceíTarias , huma fegurar a For- 
taleza, e a outra evitar muitos defmanchos^ 
c infultos que. cada dia fuecediam com an* 
darem efpalhados por taes modos ; e com 
tantas amoeftaçoes , rogos , mimos , e boas 
pagas (que he o que leva a todos até fe 
©fferecerem aos mores perigos da vida) 
Jj [ . que 



Decaída X* Cáp, X* ' ■ 67 

que fe lhe renderam , e fe foram feèolhen* 
do poucos e poucos pêra a Fortaleza , e 
affim recolheo até duzentos nella , com 
quem cprreo tao pontualmente na paga àt 
feus Toldos > e mantimentos , que ao derra* 
deiro dia do tnez fe tocava tambor pêra 
outro dia fe lhes pagar , com o que já os 
mais bufcavam adherencias pêra os recolhe* 
rem dentro. 

Feita efta obra , ehtendeo ria água das 
cifternas ; e poílo que erabaftante perá pro* 
vimento da Fortaleza em qualquer cerco * 
receava-íe que havendo hum trabalho , quê 
com o jogar daartilheria feabriíTem a§ cif# 
ternas, e fe lhes fofle a agua, quiz prover 
nifto com ordenar vinte e fete tanques gran* 
des , como os que andavam nas náos , pêra fe 
recolher nelles a agua > e efta obra foi do Con* 
de D* Francifco Maicarenhas que lha deo 
por regimento , quando o defpaehou pêra 
aquella Fortaleza: e afllm deo tanta preífè 
a eftes tanques , que ao primeiro feu anuo 
os acabou todos de páo Teca, muito for* 
tes , e bem acondicionados , è os recolheo 
todos em armazéns fechados, ê os mandou 
encher de agua ; e afBrmá-fe que levaram 
fetecentas pipas delia , e çoftumou ,em qúan* 
to foi Capitão, vifitar fcftes armazéns quali 
todos os mezes pêra ver como os tanques 
eítavam \ e porque era antigo coilume na* 
E ii (juel^ 



6S ÁSIA de Diogo de Couto 

quella Ilha todo oeftrangeiro quevirthadè 
fóra entregar as armas aos Xabandares 
Portuguezes , que as guardavam em huma 
cafa que tinham á borda d 5 agua , onde pof 
hum larim que lhe davam lhas tornavam a 
dar pêra as alimparem ; e que fe iílb fora 
em huma alteração , não tinham mais que 
chegarem á porta da Xabandaria , e que- 
brarem-na , e tomarem fuás armas. 

Parecendo a Mathias de Albuquerque 
que iílo era defordem , mandou fazer den- 
tro da Fortaleza huma cafa feparada pêra 
fe recolherem eftas armas , e as chaves 
delia mandou que fe entregafíem ao Alcaide 
Mor 5 e deo por regimento ao Xabandor, 
que aílim como os eílrangeiros lhe entre-* 
gaífem as armas na praia, as mandàíTe lo- 
go metter neíla cafa; e que todas as vezes 
que feus donos as quizeífem alimpar 5 o 
foífem fazer alii poucos e poucos. 

A 5 volta deitas coufas que tinha ordenado , 
chegou logo áquella Fortaleza informação 
das coufas daqueile eftreito, efoi informa- 
do que os Niquilús tinham quebrado as pa- 
zes que fizeram com D. Jeronymo Maíca- 
tenhas , e que em fuás terradas falteavam 
as que hiam de Baçorá pêra Ormuz , que 
coílumavam furgir entre aquellas Ilhaâ de 
Lara > onde elles davam nellas , e as rou- 
bavam 3 o que era em muito danmo da Al- 

fan- 



Década X. Cap. X, 69 

fandega daquella Cidade, e em deícredito 
do Eitado ; pelo que determinou-lhe armar 
pêra ver fe podia tomar algumas terradas , 
eperaiíto mandou armar humaGaleota que 
deo a Capitania ao Galvão , e pagou vinte 
foldados , e lhe deo por regimento que fe 
fofle lançar nos canaes da Ilha de Lazãq 
pêra ver fe lhe hiam cahir nas mãos algu- 
mas daquellas terradas dos Niquilús ., e 
pêra dar guarda ás que vieíTem de Baçorá. 
Partio eíle Galeão , e foi-fe pôr na- 
quella paragem , e de dia esbombardeava 
a povoação dos Niquilús , e de noite fe 
tornava a feu poílo , fem nunca o mudar. 
Sabido ifto pelos Niquilús , e avifados dos 
moradores de Lara do defcuido com que 
os noífos eítavam armando algumas terra- 
das , no mor íilencio da noite deram fobre 
a Galeota, e achando todos dormindo , os 
mataram á efpada , e a Galeota com fua 
artilheria, e todas as armas foi recolhida, 
ç varada na fua praia, Eítas novas chega- 
ram logo a Ormuz , que o Capitão fentio 
muito, e logo armou outro navio, de que 
fez Capitão o Patrão da Ribeira, e lhe deo 
foldados, ehum regimento pêra ver fe por 
dia colher alguns Niquilús. A eíle navio 
lhe deo naquelle eftreito hum tempo tama-* 
nho , que fe foçobrou, e affogaram-fe to- 
dos os foldados , e o Patrão com finco ma- 
- 1 ri- 



f& A S I A bê Diogo de Couto 

rinheiros efeapou ; e podo que ifto foram 
defaítres , não deixou Mathias de Albu- 
querque de os fentir muito 5 e fendo infor- 
mado que os moradores da Ilha de Lara , 
que eram vaífallos de EIRey de Ormuz, 
recolhiam os Niquilús , e os favoreciam 
nos feus roubos 3 e que elles foram caufa 
da tomada daGaleota, pelo avifo que del- 
ia deram , determinou de os mandar caíti- 
gar, e pêra iíTo armou quatro navios , de 
que fez Capitão Mor Lucas de Almeida, e 
mandou que foífe dar naquella Ilha í e fi- 
iseífe nella todo o damno que pudefTe , e 
quê viífè fe podia queimar asTerradas dos 
jNiquilus. 

Eftes navios fe foram lançar fobre a-? 
quella Ilha até paífarem as terradas de Ba* 
corá , e logo pouco depois chegaram ou* 
tros dous navios , de que era Capitão Mor 
•Álvaro de Avelar, que o Capitão de Chv 
«íuz mandava a Baharem , levando por re* 
gimento que viíle fe de paífagem podia 
liar algum caftigo aos de Lara , e lhe deo 
poderes fobre os outros navios do Almei* 
da ; e ajuntando-fe todos , foram 3 Lara , 
c deram em a povoação , e mataram á ef- 
jwi&a toda acoufa viva que acharam.; e dei- 
xando feito grande deftruiçao , fe embais 
cáram ; e o Avelar fokfe caminhando pê- 
ra Baharem } « <os -raai* navios do Almeida 



Década X. Cap. X. 71 

torn?'ram«rfe a pôr fobre o porto dos Ni- 
quilús; è eílando junto dos dá Ilha, anda- 
ram via , e lhes deo hum tempo tão aper- 
tado 5 que fcm fe poderem recolher, íoçobvou 
todos òs navios, fem delles ^ícaparem mais 
de onze peífoas. Com ifto ficaram os Ni- 
quilús tão foberbos , que tornaram a Jfeus 
roubos , e affirma-fe que depois tomárafn 
muitas terradas , e algumas que importava 
cada huma quarenta mil cruzados carrega*- 
das de dinheiro , e Mercadores de Baby- 
lònia , e outras partes que hiam pêra Or- 
muz comprar fazendas. Mathias de Albu* 
querque fentio muito eftas perdas ; e defe- 
jando tomar delias grandes fátisfações nos 
Niquilús , pedio ao Viíò-Rey que lhe man- 
dalle trezentos homens peracaftigar aquel- 
les coílarios ; porque fe lhe não acudiffem . , 
impediriam de todo a navegação de Bar- 
co rá pêra Ormuz 7 que he coufa muito 
importante. 



CA- 



( 7* A S LA ds Diogo de Couto 

V 

CAPITULO XI. 

De como o Turco mandou fazer hum For- 
te fobre a Cidade de Tabriz : e das 
coufas que alli Juccedêram entre 

os Turcos , e Perfas. • i 

JA que eítamos deíla parte de Ormuz em 
o tempo do inverno , pêra onde deixa-* 
mos as coufas alheias , fera razão que de-r 
mos relação das que efte anno fuccedêram 
sio Império da Períia , por não quebrarmos 
a ordem que até agora guardámos. No Li- 
vro Vs Cap. II. dêmos razão de como Fo^ 
rat Baxá fe apartou da Cidade de Glifca 
do fenhorio do Manuchiar , aífrontado , ç 
quali forçofamente , que fe lhe aievantáram 
os feus foldados. Chegando depois aConf- 
tantinopla , deo razão ao Turco das coufas 
que na jornada lhe fuccedêram , e dos For- 
tes que deixava providos ; e como lhe nao 
fabia do animo , de mandar fazer outro 
Forte fobre Tabriz , porque por alli fe 
poderia fenhorear de toda a Perfia-, e ven- 
do agora que as coufas daquelle Reyno fe 
difpunham pêra elle poder dar á execução 
feus defejos , ailím como a morte do Et% 
mixao que o Xá matou por fufpeito nas 
coufas de Forat Baxá , como no Livro IV. 
Capitulg II. fica dito , com quem os Tur-» 
- * j qui* 



e Década X, Cak XI. v 75 

qúimáes fe tinham amotinado , como por 
Ábaz Meria feu filho eftar no Cohoraçonç 
muito apertado dehunsBeques que aquelle 
anno entraram com grandes exércitos por 
aquella Provincia , governados do Amo- 
micham filho de Adidacão , fenhor do Im- 
pério com Arcante , com que fe preíumia 
que o Turco fe confederou contra oPerfa, 
com o que aquelle Principe não podia foc- 
correr feu pai , porque perderia aquelle? 
Eftado , determinou efce anno em que an- 
damos de metter hum muito grande cabe- 
dal naquella em preza , pêra o que mandou 
ajuntar hum grollb exercito, e elegeo pêra 
aquella jornada Ofmão Baxá de Nação Cir- 
caílb , que eftava por Governador na Pro- 
vincia Xervão, como já diífemos , homem 
de grande confelho , de muito esforço , e 
muito experimentado na milicia , o que lhe 
não tirou fer também dado ao eíludo da 
Filofofia , ao que era muito inclinado ; o 
mandando-o chamar , o fez Baxá da pri- 
meira porta , entregando-lhe o feu fêllo, 
e logo lhe deo o cargo de General da em- 
preza de Tabriz com fupremo poder em 
todas as Províncias, e thefouros delias pê- 
ra poder formar os exércitos que quizeífe. 
E fendo tempo pêra a jornada , foi-fe 
por Exzecut , aonde ajuntou a maífa do 
exercito que formou , de cento e fincoenta 

mil 



74 ÁSIA »e Diogo de Couto 

mil cavallos, tirados das Provincial da Si-* 
ria, Bitinia , Natolia , Caramonia , ê da 
Grécia , a fora a gente de ferviço \ gaftá- 
dores , íervidores , camelos , bois , e car- 
retas, que era hum numero infinito ; e fa- 
ria tudo hum exercito tamanho que não 
parecia fer aquella potencia de hum fóRey, 
fenlo de muitos juntos ; e nefte Junho em 
que andamos, fe abalou , fem faber pêra 
que parte era aquella expedição , allim por 
Câufa de fua gente que havia de haver por 
duvidofa , como por Oxá não fe precatar 
commetter em Tabriz ; mas depois deitou 
fama que hia pêra a Cidade de Naíiman i 
porque tinha por novas que eftava pêra 
acudir a Nativam pêra elle dar volta , e 
metter-fe em Tabriz ; e aílim foi tomando 
o caminho de Sanqualas , e Cahars , e de 
alli paflbu aos campos Calderanes , onde 
já Ifmael, eCelim tiveram aquella fermofã 
batalha. Aqui mudou o caminho que leva- 
va , e tornou ao de Tabriz, que leria jor- 
nada de vinte léguas , fobre o que no exer- 
cito houve alguns motins , por lhe não terem 
declarado a jornada de Tabriz j e foi a 
coufa de feição que chegaram a dizer pu- 
blicamente palavras muito affrontofas ao 
Baxá , o que elle diílimulou , e apaziguou com 
razoes, e dinheiro, que he o que abranda 
tudo y porque tinha entendido que com 

mãos 



Década X. Cap. XI. 7? 

mãos eftreitas , e palavras avaras não pode 
hum Capitão commetter coufa honrofa ; por- 
que o Capitão fecco de palavras , e taça-» 
nho de condição, peleja contra dous exér- 
citos , o feu , e o do inimigo ; e ainda ha- 
vemos por mais perigofo foldados defcon- 
tentes , que exércitos poderoíbs , porque 
a efi-es cada dia rompem , e desbaratam 
foldados a quem o bom termo de feus Ca* 
pitães obriga a perderem as vidas nos ca-» 
fos de fua honra. E tornando ao íiò , apa* 
ziguando o exercito , começaram a mar- 
char pêra Tabriz com tanto gofto pela ef- 
perançaque o feu Capitão lhes deo do grof* 
fo defpojo daquelia Cidade, que todos os 
inconvenientes de caminho lhes pareceram 
muito pequenos. Dalli foram ter a Vaor, 
que eftá em meio de Tabriz , e da alagôâ 
Marcian , e alli fe refizeram os foldados 
de todas as coufas que quizerarn : daqui 
paliaram a Coy , que foi a antiga Arta- 
xata de Ptolomeo, e depois aAmarat, Ci- 
dades já do Eftado da Perfia : dalli foram 
a Sofran , hum lugar pequeno , donde co- 
meçaram a defcubrir a fermofa Cidade de 
Tabriz , cuja vifta foi pêra todos de mor 
goíto , e alegria que íe podia imaginar. A 
vanguarda tanto que defcubrio a Cidade , 
vendo afrefcura de feus campos , e jardins, 
£ abundância dos frutos delles , adianta* 

ram* 



y6 ÁSIA de Diogo de Couto 

ram-fe a colhcllos , e a recrearem-fe nas 
ribeiras de que fe todos regam ; e o Baxá 
foi aíTentar o exercito no longo de hum 
pequeno ribeiro , que chamam Agua falga- 
da. 

ElR.ey da Perita tanto que teve novas 
do exercito Turquefco , correndo a primeira 
fama que hia contra o Nativan, ajuntando 
feíTenta e quatro mil Perfas , foi-fe pôr não 
mui longe de Tabriz pêra efperar onde o 
inimigo arrebentava , porque parece que 
arreceava já a fua determinação , e dalli 
lançou muitas efpias por todos os cami- 
nhos , de que cada dia tinha recados , até 
fer avifado que o Baxá voltava de Coy pê- 
ra Tabriz , pelo que lhe foi forçado pór-fe 
afFaítado daquella Cidade três léguas , por 
não ter gente pêra dar a batalha aos Tur* 
cos , e dalli mandou Aligelican com quatro 
mil cavallos , pêra que fe foífe metter em 
Tabriz ; e a Mirafem Mirza feu filho mais 
velho com dez mil dos efcolhidos que fe 
foíTe lançar nos campos daquella Cidade 
em alguma embofcada , porque eítava certo 
algum defmando nos Turcos por aquellas 
hortas , e que poderia fazer huma boa pre- 
za. Eftando alli o Príncipe embofcado , ten- 
do lançado fuás efpias , foi avifado que os 
Turcos da vanguarda eílavam alojados ao 
longo de humas ribeiras., paífando a féíla 

bem 



Década X. Cap. XI. yf 

bem dcfcuidados. Com eftas novas fe ale- 
vantou o Príncipe donde eítava , e deo nos 
Turcos com tanta preífa, que primeiro que 
os viíTem já era fobre elles , e em breve 
efpaço lhes matou fete mil 5 e fe recolheo 
a feu falvo carregado de armas , c cavai- 
los , tambores , bandeiras , e de outros def- 
pojos , e muito contente pelo bom fueceífo. 
Ofman Baxá foi logo avifado do negocio, 
e defpedio com muita preífa Afeman Baxá f 
e a Mahamed Baxá deCaeremit com qua- 
torze mil aventureiros , pêra que foccorreífc 
os outros ; e tanta preífa fe deram , que che- 
garam a tempo que o Príncipe Pería hia já 
com a vitoria nas mãos 5 e logo arremettê- 
ram a elle mui determinadamente. O Prín- 
cipe vendo que não podia efeufar a bata- 
lha ? virou-fe com muito animo aos Tur- 
cos , e travou-fe com elles , ficando todos 
miílurados em huma muito afpera , e cruel 
batalha ? em que de ambas as partes houve 
aífás de damno ; mas grandes façanhas da 
parte dos Perfas , principalmente do feu 
Príncipe , por fer muito esforçado cavallei- 
ro , e era já ifto fobre a tarde ; e como a 
jnoite começou a cubrir a luz , foram-fe 
apartando huns , e outros com féis mil ho- 
mens menos; e fe o dia fora maior, maior 
fora o damno pelo furor com que os Perfas 
peleijavam, de quem fe perderam poucos* 

O 



78 A S I Â de Diogo de Couto 

O Príncipe recolheo-fe vitoriofo pêra opai* 
que o recebeo Com muita feita ? e Ofman 
Baxá com bem grande trifteza , efentimen- 
to pela perda que em hum fó dia recebeo * 
vendo que á vifta daquelia Cidade que elle 
com tão potente exercito vinha bufcar, fem 
ainda ter poíto as mãos em coufa alguma , 
perdera treze mil homens , e eftes ainda 
dos efcolhidos , e que todo aquelle eítrago 
fora feito por tão poucos Perlas , ao outro 
dia alevantou o campo , e foi marchando 
pêra fe chegar mais á Cidade. Aligelicham, 
que EIRey da Perfia mandara metter den- 
tro em Tabriz , vendo vir-fe chegando o 
inimigo pêra elle , fahio fora como hum 
trovão , e deo na vanguarda com tamanho 
Ímpeto , que com mais de três mil mortos 
fez recolher Ofman até á fua artilheria , e 
a feu falvo elle o fez pêra a Cidade. Ifto 
acabou de melancolizar de todo o Baxá , e 
com efta mágoa foi alTentar feu exercito 
meia legua da Cidade , e alli fe fortificou 
á íua vontade. Aligeliicham ficou tão ufano 
com o bom fucceíTo , que defejou de dar 
cos Turcos outro toque 5 e pêra iflb fe 
preparou como foi noite ; e fendo quarta 
da madorna , fahio da Cidade , e commet- 
teo o exercito por huma parte que mais* 
perto eílava delia , que era a eftancia do 
Baxá de % Mmús > e tomando os Turcos 

can- 



Década X. Cak XI. 7^ 

canfados y e defcuidados , matou o Baxá 
com quatro mil , fem receber damno ai-» 
gum , e com efte fegundo fucceflb fe reco- 
lheo a EIRey , e não quiz mais entrar na 
Cidade , porque já era avifado que ao ou- 
tro dia o haviam de commetter, eque elle 
com quatro mil homens a nao podia defen- 
der. Os moradores deTabrifc vendo-fe de£* 
amparados de Aligelicham , determinaram 
de defender a fua Cidade , mulheres , filhos f 
e fazendas até morrerem todos \ e repartin- 
do entre íi as ruas , as fortificaram o melhor 
que puderam \ e poftos em armas , efperá-? 
ram a determinação dos Turcos. Ao outro 
dia pela manhã (devia fer fem ordem do 
Baxá) commettêram a Cidade os de pé, 
que eram de ferviço , todos de couraças , e 
malhas , porque quizeram levar aquelle 
primeiro cevo \ e os moradores deram nel- 
les com tanto valor , que a mór parte da* 
quella vil canalha ficou feita pedaços. 

O Baxá foi logo avifado ; e pondo-fe 
em armas , foi commetter a Cidade com 
todo o cabedal ; e não podendo os mora- 
dores efperar tamanha fúria , recolhêram-fe 
a cafas fortes , e a becos eftreitos , e ás 
Mefquitas , onde fe fizeram fortes , ma- 
tando de fima dos terrados muitos Turcos 
que hiam entrando pelas ruas ; mas como 
os inimigos eram tantos , entraram as ca- 
ías, 



8o  S IÀ de Diogo' de Cotjto 

/as , e Mcfquitas , e mataram á efpada to-* 
dos os que acharam > tomando as mulhe- 
res , e filhos com quem ufáram inhumani- 
dades nunca viftas , e fazendo outros da- 
míios , e eílragos que eítes bárbaros em fe- 
melhantes facos coftumam fazer. O Baxá 
foi logo avifado daquellas cruezas , e man- 
dou os mais Baxás que acudiíTem áquella 
deshumanidade , e que não fizeflem mais 
damno naquella Cidade do que já eftava 
feito, o que le fez pela melhor ordem que 
foi poífivel. Feito ifto , foi o Baxá rodean- 
do a Cidade pêra a reconhecer a que par- 
te feria bom levantar o Forte ; e achando 
o íitio qual elle defejava , affentou nelje 
feu exercito , fortalecendo-o muito bem , 
e logo tratou de pôr mãos á obra , e co- 
meçar a ajuntar as achegas : ai li lhe fo- 
ram os moradores da Cidade dar obediên- 
cia, e elle os recebeo bem, e fegurou* 



CA- 



Década X. Cap. XIÍ. Si 

CAPITULO XII. 

t)o fitio da Cidade de Tabriz , e dos dep 
pie do j os , e cruéis Jacos que os Turcos 
lhe deram : e dos a/faltos que o Prín- 
cipe da Per/ia deo nos Turcos y eni 
que lhes matou muitos* 

A Cidade de Tauri£ , à que coítupta* 
mente chamam Tabriz , os Hebreos 
práticos nas Províncias da Peffia a mettem 
na Armejiia maior , c a tem peia antiga 
Suza, ainda que Joveó diz que he Torva; 
frias os Geógrafos modernos a mettem na 
Média 3 e querem alguns que feja a Hecba-^ 
tana de Ptolomeu , e affim õ parece enten-* 
der Marco Pollo Livro L fc he verdade 
que a Provinda Hirac , em que a elíe met-*- 
te> he á mefma Média , como muitos cui- 
dam ; e outros affirmám fer Doza a Cidade 
edificada por ^rfazes \ e efta prefumpçaô 
tomaram da frcfcura, e fertilidade de feu$ 
campos , e jardins :• em fim qualquer quê 
feja, ella fempre fòi muito famofa 5 e Cor- 
te dos antigos P.eys da Pérfia, eílá fituadá 
nas raizes do Monte Oronte , que Ptolo* 
meu mette na Província dá Média , e o 
meio delia em 30. gráos de latitude , è 
88. de longitude. 

Eíles montes chamam os naturaes dê 
Couto. Tom. VI. P< Jta F Cor- 



2z ÁSIA de Diogo de Couto 

Corcoo , e alevantam-fe da parte do Norte 
oito jornadas apartadas do mar de Aba- 
cum , ou Cafpio , poílo que Jovio o nao 
faz mais de finco pêra a banda do Auítro, 
ou do Sul, fallando marinhaticamente. Tem 
a Períia pêra oPonente os montes Cafpios , 
e pêra o Nafcente a Parthia , ou Cohora- 
cone ; he cila Cidade muito íujeita a ne- 
ves , e a ventos frios, mas de ares fadios, 
e muito freíca , e abundante de todas as 
coufas neceflarias á vida humana ; he ri- 
quiílima pelo grande concuriò de Merca- 
dores que de todas as parte do Levante, e 
Ponente concorrem a eíla , com o que he 
havida porhuma das maiores feiras de todo 
o Oriente ; e por fer eíla , tiveram muito 
tempo nella os Reys da Períia fua Cadei- 
ra , e Corte ; mas depois que a mudaram 
pêra a Cidade de Casby pêra ficarem em 
meio daquelle Império , ficou desfalecendo, 
c ainda agora era das mores coufas do Mun- 
do , e íinha em fi mais de cem milpeflbas. 
OfmanBaxá (como atrás diífemos) eícolheo 
aquelle fitio , em que aflenteu feu exerci- 
to , que era nos jardins que foram dos Reys 
da Períia , que ficavam a hum a parte da 
Cidade pêra a banda do Sul , que era cou- 
fa muito grande , e fermofa , e com mil 
diverfidades de arvores , todas de frutos 
excellentes > com muitas fortes de rofas, 

bo- 



Década X. Càp. XIÍ. S3 

boninas , jafmins , lirios , violetas $ e outras 
flores fuaves ao cheiro , e muho alegres 
aos olhos, o que tudo era regado de hum 
braço de hum dos rios que defcem dos 
montes Orontes , e atravefsao aqueíles cam- 
pos , cujo braço dividido em muítofc ramos 
eftendia por entre aquellas plantas , e bo- 
ninas de feição que parecia hum Paraifo 
terreal , e aííim lhe chamavam os Perfas 
Sequifnezer, que quer dizer oito Paraifoss 
eftes ramos dos rios que regavam eftes jar* 
dins , fahiam delles , e tornavam-fe a ajun* 
tar em hum braço , que cercava a Cidade 
por aquella parte a modo de cava* 

Aqui nefte lugar mandou logo o Bâxá 
abrir os aliceríes pêra a Fortaleza $ 6 cer- 
cou todos eftes jardins á roda de hum mu- 
ro de trinta palmos de largo com fuás a- 
meas , e guaritas , e no meio alevaritou hu- 
ma torre fortiffima , e baftante pêra a guar- 
nição que alli determinava pôr , e efta õbrá 
acabou em trinta e féis dias p>ela muita di-< 
ligência , e grande cópia de fervidòrefs, e 
gaítadores que nella trazia ; e em quanto 
efta obra durou , hiam os Turcos á Cida* 
de a rccrearenv-fe nos banhos delia , que 
são muitos, e fermoíillimos ; eeftarídohuns 
poucos , hum deiles parece que devia de 
ter efcandalizado alguns nâturaes (porque 
não são tão foíFridos que entraíTem nenhuma, 
F li Cl* 



84 ÁSIA de Diogo de Cotrro 

Cidade tão proípera , e rica , fem ufarem 
de fua natureza) ajuntando-fe alguns , de- 
ram nelles , e os mataram a todos. Iíto foi 
logo fabido no exercito , de que indigna- 
dos os Genizaros , foram-fe ao Baxá com 
grande ira , e lhe pediram licença pêra 
vingarem a morte dos fcus 5 que lhe el!e 
deo , e com aquella braveza brutal entra- 
ram a Cidade , e começaram a matar to- 
dos os que acharam á efpada , fem per- 
doarem a fexo , nem a idade alguma , ef- 
pedaçando os innocentes nos peitos das mi- 
feras mais , violando as donzellas , deshon- 
rando as cafadas á vifta dos triftes efpofos, 
à cujos prantos elles não podiam fer bons 
por eftarem amarrados ? roubando , alfa- 
iando, e deftruindo as cafas 5 e Templos, 
e tudo o que fe lhes parava diante: em fim 

Í)or não recitarmos as laílimoías miferias, 
agrimas , prantos , clamores de meninos , 
e mulheres , velhos , e moços , foi a coufa 
tão cruel , e deshumana , que os mefmos 
bárbaros puderam apiedar-fe de tamanha 
defaventura , fe a ira , e furor brutal os não 
cegara de todo pêra ainda haverem que ti-» 
nham feito pouco; e fartos, e canfados de 
tantas cruezas , e de outrcs aitos torpes, 
e nefandos , fe recolheram carregados de 
riquezas pêra o outro dia tornarem , como 
fizeram j e ainda ao terceiro profeguindo 

com 






Década X. Ca?. XII. 8? 

com tanta braveza , e deshumanidade ent 
fuás brutalidades , que não ha penna , que 
fe não encolha com a mágoa , e dor de 
tanta defaventura , e depois de já não terem, 
que roubar, nem que matar , recolheram- 
fe com o mor deípojo que fe podia ima- 
ginar, por eftar aquella Cidade com todo o 
feu recheio. 

Eítas novas foram dadas ao Rey da 
Perfia , e ao Príncipe feu filho , que elles 
ouviram com tanta dor, que eíliveram pêra 
arrebentar de pezar das mágoas , e defa-» 
venturas que lhe contaram dos miferos Tau-* 
riílnos. Indignado o Príncipe de tamanhas 
cruezas, determinou de arrifcar, a vida por 
ver fe podia vingar feus vaííallos , e com 
licença de feu Pai eícolheo vinte e quatro 
mil homens de cavallo , a quem perfuadio 
com muitas palavras a irem tomar vingan- 
ça das cruezas feitas a feus naturaes , de 
que todos tinham tamanho defejo como 
elle , e aíTun fe foi o Principe lançar em 
huma embofcada , légua e meia do exerci- 
to , e defpedio quinhentos de cavallo os 
mais ligeiros , pêra que foífem dar viíla 
aos inimigos, e vilfem fe podiam provocar 
a fahirem dos vallos , e que efcaramuçando 
com elles , trabalhalíem pelos levar pêra 
aquella parte; eaífim o fizeram. Os Turcos 
em vendo aquella gente y cuidaram que eram, 

cor- 



86 A S I A de Díogo de Couto 

corredores da companhia do Príncipe , que 
hia pêra lhçs dar batalha , e deram conta 
diflb ao Baxá Ofman, que eílava enfermo, 
que defpedio logo os Baxás Cigala , e o 
de Caergmit, pêra que qom fua gente , e 
toda a da Grécia faflem aprefentar batalha 
ao Príncipe. 

Poítos eíles Baxás em campo com qua-» 
renta mil de cavallo , foram commetter os 
Perfas , que como eram muito ligeiros, não 
duvidaram efperalJos , e travaram huma boa 
efearamuça com os dianteiros , e de volta 
cm volta os foram levando pêra a embok 
cada, O Príncipe tanto que teve rebate , e 
que foube eílarem perto , e quaíi á viíta, 
íahio da embofeada , e como hum raio deo 
nos Turcos com tanta força que os fez ter. 
Os Baxás rendo o Príncipe , puzeram^fe 
cm ordem, e aprefentáram-lhe batalha , que 
elle não rceufou , que fe affirma que foi a 
mais bem peleijada que fe vio entre os 
Turcos , e Perías j mas como eíles entraram 
na batalha com o defejo de vingança de 
feus naturaes , de fatisfazerem as afFrontas 
feitas aos parentes , e amigos , foi a vonta-? 
de com que peleijáram tamanha, que como 
leões fe mettiam nas armas dos inimigos, 
derribando , e matando nelles como em 
ovelhas , fazendo o Príncipe aqui por feu 
^mo tant^ coufas que pafmou a todos. 



Década X. Ca?. XII. 8? 

Os Turcos vendo-fe tão efcandalizados , 
carregaram de novo fobre os Perfas ; o que 
vifto pelo Príncipe , fez final ao? feus de 
recolher ; e parecendo aos inimigos que 
aquillo era fugida , os foram feguindo hum 
bom efpaço, derribando muitos dos Perfas 
quaíi com algum defarranjo , cuidando que 
levavam a viítoria nas mãos ; mas o Prin- 
cipecomo era conhecido dos cafos da guer- 
ra , tornou a voltar a elles com tamanha 
ira, e braveza, que fem ver o rifco a que 
fe punha , metteo-fe pelos Turcos , e foi 
encontrar com o Baxá deCaeremit, que o 
conheceo pela divifa, e o ferio de tantos, 
e tão pezados golpes que lhe fez virar as 
coftas , deixando os feus no mór pezo da 
batalha ; e affirma-fe que tão efcandalizado 
ficou efte Baxá das mãos do Principe, que 
de medo não parou fenão no exercito, com 
fínaes de deixar tudo perdido : o Baxá Ci- 
gala fuítentou o pezo da batalha com muito 
valor , animando os feus , e acudindo ás 
partes mais neceíTarias , como Capitão ex- 
perto ; mas o Principe além de com feu 
esforço , que era grande , peleijava com 
tanta ira , e mágoa, que fem lhe dar dos 
perigos da batalha, não fe aprefentava fe- 
não aonde via maior perigo , com que met* 
teo efpanto em os Turcos , fazendo tama- 
nho eftrago nelles, que de o não poderem 

a tu- 



88 ÁSIA de Diogo de Couto 

aturar fe foram retirando. Cigala vendo fua 
perdição , recolheo o rçftante do exercito , 
e foi-fe recolhendo pêra o arraial , aonde 
chegou roto, fem bandeira, nerri iuflgnias 
de guerra , porque o Príncipe da Períia 
lhe foi no alcance, tomando tudo; ecomo 
fe fartou , recolheo-fe vicloriofo , deixando 
mortos perto de oito mil Turcos, perdeu^ 
do elle pouco mais de mil. 

Efta viítoria do Principe poz ao Baxá 
cm tal eítado de nojo , e pezar , que foi 
peiorando , e deo tanto animo aos Perfas 
que já os não eítimavam em nada. 

Vendo o Principe o animo dos felis , 
mandou hum cartel de defafío ao Baxá, 
cuidando que -citava são , em que o defa^ 
fiava pêra huma batalha geral em campo 
largo pêra todas as vezes que quizeílem, 
Ofman lhe acceitou o defaflo , e lhe man-r 
dou dizer que ao outro dia fe veria com 
elle em campo , ou elle , ou outrem em 
feu lugar, e defpedio aos Baxás Cigala, e 
de Caeremit pêra irem com todo o exer-r 
cito bufear q Principe , que eítava dalli a 
três léguas , e chegaram á fua vifta nefta 
ordem : o lado direito levava o Baxá d? 
Caramania com toda a gente de Suria : o 
efquerdo o Baxá de Natojia com a gente 
da Grécia : o Baxá de Caeremit levava a 
dianteira, e nç> meio o Baxá Cigala cofti q. 



Década X. Ca p. XII. 89 

gente da Bitinia, e Syria , e havia no cor^ 
po deite exercito feííenta mil de cavallo 
efcolhidos , ficando com o Baxá os mais 
todos , e os Genizaros , e a mais gente que 
havia em guarda da artilheria. 

O Principe da Perfia eftava efperando 
os Turcos com quarenta mil Perfas : do la- 
do direito tinha a gente da Hircania , e da 
efquerda a da Parthia , e Antopatra, e elle 
com todos os Perfas em meio. Os Baxás 
vendo a ordem em que o Principe eftava i 
fem fazerem termo algum , o foram de- 
mandar pêra travarem batalha ; mas o Prin-* 
cipe fem querer romper, foi fazendo huma 
grande volta pelo campo pêra aijim poder 
melhor reconhecer a ordem em que os 
Turcos vinham , pêra ver por onde os com- 
metteria mais á fua vontade. Os Turcos 
vendo aquillo , recearam que foíle alguma 
manha do Príncipe, e que quizeíTe voltar 
fobre o alojamento do exercito, onde fica- 
va a artilheria, e que fe fizeííe fenhor dei- 
la; pelo que aííim como o Principe anda- 
va, o faziam elles na mefma volta , e em 
outras , que foi fazendo por aquelle cam- 
po , que era largo : ifto deo tanto cuidada 
aos Baxás , que fe foram retirando pêra as 
fuás eftancias, pêra que também o Principe 
os feguiíTe, e elles fe pudeífem aproveitar 
4a fua artilheria: o Principe bçm entendep 

o 



90 Á S I A de Diogo de Couto 

o defenho dos Baxás ; e porque fe não a- 
proveitaflem delle, tornou afazer volta, e 
inveítio os Turcos pela tefta do exercito, 
onde hia o Baxá de Caeremit, que encon- 
trou de meio a meio , e o derribou , e com 
muita preíTa lhe cortou a cabeça , e a man- 
dou arvorar em huma lança ; e com o Ím- 
peto com que os feus também romperam 
logo , desfizeram aquella dianteira com mor- 
te de muitos Turcos. Os mais Baxás tanto 
que viram a cabeça do outro arvorada , co- 
braram tamanho medo aos Perfas , que co- 
meçaram a aífroxar de feição que o fentio 
o Príncipe ; e apertando com elles com 
aquella ira que a lembança das crueldades 
de Tabriz lhe fazia levar, romperam nel- 
les com tanta braveza que foi eípanto, fa- 
zendo nos Turcos taes cruezas , que bem 
fe puderam haver por fatisfeitos das que el- 
les tinham ufado. O Príncipe metteo-fe na 
batalha acompanhado dos principaes; e fez 
taes coufas , que parecia leão faminto ; ô 
foram tantos os mortos, que já eftorvavam 
aos cavallos : aqui mataram ao Baxá de 
Trapizonda , o Sangraço de Burfia , e a 
outros finco Sangraços , e muitos Clauzes , 
que são outras dignidades militares , e fi- 
cou cativo o Baxá de Caramania , e outros 
muitos. Os Turcos vendo-fe perdidos , e 
desbaratados , foram-fe recolhendo pêra ô 

exer- 



Década X. Cap. XIT. 91 

exercito , indo-os feguindo os Perfas até 
perto de fua artilheria , e por anoitecer fe 
recolheo oPrincipe pêra onde eítavaElRey. 
Com eíla tamanha vitoria perdêram-fe na 
batalha alcance de vinte mil Turcos dos 
melhores. 

CAPITULO XIII. 

De como os Turcos fe levantaram de fobre 
Tabriz : e de como o Príncipe da Per- 
Jia de o fobre elles: e da fa mofa vi- 
toria que alcançou : e da morte 
de Ofman Paxá. 

VEndo os Turcos tamanha perda , e 
tanto damno , requereram ao Baxá 
que fe recolheííe , e proveíTe aquelle Forte, 
porque eítava muito mal , e que fe morrefle 
não fe efeufavam diflensoes no campo , o 
que feria caufa de fe perder tudo ; e com 
iíTo lhe affirmáíam os Médicos que eftava 
mal , e elle o fentia , pelo que começou a 
dar ordem áscoufas, eproveo aquelle For- 
te de Capitão, que foi Tafer Eunuco Baxá 
de Tripoli , a quem deo o titulo de Baxá 
de huma das portas do Turco, e lhe aífínou 
doze mil foldados com as vitualhas , man- 
timentos , e munições pêra todo hum an-? 
po , e proveo o forte de muita , e fermofa 

ar- 



9* A S I A de Diogo de Couto 

àrtilheria de bronze. Feito iíto, alevantoir 
feu campo, e começou a marchar até San- 
cozan , que he jornada de duas léguas, ha- 
vendo oitenta e fete dias que dera princi- 
pio a ília jornada. O Príncipe da Períía , 
que trazia grandes vigias nos Turcos , foi 
logo avifado da íua retirada ; e vendo que 
lhe levavam o recheio daquella profpera 
Cidade, e que lhe deixava fobre ella huma 
força feita, determinou de lhe dar hum to- 
que, porque fenao foíTe louvando de todo 
aquelle feito , e ver fe lhe podia aquella 
jornada cuílar ainda mais cara do que o 
tinha feito ; e efcolhendo vinte e oito mil 
cavallos , foi feguindo os Turcos com o 
olho na bagagem, em que hia a riqueza do 
faço de Tabriz com os mantimentos , e 
munições; e tal preíía fe deo que houve vif- 
ta delles a tempo que chegavam a Canca- 
zan , e começavam a alojar ; e fem fazer 
termo algum , os inveílio logo com tanta 
preíTa , que quaíi não lhes deo tempo pêra 
tomarem as armas ; e dando-lhes na bagagem , 
o rompeo de todo , e lhe tomou dezoito 
mil camellos carregados , a maior parte 
dos thefouros , e jóias de Tabriz, e quaíi 
todas as munições, e mantimentos, e tudo 
iíto entregou a hum Capitão Perfa com féis 
mil cavallos , pêra que lhe foííe dando guar- 
da, e com a mais gente commetteo o corpo 

de 



Década X. Ca*. XIIL 93 

de exercito, efez nos Turcos tamanha def- 
truiçao, qye foi efpanto : e como naquelle 
tempo fe eftavam alojando , viram-fe em 
hum mefmo tempo cahirem tendas, e pa- 
vilhões , foltarem-fe cavallos , e fugirem os 
Turcos de huma pêra a outra parte , fem 
acabarem de fe pôr em ordem, nem fefa- 
berem determinar , com o que ficou lugar 
ao Príncipe de fazer a fua vontade em tu- 
do o que deíejava. Efte foi o dia em que 
os Perlas moftráram todo o feu valor , met- 
tendo-fe fem nenhum temor no meio de 
tanto numero de gentes tão bellicofas, fen* 
do tão deíiguaes em numero. Cigala , que 
governava todo o exercito por ordem do 
Baxá, acudio á artilheria ; e porque fenao 
perde/Te tudo, a mandou difparar poríima 
dos feus , que também a fentíram ; o que 
ouvido pelo Príncipe , foi-fe recolhendo 
com algum damno , porque es pelouros 
levaram os amigos, e inimigos tudo de en- 
volta: os Gregos, os de Natolia , e natu- 
raes de Conítantinopla fahíram do exercito 
apôs o Príncipe com tenção de o feguirem 
até lhe tornarem a tomar a preza ; mas for 
breveio-lhes a noite que os obrigou a fe re- 
colherem , e o Príncipe fe foi pêra EIRey 
carregado dos defpojos dos inimigos, dei- 
xando vinte mil delles mortos , com os 
quaes , e com o que lhe matou nos recon^; 

tios , 



94 A S I A de Diogo de Coxfro 

tros , chegaram a fetenta mil homens* Ven- 
do-fe os Turcos fem os defpojos de Ta-* 
briz , e com tantos amigos , e parentes mor-* 
tos , diziam mal do feu Rey , blasfemavam 
deMafamede, e fallavam injúrias publicas 
ao Baxá , que eftava já no cabo , e com o 
nojo deite íucceflb acabou de todo naquelle 
mefmo dia , deixando nomeado em feu lu- 
gar a Cigala , o qual teve em fegredo fua 
morte, porque como hia em carros fecha- 
dos , deixou-o aífim ficar em poder de pef- 
foas de confiança , correndo elle com as 
coufas do exercito , como fe o outro fora 
vivo. 

E porque não fique por dizer a caufa 
da morte deite Baxá , o faremos brevemen- 
te ; pelo que fe ha de faber que o Baxá ti- 
nha hum moço fermofiífimo , de que não 
ufava bem , o qual o Baxá Oíman defejou , 
e lhe pedio , e ainda lho tomou y do que 
elle affrontado teve modo com que o mef- 
mo moço lhe déífe peçonha em fegredo ; 
è tanto que a teve no corpo , logo lhe de- 
ram febres, e humas dyfentérias de fangue 
que em vinte dias o averiguaram. Não dei- 
xou elle de fufpeitar a caufa da fua morte , 
mas diílimulava ; nem ella pode fer em tan- 
to fegredo , que os da fua camera o não 
fufpeitaílem, e começou a haver entre elles 
alguns alvoroços. Com eíta occafião fc ajun- 
ta- 



Década X- Cap^ XIII. 9? 

taram três moços nobres , em que entrava 
o que foi do Cigala , os quaes lhe tinham 
toda a ília recamera em poder ; e aconfe- 
Ihados entre fi , tomaram todos as jóias , e 
pedraria , que era huma coufa de grande 
valor; e poílos de noite em fermoíbs ca- 
vallos, fugiram pêra o Príncipe da Períla, 
que 0$ recolheo , e feftejou muito , e com 
elles foube a morte doBaxá, que deo mui- 
ta alegria a toda a Perlla. Com iíto deter- 
minou o Príncipe de tornar a provar a mão 
com as reliquias do exercito, porque a fal- 
ta de Ofman o fazia já menos forte pelo 
feu grande esforço , e confelho ; e efcolhen- 
do quatorze mil de cavallo , tornou a voltar 
fobre os Turcos , e os alcançou não muito 
longe de Sancazan junto do rio Salgado , 
citando alojados ; o Principe também fe 
alojou d^eítoutra parte do rio com tenção 
de dar ao outro dia no exercito ao levar 
das tendas ; e eftando com eíta determina- 
ção , parece que foi aquella noite tomada 
alguma efpia pelos Turcos , da qual fou- 
beram o que o Principe determinava , por- 
que ao outro dia não fe alevantou o exer- 
cito , como çoftumava , antes mandou pôr 
a todos em ordem de batalha , tendo a ar- 
tilheria leites, e cevada, e depois mandou 
levar tendas, e carregar a fardage. O Prin- 
cipe que não fabia diílo , como foram ho- 
ras, 



$6 ÀSIÀ dé Diogo de Coítto 

ras , pafíou-fe da outra banda do rio perá 
inveftir os inimigos ; e cuidando que eíti-* 
veílem occupados na carga , já os achou 
poílos em armas , de que ficou trifte , por- 
que entendeo que fora o Báxá avifado de 
íeus defenhos , e porque já os não podia 
commetter como lhe pareceo , foi dando 
huma volta ao campo , hum pouco defvia-' 
do do exercito , e tornou a dar nelle por 
huma parte , que ficava defviada da arti- 
lheria. E pofto que pêra aquella parte tanv 
bem havia algumas peças que difparáram , 
vendo os Perfas, foi o Principe tão apreP 
fado no romper, que ficou amparado com 
os mefmos Turcos da artilheria que nenhum 
nojo lhe fez, O Baxá vendo os Perfas in- 
veílirem os feus 3 lançou muita gente fora; 
pêra peleijarem com o Príncipe j mas elle 
íe contentou do damno que lhe fez daquel- 
la pancada , e fe recolheo pêra huma par- 
te , onde havia hum lago fedorentiílimo, 
do qual fahia hum ar peílilencial , que íe 
não fabia fenao dos práticos da terra ; por- 
que fe os Turcos os feguííTem y e deíTem 
naquelle fedor , fe embaraçaífeni pêra elle 
ter tempo de os desbaratar; masMaxatcan* 
e Dautbeo arrenegado (que eram dos que 
fahíram com os Turcos) entendendo a tenção? 
do Principe 5 como homens que fabiam mui-» 
to bem aquelles paíTos 7 mandaram avilb 

ao 



Decjada X. Câp; XIIL 97 

no Baxá Cigala , o qual defpedio outro es- 
quadrão decavdlaria, perà que fofle com* 
metter os Perfas por outro lado. O Prínci- 
pe vendo aquelle foccorro > e que Uie fa- 
ziam roílo; e por outra parte também en- 
tendeo que aquillo fora avifo dos arrene- 
gados , fez final aos feus , e foi-fe retrahin- 
do , o queí não podia fer tanto a feu falvo 
que na alagóa , e atropelados não perdeífe 
três mil Pcrfas. Os Turcos tornáram-fe a 
feu exercito ^ e foram fegúindo feu caminho 
até Salmas , dalli pairaram a Van , aonde 
o Baxá fez alarde* da gente > e« achou oi- 
tenta e finco mil de cavallo menos : de 
Van fe foi a Arzcúe , donde defpedio ò 
exercito , e fe foi a Conítantinopla , e o 
Turco o fez Baxá da primeira Porta > é 
depois o eafou com huma filha fua. 



Couto. Tom. VI. P. li. G CA- 



y$ ASIÀ de Diogo de Couto 

CAPITULO XIV. 

Que dá conta de quem são huns Cafres 9 

que fe chamam Ambios , e Macabires : 
• € de huma pajfagem que os cajados de 

Moçambique fizeram a outra banda pe- 
■ ta darem em hum Forte que lá tinham , 

no qual foram mortos todos os nof 

fos. 

POrque nefte inverno ein que andamos 
aconteceo hum cafo defaílrado aos ca- 
iados de Moçambique , indo dar em huma 
Tranqueira que os Cafres tinham da outra 
banda , fera bem darmos razão deites Ca- 
fres pêra melhor entendimento da hiftoria : 
pelo que fe ha de faber, que pelos annos 
de 1570.- fendo Capitão de Moçambique 
D. Fernando de Monroy , fahíram do co- 
ração defta Ethiopia interior mui grandes 
exércitos de Cafres barbarillimos , e cruéis > 
os quaes como bandos de gafanhotos arre- 
bentaram pelas terras de Monomotapa de 
longo daquella grande alagôa , donde fa- 
hem os rios de Cuama, Zaire, Rapto , e 
Nilo , de que também particularmente te- 
mos dado relação na nofa Década IX. e 
âfíim entrou efquivo , e cruel efte açoute 
bárbaro, que aílblavam tudo por onde paf- 
favam; e por eftes caminhos ie lhe ajuntá- 
• A-3 D \ mm 



Década X* Cirtt %IV* 99 

ram outras duas caílas chamadas Macabi- 
res j e Ambios ; eftes eram os mais deshu- 
manos, por fer o feu mantimento ordinário 
carne de homens , e porque nunca fe íbu* 
be de que parte fahíram , por lerem tão 
bárbaros que de nada davam razão : dei- 
tando noflo juizo , nos parece que defc& 
ram deíla banda vizinha ao Império de 
Aba/Tia > de hum Reyno chamado Ambea i 
do qual o meímo Imperador faz menção 
naquella Carta , que eícreveo a EIRey D* 
Manoel 5 que fe verá na fua Chronica feita. 

Í^or Damião de Góes* e pela grande ferne^ 
hança que eítes Ambeos tem no nome, 
fem dúvida parece daquella Próvincia. 0$ 
Macabires , e Cabires , por abbreviar , de* 
vem de fer vizinhos , pois eftas Nações fós 
fahíram juntas , e confederadas com mu* 
lheres , e filhos , como aquelles que de não 
caberem em fuás terras fahíram a conquiftar 
as alheias ; as mulheres deites fervem ao» 
maridos como as dos Sorfos , acarretando* 
lhes feus fardeis > armas , e mantimentos j 
são todas muito robuftas , muito feias , ç 
de grande trabalho ; eufam também, quan* 
do he neceífario, dos arcos, e de azagaias 3 
em que todas são déftras como os maridos $ 
foram caminhando devagar, como aquelles 
que traziam comíigo tudo- o que tinham .j 
€ tantos , que no lugar em que fe aíTenta* 
G ii vani 



ioo ÁSIA de Diogo de Couto 

vam deixavam os matos defpovoados ', cam- 
pos , e fontes , e em fó dous dias tão fec-* 
cos , e efcaldados todos , como fazem os 
gafanhotos ; e a principal coufa de que por 
eítes caminhos fe fuften taram , foi de carne 
humana , porque por muito povoada que 
foíTe huma aldeia , não bailavam todos os 
feus moradores pêra dous dias ; e depois 
que comiam toda a creatura racional , ter- 
navam-fe aos brutos , e não lhes efeapava 
boi , vacca , bufara , tigre , cobra , cão , e 
todas as mais fevandilhas da terra, de ma* 
neira , que da aldeia donde fahiam 4 não 
deixavam nella memoria que alli foffe já 
povoação , fenão nos montes de oílbs , e 
caveiras que alli ficavam; e ainda paíla fua 
bruteza amais, que fe lhes falta defteman* 
timento por algum deferto , comem-fe huns 
aos outros ; e pode bem fer que pais a fi- 
lhos , ou filhos a pais , porque fempre en- 
cetam os mais velhos, e enfermos, e quem 
não pode caminhar bem. 

A fua ordem militar lie efta : no lu- 
gar, onde fe hão de deter, fazem em mui- 
to breve efpaço pela multidão delles mui- 
tos, e grandes vallos de pedra, terra , e 
arvores , e tão fortes , que podem fuílentar 
qualquer bateria que lhe derem ; ao cami- 
nhar trazem grandes padezes , como os 
Ungaros , que os cobrem todos j e quando 

fè 



Década X. Cap. XIV. ior 

fe querem fortificar , põem por força todos 
eftes apadezados, e fazem delles huma cer- 
ca tamanha, que todos os mais ficam delia 
pêra dentro amparados das frechas , e aza- 
gaias dos inimigos : nefta ordem entraram 
pelas terras do Monomotapa da banda do 
Borroro , que he aquella que fica entre o 
rio de Cuamá , e o Rapto , que vai íahir 
aMelinde, onde ha muitos, e grandes Rey- 
nos , como na defcripção daquellas partes 
da Cafraria fe verá na noíTa Década IX. c 
aífim foram ter até ás terras deTeti, onde 
eítá o Forte , de que eftava por Capitão 
Jeronymo de Andrade, muito valente Ca- 
valieiro , e muito temido de todos aquelles 
Cafres , o qual fabendo que alguns daquela 
las companhias andavam defmandados por 
aquellas terras , defejando de os enxotar, 
mandou alguns Portuguezes de efpingardas , 
e com elles alguns Cafres da terra, os quaes 
deram nelles ás efpingardadas , coufa tão 
nova pêra eiles , que quando viram cahir 
os feus mortos , fem os noílbs chegarem 
a elles , houveram que era algum grande 
modo de feitiçaria , com o que fe desbara- 
taram , e foram fugindo , ficando alguns 
mortos, e cativos. Pouco depois diílo , fa- 
bendo o mefmo Jeronymo de Andrade que 
Eelas terras de hum fenhor chamado Váda- 
oco, amigo dos Portuguezes , que eftam 

jun- 



|A§ ÁSIA PE DíOGO DE COTTTO 

junto do rio Mangaya , andava huma ca* 
bilda de dez , ou doze mil homens deites 
Cafres , deftruindo , comendo , e aíTolando 
tudo, ajuntando çem Portuguezes , e perto 
de quatro mil Cafres botoagas , que os Reys 
vizinhos lhe deram , fahio em bufca delles 
mui bem apercebido; e chegando alua vifi 
ta, achou-os dentro naquelias fortificações 
que fazem , a que ellcs chamam Chumbo , 
è foi-os commetter com grande determina-» 
ção. O Capitão dos Cafres , que fe chama-» 
^aSonza o Buço, vendo a pouquidade dos 
U.oflbs , diíTe pêra os léus : Inhama , que na 
íua língua he aqui temos carniça , cuidando 
que nos noílbs tinham matalotaje pêra a^ 
quelle dia, Jeronymo de Andrade arremet- 
teo com os Cafres , e lhes deo algumas fur-* 
riadas de arcabuzaria, de que lhes derribou 
piuitos dentro das fuás terças , de que to-? 
dos ficaram pafmados verem cahir osíeus, 
eílando os noííos tão longe ; e largando 
tudo, puzeram-rfe em fugida, e dalli logo 
lhes foi dar em outro Forte , em que eíhn 
vam outros , nos quaes fez grandes deftruw 
ções e lhes mataram finco mil ; e affím eftes 
que, aqui efcapáram 9 como os mais que 
adiante hiam , foram atraveflando as terras 
até chegarem ao Certão de Moçambique , 
e todas as Povoações que por alli haviam 
derruíram ^ e desfizeram 3 nao geando me* 

ino* 



Década X. Ca?. XIV. 103 

moria de coufa alguma , o que os de Mo 
çambique fentíram bem , porque logo co- 
meçaram a faltar as gallinhas , frangãos ^ 
ovos, e mais coufas , de que fe todos fuf- 
tentam,, que daquella parte lhes hia ; e pare- 
cendo bem a terra a eftes bárbaros ,. deixá^ 
ram-fe ficar nella huma cabilda de ÍInco * 
ou féis mil y de que era cabeça hum Cafre 
chamado Mambeca , que fez povoações trin- 
ta léguas pelo Certao, e começou a gran- 
gear aquellas terras , que ficaram defertas 
de feus naturaes , e dalli foram defcendp 
até ás praias de Moçambique , e duas lé- 
guas no Certão ordenaram villas , e povoa- 
ções , e ficou alli hum fobrinho do Marti-* 
beca , chamado Maarvea , comendo todas 
aquellas terras ; e hum Capitão feu chama- 
do Odeburi com huma cabilda fe chegoii 
mais ás fazendas dos Portuguezes , que fe 
eítendem por aquelía fralda do mar da ou- 
tra banda , e alli fez hum forte , em què 
fe agazalhou , e começou a comer as terras^ 
e a totalmente faltar tudo em Mocambi- 
que ; e porque dahi fahiam a dar aílaltos 
nas fazendas dos moradores neíle anno de 
^o^. em que andamos, ajuntáram-fe a mor 
parte delles , fendo Nuno Velho Pereira > 
que era Capitão em Cuamá , e paliaram- fe 
á outra banda pêra irem deitar dalli aquel^ 
les Cafres paliados de quarenta com feus 

ef- 



104 A SI A de Diogo de Couto 

efcravos , e outros que da cutra banda fc 
lhe ajuntaram, com que fizeram hum arra- 
zoado corpo de gente , e elegeram por Ca-* 
pitão hum foldado chamado António Ro- 
drigues Pimentel , homem esforçado, mas 
defcabeçado, e de pouco governo; e da&* 
do na tranqueira de Buiy , a entraram, 
lendo o primeiro António Rodrigues , que 
logo foi morto ás azagaiadas ; mas também 
Odebury o pagou com a vida , e com 
as demais de cento dos feus , que lhe os 
noííos mataram, e os mais largando o For- 
te fe acolheram : os noííos queimaram tu- 
do , e f e foram recolhendo bem defcuida* 
dos dos Cafres poderem voltar fobre elícs , 
como logo fizeram ; e como não levavam 
guias, foram -achando-os divididos por en-* 
tre os milharís ; e dando fobre elles , 09 
foram matando ás azagaiadas , fem elles fe 
poderem defender , não efcapando d elles 
mais de três , ou quatro , que fe embrenhar 
ram , os quaes foram ao outro dia a Mor 
çambique , e logo fe foube a defaventura, 
com o que fe poz a povoação em hum ge- 
ral pranto , porque acabaram alli a mor 
parte dos feus moradores. Os Cafres de- 
pois de matarem todos , recolheram os cor- 
pos , e foram comellos da outra banda de 
Moçambique , onde depois fe acharam as 
jnaos , pés y e cabeças , de que fó comem 



Década X. Cap. XIV. ia5r 

os miolos, bem diíFerentes nifto dos anti- 
gos naturaes de Jucatan , e de outras na- 
ções da nova Hefpanha, quando fe defcu- 
brio que o melhor bocado pêra elles eram 
os pés , e mãos , fegundo conta Valdez na 
lua Hiftoria Geral das índias Occidentaes. 
Com efte açoute bárbaro ficou Moçambi- 
que padecendo falta de tudo , porque da 
outra banda da terra firme , que he muito 
profpera, lhehia tudo; mas depois tornou 
a feu fer. 

Ha daquella banda nas fazendas que 
Já tem os cafados as melhores frutas de ef- 
pinho da Europa, e mais viçofa hortaliça 
que fe pode ver; tem romans , limas, la- 
ranjas , abobaras, melões , patecas , toda a 
caça de porcos , veados , tigres , bufaros , 
c vaccas do mato, gazelas, zeveras , infini- 
tos elefantes , muitas gillinhas , frangaos , 
ovos, muitos legumes, e o principal muita 
quantidade de milho, de que toda a terra 
fe fuílenta : dão aqueiles matos o pão pre- 
to tão prezado na Europa pelas obras que 
delle fe fazem , porque em lua efpecie.são 
tão lizos , polidos , e fermofos , como as 
de marfim na fua : são eílas arvores mui 
altas, e frondofas, as folhas são pequenas, 
e quafi que querem pareòer ás dos noífos 
pereiros , dam huns frutos redondos , e 
pequenos comoíbrvas, quç fenão comem: 

to- 



io6 A SI A DE Diogo de Cóíjt® 

toda efta arvore de pé atéfima he tão eh eh 
de efpinhos , que parece coufa impoííivei 
poder-fe cortar , e pcra iffo fazem humas 
Foices roíFadouras mui compridas, com as 
quaes os cortam , e com ella os affaílam 

Í)era chegarem a cortar a arvore, enaquelle 
ugar nunca mais nafce outra. Ha também 
outras arvores , que dam o páo muito ama- 
rello , de que fazem muitas obras : a coi> 
tiça da arvore páo preto he delgada, e tem 
tal natureza que qualquer pequena faifca 
que lhe toca accende tamanha lavareda , 
como em huma muito fubtil ifca, ehe baf- 
tante pêra queimar toda huma arvore , for 
gundo alguns cafados dalli nos affirmáram, 
que o viram fazer , por onde parece que 
deve de fer muito boa a cortiça pêra fazer 
pólvora : acha-fe na ponta de Tintagone 
Mauna excellente , o qual aquelles mora- 
dores de Moçambique vieram a conhecer 
pelo efFeito ; porque os léus Cafres , que 
hiam lá bufcar agua, achando aquella cou- 
fa branca , ou loura , como ella he , por 
lima das arvores pequenas, a comiam , e 
com ella lhe davam grandes dyfenterias, 
e enfacando ifto , mandaram trazer a que lá 
comiam, e acharam fer a Mauna; mas na 
Ilha Amifa , huma das do Cabo Delgado , 
ha muito boa , e em muita quantidade, 
não he tão alva y como a que vem por via 

da" 



Década X Cap. XIV, 107 

daPerlIa de muitas partes, e a trazem em 
frafcos , embrulhada em farinha de cevada 
3era vir confeitada , mas he hum pouco 
oura, mais groíla , e mais doce ; e quem 
er Hippocrates , onde trata das difFerenças 
dos Maunas , fallando na da Calábria , e 
Magna Grécia, que diz fer melhor que to* 
das as mais , trata também de huma Mau-? 
na- loura , fem dizer donde he , por onde 
parece que já em feu tempo havia noticia 
delia. Alguns Médicos que foram a Mo- 
çambique, que viram com experiência feus 
efFeitos , a achavam melhor que a outra 
de Ormuz ; e affirmavam que huma onça 
delia fazia mais operação que huma e meia 
da outra. 

E porque não paíTemos pelos Tuba* 
rões do rio de Moçambique, diremos deí- 
les algumas coufas notáveis que alli foube* 
mos de Mouros muito práticos , e antigos 
na terra. Eftes monítros do mar são em 
todas as partes tão nocivos, e cruéis, como 
os Cocodriios do Nilo , e aqui em Mo- 
çambique fe notou ifto ; mas pelo grande 
eílrago que tem feito por entre aquellas 
terras, porque não apparecia peíToa abor- 
da da agua , nem lançava a mão fora da 
Almadia , indo pelo mar , que logo não 
foíTe tragada ; e hum Mouro velho nos af- 
firnuou que em feus dias fe tornara dentro 

na- 



ro3 ÁSIA de Diogo de Couto 

naquella bahia hum Tubarão em hun.s la- 
ços , que era a mais façanhofa coufa que 
Fe vira , o qual trazia as orelhas furadas 
com humas argolas de ouro, por onde, fe 
affim foi , lançando noflb juizo , deviam 
de ter tomado aquelle Tubarão algum dia, 
e encantarem-no com algumas palavras , e 
feitiços pêra lançar os Turcos fora daquella 
bahia : e coufa he poffivel , porque todos 
aquelies Cafres communicam com os dia- 
bos , e são mui grandes feiticeiros , e en- 
cantadores. E quaíi outra femelhante a eíta 
fe conta dos Cocodrilos do Nilo , como 
affirma hum Arábio douto , chamado Me- 
thuda , em hum Tratado que fez das cou- 
fas admiráveis dos tempos modernos , no 
qual diz \ que quando Humeth filho de 
Thaulm , que foi Lugar-Tenente do Egypto 
da mão de Gisbara Mutanihil , Pontífice 
de Bagdad , o anno da Legira de Mafa- 
mede de 270. que são da nolTa Redempçao 
de 863. que fe achara hum Cocodrilo nos 
fundamentos de hum templo dos antigos 
Gentios Egypcios , com humas letras feitas 
debaixo de certas conftellaçoes contra o mef- 
mo Cocodrilo , o qual o Lugar-Tenente 
mandou fundir, e desfazer, eque daquella 
hora em diante começaram os Cocodrilos 
no Nilo a fazer grande eftrago em toda a 
gente que achavam pelas ribeiras ., havendo 

mui- 



Década X. Cap. XIV. 109 

muitos annos que andavam domeíticos , c 
que não faziam damno a ninguém , por onde 
parece eíforem até então encantados. He 
também muito averiguado que eftes Tuba- 
rões de Moçambique não fazem damno ás 
mulheres > porque todos os dias andam 
pela agua muitas a pefcar r enao entendem 
com ellas, acontecendo já alli Jevar huma 
hum filho macho no colo , e o Tubarão 
levallo , e deixalla a ella ; as razões difto 
nos não fouberam dar aquelles Mouros, 
nem nós as queremos difputar , fique pêra 
os Filofofos pêra terem em que fe occupar* 

CAPITULO XV. r 

Das revoltas que ejle anno houve no Reyno 
de Nizamoxá : e de como alguns Capi- 
tães daquelle Reyno fugiram pêra o 
Mogor , e mettêram Jèus Capitães 
no Reyno de Verara. 



N 



A Década IX. temos contado larga- 
mente como oAcendicham trazia fe- 
chado EIRey Nizamoxá , e mettido em 
carros , por fer doente do mal de S. La- 
zaro, ficando elle governando abfolutamen- 
te tudo , como fe fora Rey , o que durou 
muitos annos \ fem os vaílallos faberem fe 
o feu Rey era vivo j ou morto ? vivendo 

to- 



no A ST A de Diogo de Couto 

todos debaixo do mando , e governo da-» 
quelle tyranno. Ifto foi tão máo de íbffrer 
a alguns Capitães , que ajuntando fuás geií- 
tes , foram-íe á Fortaleza de Junor , onde 
eítava prezç Barambá irmão de EIRey , 
como na DeCada VIII. melhor fe verá , e 
o foltáram , e fe lhe oíFerecèram ao acom- 
panhar naquella jornada , pedindo-lhe que 
foíTe de Amadanager , e que obrigaíTe ao 
Acedechan a moftrar-lhe EIRey feu irmão ; 
e que fendo morto , como fe fufpeitava , 
que logo o alevantariam por Rey , pofto 
que o irmão tiveffe filho. Chegado Bora- 
moxá aos campos d 5 Amadanager com três 
mil cavallos , e dez mil de pé , mandou 
dizer ao Acedechan que vinha alli , fó pêra 
faber fe EIRey fey irmão era vivo , e fá-? 
zer-lhe feu acatamento , como a feu Rey. 
O Acedechan , fem lhe mandar refpoíta , 
poz EIRey allim enfermo em hum cavai- 
lo , e fahio ao campo com toda a gente 
da Cidade poíla em armas , e com os Ca- 
pitães que leguiam o feu bando , e foi ar- 
remettendo ao Baxá Moxa , que conheceo 
EIRey , e vio que era vivo ; e entendendo 
os peníamentos do Acedechan , quiz dar 
lugar á fua ira , e foi-fe-lhe recolhendo, 
jnoítrando niílo grande obediência a EIRey 
feu irmão ; e como elle fe foi retrahindo 
a modo de fugir y todos os feus fe derra- 
ma* 



Década X. Ca?. XV. iii 

ttiáram , porque o Acedechan mandou fe- 
guir o alcance. OBoramoxa por recear tor- 
nar a cahir nas mãos do irmão , fe paflbu 
ao Reyno do Mogor , e alguns Capitães 
fe paííáram ao Idalcão ; mas a mór parte 
veio deícendo a banda deBaçaim, eChaul. 
Defte desbarate foi avifado D* Paulo de 
Lima , Capitão daquella Fortaleza , e de 
como defciatn muitas gentes pêra baixo : 
receando que aquillo foííe algum ardil d' 
Acedechan , ou dos Capitães fugidos pêra 
lhe tomarem a Cidade, acudio a fortificai- 
la , e a provella de guardas \ e vigias , e 
lançou efpias pêra faber o que aquillo era ; 
mas os que vieram abaixo chegaram tão 
perdidos , e desbaratados , que era mais 
pêra haver dó delles que pêra os recear y 
porque pelos palmares, e hortas deChaul, 
e de Baçao morreram muitos de fome , e 
outros fe paífáram a Cambaya. Paffado eíte 
negocio , tomou o Acedechan por compa- 
nheiro aCalabatecam, o qual como era fa- 
gaz , e prudente , reinou logo a íyrannia \ 
e tal manha fe deo , que prendeo o Ace- 
dechan , e ficou íó com o governo , e com 
o pobre Rey doudo, e lazaro fechado de- 
baixo de fua chave ; e não parando niíTo 
fua ambição , tratou de fe fazer Rey , e 
pêra iíTo proveô as Fortalezas principacs 
de Capitães de fua obrigação , e creação-, 
m e i^el- 



IT2 ÁSIA de Diogo de Couto 

e nella inetteo mantimentos , munições , € 
gente baftante pêra tudo ; e porque em to* 
do o Reyno não ficava de quem íe poder 
temer, fenão deZaideMortaza , que eítava 
por Governador no Reyno de Barata, tra^ 
rou de o tirar dalli, e de pôr outro de fua 
cevadeira , e prover as Fortalezas daquelle 
Reyno em outros Capitães de fua obriga-* 
cão. Difto foi avifado o Zaide Mortaza 
com todos os Capitães daquelle Reyno; e 
aconfelhando-fe todos , alíentáram de irem 
á Corte , e faberem de EIRey o que de- 
terminava delles ; porque fe aquillo era fó 
por ordem do Calabatecan, elles não efta- 
vam obrigados a lhe obedecerem , eaprom* 
ptando quinze , ou vinte mil de cavallo , fo*- 
ram-fe a Amadanager, e aífentando fora a 
feu arraial , mandaram dizer a EIRey que 
vinham a obedecer , e a faber fe os man- 
dava elle depor de feus cargos j porque f<t 
aquillo era ordem de Calabatecan , que era 
bem o foubelTe elle. O Calabatecan toman^ 
do fora o recado pêra EIRey , receando-fe 
que por alli fe vielle a defcubrir fua tyran- 
nia , ordio outra tea muito mais bem in- 
trincada , que foi fazer crer a EIRey que 
aquelles Capitães vinham alterados , e com 
tenção de o depor do Reyno, que o bom 
feria rnandar-lhe dar batalha pelo Príncipe 
feu filho ^ no que elle confentio y o íàhÍQ 

o 



Década X. Cap. XV* 115 

o Príncipe fora com as inílgnias Reaes , e 
com ellc o mefmo Galabatecão ; e fem es- 
perarem razão , nem os outros faberem o 
que paílavam, remettêram a elles pêra lhe 
dar batalha. Vendo aquellcs Capitães o 
Príncipe , e as iníignias Reaes , não quize- 
ram defender-fe delle , e foram-fe pondo 
em desbarato , e como pouco havia o fize- 
ra o Boramoxa , e alguns fe pairaram ao 
Idaixá, e o Ceide Mortaza com outros pê- 
ra o Mogor , onde eftava o Boramoxa , e 
lhe tinha dado terra, e rendas pêra fe fuf- 
tentar ; e affim deo outras ao Ceide Mor- 
taza , e aos mais Capitães. Magoado oCei* 
de Mortaza da tyrannia do Calabatecao , 
offereceo-fe ao Mogor ao metter de poííe 
dos Reynos de Decan , e que pêra entrar 
nelles lhe era forçado tomar o Reyno de 
Verara , que elle lhe entregaria facilmente 
E como o Mogor era cubiçofo , e trazia 
ha muitos annos os olhos neíles Reynos , 
acceitou-lhe os oíFerecimentos , e mandou 
com elle a Gecorcan feu colaço , e Na- 
ranchan feu Primo co-irmao com dez mil 
cavallos pêra irem com o Ceide tomar o 
Reyno de Verara 5 e com eíte poder entra- 
ram pelo Reyno do Mirão , que era da 
caíla dos antigos Reys de Cambaya , o 
qual acudio a defender os paffos • e depois 
de terem muitos encontros 7 entráram-ihe 
Couto. Tom. VI. P. li. H os 



H4 ÁSIA de Diogo de Couto 

os Mogores as terras , e lhe tomaram mui- 
tas Cidades , e Villas , e pafíaram ao Reyno 
de Verara , do qual fe mettêram de pofle , 
deftruindo , e roubando todas as Cidades , 
e Villas. Eílas novas chegaram ao Calaba- 
tecao , que logo defpedio todos os Capi- 
tães que tinha em Madanagor pêra irem 
favorecer aquelle Reyno , e deitar os Mo- 
gores fora , o que não puderam fazer , por- 
que já eftavam muito poderofos. D.Paulo 
de Lima , Capitão de Chaul , que não eíta- 
va naquella Fortaleza defcuidado, teve lo- 
go recado de todas eftas coufas ; e enten- 
dendo bem quão grande mal feria mette- 
rem os Mogores pé no Reyno de Verara, 
porque depois fer-lhes-hia muito fácil con- 
quiílar alli todo o Decan , defpedio hum 
Correio muito apreífado ao Calabatecao , 
pelo qual lhe efcreveo , que aquelles Capi- 
tães que defpedia pêra Verara não era de 
parecer que os apartaíle de íi , e que tra- 
taífe de defender o Reyno de Amadana- 
gor , que era o principal, e que mandaífe 
convocar todos os mais Reys do Decan, e 
que fe ajuntaíTem todos pêra contraftarem 
aos Mogores ; porque fe fe defcuidavam , 
que lhe fazia a faber como Capitão velho , 
e experimentado, que fe havia o Mogor 
de fazer fenhor de todos aquelles Reynos, 
porque era hum fenhor muito poderofo , e 

am- 



Década X. Cap. XV. n? 

ambiciofo, eque não havia de perder occa- 
íiao nenhuma j e que fe para defensão da- 
quelle Reyno lhe foíle neceflario feu fa- 
vor , e ajuda , que elle fe partiria logo 
com quinhentos Portuguezes , porque aífim 
o haveria por bem o Vifo-Rey da índia pe- 
la amizade que entre EIRey de Portugal, 
e o feu havia. A eftes cumprimentos re- 
fpondeo Cabalatecão com roncas , dizendo 
que elle fó bailava pêra ir tomar o Mogor 
peJa barba ; e aífim. como D. Paulo o adi- 
vinhou , aífim fuccedeo , porque eíles Mo- 
gores deram pelo tempo em diante ao Ef- 
tado da índia muitos trabalhos , e enfada- 
mentos pelo defcuido com que aquelles 
Reys fe deixaram eftar. Deita vez não fi- 
caram aqui os Mogores , porque os man- 
dou chamar EIRey , pelo que fe recolhe- 
ram carregados de defpojos , e riquezas. 

CAPITULO xvr. 

Das novas que chegaram ao Vifo-Rey do 
Norte : e de como mandou lá Ruy Go- 
mes da Grani com huma Armada :- 
e de outras que mandou pêra 
o Sul , e pêra Malaca. 

DE todas eftas coufas fuccedidas naquel- 
les Reynos do Decan avifou D. Paula 
de Lima, Capitão de Chaul 5 ao Vifo-Rey 

H ii na 



n6 AS IA dè Diogo de Couto 

na força do inverno; e depois entrada de 
Agoílo lhe efcreveo como o Agicorá fe re- 
colhera do Reyno de Verara viétoriofo , e 
que ficava em Baroche com quinze mil 
homens de cavallo , fem faber o que de- 
terminava : e que eftar aquelle Capitão com 
tanta artilheria tão perto de Damão , que 
era vizinhança fufpeitofa y e muito pêra fe 
recear , por quão mal era de foffrer ao 
Hecbar navegarem fuás náos com laivo 
conduílo de outro Rey, havendo elle que 
no mundo era hum fó , como o feu nome 
o declarava. Efte mefmo avifo teve oVifo- 
Rey do Capitão de Damão , pelo que lhe 
oareceo neceífario acudir ao Norte com 
jurna Armada boa pêra aquentar aquellas 
fortalezas, e acudir aonde lhe foíTe necef- 
fario ; e juntamente com ifto teve cartas 
de Negapatao por terra , pelas quaes fou- 
be invernar naquelle porto hum Junco da 
China , e que os Mercadores delle trata- 
vam de logo em Setembro baldearem as 
fazendas delle em navios de remo pêra as 
levarem a Goa a pagar feus direitos , do 
que já havia avifo no Malavar ; e que no 
rio de Cunhale*fe armavam alguns navios 
de coifados pêra os irem efperar. Com ef- 
tas mefmas cartas teve outras de Malaca 
pelo mefmo Junco , nas quaes o certifica- 
vam quç o Rajale Rey de Jor bulia com- 



Década X. Cap. XVL 117 

ligo, que fazia preftes humas Armadas ; pe- 
lo que foi forçado ao Vifo-Rey acudir a 
todas eftas couías , porque lhe não aconte- 
ceííe hum defaftre por defcuido : e aíTim 
elegeo pêra mandar ao Norte Ruy Gomes 
da Gram com dezoito navios , e António 
de Azevedo com dez pêra le ir pôr no 
Cabo de Comorim , e efperar as fazendas 
do Junco , e dar-ihe guarda até Goa. Eftas 
duas armadas defpedio em hum dia a 16. 
de Agoíto , e a Ruy Gomes deo grandes 
poderes , como Capitão Mor do mar , em 
quanto andaííe por aquella cofta do Norte, 
e a qualquer outra que paíTafle por aquel- 
la cofta do Norte; e os Capitães, que fo- 
ram em fua companhia , são os feguintes : 
Ayres da Silva , D. Miguel de Caftro, 
D. Gileanes de Noronha , Triftão Vaz da 
Veiga , Fradique Carneiro , Francifco de 
Souía Rolim , Chriftovao Rebello , João 
Cayado de Gamboa , Francifco Pereira , 
Gafpar Fagundes , Pedro Vaz , Domingos 
Alvares ; e os quatro navios que faltavam 
pêra a copia dos dezoito , levavam Provi- 
sões pêra em Chaul os armar , e pêra fa- 
zer Capitães D. Luiz Lobo , António Gon- 
falves de Menezes , Diogo Reinofo de 
Soto-maior , e Francifco Pinto Teixeira. 
António de Azevedo levou fó quatro na- 
vios ? Capitães João de Paiva , Fernão Pe- 
ga- 



n8 ÁSIA de Díogo de Couto 

gado , Alberto Homem da Coita , e o feu , 
e Provisão pêra em Cananor tomar outros 
quatro que alli invernáram > de que era 
Capitão Belchior Barbofa , e hum genro 
feu , a que não fabemos o nome , Pedro 
Rodrigues , e Manoel Caldeira Malavares , 
e pêra armar em Cochim mais dous na- 
vios pêra prefazerem o numero dos dez. 
Defpedidas eftas Armadas , entendeo o 
Vifo-Rey na que havia de mandar a Ma- 
laca , e alfentou-fe em Confelho que foliem 
dous Galeões pêra andarem no eítreito de 
Sincapura , porque eftes bailavam por eq- 
tao ; e que fe em Março houveíTe novas 
certas de alguma alteração, então fe podia 
prover melhor; ç pêra efta jornada elegeo 
D. Manoel Pereira , e com elle Jeronymo 
Pereira , hum Fidalgo baftardo feu paren- 
te , e mandou o Vifo-Rey pagar duzentos 
homens , e embarcar nos Galeões muitas 
munições , e mantimentos ; e como lhe o 
tempo deo jazego , fe fez á vela , e da fua 
viagem adiante daremos razão, porque he 
necefíario continuarmos com Ruy Gomes 
da Gram, e com António de Azevedo. 

Partido Ruy Gomes da Gram de Goa 
com regimento que fefoííe pôr na enfeada 
de Cambaya , onde fe deixaria eftar com 
efpias em terra pêra faber da determinação 
dos Mogores , e pêra efperar as náos de 

Me- 



Década X. Cap. XVI. 119 

Meca fem cartazes ; e que fentindo algum 
movimento nos Mogores , fe iriam metter 
em Damão , e daili o avifaíTe com muita 
preíTa das coufas que fuccedeíTem. Ao pri- 
meiro dia da fua jornada , por fer ainda 
muito cedo , e o tempo fer muito verde, 
lhe deo hum Oes^Noroeíte tâo rijo , que ihe 
foi forçado voltar em poppa pêra o Sul, e 
correo com elle até á coita do Canará ; e 
achando-fe nella , pareceo-lhe bem vifitar 
aquellas Fortalezas , como fez , e nellas fe 
deteve em quanto o tempo lhe não deo 
lugar pêra tomar a fua viagem , da qual 
adiante daremos razão. 

António de Azevedo , por lhe fervir 
o tempo , foi correndo com eile até Cana- 
nor, onde fe deteve, era quanto os quatro 
navios que havia de levar, fe negociavam ; 
e por eípias que mandou ao rio do Cunha- 
le , teve recado certo como fe tornaram a 
defarmar os pardos, por haver. já lá novas 
da vinda daquella Armada, com o que lhe 
pareceram aquelles quatro navios efcufa- 
dos , e os deixou fobre a barra do Cunha- 
le pêra defenderem a fahida a alguns cof- 
fairos , fe quizeíTem fôhir a roubar as em^ 
barcaçóes que naquelles portos vajn carre- 
gar de arroz , e aos portos do Canará , em 
quanto as noílas Armadas não fahem de 
Goa , com o que fe provêm pêra todo o 

an- 



120 ÁSIA de Diogo de Couto 

anno. E paflando António de Azevedo a 
Cochim, tomou os dous navios que levava 
por regimento , e foi-fe na volta do Cabo 
de Comorim a efperar os navios de Ne- 
gapatão , e de outras partes pêra os reco- 
lher; e do que lhe aqui fuccedeo adiante 
daremos razão. 




DE- 



121 

DÉCADA DECIMA 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO VIL 



CAPITULO I. 

Da Armada que efle anno de i$ 8 c. par tio 
do Reyno , de que erq Capitão Mor Fer- 
não de Mendo ç a : e do novo contrato que 
EIRey fez ejle anno da pimenta : e do 
que aconteceo a todos na jornada : e de 
como Fernão de Mendoça fe perdeo nos 
Baixos da Índia. 

POrque eíle anno de 585*. fe acabou o 
contrato da pimenta , que EIRey D. 
Sebaftiao tinha feito com Diogo de 
Caftro j e outro por tempo de três annos , 
mandou EIRey D, Filippe fazer outro de 
novo com João Baptifta Ravelhafco , como 
Procurador dos Bolfares d 3 Alemanha , o 
qual contrato fe fez por tempo de finco 
annos, com cilas condições. 

Que os contratadores feriam obriga- 
dos a mandarem todos os annos cabedal 
pêra na índia íe comprarem trinta mil 

quin- 



122 AS IA de Diogo de Couto 

quintaes de pimenta, equeElRey lhe man~ 
daria dar por empreftimo a valia de finco 
contos de juro na Alfandega de Lisboa ; 
e que a quarenta mil cruzados por conto , 
como então valia , montavam duzentos mil. 
Que os contratadores dariam a EIRey a 
pimenta pezada na cafa da índia por en- 
trada a doze cruzados o quintal ; e elle lhes 
pagaria quatro de fretes por cada hum , e 
lhes daria dous e meio por cento de que- 
bra, 

E que além deitas coufas lhes daria EI- 
Rey, em quanto duraffe o contrato , tre- 
zentos quintaes de drogas forros dos direi- 
tos ; e porque ainda o contrato das náos 
corria por Manoel Caldeira , mandou elle 
correíTe depreda com as que eftc anno ha- 
viam de partir pêra a índia , que eram fin- 
co > conforme o contrato das quaes cabia 
a Capitania Mor a Fernão de Mendoça , 
e a dez de Abril fe fizeram a vela, o Ca- 
pitão Mor na náo Sant-Iago , e os mais 
Capitães Diogo Tavira em S. Francifco , 
Miguel de Abreu na náo Salvador , André 
Moreira em Santo Alberto , e Fernão Cot- 
ta Falcão em S. Lourenço. Foi mais neíta 
companhia o Galeão S. Pedro > Capitão João 
Gago de Andrade , que havia de ir carre- 
gar a Malaca. Deitas náos arribou logo 
João Gagp de Andrade ao Reynp , e as 

mais 



Década X. Cap. I. 123 

mais foram fua derrota até paíTarem o Ca- 
bo da Boa Efperança : a náo Capitânia a 
11. de Julho , e as cutras mais cedo: a náo 
Salvador arribou , e chegou o derradeiro 
de Agcfto : a náo S. Francifco foi tomar 
Goa: a náo Santo Alberto foi ter a Manar, 
como depois diremos : a náo S. Lourenço 
foi tomar Cananor em 21. de Novembro, 
e em Dezembro chegou a Goa. A Capitâ- 
nia, tanto que paíTou o Cabo da Boa Efpe- 
rança , tomou derrota por dentro , e na 
terra do Natal achou tantos contraftes , e 
tormentas , que os deteve até 13. de Agofto , 
quando as outras partem de Moçambique 
pêra a índia , de que todos começaram a 
defconfiar; e fendo quinze de Agolto, lhe 
deo hum vento em poppa , bonançofo , 
com que foram fazendo fua viagem com 
grande alvoroço, e aos 18. do mez toma- 
ram o Sol , e acháram-fe em vinte e hum 
gráos e hum terço na altura dos baixos da 
índia , o qual o Piloto , que era Gafpar 
Gonfalves, fazia vingado por noite ; por- 
que como o meio delle eftá em 21 gráos 
e meio, o que ficava do dia (por levarem 
vento tezo, e em poppa) haviam que baf- 
tava pêra o deixarem por ré ; mas como 
fó Deos he o que fabe tudo , não fó fe 
enganou o Piloto em feu Sol , e em fua 
eftimativa, mas ainda enfurdeceo pêra não 

ou- 



124 ÁSIA de Diogo de Couto 

ouvir os brados de hum marinheiro , 1k> 
mem havido por experto no Sol , que bra- 
dou muitas vezes que o baixo eítava por 
proa , porque elie tomara mais altura : que 
o bom feria que aquella noite tomaíTem o 
rumo por outra via, e que governaíTem a 
quarta de Leite pêra fe aftaílarem da Ilha, 
porque vento levava nas velas pêra tudo j 
e como os Pilotos deita carreira fe tem por 
deofes do mar, e cuidam que fabem mais 
que todos os homens nobres , e paífagei- 
ros , a quem a natureza deo melhor enten- 
dimento que o feu , e carteam , e tomam 
o Sol bem como elles , por ventura que 
alguns melhor, poíto que fe não nega que 
no curfo dos tempos , e na arte da marea- 
gem fejam elles mais expertos pelos muitos 
annos que tem de curfo deita carreira; af- 
fim eíte , por muito que o marinheiro bra- 
dou , e gritou, não foi ouvido, nem o Ca- 
pitão Fernão de Mendoça fez niflb nada 
por não aggravar o Piloto , que pela ven- 
tura , fegundo elle o trazia mal acoítuma- 
do , lhe refpondêra , como todos fazem , 
que não faliam no feu governo , e alTim fe 
deixou ir ao rumo em que hia até á noite , 
em que cuidou ter deixado abaixo a Luef- 
te , fendo obrigação fua tomar as velas , 
como lhe alguns pediram , o que elle não 
quiz fazer de confiado , ou de teimofo \ 

mas 



Década X. Cap. I. 12? 

íhas o Meftre da náo, que era bem atten- 
tado , e muito vigilante , tanto que anoi- 
teceo , mandou a alguns marinheiros de 
mais confiança que fe foíTem ao goropés 
da náo , e que vigiaíTem o baixo , como 
clles fizeram; e fendo meio quarto de pri- 
ma rendido , viram por proa hum femblan- 
te; e como a noite era efcura, não fe fe- 
guráram no que viram , e na detença que 
fizeram em praticar huns com os outros , fe 
feria aquillo nuvem , fe baixo , foi a náo 
aílim infunada com todas as velas dar nelle 
de meio a meio ; porque como Deos tinha 
determinado que fe perdeífem nelle, tapou 
a boca a todos pêra não bradarem em ven- 
do o femblante, porque ao primeiro bra- 
do arribara a náo , e afFaítara-fe de baixo ; 
mas os peccados de alguns , ou os juílos 
juizos de Deos, elle fabe o porque, orde- 
naram que fe detiveflem os marinheiros 
aquelle breve intervallo que houve entre 
ver o balcão , e a náo varar ; e como a- 
quella parte onde deo he cortada a pique 
pêra baixo , deo a náo no beiço do baixo , 
que era de pedra , e com a força com que 
hia , que era muito grande , aífim a foi 
cortando , como fe a ferraram com hum a 
ferra , ficando o porão com a derradeira 
cuberta em baixo , e tudo o mais que he 
pêra fima ficou fobre aterra cora os maftros 

em 



126 ÁSIA de Diogo de Couto 

em pé, que também fe cortaram como de 
ferra, e com a força do vento correo por 
íima daquella penedia por comprimento de 
oito braças , e alli encalhou ; e porque o 
niaftro grande fe entortou , acudiram ao 
cortar, porque lhe não efpedaçaíTe tudo o 
mais que da náo ficava : o fobrefalto da 
gente toda em a náo foi de feição , por 
eftarem repoufando , que fem faberem o 
que faziam , acudiram aífima , e aífim alie- 
nados , e muitos a quem lembrou mais a 
alma que o corpo , recorreram aos Padres 
de S. Domingos , e da Companhia , que alíi 
vinham , a fe confeífarem ; e houve homem 
que o defattento, e temor da morte fe che- 
gou a hum Padre , que eítava confelfando 
outro, e por não faber fe lhe faltaria tem- 
po pêra fe confeífar , fe começou a aceufar 
dos feus peccados em altas vozes , a que 
o Padre lhe foi á mão. Aqui exercitaram 
todos os Religiofos as obras de caridade 
com os próximos (confolando, e confeífan- 
do brevemente a todos os que os hiam 
bufear) tendo-fe elles também reconciliado 
huns aos outros com a brevidade que a 
neceífidade do tempo requeria. 

Eíta perdição , e defaventura parece 
que foi anteviíta , e quafi profetizada por 
algumas peífoas ; hum paífageiro daquelles 
parece que aquelk mefma noite fe deitou 

a dor- 



Década X. Cap. I. 127 

a dormir com a imaginação nos brados que 
deo aquelle marinheiro ao Piloto que hiam 
por aquelle rumo dar fobre o baixo; e to- 
mando o primeiro fomno , fonhou que da- 
vam nelle, e que fe perdiam : e com efte 
fobrefalto acordou , e dahi a pouco tor- 
nou a tomar o fomno , e no mefmo inílan- 
te tornou a fonhar o mefmo; e defpertan- 
do , diífe a hum companheiro que eílava 
perto delle : Por certo que fonhava agora 
que dávamos fobre o baixo ; e ainda não 
tinha acabado de pronunciar eftas palavras , 
quando a náo deo a pancada : hum menino 
de fete annos , que eílava na cama com 
feu pai , hum pouco antes da náo fe per- 
der , acordou hum pouco fobrefaltado , e 
diífe ao pai , que a náo fe fazia em peda- 
ços. Diogo Rodrigues Caldeira , cunhado 
de Manoel Caldeira, que ainda hoje vive, 
que hia na náo , foi aquella tarde ao Pilo- 
to, que eílava na cadeira mandando avia, 
eindo pêra lhe perguntar quando falvariam 
o baixo , lhe perguntou quando varariam 
pelo baixo , fem levar nilfo a imaginação. 
Todas eílas coufas pareciam annuncios , e 
avifos de Deos pêra eíle Piloto fe preve- 
nir, e defviar; mas os peccados o cegaram 
pêra lhe dar pouco de tudo ; e tornando 
ao noífo fio , em dando a náo , foram ta- 
manhos os gritos., vozes, e alaridos, e mi- 

fe- 



128 ÁSIA de Diogo de Couto 

fericordias que fe pediam aDeos, que era 
hum efpeítaculo efpantofo, e huma confu- 
são , que fe não entendia. Nefte conflito 
eítiveram até amanhecer; e vendo o JMeftre 
a náo aífentada no baixo , tendo mais acordo 
que o Piloto, que eftava como pafmado , e 
não fabia o que via , lançou o efquife ao 
mar, e metteo-lhe remos , e marinheiros, 
e embarcou-fe nelle com o Capitão Mor : 
aqui acudio o Padre Fr. Thomaz Pinto da 
Ordem dos Pregadores , Meítre em Sagrada 
Theologia , Varão douto nas feiencias Di- 
vinas , e Humanas, o qual EIRey mandava 
por Inquifídor da índia , e pedio a Fer- 
não de Mendoça que o tomaíle no efquife 
comfigo , o que elle não quiz fazer , di- 
zendo que lua ver fe huma coufa que ap- 
parecia ao longe fe era Ilha , em que pu- 
deífem por os pés: e que ofoífe, ou não, 
que lhe dava fua palavra de tornar á náo , 
e tomar os Religiofos que pudeíle, porque 
também lhe pedia o mefmo o Padre Pedro 
Martins da Companhia , Varão bom , Re- 
ligiofo , e bom Theologo , que hia por 
Provincial da índia com outros Padres. Com 
eíta palavra ficaram confolados , e o efqui- 
fe foi correndo todo o baixo , e defeubrin- 
do o mar pêra todas as partes , fem ver 
Ilha , nem terra alguma ; e receando o Ca- 
pitão Mor de tornar á náo > porque no ef~ 

qui» 



Década X, Cap. li 129 

qiiife não podia falvar a todos , aconfeihado 
ou quafi forçado do JMeítre , quiz por fua 
peííoa em laivo , porque lhe dava a elle 
pouco que elle cumpriffe fua palavra ; e 
dando á vela, foram demandar a coita da 
Cafraria , levando pêra feu fuílentõ hum 
pouco de bifcouto , e hum barril de agua, 
e em féis , ou íttQ dias foram tomar terra 
duas léguas do rio de Quilimane , onde os 
deixaremos até feu tempo , porque he ra- 
zão continuarmos com os que nos efperam 
no baixo. 

CAPITULO ir. 

Da defcripção âefie baixo , em que a não 

deo : e das pejfoas que fe f alvar am em 

o batel : e do que lhes aconteceo 

até chegar a terra, 

PRimeirò que paílemos adiante , férá 
bom que demos razão deite baixo , e 
moftrarmos a feição delle pêra as duvidas 
que depois havemos de tratar, fobre fe he 
eíte da índia , ou não* He efte baixo de 
forma ovada, e de três léguas de compri- 
do da banda do Ponente , aonde a náa 
encalhou : tem huns qtlatro , ou finco picos 
mui grandes, que ao longe parecem arvore- 
do , e por eíta caufa fe enganaram alguns 
Cmto.Tom.FLP.il. I Pi- 



130 AS IA de Diogo de Cotrro 

Pilotos que os viram , paíTando de longe, 
e affirmáram verem arvores , como nós 
também nos enganámos , quando os vi- 
mos , vindo pêra a índia o anno de 571. 
na náo Chagas com o Vifo-Rey D. Antó- 
nio de Noronha ; e he tanto aflim , que 
com a gente deita náo perdida eftar no 
mefmo baixo , também fe enganaram : pêra 
a banda do Levante também tem outros 
picos mais pequenos ; e aííim elles, como 
todo o mais baixo he de coral $ porque 
em quanto os homens andavam trabalhan- 
do no batel , como logo diremos , e todos 
os que femettião na agua, e punham os pés 
em baixo , fahiam com grandes cutiladas ; 
tinha aquella baixia toda em roda como 
Jiuma faixa que a cercava , de largura de 
hum tiro de efpingarda , e no meio fe fa- 
zia hum lagamar , que de baixia poderia 
ter duas braças , e de preamar mais de 
três : aqui fe notou que o coral nafcia 
branco, e molle, como fe fora de cera, e 
depois fe vai fazendo pardo, e endurecen- 
do , e depois diífo preto , e dahi fe faz 
vermelho , com o que fica em fua perfei- 
ção de cor, e dureza. E tornando aos que 
eílavam na náo , partido Fernão de Men- 
doça , trataram todos de bufcarem remédio 
pêra as vidas , e trabalharam tudo o que 
puderam pêra tirarem o batel > que hia na 

fe- 



Década X. Cap. II. 131 

fegunda cuberta; mas não foi poífivel , pe- 
lo que deixando-o , recorreram ao derra- 
deiro remédio , que era ordenarem janga- 
das , e começaram a ajuntar páos , taboas , 
e outras couías deíta forte , no que traba- 
lharam todo aquelle dia , e parte do outro ; 
e como Deos noíío Senhor traz fempre a 
mifericordia atrás do caftigo , permittio , 
pêra fe falvarem muitos , que déife hum 
mar na náo , o qual foi tamanho que a 
foblevou no ar, e pario o batel com quaíi 
huma quarta parte de menos pêra a banda 
da poppa , e a proa com os camarotes de 
taboado que fobre ella fe fazem , que he 
o gazalhado do Meirinho da náo , e de 
outros Ofíiciaes y e as teftas ou vão de ban- 
co a banco dós criados de EIRey; e tanto 
que a náo o lançou fora, o foi a agua ro- 
lando pêra o mais fecco do baixo j como 
que o guiava Deos pêra a parte y onde fe 
pudeíle concertar , como logo fizeram ; e 
acudindo a elle hum eílrangeifo , chamado 
Scipiao Grimaldo , homem experto , de 
animo , e muito nobre de fangue , eíleve 
notando fe eftava em difpofiçao pêra o re- 
mediarem ; e achando que fim, ajuntou-fe 
com o carpinteiro , e outros , e começou 
a pôr as mãos á obra , e pela banda de 
poppa o foram fechando com o taboado 
das caixas que pêra iflo quebraram y e o 
I ii ca- 



132 ÁSIA de Diogo de Couto 

calafetaram , e concertaram o melhor que 
j>or então podia fer , ordenando-lhe logo 
íea maíto , verga, vela , leme, e remos de 
maneira que lhe não faltou nada : a ifto 
tudo aíiiftíram os Padres Fr. Thomaz Pin- 
to , Pedro Martins , e os companheiros 
com os Fidalgos que na não hiam , que 
logo nomearemos , trabalhando huns , e 
animando os outros a todos com palavras 
de muita confiança , e confolaeão; e por- 
que nas coufas em que não ha ordem 5 e 
cabeça he tudo confusão 3 elegeram todos 
por Capitão hum Fidalgo , chamado Duar- 
te de Mello , natural de Baçaim , filho de 
Heitor de Mello , e de Dona Margarida ? 
filha de Manoel DeíTa 5 o qual vinha na 
náo defpachado com a Capitania de Dio, 
e com o habito de Chrifto , Fidalgo de 
muito boas partes , e que ainda vive> ca- 
iado em Baçaim com Dona Catharina , fi- 
lha de D. Jorge Tello ; e elegeram pêra 
Meftre do batel o contra-Meftre da náo, 
chamado Manoel da Silva , grande traba- 
lhador , mas homem arrebatado , e fem 
humanidade , e por Piloto o Meftre da náo 
chamado Gafpar Gonfalves • e recolhendo 
no batel algum provimento , e agua , co- 
meçáram-fe a embarcar por rol , porque 
não era poffivel poderem tomar todos , e 
aífim recolheram íincoenta e lete peíloas 

que 



Década X. Cap. XI, J33 

que couberam , ainda piedofamente ; e as 
conhecidas , e de nome são as feguintes : O 
Capitão Duarte de Mello , Fr.Thomaz Pinto , 
Fr. Adriano feu companheiro , o Padre Pe- 
dro Martins, e finco companheiros mais, o 
Padre Çapata , Pedro Alvares , Pedro Gon- 
falves , Manoel Dias , e outros , tedos Va- 
rões virtuoíbs , e de muito boa vida , le- 
tras , e doutrina j D.João de Menezes, D. 
Fradique de Alarcão , D.Rafael de Non> 
nha , D. Duarte de Mello , Jorge Soeiro Do- 
rea, Henrique Pinto , fobrinho do Inquiíidor 
Fr. Thomaz Pinto , dous irmãos Gafpar , e 
Fernão de Menezes , mercadores honrados , 
e de credito , Diogo Rodrigues Caldeira , 
e Fernão Rodrigues Caldeira , feu irmão 
mais velho, cunhado de Manoel Caldeira, 
Duarte Gomes de Solis , .mercador; todos 
os mais eram Officiaes da náo , e mari- 
nheiros : houve muitas peffoas que quando 
viram defamarrar o batel , fe lançaram a 
elle a nado , pedindo com grandes brados 
que os tomaifem , fobre o que houve ex- 
ceífo de cruezas da parte dos marinheiros, 
deitando huns vivos ao mar , cortando as 
mãos a outros que apegavam do batel , e 
recolhendo nelle quem elles queriam ; por- 
que como eram muitos , ficaram como fe- 
mhores do batel , fem ninguém oufar a lhes 
ir á mão : em fim chegou a coufa a tantq , 

que 



134 ÁSIA de Diogo de Couto 

que vindo a bordo hum mancebo filho de 
D. Luiz Tello de Menezes , irmão de D. 
Diogo de Menezes , que foi Governador 
da Índia , o qual nos parece houve fendo 
Capitão de Dio , o pão quizeram os mari- 
nheiros recolher , indo o batel cheio de 
gente menos importante , e necellaria ; e 
ainda diremos mais , que de hum efcravo 
índio que alli metteo hum Fidalgo , em 
cujo lugar fora melhor hum mancebo , filho 
de hum Fidalgo tão honrado , em fim o 
pobre y e paciente mancebo fe tornou a na- 
do aos penedos , aonde a mais gente efta- 
va ; e não deixamos também de Ihç pôr 
culpa 5 pois foi tão cortado , que nem no 
batel , nem em nenhuma das jangadas fe 
foube metter a tempo. Viriam neíta náo 
quatrocentas pelToas , em que entravam al- 
gumas peífoas , cujos prantos , e laílimas 
puderam abrandar aquelles duros penedos 
fobre que ejías eitavam aífentadas, com os 
olhos nos Ceos pedindo mifericordia a 
Deos ; e primeiro que o batel partifle dal- 
Ji , tomaram osOfficiaes da náo, e os mer- 
cadores todo o dinheiro que traziam em 
reaíes , que fe afhrma ferem de redor de 
quatrocentos mil cruzados , e o deitaram 
em humas poças fundas \ que no baixo fe 
faziam em pedra viva , donde a maré o 
não podia tirar, nem ipover porfeu pezo, 

pe- 



Década X. Ca*. II. 135: 

pêra depois o irem tirar, e em cujo lugar 
ainda hoje devem eftar , e eftarao muitos 
annos , e porque agua não gaita prata, 
nem alli ha arêa pêra arearem as coufas. 
Feito iíto , foi-fe o batel fahindo do bai- 
xo , que foi aos vinte e dous de Agofto , e 
todavia hia mui pezado > e tanto , que 
houveram os Officiaes que feria neceflario 
deitar ainda algumas pellbas fora , porque 
não fe poderiam marear : e eíta eleição fi- 
zeram os marinheiros 5 mas não de nenhum 
dos feus , equizeram começar pelos irmãos 
Ximenes 5 e lhes differam que hum delles 
havia de ficar , que viílem qual havia de 
fer : o mais moço chamado Fernão Xime- 
nes vendo aquella determinação , adiantou- 
ie , e diíle que foífe elle , e que ficaífe feu 
irmão mais velho, que tinha mais commo- 
do pêra remediar fuás irmans (porque vi- 
nha com grande negocio entre mãos) e 
que nelle ficar fe perdia pouco ; e fem 
aguardar que os marinheiros fízcííem aquel- 
la execução , elle mefmo fe lançou ao 
mar ; mas como ainda não tinha alii feu 
termo acabado , tanto que foi no mar, 
voltou a nado apôs o batel que hia a remo ; 
e Gafpar Ximenes vendo o que o irmão 
fizera , tantas mágoas diffe aos marinhei- 
ros , tantas piedades lhes pedio, tantas la- 
grimas chorou , que os apiedou, e movi- 
do? 



136 A ST A de Díogo de Couto 

dos de compaixão o tornaram a recolher, 
Hia também ao mefmo tempo nadando 
após o batel hum mancebo de dezeíeis 
annos , chamado Diogo do Couto , o qual 
a grandes brados chamava pelo batel , que 
hia já a remo , e lhe requeria que o to- 
jnaífem da parte da Virgem noíía Senhora , 
que elle da ília parte lhes fegurava que to- 
dos fe fal variam ; e tantas coufas diíTe íb- 
bre ifto, e tantas vezes o repetio, que pa- 
recendo áquelles Religioíbs que aquilio fe- 
ria algum Anjo que fallava naquelle moço, 
rogaram aos marinheiros que o tpmaíTem , 
como fizeram : e aífim o moço foi depois 
em terra grande parte , pêra os tirarem de 
hum cativeiro em que cahíram , como a- 
diante fe verá. Sahido o batel do baixo, 
foram feu caminho ao rumo do Noroeíte , 
e quarta do Norte pêra tomarem a coita 
da Cafraria no mais perto , e aos 29. de 
Àgofto foram varar em huma praia entre 
dous rios chamados Quelungo , eLoranga, 
que jazem entre Guilimane, e as Ilhas de 
Angoxa, entre dezefeis , e dezefete gráps, 
que sap os que nas cartas de marear cha- 
mam as Barreiras Vermelhas , pelas haver 
alli. Peito em terra, foram logo faiteados 
dos Cafres que os defpíram , e depois fo- 
ram ter a huma Aldeia de outros Cafres, 
£9 outro dia que foram 30. de Agofto , 

aon- 



Década X. Cap. II. 137 

aonde foram cativos , e aqui os deixare- 
mos até feu tempo. 

CAPITULO IN. 

Do que aconteceo aos que ficaram nos bai- 
xos : e cias jangadas que ordenaram*, e 
de hum ejpantofb milagre que fez o Le- 
nho da Cruz de Chrijlo : e do que acon- 
teceo a Fernão de Mendoça , e aos do 
batel até chegarem a Moçambique. 

VEndo os que ficaram no baixo que 
nao feria poíTivel falvarem-fe todos no 
batel , trataram de fazer algumas jangadas 
o melhor que puderam , e fó de duas que 
fe foube daremos razão, e de hum a delias 
foi author Rodrigo Migueis Sota-Piloto da 
náo , muito bom homem \ e bom Official , 
na qual depois de acabada fe metteo com 
quarenta peífoas , entre as quaes foi hum 
Simão Moniz da Camera, homem Fidalgo 
dos da Ilha da Madeira-; e antes de fe a- 
partarem do baixo , deram com hum cai- 
xão , que era do Padre Fr. Thomaz Pinto , 
e abrindo-o pêra tomarem alguns pannos 
pêra vela, acharam hum Relicário, que ti- 
nha dentro o Lenho da Vera Cruz , que o 
Padre trazia em muita eftima , o qual hu- 
ima peílba daquellas tomou , e levou ao 

pef* 



13$ ÁSIA de Diogo de Couto 

pefcoço ; e dando á vela , indo feguindo 
leu caminho, tiveram hum tempo , em que 
o mar engroílou muito : o que viílo pelo 
que levava o Relicário , o amarrou a huma 
corda por poppa, e o lançou ao mar, fem 
faber o que dentro hia , fomente por ver 
que deviam fer Reliquias , e que quaes- 
quer que foíTem bailavam pêra' por ellas 
Deos noíTo Senhor lhes applacar aquelle 
mar; e tanto que anoiteceo , ouviram to- 
dos os da jangada muito claramente huma 
grande harmonia, e mufica fuaviffima, que 
os foi feguindo por poppa , cantando cla- 
ramente aquelles veríbs , que os Padres da 
Companhia fizeram pêra eníinarem a dou-, 
trina aos meninos, que dizem affim : Todo 
o fiel Chriftão fera obrigado a ter devoção 
de todo o coração á Santa Cruz de Chrijlo , 
&c. Eíta fuavidade , e mufica hia paflando 
por íima da jangada, e fe adiantava, como 
que hiamoftrando o caminho; e antes pou- 
co de amanhecer fe calou, e fe não ouvio 
mais, eifto fe continuou, em quanto durou 
a viagem, todas as noites , que foram no- 
ve, ou dez, com o que todos hiam muito 
confolados , e confiados em Deos noíío 
Senhor os levar a terra : no cabo deites 
dias chegaram a ella, e foram varar entre 
O rio deQuilimane , e Luabo , que são as 
duas bocas q^ue faz o grande rio de Cua- 



ma, 



Década X. Cap. III. 139 

rná 5 como fe verá melhor na novena De^ 
cada na defcripçao de roda efta Cafraria ; 
e querendo recolher o Relicário , o não 
acharam , coufa maravilhofa , e milagrola 
pêra edificar , porque de crer he que os 
Anjos , que acompanharam aquella Santa 
Relíquia, a recolheriam, elevariam comíl- 
go pêra a Gloria , aonde deve de eftar até 
o dia do Juizo pêra fe ajuntar com as mais 
Relíquias do feu Santo Lenho , que pelo 
Mundo andam efpalhadas , pêra fe tornar a 
arvorar aquella bandeira da nova Redempçao 
que aquelle dia com triunfo da morte ha 
de aífiftir diante daquélla Mageftade Impe- 
rial naquelle efpantofo , e muito pêra re- 
cear Juizo univerfal , onde todo o vivente 
fera julgado pêra fempre , e alli ficará eter- 
namente , e como iníignia de tamanha vi- 
storia , como com ella alcançou o unigénito 
Filho de Deos contra a morte , e inferno ; 
porque aífim como fobre as fepulturas dos 
Imperadores , e Reys fe penduram fuás ban- 
deiras pêra finaes de luas viítorias ; allim 
diante daquélla Divina Mageftade eftará efta 
bandeira da Cruz , com que fe libertou to- 
do o género humano, arvorada , e defen- 
rclada pêra os bemaventurados fe eftarem 
revendo na bandeira de fua Redempçao. 

Deite tão raro, einfigne milagre, def- 
ta muíica , e defía Santa Relíquia tirou o 

Pa~ 



I4O ÁSIA DE DíOGO DE CôUTO 

Padre Fr. Thomaz Pinto , cujo ella era , 
çm Moçambique huma inquirição por to- 
dos os daquella jangada , em que confor- 
mes teftemunháram todos 5 affim como o te- 
mos contado. 

Outra jangada foi aportar junto de 
Çofaia com fós dous marinheiros , e hum 
delles era o que aquelle dia gritou que fe 
affaftaíTem do baixo , que chegaram a terra 
como mortos , e os Cafres os recolheram , 
e com papas de milho tornaram em íi : ef- 
tes contaram depois em Moçambique que 
fe acharam com elles mais de vinte pef? 
foas , e que todos lhe morreram pelo car 
minho de fome , e fede, por levar muito 
pouco mantimento , porque o mar fobre o 
baixo tinha já desfeito tudo ; e fe houve 
mais algumas jangadas , deviam de fe per- 
der por eífe mar : a mais gente que ficou 
no baixo, que eram mais de duzentas pef- 
foas , dizem os das jangadas que ficavam 
por íima dos penedos , e que hiam cada 
dia á náo bufear alguma coufa pêra come- 
rem, e alli haviam de acabar todos de fo- 
me , e fede mirrados áquelle Sol ; o que 
havia de fer a todos degrandiífima agonia, 
e defconfolaçao , e pêra os que ifto cuida- 
rem grande mágoa , e dor , e muito pêra 
temerem , e arrecearem todos os que an- 
dam pprefta carreira da índia, aonde cada 

dia 



Década X. Cap. IIÍ. 141 

dia acontecem eftes defaftres , e defaventu- 
ras : pelo que feria bom ao embarcar le- 
varem taboas de boas obras j a que íe ape- 
guem , e não pezos muito carregados de 
bens mal adquiridos , e contra-pezos do 
alheio, que logo os leve ao fundo do In- 
ferno. 

Eíle baixo em que efta náo fe perdeo , 
affirmava aquelle Piloto, que não era o da 
índia , mas que era outro , que eftava mais 
a Leite, que nunca fora viílo > nem andava 
nas cartas de marear , e ifto clamou em 
Moçambique-, e pêra fatisfação dafua con- 
tumácia , ou engano , pedio ao Padre Fr. 
Thomaz Pinto que inquirifíe fobre iílo os 
Pilotos das náos de viagem , que depois 
chegaram , dando-ihes luas razões por ef- 
crito ; e huns affirmáram que íim , e outros 
que não ; mas quanto a nós , havemos que 
eíle he o mefmo baixo , por três razões : a 
primeira , fe houvera outro baixo a Lefte 
daquella mefma altura , não pudera deixar 
de fer fabido , porque em diftancia de pou- 
co mais de fetenta léguas que ha do baixo 
da índia á Ilha de S. Lourenço , não podia 
deixar de fer defcuberto de alguma náo, 
e mais não fendo por alli tão certa a na- 
vegação, que forçado haja de ir por huma 
efteira , e por huma paragem , porque al- 
gumas . náos foram á vifta dos baixos da 

ia- 



142 ASIÂ de Diogo de Couto 

Índia, e outros da Ilha de S. Lourenço, é 
muitos nem viram os baixos , nem a Ilha 
por navegarem a meia boroa , como os 
mariantes dizem , por onde forçado ou hu- 
mas, ou outras haviam de haver vifta def- 
tes baixos. 

A fegunda razão : fe efta náo fe per- 
dera em outros baixos na altura da índia 
a Lefte delles , forçado o éfquife , ou ba- 
tel, ou as jangadas houveram de haver vif- 
ta dos baixos , ou íinaes delles , e os bar- 
ris , quartos , pipas , e caixões que o mar 
levou direitos á coita de Sofala , aonde os 
Cafres os acharam, como a agua alli corre 
direita a Loefte pêra aquelle parcel , fe 
partiram de outro baixo que eílivera a Lef- 
te do da índia , forçado eftas coufas hou- 
veram de ir encalhar nelles , e alli fe hou- 
veram de desfazer. 

Terceira razão : fe eíle efquife , e ba- 
tel partiram de outro baixo a Leite deite , 
como haviam de pôr tão poucos dias na 
caminho , como foram fete , com poucos 
remos , e com poucas velas , e tão pezados 
como hiam , que ainda foi muito por ma- 
res tão groífos , andarem perto de cem lé- 
guas, que ha dos baixos a Quifungo, aon- 
de o batel encalhou ; por onde, quanto a 
nós, falvo outro melhor juizo , eíte baixo 
he o da índia, e não outro. Fizemos efta 

de- 



Década X. Cap. III. 143 

declaração , porque não haja confusão em 
coufa , em que nunca houve , pela feguran- 
ça com que todas as náos tem- paliado por 
aquella paragem , fem ver outro baixo ; 
mas o melhor feria fe fe pudeíle acabar cem 
os Pilotos , ou darem-lhes por regimento 
com grandes penas, que como fe fizeííem 
com baixo , ou mudem rumo , ou tomem 
velas de noite , porque muito pouco vai 
cm perderem doze horas de viagem por 
falvarem tantas vidas , e tantas fazendas , 
de que os Pilotos teimofos devem dar larga 
conta a Deos. 

CAPITULO IV. 

De como o T r ifo-Rey D. Duarte tratou âe 
mandar huma Armada ao ejireito : e do 
fegredo que nijfo teve : ^ de como orde- 
nou fazer huma Fortaleza em Panane > 
e foram nomeados pêra Capitães Ruy 
Gonfalves da Camera da terra , e D. 
Jeronymo Mafcarenhas do mar : e do 
que aconteceo a Ruy Gomes da Gram no 
Norte , e a António de Azevedo no Co* 



5 
morim* 



EM muitas coufas que ElRey mandou 
prover neítas náos , foram as princi- 
pães que fe mandaííe fazer Fortaleza > além 

de 



144 A SI A de Diogo de Couto 

de já oVifo-Rey o trazer por Regimento 4 
pelo muito que cumpria aoEílado ter huma 
Fortaleza naquelle rio , que era a maior, 
e mais importante do Comorim , pelo ter 
com ella enfreado, e defender a navegação 
do mar Roxo , pêra onde todos os annos 
daquelle rio fahiam muitas náos carregadas 
de pimenta ; e a outra era , que mandaíTc 
huma Armada grande ao eílrcito do mar 
Roxo pêra divertir com ella ao Turco das 
coufas da Perfia , porque era muito em 
damno da Chriílandade as vitorias que tín 
nha havido do Xá , com as quaes fe fazia 
muito poderoib; porque como o Eítado da 
Perfia íempre foi hum grande obftaculo pê- 
ra o Turco deixar de entender com a 
Chriílandade , feria muito grande dam- 
no feu fe o Turco fe fizeífe fenhor daquel- 
le Império , em que já tinha mettido ta- 
manho pé , como pelo decurfo da hiíloria 
temos contado , ficando de todo alfombra- 
da a Chriílandade com a Fortaleza que ef- 
te anno prefente fe fez em Tabris , fobre 
que o Summo Pontífice defpedio hum João 
Baptifta Vaquete com huma carta pêra o 
Xá , cuja fubítancia não foubemos ; mas 
prefume-fe que devia de fer a perfuadillo 
a que defendeífe feu Império , e a oífere- 
cer-lhe ajuda da Lhriítandade i do qual 
João Baptifta adiante daremos mais parti-: 

cu- 



Década X. Ca?. IV. 14? 

cular razão ; do que também movido El- 
Rey D. Filippe , efcreveo ao Xá neílas náos 
huma carta , que devia de fer fobre o me£ 
mo negocio , mandando ao Viib-Rey que 
logo o defpediííe pêra a Períia. 

Eílas coufas todas praticou o Vifo-Rey 
com Ruy Gonfalves da Camera , que era 
o homem que mais governava que todos ; 
e como era muito çubiçofo de honras , o 
perfuadio a mandar a Armada ao eftreito ; 
e affim pêra o etfeito que EiRey perten- 
dia , como porque tivera o Viíb-Rey reca- 
do por via de Dio de como em Monça fe 
faziam galés preftes , que ficavam de ver- 
ga de alto , fem faber pêra onde feriam y 
pedindo-lhe aquella jornada , que lhe elle 
deo ; mas porque defejava também de fe 
achar na de Panane , aífentaram que fe ti- 
veífe em fegredo a do eftreito , e fe não 
puzeífe em parecer dos Fidalgos , porque 
a haviam de contradizer, e que fe trataffe 
de Panane, ordenando entre elles o modo 
que fe havia de ter nefte negocio, em que 
Ruy Gonfalves queria também fer a prin- 
cipal peífoa. Calando-fe as coufas que en- 
tre ambos eítavam em fegredo , fez o Vifo- 
Rey chamamento dos Fidalgos do Confelho , 
lendo-lhes o Regimento que fobre a For- 
taleza de Panane EIRey lhe dera, no qual 
lhes não deixava lugar aberto pêra vota- 
Couto. Tom. VI. P. lu K rem 



146 ÁSIA de Diogo de Couto 

rem outra coufa , porque expreííamentd 
lhes mandava fizeífem huma Fortaleza na- 
quelle rio , a que todos votaram que íe 
cumprifle o Regimento de EIRey , e mais 
agora que eftava o tempo melhor difpoito 
pêra iflb pela obrigação que o Comorim 
tinha pelo contrato das pazes que o Vifo- 
Rey lhe confirmou de dar naquelle rio lu- 
gar pêra ella , e todas as mais achegas í e 
ajudas de fervidores que foílem neceíTa- 
rios ; e no modo da fortificação ficou o pa- 
recer repartido, porque huns diíTeram que 
pois o Eftado não eftava pêra tamanhas 
defpezas , pêra por então fe fazer Fortale- 
za de pedra , e cal, que feria bem tornai 
fe políe do lugar , em que fe havia de fa- 
zer , com huma tranqueira de páos de te* 
ca, que por então baftava, pela fegurança 
da terra que coifi as novas pazes tinha , e 
que depois fe fizeíle. muito forte , e mais 
de vagar ; outros diíTeram que não cum- 

f>ria ao ferviço de EIRey fazer-fe Forta- 
eza por eíTe modo , porque como a ami- 
zade do Comorim nunca forafegura, pelas 
muitas vezes que quebrou as pazes , não 
era bem que fe arrifcaíTem homens , e ar- 
tilheria detrás de páos , em terra de hum 
Rey tão poderofo , que todas as horas que 
quizeíle poria de redor delles cem mil ho- 
mens , e mais de cem peças de artilheria 

grof- 



Década X. Ca?. IV* 147 

groíTas , e poflantes pêra bater grandes 
muros , quanto mais páos de teca muito 
fracos ; e que pelo menos havia de mif- 
ter mais de dous mil páos , que trazidos 
do Norte, e poílos em Panane, haviam de 
cuftar féis , ou fete mil cruzados , os quaes 
por tempos podiam vir a fervir aos Ma- 
layares de navios contra nós, como depois 
vieram ; pelo que eram de parecer que fe 
fizeffe a Fortaleza de pedra , e cal muito 
defenfavel ; e que fenão fe pudefíe fazer 
logo , fe fizeífe depois , e entre tanto fe 
ajuntalfem os materiaes pêra iífò ; mas co- 
mo os mais dos Vifò-Rcys da índia an- 
dam a tapar buracos , como lá dizem , e 
engrolando as coufas , como homens que 
cftam pêra pouco , e de caminho , foi-fc 
com o parecer dos que fe fizeíle por entre 
tanto huma tranqueira de madeira , porque 
os mais eram parentes , e que tinham fuás 
pertençoes com o Ruy Gonfaíves da Ca- 
mera , que era feu Tio , primo co~irmao 
de feu pai , a quem tinha em fegredo pro- 
mettido a Armada pêra o eftreito, que ha- 
via de partir em Fevereiro , não lhe con- 
vinha a elle fazer- fe a Fortaleza fenãô de 
madeira pêra lhe ficar tempo pêra a fua 
jornada ; porque eftava aílentado entre am- 
bos , que acabando a fortificação , tomaífe 
a Armada, e os navios que quizeffe, efoífe 

K ii fa- 



148 ÁSIA de Diogo de Couto 

fazer fua viagem , o que não podia fet $ 
fazendo-fe de pedra, e cal, porque força- 
do havia de gaitar aquelle verão , e outro 
pêra por a Fortaleza em eftado defenfa- 
vel , as quaes coufas eftavam em fegredo 
entre ambos , fem fe por fora faber nada; 
e porque feria aggravo grande que fe fi- 
2eíle a D.Jeronymo , pois elle foi o que 
interveio nas pazes, e as foi jurar a Cale- 
cut (pofto que o aurhor delias foi D. Gi- 
leanes Mafcarenhas em tempo do Conde 
D. Francifco Mafcarenhas Viío-Rey , a quem 
he razão que demos a honra delias) aífen- 
tou-fe que fe repartiíTe por ambos a empre- 
za de Panane ; e mandando-os chamar, or- 
denou com elles que foffem ambos a efte 
negocio , e que ambos concorrelfem com 
a obra da Fortaleza ; e que como eftiveífe 
em eftado defenfavel , a entregai! em a D. 
Jeronymo pêra ficar por Capitão nella , e 
que elle Ruy Gonfalves tomaria toda a Ar- 
mada , e andaria por Capitão Mor do Ma- 
lavar , encubrindo por então a ida do ef- 
treito que (como diííe) entre oVifo-Rey, 
e Ruy Gonfalves eílava em fegredo. D. Je- 
ronymo , que já fabia o pêra que era cha- 
mado , poílo que alguns parentes , e ami- 
gos lhe tinham dito que lhe não convinha 
a jornada por aquelle modo, porque fe não 
efeufavam entre elles , e Ruy Gonfalves 

•dif- 



Década X. Cap. IV. 149 

differenças , por muitas razoes que pêra iffo 
lhe deram , levado do zelo do ferviço de 
BIRey, acceitou a jornada poraquelle mo- 
do com Ruy Gonfalves alli diante do Vi? 
fo-Rey ; e depois de com elle particular- 
mente ter muitas palavras de cuuiprimen- 
tos , dizendo que o muito parenteíco , e 
antiga amizade que entre ambos havia 
eram baítantes pêra lançarem o baítão en- 
tre algumas differenças , fe as houveíle, 
quanto mais que elle fiava de íí que nunca 
entre ambos as haveria , mas antes muito 
iguaes , e conformes procederiam no fervi- 
ço de EIRey com igual mando , e jurifdic- 
çao , fem hum mandar emjiuma palha 
fem confentimento , e parecer do outro; 
e aííim fe começaram a fazer preítes. O 
Vifo-Rey defpedio logo recado a todas as 
Fortalezas do Norte a negociar dinheiro, 
madeira , e mais coufas neceííarias , affim 
pêra a fortificação de Panane , como pêra 
a jornada de Ruy Gonfalves da Gram , Ca- 
pitão Mor do Norte 5 que mandaífe dar 
guarda á cáfila de Baçaim , donde todas 
eítas coufas haviam de vir; e porque ago- 
ra nos cabe dar razão do que lhe aconte- 
ceo na jornada, o faremos brevemente. 

Partido elle da coita do Ganará , aon- 
de arribou com tempo , como atrás diíTe- 
mos > foi correndo a coita do Norte até 

I3a- 



jjTO ÁSIA de Diogo de Couto 

Baçaim , e alli foube ferem recolhidas as 
náos de Meca, por que emSurrate fe efpe- 
rava , e que huma naveta eftava naquelle 
rio pêra fahir pêra fora , e o Agioza ainda 
eftava em Baroche fem faber fua determi- 
nação* Com iílo defpedio Gafpar Fagundes 
com quatro navios pêra irem dar volta á 
enfeada em bufcà de alguns ladrões , fe os 
houvefíe , e João Cayado de Gamboa com 
íinco navios pêra levar a cáfila que eftava 
preftes pêra Goa, e elle com os mais na- 
vios fe foi pôr fobre a barra de Surrate , 
e deitou efpias em terra pêra faber da de- 
terminação do Agioza , e eftava naquelle 
tempo em Surrate Miram Sultão , irmão 
do Caliche Mahamede , o qual tanto que 
foube eftava aquella Armada fobre a barra, 
mandou vilitar o Capitão Mor com grandes 
ofFerecimentos de amizades, aos quaes elle 
refpondeo com as mefmas , mandando-lhe 
dizer que era alli vindo por mandado do 
Viíb-Rey da índia pêra fervir o Hecbar 
com aquella Armada em tudo o que lhe 
niandaífe : que fe havia , elle que eftava mui- 
to preftes pêra tudo. O Mouro lhe mandou 
os agradecimentos , e com ifto fe deixou 
Ruy Gomes alli ficar : aqui foi avifado que 
ao Ilheo de Chaul andavam alguns Coffai- 
ros roubando as embarcações que vam de 
ordinário deTaná pêra Chaul ^ onde todos 

os 



Década X. Cap. IV. 15*1 

£>s annos faziam grandes damnos f pelo que 
logo com muita prefla defpedio Pedro Vaz 
com quatro navios pêra os ir bufcar , dan- 
do-lhe por regimento ( como deo a todos 
os mais Capitães que defpedio d-e fi) que 
por todo o Outubro o foíTem cfperar em 
Damão , ficando elle com fòs quatro na- 
vios : as efpias que trazia em terra lhe cer- 
tificaram que o Hecbar mandara chamar 
o Agioza com toda a fua gente pêra o 
mandar pêra a parte do Deli acudir a al- 
guns Eftados que fe lhe rebelaram , com o 
que houve que não tinha alli que fazer , e 
fe partio pêra Damão , aonde ajuntou os 
navios que tinha efpalhados : dalli fe foi a 
Bacaim , onde lhe deram cartas do Vifor 
Rey , em que lhe mandava défle preíía ás 
coufas pêra a fortificação de Panane , c que 
niandaíle logo a cáfila : o que elle fez , e 
defpedio Gafpar Fagundes , a quem deo 
finco navios pêra ir a Dio dar guarda a 
Balthazar de Siqueira , Veador da Fazenda 
do Norte , que havia de trazer dinheiro 
daquella Fortaleza pêra as defpezas da Aiv 
mada de Panane. Eííes navios tornaram em 
poucos dias com elles , eeftando já a cáfila 
preíles , que era de muitos Taurís de ma- 
deira , remos , pez , cotonias , munições y 
mantimentos , e outras coufas, o que tudo 
4efpedio em companhia de João Cayado 



15*2 ÁSIA de Diogo de Couto 

de Gamboa com finco navios , e por elíe 
cfcreveo ao Vifo-Rey as novas do Norte, 
e de como o Agioza era recolhido ; que 
pois lá não havia que fazer , lhe déffe li- 
cença pêra fe recolher; e apôs efte recado 
foi com os mais navios á coita do Norte 
até Carapatao pêra ir efperando pelo reca- 
do do Vifo-Rey, e nefte tempo paliou por 
ella D. Dinis de Almeida , filho do Con- 
tador Mor , que hia entrar na Capitania 
de Dio , e levava comfigo D. Diogo Cou- 
tinho feu primo co-irmão , filho de D. Fran- 
cilco Cominho o Marialva , pêra Capitão 
Mor da Armada daquella Fortaleza , na 
qual eftava Manoel de Miranda, que tinha 
acabado feu tempo. 

Agora continuaremos com António de 
Azevedo, pornaooccuparmos com elle ou- 
tro Capitulo , porque temos delle pouco. 
Chegado ao Cabo do Comorim , como dif- 
iemos , defpedio dous navios a Negapatao , 
aonde o junco da China eftava, pêra darem 
preíía aos navios que haviam de trazer a 
fazenda, porque foubeflem que os efpera- 
va pêra lhe dar guarda , e elle ficou no ca- 
bo com fós quatro navios : os que foram a 
Negapatao deram tal preífa á cáfila , que 
em poucos dias ajuntaram hum a grande 
copia de navios com que fe partiram ; e 
fendo já dos baixos de Chilao pêra den- 
tro > 



Década X. Cap. VI. 15*3 

tro , houveram vifta de huma formofa náo , 
que vinha com todas as velas infunadas de- 
mandando o baixo; e indo os navios a el- 
la, os primeiros que chegaram foi António 
de Souía, que vinha de S. Thomé em hum 
navio íeu , e Alberto Homem da Coita ; e 
conhecendo fer do Reyno , porque era a 
náo Santo Alberto , lhe bradaram que a- 
mainafíe , como fez , e íurgio logo : o Pi- 
loto delia tinha aquelle dia vifto a terra; 
e cuidando fer de Cochim , hia de frecha 
a ella ; e quando já furgio , foi em féis bra- 
ças : e fem dúvida que fe Deos não trou- 
xera aquelles navios , fe perdera. Surta a 
náo , lançou grandes rageiras , e ás toas a 
foram as fuítas tirando pêra fora , e lhe fi- 
zeram dar á vela , e com ella , e com a 
mais cáfila chegaram ao cabo , aonde An- 
tónio de Azevedo efperava por elles ; e 
fazendo vela , foram tomar Cochim , e dahi 
partiram pêra Goa , aonde chegaram todos 
£ falvamento em fim de Novembro. 



CA- 



t-5'4 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO V. 

De algumas dijferenças que houve entre 
Ruy Gonfalves da Camera , e D. Jero- 
nymo Mafcarenhas : e de corno Ruy GoHr 
f alves par tio pêra Panane t e fé vi o com 
a Camarim : e de como fez a Fortaleza 
em Panane. 

CHegadas as coufas do Norte, porque 
fe efperava pêra a jornada de Panane, 
começou Ruy Gonfalves da Camera a fa- 
zer preítes a Armada; e fem parecer, nem 
confelho de D. Jeronymo (como eítava 
entre elles aflentado) a nomear os Capitães 
das Galés , e mais navios : de que D. Jero- 
nymo tomado lhe efcreveo huma carta apai- 
xonada, na qual fe vinha a refumir que o 
não tiveíle por amigo , porque o não era , 
nem fe fallaílem mais ; com o que ficaram 
as coufas entre eítes Fidalgos de má fei- 
ção , porque D. Jeronymo quaíi que fe da- 
va porefcandalizado dos ruins termos com 
que Ruy Gonfalves correra com elle , fen- 
do tanto ao contrario do que entre ambos 
eítava aífentado por ordem do mefmoVifo- 
Rey , o qual quiz acudir a efce negocio , 
e moderar a paixão de D, Jeronymo por 
termos muito honrados a elle ; mas como 
o efcandalo eítava tão frefco , não pode 

aça- 



Década X. Cap. V. 157 

acabar nada, de forte que foi forçado met> 
ter neíle negocio o Padre Alexande de Va- 
nignano , Vifitador dos Padres da Compa- 
nhia , Varão muito grave , e a quem todos 
tinham mui grande refpeito , o qual como 
muito avifado que era , fallando com D. 
Jeronymo , e com todos os parentes 5 fe 
houve de tal maneira que os reduzio á pri- 
meira amizade com meios muito honeítos; 
e porefcufar outras defavenfas , feaíTentou 
que foíTe Ruy Gonfalves fazer a Fortaleza 
de Panane ; que como a tiveíTe em modo 
defenftvel, iria elle D, Jeronymo , e Ruy 
Gonfalves lha entregaria , e no inefmo dia 
fe embarcaria na fua Armada , e andaria na 
coíla: e com ifto fe deo mais preífa á Ar- 
mada , porque queria o Vifo-Rey que fof- 
fem novas aElRey naquellas náos de como 
íe ficava procedendo na obra da Fortale- 
za , coufa muito acoílumada em muitos 
Vifo-Reys fazerem mui grandes apercebi- 
mentos , e lançarem forna de grandes jor- 
nadas , em quanto as náos de Portugal eílam 
na índia , por chegarem com aquella fama 
ao Reyno , e depois de partidas arrefecer 
tudo , e ficarem coufas mui importantes 
por fazer, e lançarem depois o gato (como 
lá dizem) nas barbas ao que lhe vem fuc- 
ceder. Em fim deixando efta matéria , em 
que havia bem que dizer, tanto que a Ar- 
ma?- 



i$6 ÁSIA de Diogo de Couto 

rnada foi preftes , fahio pela barra fora a 16, 
de Novembro, a qual era de quatro Galés 
a em que hia o Capitão Mor , e nas outras 
João Furtado de Mendoça , Bernardino de 
Carvalho, e Pedro Homem Pereira; as fuf- 
tas foram trinta e féis , cujos Capitães eram 
D. Francifco Mafcarenhas , D. Jorge da 
Gama , D. Francifco Tello de Menezes , 
D. Manoel de Lima , André de Soufa o 
Maltez , Simão Moniz da Camera , Duarte 
Moniz Barreto, filho de António Moniz, 
Governador que foi da índia , Fernão Gon- 
falves da Camera , e Chriftovão de Mello , 
Pedro da Silva , Gafpar de Carvalho de 
Menezes , Luiz Falcão , Luiz de Spinola , 
Roque da Fonfeca , Eílevão Valladares, 
Lopo de Pina , Jorge de Melio Pereira , 
António da Coita, João Rodrigues Cabral, 
António Fogaça de Brito, Gonfalo de Sou- 
fa de Mendo ca , André de Negreiros , João 
do Rego Fialho , Paulo Pedrofo , Gafpar 
Tavares , Simão Ribeiro , Aífonfo Ferreira 
da Silva , Duarte Mafcarenhas , D. Pedro 
RealMalavar, Manoel Paes, João Baptiíta, 
Engenheiro Mor que hia pêra traçar a For- 
taleza , Julião Pereira , Francifco de Si- 
queira , Nuno Alvares de Atouguia , Ruy 
Gomens Arei de Tanor , Fernão Pegado , 
Chriftovão da Veiga em hum Galeão de 
mantimentos y e João Soares em hijma na- 
ve- 



Década X. Cak V. 157 

veta com coufas pêra a Fortaleza : levou 
mais duas barcaças , Capitães Ruy de Sá, 
e António Madeira , e outras muitas em- 
barcações de carga com telha , madeira, 
officia°es, e outras coufas neceííarias. 

Com eíta Armada foi o Capitão Mor 
furgir em Calecut , e mandou logo viíitar 
o Çamorim , e fazer-lhe faber em como era 
neceííario verem-fe pêra tratarem o modo 
como, e onde fe havia de fazer a Fortale- 
za em Panane , conforme aos Capitulos das 
pazes , e o Comorim lhe mandou os para- 
béns da fua vinda , e que muito cedo fe 
veriam ; e como todos eftes Reys não fazem 
coufa notável , fem os feus Aftrologcs , e 
Brâmanes lhes fazerem eleição de dia , e 
hora pêra faberem fe lhes fuccederá bem , 
ou mal naquillo que querem fazer, no que 
as mais das vezes o demónio os engana 
em fua fciencia , aílzm acharam eftes do 
Çamorim em fuás calculações taes íinaes , 
que três dias fe paliaram fem o Çamorim 
fe querer ver com el!e , do que enfadado 
lhe mandou dizer , que pois elle tinha im- 

Eedimentos pêra lhe fallar , que elle fe 
ia , e que na praia de Panane, onde elle 
havia de começar a Fortaleza , o efperava. 
A ifto lhe mandou EIRey refponder que 
fe não enfadaífe , que aquillo era coftume 
de Gentios não fazerem nada fem eleição 

dos 



Z5T8 AS IA de Diogo de Couto 

dos dias , que como achaíTe hum bom , lo- 
go fe veria com elle : com o que o Capi- 
tão Mor fe deixou eílar , e quiz abbreviar 
eíla eleição dos Brâmanes com lhes man- 
dar peças aílim a elles , como aos Rege- 
dores , e mulheres de EIRey , e aos prin- 
cipaes do Confelho ; porque como eftas 
gentes são cubiçofas , e intereíleiras , ne- 
nhuma coufa pode com elles tanto como 
dadivas 5 as quaes montariam pouco mais 
de dous mil pardaos , com o que os Bra- 
manes acharam logo hum dia bom , porque 
não ha outro melhor pêra elles que aquel- 
le, em que lhes dam alguma coufa; e af- 
Hm mandou o Çamorim recado a Ruy 
Gonfalves da Camera que ao outro dia fe 
veria com elle na praia, pêra o qual fefez 
preftes , e ás horas limitadas defembarcou 
muito ricamente veílido , rodeado de quaíi 
cem homens , Fidalgos , e Capitães 5 que 
pêra iífo efcolheo , veítidos todos á fol- 
dadefca , muito luftrofos , e por baixo fuás 
armas fecretas ; a Armada mandou que ef- 
tiveífe toda eftendida longo da bahia com 
os efporões em terra muito embandeirada , 
e elle fe deixou eílar na praia hum pouco 
affaftado da borda d 5 agua com as cofias na 
Armada. O Çamorim como teve recado, 
abalou de fua cafa acompanhado do Man- 
gate Achem feu Regedor Mór ? e de todo? 

os 



Década X, Cap. V. 159 

òs feus Panicaes , e Regedores, e de mui- 
ta gente de armas , que fe foi pondo em 
fileiras de iongo da praia pêra o Çamo- 
rim pa{Tar por meio delles , o qual tanto 
que foi viíto da noíla Armada , o falváram 
com muitas bombardadas, e grande fomma 
de efpingardaria , e depois com muitas 
charamellas , trombetas , e outros inílru- 
mentos de guerra. O Capitão Mor deixou 
chegar o Ça morim como hum tiro de pe- 
dra donde elle eftava , então abalou a el- 
le , e lhe fez as cortezias devidas a hum 
Rey tamanho, e elle o recebeo com muito 
agazalhado , e aíTim em pé praticaram fo- 
bre as coufas da Fortaleza , que todas lhe 
o Çamorim concedeo , confirmando nova- 
mente as pazes , defpedindo-o que fe fofíe 
pêra Panane , que logo apôs elle iriam os 
feus Regedores a aífinar-fe o lugar da For- 
taleza , e dar-lhe pofle delia , e todas as 
mais ajudas que foíiem neceílarias. O Ca- 
pitão Mor muito fatisfeito fe defpedio 
d elle , e fe embarcou , deixando em terra 
Amador Tabordo ( que hia nomeado pêra 
Feitor de Panane) pêra nogociar com os 
Regedores algumas coufas , e pêra os fazer 
logo ir , e elle fe foi metter logo no rio 
fem bulir em nada , até chegar o Mangate 
Achem , a quem o Çamorin? commetteo 
efte negocio com outros alguns Regedores. 

Ruy 



i6o ÁSIA de Diogo de Couto 

Ruy Gonfalves da Camera fe veio a terra j 
e com elles , e com o Engenheiro Mor 
andou elegendo íitio mais accommodado 
pêra a Fortaleza ; e porque da banda do 
Sul junto da barra fe fazia huma ponta á 
feição de huma- cabeça de tubarão , cer- 
cada toda de mar , cujo pefcoço , que feria 
diílancia de trezentos paíTos , fechando-fe 
com huma tranqueira , ficaria toda a cabe- 
ça fobre a agua , fegura dos inimigos : pe- 
lo que com confelho dos Fidalgos , e Ca- 
pitães , e Engenheiro Mor ordenou de fa- 
zer aqui a Fortaleza , porque pela prelfa, 
e brevidade do tempo fe podia com me- 
nor cuíto , e trabalho fortificar ; e que- 
rendo pôr as mãos á obra , achou muitos 
•grandes inconvenientes da parte dos Mou- 
ros naturaes , e dos mefmos Regedores , 
que eftavam peitados de Cunhale Marca, 
que tudo o que podia , eítorvava aquella 
obra , aíTim por reèear que como foíle fei- 
ta fe lhe derrubaífe a fua Fortaleza, como 
eftava capitulado nas pazes , como por 
lhe ficar alli hum freio grande ás fuás la- 
droices , pelo que fe negociava com os 
Regedores , pêra que foíTem dilatando o 
tempo , ajuntando elle da fua parte nove, 
ou dez mil Mouros pêra ver fe com affal- 
tos podia eílorvar a obra. Entendendo o 
Capitão Mor a« dilações dos Regedores , 

e 



Década X. Cap. V. 161 

fe fendo avifado da gente que o Cunhale 
Mania tinha ajuntado , determinou ( fem 
embargo de todos os inconvenientes) come- 
çar a obra comparecer deMangate Achem $ 
que lo achou nefte negocio fiel da fua par- 
te ; e porque além das achegas que elle le* 
vara tinha chegado João Cayado de Gam* 
boa com a cáfila que trouxe de Baçaim, o 
qual tanto que chegou a Goa , o mandou 
o Vifo^-Rey logo a Panane , poz logo mãos 
á obra , e deo á primeira enxadada no ali- 
cerfe a 21. de Dezembro, dia do Apoftolo 
S. Thomé , Patrão cie toda a Índia , que 
com razão houvera de fer tão venerado nel«* 
la , como S; Marcos em Veneza , defcuido 
muito pêra fe reprehender a todos osVifo- 
Reys paliados, que havendo de ter ha Ci- 
dade de Goa, como Metrópole deite Eílado 
da índia, o maior, emais íumptuofb Tem- 
plo delia, dedicado ao Bemaventuradò San- 
to , foi tão pouco venerado que em nenhu- 
ma das Cidades noíTas houve Caía, Capela 
la , ou Invocação fua até o tempo do Vifo- 
Rey D. Conftantirio $ que no campo deS. 
Lazaro lhe começou hum muito fumptuofó 
edifício de pedraria lavrada de almofadi- 
nhas ao modo dos Paços novos, queElRey 
D. João o III* de gloriofa memoria co* 
meçou em Xobregas , o qual deixou imper* 
feito : dahi a muitos annos fe fez huma 
Gwt*. T&m. VI. P. Iié L po* 



l6t ÁSIA de Diogo de Couto 

pobre cafa nos arrabaldes da mefma Cidá* 
de , indo da rua de S. Paulo pêra S. La- 
zaro, a qual oArcebifpo ordenou em Fre- 
guezia , e ainda eftava , e eíteve até ao pre- 
fente quaíi hum alpendre , e já Deos inf- 
pirou nos freguezes que lhe fizeífem hum 
arrazoado Templo , como fe vai fazendo : 
e em nenhuma Cidade da índia fabemos 
de Cafa > ou Capella fua ; mas parece que o 
quer elle aílim 5 porque já que a fua pró- 
pria Cafa , que eílá na Cidade de Malia- 
por , onde elle jaz , e que delle tomou o 
nome, helá mais venerada do próprio gen- 
tio idólatra que dos Portuguezes , e Chri- 
ítaos y porque de muito longes terras fe 
lhe vem offerecer com muita devoção , e 
cada dia faz entre elles muitos , e grandes 
milagres , parece que não quer eítar em 
parte , onde feja menos venerado. 

Fizemos efta digrefsão pêra confusão 
dos Portuguezes deite Oriente ; e porque 
pode fer permitta o Senhor que lendo al- 
gum Rey de Portugal , ou algum Vifo-Rey 
da índia devoto deite Santo , neíta noífa 
hiítoria tamanho defeuido , fe mova a lhe 
fazer alevantar Templos fermoíiílimos em 
todas as Cidades da índia , como he razão 
que tenha, porque he feu Patrão, e Advo- 
gado. E tornando ao noífo fio : pofto Ruy 
Gonfaives da Camera em terra com toda a 

gen- 



Decaída X CáPõ VL 163 

gente ém armas /começou a abrir os àlicerfes 
por aquella parte que comparámos á gar- 
ganta do Tubarão, e foi cortando-a de mar 
a mar , trabalhando de dia ; e de noite fe tor- 
nava a recolher á Armada 5 deixando 500. 
homens em terra repartidos em três quar- 
tos pêra vigiarem , por ter por novas que 
a gente doCunhale eftava menos dê légua. 
Deíles quartos eram Capitães João Furtado 
de Mendoça , Bernardim de Cafvalho' , é 
Pedro Homem Pereira ; e a outra noite fi- 
cavam outros 500. homens debaixo da mef- 
ína bandeira , e aílim corria toda a gente: 
da Armada aos quartos , e aos dias limita* 
dos ; e com tanto refguardo faziam eítes 
Capitães fuás vigias , que com hum reba-< 
te falfo que o Capitão Mor mandou dar* 
achou todos em ordem de batalha , e tãa 
cfpertos , que não houve perturbação em 
coufa alguma : affim como fe hia abrindo 
a cava , le hiam mettendo os páos de teca 
em diftancia hum do outro , que pudeífe- 
mos defender pâftar huitlá peffoa por entre 
elles ; e tanta preífa fe deo , que edí pou- 
cos dias fechou aquella parte aemarj com 
que os nofíos ficavam já feguros , e repai- 
rados , fem em todo eííe tempo os Mou- 
ros i nem os Naires i que eítavam peitados 
do Cunhale > bulirem comfígo 5 porque Man* 
gate Achem trabalhou tudo o que pode 

«L ii pQr 



164 ÁSIA de Diogo de Couto 

por não vir o negocio a rompimento. Fe-* 
chadas as tranqueiras , mandou o Capitão 
Mór prover de artilheria neceflaria , e ef- 
rreveo ao Vifo-Rey do modo em que a 
fortificação eílava , engrandecendo-a tanto , 
-que lhe dizia na carta que quem vieífe to- 
mar pofle delia , podia dar homenagem 
como do Caílello de Santo Angelo , ou do 
Burgo de Meuria , pedindo-lhe que man- 
dafíe logo as coufas neceflarias pêra a via- 
gem do eftreito , porque era tempo , e fe 
ficava fazendo preíles João Cavado de Gam- 
boa , que não levava ordem do Vifo-Rey pêra 
mais , que pêra pôr a cáfila em Panane , e 
voltar. Fello aífim , gaitando alli três dias ; 
e partindo-fe com osfeus navios pêra Goa, 
encontrou em Mangalor finco Manchuas 
da Rainha de Olaia, que eílava alevantada; 
e commettendo-as , as fez varar, e agente 
fe recolheo á terra , ficando-lhes as vazi- 
lhas nas mãos com todas as armas > e com 
efta preza chegou a Goa. 



CA- 



Década X. Cap. VI. i6f 

CAPITULO VI. 

De como D. Jeronymo Mafcarenhas fe def 
aveio com o Vifo-Rey fobre a ida a 
Panane : e de como foi por Capi- 
tão Ruy Gomes da Granu 

TAnto que o Vifo-Rey teve cartas de 
Ruy Gonfalves da Camera , logo man- 
dou dizer a D, Jeronymo Mafcarenhas por 
João Alvares Soares , Vedor da Fazenda, 
que fe fizeífe preítes pêra fe ir a Panane; 
e como elle tinha muito difFerente infor- 
mação da fortificação do que efcrevêra 
Ruy Gonfalves, porque lhe tinham efcrito 
de lá alguns amigos , que não eftava feito 
mais que alguns páos de teca mal metti- 
dos na terra , muito largos 5 e alguns cor- 
tados pelo meio , que com a enchente da 
maré , que cubria grande parte da tran- 
queira , fe arruinava ; e juntamente com 
iíto tinha fabido como Ruy Gonfalves ti- 
nha tratado em fegredo com o Vifc-Rey, 
que tanto que lhe entregaífç a Fortaleza , 
tomaífe a Armada que quizeífe pêra ir ao 
eftreito de Meca , o que até então fe lhe 
incubria pelos empreftimos que o Vifo-Rey 
pêra iífo pedia á Cidade , que lhe ella 
nao concedeo , tendo-lhe diro que Ruy 
Gonfalves havia de ficar na coíla do Ma- 
la- 



i66 ÁSIA de Diogo de Couto 

lavar com toda a Armada , do que já D. 
Jeronymo andava como tomado , porque 
eílava entendido letar Ruy Gonfalves pêra 
o eftreito os melhores navios , os melho- 
res Capitães , e a melhor íbldadeíca , e ar-, 
tilheria que lá havia ; e que o que podia 
deixar em Panane feria o çngeitado adie, 
com o que aquella nova fortificação ficaria 
defabrigada da Armada do mar , e não 
muito fegura , com a guarnição que lhe po- 
dia ficar , com o que fe poria a rifco de 
fe deshonrar, Confideradas eftas coufas , 
refpondeo ao Vedor da Fazenda que fe 
aconfelliaria naquelle negocio corri feus pa- 
rentes ; e que fe elle foífe a Panane , não 
fe havia de obrigar á Fortaleza , fcnão da 
maneira que a achafle , porque eftava infor- 
mado que a fortificação de que Ruy Gon- 
falves fazia tanto cabedal , não era mais 
que huns páos efpalhados pela terra , como 
os dentes de cão: que como fe aconfelhat 
fe , elle mefmo lhe levaria a refpofta ; e 
como D. Jeronymo fe queixava já publica-? 
mente do Viío-Rey p enganar , não lhe 
faltou quem lho contaíTe , e lhe affirmaííe 
que D. Jeronymo lhe havia de engeitar a 
jornada, o que elle quiz atalhar, eganhar- 
Ihe por mão, por não chegar com elle a ra- 
zoes de roílo a roílo \ e lhe efçreveo huma 
carta , em que lhe dizia , que primeiro que 



Década X. Cap. VI. 167 

lhe refpondeíle a ida de Panane, elle o ha- 
via por deíbbrigado delia, e da palavra; e 
com iílo mandou com muita prefía cha- 
mar Ruy Gomes da Gram , que eíiava em 
Carapatão , pêra o mandar a Panane. D. 
Jeronymo ficou aggravado daquelle termo 
que o Vifo-Rey com elle teve , e publica- 
mente fe começou a queixar delle , e dizia 
a refpoíla que tinha pêra lhe dar lbbre 
aquelle negocio , já que lha elle não quize- 
ra ouvir : e aífim ficaram defgoílofos hum 
do outro , e ambos fe queixavam , e falia* 
vam. 

A Almadia que foi chamar Ruy Go- 
mes chegou em dous dias a Carapatão ; e 
achando-o alli , lhe deo a carta do Vifo- 
Rey , com o que fe fez logo á vela pêra 
Goa , e chegou pelas oitavas do Natal , e 
fe vio com o Vifo-Rey , que o commetteo 
com a Capitania de Panane , fazendo-lhe 
grandes promeífas , e vantagens , encare- 
cendo-lhe , e certificando-lhe que aquella 
era acoufa de que por então EIRey íe ha- 
veria por mais fervido de todas , e a em- 
}>reza mais honrofa da índia. Ruy Gomes 
heacceitou a jornada, deixando pontos de 
honra , e não tratando de D. Jeronymo 
Maícarenhas lha engeitar, bicos mui ordi«* 
narios entre os Fidalgos da índia , pelos 
quaes muitas vezes fe perde o ferviço de 

El- 



l68 ASIÀ DE DlGGO DE CoUTO 

EIRey , que fe houveram muito de eítra* 
nhar entre homens, que são no Mundo ha* 
\ r idos por exemplo de lealdade. GVifo-Rey 
lhe paliou logo fuás Provisões , e lhe deo 
todos os poderes no mar , e na terra de 
Capitão Mór do mar , como lá tinha Ruy 
Gonfalves da Camera ; e com a mór brevi- 
dade que pode o defpedio em hum Catur 
ligeiro a 5. de Janeiro defte anno de 1586. 
em que entramos , levando em fua compa- 
nhia fete navios , de que eram Capitães 
D. Miguel de Caftro, Ayres da Silva , Trif- 
tao Vaz da Veiga , Fradique Carneiro , 
Francifco de Souía Pereira , Francifco de 
Soufa Rolim , Gafpar Fagundes , que os 
mais delles hiam pêra a jornada do eftrei- 
to, tendo o Viíb-Rey mandado diante hum 
Galeão , de que era Capitão hum Diogo 
Lopes da obrigação de Ruy Gonfalves, 
com bifcouto , mantimentos y munições , e 
outras coufas pêra a Armada do eftreito, 
e logo apôs Ruy Gomes , defpedio oVifo- 
Rey huma Galé , Capitão João Barriga Si- 
mões com as vias pêra o Reyno , nas 
quaes novamente efcreveo a EIRey as mu- 
danças que houve nos Capitães , abonan- 
do-lhe muito o ferviço que Ruy Gomes 
da Gram lhe fazia de acceitar Panane : e 
jiefta Galé mandou do^e mil pardaos pêra 
os gaftos da Armada de Ruy Gonfalves , e 

hum 



Década X. Cap. VI. 169 

hum quartao muito fermofo guarnecido de 
veludo, e prata pêra apeífoa do Çamorim. 
Ruy Gomes deo-fe tanta preíía , que che- 
gou a Panane a i<T. dias do mez de Janei- 
ro , e Ruy Gonfalves logo lhe entregou a 
Fortaleza , e fe embarcou pêra Cochim 
com toda a Armada que havia de levar 
pêra fe aviar, e partir de lá. João Barriga 
Simões , depois que entregou o que levava 
em Panane , paílbu a Cochim pêra dar as 
vias , e já não achou mais que duas náos 
S. Francifco , e S. Lourenço , porque o 
Santo Alberto era partida já : eftas duas 
vias , e a outra que havia de levar Santo 
Alberto, tornou a levar ao Vifo-Rey, que 
deo a Diogo Távora , Capitão da náo S. 
Francifco , huma Provisão , em que o Vifo- 
Rey o nomeava por Capitão Mor das náos; 
e porque Fernão Cotta Falcão , que veio 
na náo S. Lourenço , ficava na índia , foi 
nella por Capitão Reimão Falcão , filho 
de Simão Gonfalves Preto o Chanceller 
Mor do Reyno ; e da náo S. Lourenço a- 
diante daremos razão do que lhe luccedeo 
na viagem. 



CA- 



170 AS IA de Diogo de Covt© 

CAPITULO VIL 

Da grande Armada com que Ruy Gonfal- 
ves da Camera partia pêra o eftreito 
de Meca : e de como o Vifo-Rey mandou 
por Cofme Faya lançar na cofia da Abaf- 
Jta "João Baptifia Briti , e que homem 
era efie : e dos Capitães que foram en- 
trar em fuás Fortalezas. 

NAó pode fer tão bem encuberta a jor- 
nada de Ruy Gonfalves , que logo 
em fe praticando fe não vieíTe a faber , e 
eftranhar, por fe haver por coufa defnecef- 
faria , e que fe não fazia fenao fó pêra fe 
fazer a vontade a Ruy Gonfalves , o que 
foi muito murmurado , e quaíi fe profeti- 
zou o defaftrado fim que veio a ter ; por- 
que hum certo Fidalgo nos contou que ef- 
tando em huma Igreja áMiífa, ouvira pra- 
ticar neila dous Cidadãos velhos ; e lança- 
da a orelha , diííe hum delles : » Sabei que 
» affim como não pode vir á índia Arma- 
» da de Turcos que fe não perca , aílim 
» não pode ir nenhuma nofla ao eftreito 
)) de Meca que não tenha o mefmo fim » 
trazendo exemplo das vezes que os Tur- 
cos pairaram á índia , e das noíTas Arma- 
das que foram ao eftreito , a que aconteceo 
tantas defaventuras , como fe verão na II. 

e 



Década X. Ca?. VI. 171 

c TIL Década de João de Barros ; e fe qui- 
zerem perguntar , e tomar conta de quem 
teve a culpa das defavenças entre o Vifo- 
Rey , e D.Jeronymo, e do defaftrado fim 
deíla jornada 5 acharemos toda fobre Ruy 
Gonfalves da Camera , que de íbffrego de 
querer ambas as jornadas , as fez fetn or- 
dem , e fem tempo ;. porque fendo elle 
foldado velho na índia , bem entendido 
tinha que fe hia com tamanha Armada a 
bufcar Galés, que elías fahemfóra daquelle 
eílreito em começando os levantes , que 
lie entrada de Novembro , como já tinha 
fahido huma pêra a coita de Melinde , de 
que logo daremos razão , e fe tornaram a 
recolher por fim de Abril, tempo em que 
as noífas Armadas já alli não podem eílar : 
e na verdade que elle Vifo-Rey não teve 
culpa na Armada , pois EIRey lha manda- 
va fazer, como diziao , nem na eleição de 
Ruy Gonfalves , que era hum Fidalgo ve- 
lho , e bom cavalleiro-; mas fó teve a cul- 
pa de fe governar tanto por elle , que 
commetteo aquella jornada fem confelho dos 
Capitães da índia, porque nem a Cidade, 
nem elles lhe foífem á mão , o que lhe veio 
de muito bom coração , e de muita bonda- 
de , pela qual fe tinha entregue a parentes ; 
e na mais pureza com que governou eíle 
Eítado, feverá bem a defaffeição que fem- 

pre 



171 A SI A de Diogo de Couto 

pre teve as coufas , que podiam pôr huma 
muito pequena nódoa em fua coníciencia , 
e fidalguia : e muito antigo he de algumas 
defordens que alguns Vifo-Reys , e Gover- 
nadores fizeram , terem a culpa os paren- 
tes , que muitos tratam mais do feu parti- 
cular, que de honra dos Vifo-Reys ; e não 
deixaremos ( pois cahe a propofito ) de 
contar hum cafo efpantofo que aconteceo 
a hum Vifo-Rey, homem virtuofo, e bem 
prudente. A eíle fazendo-lhe hum parente 
feu allinar huma Provisão , fçgundo di- 
ziam, injuíta, bem contra fua vontade, di- 
zem que diflera ao aílinar : Mão que tal 
ajjina , bem merece cortada \ e aífim fe vio 
depois , o que parecco permifsão Divina, 
porque indo pêra o Reyno , falecendo no 
mar , mandou que lhe cortaífem o braço 
direito , e que llio levaíTem a Portugal , e 
que feu corpo folie lançado ao mar ; e por 
certo que pela caftidade, juftiça, piedade, 
e mais virtudes que eíle Vifo-Rey teve, 
fe pode crer que eftará na Gloria , e que 
fatisfaria com Deos o cortar do braço, 
com que lhe fez aquelle ferviço , do qual 
depois faria emenda ; e efta era a razão , 
por que os Romanos , em quanto florecê^ 
ram , não confentíram levarem os Confules 
ás guerras nenhuns parentes , fegundo diz 
Júlio Cefar em huma Epiftola a Athica, 

por 



Década X. Cap. VIL if% 

por evitarem eíles exceflbs , e defordeias, 
qu£ algumas vezes faziam : e daquelle fa- 
moíb Cleon fe lê , que quando entrou no 
governo de fua Republica , fe defpedio 
dos parentes , porque entendeo que não fe 
podia confervar aquelle Reyno 5 quando 
elles andaíTem de permeio ; e tornando ao 
noíTo lio , o Vifo-Rey antes de defpedir 
Ruy Gomes pêra Panane , o fez a hum na- 
vio muito ligeiro , que já tinha preftes , 
do qual era Capitão Cofme Faya , homem 
muito prático nos eílreitos pêra ir ao de 
Meca eípiar as Galés , pêra que em che- 
gando Ruy Gonfalves com fua Armada, 
achar na boca daquelle eftreito novas do 
que lá hia ; e com elle mandou embarcar 
João Baptiíta Briti , pêra de caminho o 
lançar em Macua pêra dahi paíTar ao Im- 
pério de Abaília a negócios a que o Papa 
o mandou; c porque fera bem faber-fe que 
homem era eíte , e ao que hia , daremos 
aqui brevemente relação delle. Succedendo 
na Silha Pontifical por morte do Papa Pio 
V. que faleceo pelos annos do Senhor de 
1582. ? o Pontiíice Gregório XIII, .Clérigo 
Cardeal que foi de S. Sifto 9 que de an- 
tes fe chamava Hugo Bomconipanhô Bolo- 
nhez ,, o qual não fe defcuidando de fua 
obrigação , quiz mandar ao Império de 
Abaffia hum Patriarca pêra inílruir aquella 

Chri- 



174 ÁSIA dé Diogo de Couto 

Chriftandade nos coftumes Romanos, pela 
inftancia com que por algumas cartas IMo 
pedia aquelle Rey , e a fazer-lhe a f&ber 
de fua fuccefsao , e aconfolar aquella Chri- 
ftandade tão remota , e apartada da Igreja 
Romana , e a tomar informação de fuás 
coufas pêra as prover , como tinha por obri- 
gação de feu officio , ordenou que eíte Pa- 
triarca foífe em trajos mudados , e como 
forafteiro , pelo perigo que corria fe foífe 
de outra forte , nem feria ptfífívei poder 
paífar lá ; e praticando com os Cardeaes , 
o de Medice lhe inculcou efte João Baptif- 
ta Briti , que era de fua obrigação , Frade 
de S. Francifco, natural d.ò Reyno de Ná- 
poles, varão de muito boas letras, grande 
Filofofo , e de muito viv/o entendimento v e 
juntamente com eíle homem mandou o Sum- 
mo Pontífice outro ohamado João Baptifta 
Vaquete Florentino ^ da mefma obfigaçao^ 
dos Medices ( que lie de que já atrás fal- 
íamos) pêra a Períia com cartas ao Xá 
ínui importantes fá Chriftandade , que nos 
cá não fouberar^i dizer; mas deviam de fer 
a perfuadillo que fe defendeífe bem do 
Turco , e qr^ fe lhe fizeífe toda a guerra 
que pudeífe ? porque aífombroir muito a 
Cliriftanda^je de verem o pé que elle ti- 
nha naquele Reyno com aquellas Fortale- 
zas, em 4 tfito mais agora com a deTabriz , 

que 



Década X. Cap. VII. 17$ 

que lá efpantou a todos. Eíles homens am- 
bos defpachou o Santo Padre com fuás car- 
tas , e inftrucções , e em trajos de Merca- 
dores fe paliaram a Tripoli de Suria , e dal- 
li fe apartou o João Baptiíta Vaquete pêra 
a Perfia , e foi recebido do Xá mui bem , 
e lhe deo as cartas , e tomou a refpofta , 
com que efte verão paíTado chegou a eíla 
Cidade de Goa, e fe embarcou pêra oRey- 
no nas náos paífadas , e o Vifo-Rey D. 
Duarte lhe deo gazalhados , e dinheiro pê- 
ra fuás defpezas , ejoão Baptiíta Briti apar- 
tou-fe delle na Suria , e metteo-fe emhuma 
cáfila pêra Bácora , e dalli em huma Ter- 
rada pêra Ormuz , e no caminho foi fal- 
teado dos Niquilús , e roubado ; e a hum 
companheiro que trazia, grande fundidor, 
que o Santo Padre mandava aoPreíteJoão , 
lhe cortaram as mãos , e os deixaram : af- 
fim foram ter a Ormuz efte verão , donde 
o companheiro das mãos cortadas fe tor- 
nou pêra a Europa, eelle veio a Goa, on- 
de deo cartas do Cardeal de Medices pêra 
o Conde D. Francifco Mafcarenhas , que 
ainda quando elle partio governava a ín- 
dia, nas quaes lhe encommendava da par- 
te do Santo Padre déífe ordem com que 
aquelle homem paífaíle á Abaífia., porque 
hia a negócios que importavam. Eftas car- 
tas deo elle ao Vifo-Rey D. Duarte que as 

ef- 



%j6 ÁSIA de Diogo de Couto 

eftimou muito, e lhe deo dinheiro pêra fe 
fazer preítes , e fe agazalhou em eafa dè 
Filippe Safete , Feitor dos Balfares , pêra 
quem trazia cartas, onde nós o fomos vi- 
íitar , e foubemos de fua jornada , e por 
eíta razão o Vifo-Rey D. Duarte o nego-* 
ciou pêra a Aballia , e por elle efcreveo 
cartas ao Imperador , e o mandou embar- 
car com CofmeFaya, como diflemos. Efte 
navio partio de Goa a 15. de Dezembro 
de 1585. e de fua viagem adiante dare-* 
mos razão ; e porque a cofta do Norte fin- 
cava fem Armada com a vinda de Ruy 
Gomes da Gram , defpedio o Vifo-Rey João 
Cayado de Gamboa, que tinha chegado de 
levar a cáfila a Panane , como atrás dif* 
femos , com finco navios , de que eram 
Capitães D. Gileanes de Noronha , Diogo 
de Reinofo de Souto-maior , D. Luiz Lo- 
bo, Domingos Alvares, e Jorge Nunes; e 
do que lhe aconteceo adiante danemos ra- 
zão. Ruy Gonfalves da Camera , tanto que 
chegou a Cochim , deo preífa á fua Arma- 
da , e a 10. de Fevereiro fe fez á vela : le- 
vava quatro Galés , dous Galeões , e vinte 
navios : os Capitães das Galés , a fora el- 
le , que hia em huma , eram D. Jorge da 
Gama , irmão de D. Francifco da Gama , 
Conde da Vidigueira , Pedro Homem Pe- 
neira y e Simão Moniz da Camera : dos Ga- 
leões 



Decaída X. Cai*. VII. 177 

leões D. Francifco Mafcarenhas , Chriftovão 
da Veiga , e das Fuítas D. António Ma- 
noel, irmão doCoiide da Atalaya* D. Min- 
guei de Caílro , Duarte Moniz Barreto, 
D. António Manoel de Santarém , D. Ma- 
noel de Lima, D. Jorge de Almada, Ayres 
da Silva , João da Silva , Fernão Gonfalves 
da Camera , filho do Conde da Calheta * 
Diogo Vaz da Veiga j e Triftão Vaz da 
Veiga feu irmão , Roque da Fonfeca , ir- 
mão do Arcebifpo D. Fr. Vicente da Fon- 
feca , André de Soufa Coutinho , João Ro^ 
drigues Cabral 5 Francifco de Soufa Perei- 
ra , Fadrique Carneiro, António Coelho j 
D. Gaftao Coutinho , António Gonfalves de 
Menezes , e hum Fòão Pinheiro , que hia 
na Manchua do íerviço do Capitão Mórv 
Dada á vela , forao feguindo fua viagem $ 
de que adiante daremos razão. No mefmò 
tempo partio o Alferes Mor D. Jorge de 
Menezes com duas náos fuás pêra ir entrar 
na Capitania de Moçambique , por acabar 
feu tempo Nuno Velho Pereira, que la ef- 
tava ; e foi também entrar na Capitania dê 
Ormuz João Gomes da Silva , por ter aca- 
bado feu tempo Mathias de Albuquerque* 



Couto. Tom. Vt P< lu H CA- 



I78 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIII. 

De como huma Galé de Turcos foi ter ã 
Cofia de Melinde : e dos damnos que 
por ella fez : t de como cativou Ro- 
que de Brito. 

HUma das couías que o Turco defeja- 
va muito , era metrer pé na cofta de 
Melinde pela muita copia que lhe diziam 
havia por toda ella de madeira , de que po- 
dia fazer Galés , náos , e todos os mais 
navios que quizeífe com o que ficaíTe fe- 
nhor do mar da índia , porque efte era hum 
0ÍT0 que não podia engolir , como lá dizem , 
ver os Portuguezes fenhores de todo elle, 
e que nem de dentro do eftreito de Meca, 
nem de toda a cofta da índia podiam en- 
trar , nem fahir náos fem falvo conduíto 
íeu , com o que além da perda que niflb 
recebia ] o havia por affronta , e menos-ca- 
bo de fua grandeza ; e mandando n.efte tem- 
po por Vifir das Arábias ( que he aquella 
terra , a que os Perfas chamam Aymão ) 
Amirafenafi , de nação Albanez , homem 
mui bem inclinado, e amigo de Chriftaos, 
por feus pais o ferem , o qual era muito 
acceito ao Turco, e como tal o fez Super- 
intendente de todos os Baxás , que elk 
tinha por todas aquellas partes defde Me 

ca 



Década X. Cá*. VIIL 179 

Ca até Adem, e mandou quereíidifle ha Ci- 
dade de Hanaá , que eílá íituada em meio 
da Arábia Feliz em derredor de vinte è 
dous gráos da altura do Pólo Artico , fe£ 
fenta léguas pelo certão da Cidade de Ju- 
dá a Norte 5 e outras tantas da Cidade de 
Far, de maneira que fazem todas ires hunt 
triangulo. Efte Mirafenafi | como hiamos 
fallando , trouxe por ordem doTuíxo ten-* 
tar eíta viagem 5 a que logo quiz dar exe-> 
cuçao , e praticou fobre iíto com Mouros 
práticos nas couías do mar , e que já ti- 
nham navegado pêra aquella cofta de Me-* 
linde, os quaes fizeram a jornada fácil, e 
lhe íeguráram delia grandes thefouros, com 
o que movido da cubica, mandou em Me- 
ca negociar duas Galés ^ e elegeo pêra a 
jornada hum Mouro chamado Alibec , ho^ 
mem efperto nas coufas do mar 5 foberbo, 
arrebatado ) mas de pouco governo, e lhe 
deo por regimento que fofle notar os íi- 
tios, e portos de toda a coita de Melinde, 
e qual delle feria melhor pêra fe nelle fa- 
zer hum Forte , e que apalpaíTe todos aquel- 
les Reys 5 e trabalhaíle pelos fazer aõ feii 
ferviço com promeífas grandes , e que lhes 
affirmaíTe que logo havia de mandar cabe- 
dal baftante pêra lançar os Portuguezes fo- 
ra dalli , e ainda de Moçambique , e das 
Minas de Cuamá. O Mir Alebec- deo tán* 

M ii ta 



i8o ASIÀ de Diogo de Couto 

ta prefla ás Galés, que em começando os 
levantes , fahio fora do eftreito , e como 
deo nos mares largos , abrio a Galé de íua 
companhia de feição , que lhe foi forçado 
tornar-fe a recolher , e elle foi fó fazendo 
ília viagem com bom tempo , e a primeira 
terra que tomou , foi a Cidade de Mogada- 
xo , e da barra mandou recado aos Rege- 
dores em que lhes fazia a faber de fua 
chegada , e que partira com huma Armada 
groíTa , que vinha atrás, por mandado do 
Grão Senhor , pêra metter debaixo de fua 
fujeiçao todos os Reys , e fenhores daquel- 
la coita : que os que logo quizeffem obe- 
decer, feriam recebidos bem, e lhes fariam 
muitas honras , e mercês , e que o que foí- 
fe contumaz , feria aíTolado , e deltruido 
de todo. Com eíle recado acudiram os prin- 
pipaes da Cidade a lhe darem obediência , 
e lhe levaram huma quantidade de dinhei- 
ro pêra as defpezas da Armada , porque 
lhes não faqueaffe a terra : alli armou al- 
guns pangaios , em que fe embarcaram 
muitos Mouros pêra o acompanharem , pro- 
xnettendo-lhe parte das prezas. Dalli foi 
ter ás Cidades de Brava , Jugo , Patê , e ás 
mais , as quaes logo lhe obedeceram , e fe 
íizeram os feufc Reys , e Governadores va£ 
fallos do Turco, e em todas lhe deram di- 
nheiro.; em Patê, que foi a derradeira da«^ 

quel- 



Década X. Cap, VIII. 181 

quellas , achou huma naveta do Capitão de 
Dio , que teria dez , ou doze Portuguezes , 
e a tomou 5 fem fe lhe defenderem. As no- 
vas dos Rumes (que affim chamam em to- 
da a índia os Turcos ) foram logo corren- 
do por toda a coita abaixo até chegar a 
Ruy Lopes Salgado , Capitão da coita de 
Melinde ; e chegando aquella voz de Ru- 
mes , Rumes tão arreceados de todos , fem 
dizerem o numero das Galés , affim aífom- 
brou a todos , que ajuntando-fe os Merca- 
dores , e Chriltãos que havia por aquella 
coita , fe recolheram a Melinde , aonde 
com o favor daquelle Rey fe fortificaram o 
melhor que puderam ; e embarcando-fe de 
feição , que não lançaram efpias pêra fa- 
berem de que fe recolhiam , e pêra man- 
darem avifar as náos de Chaul , e Baçaim , 
que cada dia fe efperavam , que por eíle 
defeuido lhe foram cahir nas mãos ; e tal 
andou efta Galé , que á mingua fe perdeo ; 
porque fegundo a fegurança , e defeuido 
com que fe deixou andar por todos aquel- 
les portos , facilmente fora tomada com 
quaesquer embarcações, porque não trazia 
mais de 8o. homens de peleja, fem ordem.., 
efem vigia, como fe andaram por fua ter- 
ra. Roque de Brito , que acabara de fer 
Capitão daquella coita , eítava áquelle tem- 
po na Ilha de Lanço ; porque indo pêra a 

In- 



181 ÁSIA de Diogo de Couto 

índia em Setembro em luima naveta y ti- 
nha-fe perdido , e em outra embarcação fe 
falvou com toda a fazenda que alli tinha. 
Chegando-lhe novas dos Turcos eftarem em 
Patê , não fe dando por íegurp na Ilha^ 
paíTou á terra firme á Cidade de Luziva 
com feguro daquelle Rey , que o recolheo 
em fua cafa com a gente de fua . compa^ 
nhia , que feriam quinze peíToas entre Por* 
tuguezes , e meltiços. O Alibec foi avifado 
delie pelos Mouros , que lhe affirmáram 
eílar mui rico ; e indo-fe pôr fobre aquella 
barra , tratou com EIRey por recados que 
lho entregaífe , que lhe não buliria na ter- 
ra, fenão que fouhefíe que o havia de def- 
truir. Era eíleRcy hum Mouro muito ve- 
lho , e cego , que tinha tomado aquelle 
Reyno a huma fenhora , cujo era de direi- 
to 5 da qual adiante daremos razão ; e tal 
manha fe deram os Mouros de Patê , que 
andaram nefte negocio , que perfuadíram 
os principaes da Cidade afazerem com EI- 
Rey que fizeífe aquella entrega dos Portu- 
guezes , pêra com iíTo fegurar fua peífoa, 
e terra ; e tanto fizeram com EIRey, que 
lhe mandou dizer que fahiífe elie em ter- 
ra , e os foífe tomar , que elle lhes daria 
pêra ilTo ajuda, c favor. Com ifto lançou 
o Alibec trinta Turcos em terra com huma 
companhia dos Mouros que o feguiam , e 



Década X. Cap. VIII. 183 

foram commetter as cafas de EIRey , fem 
Roque de Brito faber parte deites tratos, 
fenao quando ouvio o reboliço no pateo 
em baixo , com o que não teve mais tem- 
po que de tomar huma efpada , e rodela , 
efahir ao pateo com os companheiros cçm 
as armas que puderam ; e achando osTur* 
cos , os commettêram mui determinadamen- 
te, esforçando elle aos que o feguiam , e 
fazendo maravilhas ; mas como citavam 
vendidos , foram logo falteados dos mef- 
mos da terra , e tomados ás mãos , entrai 
das as cafas de EIRey , e faqueadas todas 
as fuás fazendas , que ío a de Roque de 
Brito montava perto de vinte mil cruzados 
em ouro , e em ambre , entre o qual ha- 
via hum pedaço muito alvo, que tinha de 
pezo três mil cruzados , com o que fe re- 
colheo y e os Portuguezes foram mettidos 
a banco. Feito ifto , tomou o Alibec huma 
fufta que alli tinha Roque de Brito , e a 
armou, e negociou , e lhe metteo Mouros 
da terra , e com ella, e com os pangaios 
que foi armando por aquelles portos , já 
trazia derredor de vinte embarcações , e 
dalli fe tornou a Patê pêra fe ver com 
aquelle Rey , de quem fazia mais cabedal 
pêra a fua pertençao, Succedeo que pouco 
antes quechegaííe, tinha entrado huma náo 
do Capitão de Chaul carregada de fazendas 

com 



i§4 ÁSIA de Diogo de Couto 

com mais de trinta Portuguezes ; e coma 
eram chegados de tão pouco , não tiveram 
ainda tempo de faberem da Galé , nem 
quem osavifaífe, porque não tomaram ou- 
tra terra. Eílando bem defcuidados, appa- 
receo a Galé com aquella Armada de pan-? 
gaios 3 com o que ficaram fohrefaltados , e 
todavia puzeram-fe em armas, e fizeram a 
náo leites , e concertaram algumas bom- 
bardinhas com tenção de fe defenderem : 
o Mir Alibec os foi commetter \ e achanr 
do-os tão determinados , houv£ que lhes 
nao havia aquella náo cuftar tão barata i 
como a de Dio , pelo que perfuadio a Ro- 
que de Brito que mandaífe recado- iquelles 
homens , que não quizeífem morrer par- 
voamente , que fe entregaífem , que elle 
•lhes faria mercê d^s vidas, e liberdade das 
peífoas , fenao que foubeífem que havia de 
metter "todos á efpada. Sobre aquillo lhes 
efcreveo elle huma carta , em que lhe acon- 
felhou que fe entregaífem , pois não per- 
diam mais que as fazendas ; porque podo 
que os Turcos eram poucos , que todavia 
traziam todas aquellas embarcações cheias 
de Mouros que os ajudavam. Lida efta 
carta pelos da náo , ficaram divididos em 
dous pareceres : huns que pois lhe aífegu- 
a*avam as vidas ? e liberdade , que fe en- 
tregaífem i outros que pois perdiam as fa>r 

zen- 



Década X. Cap. VIII. 185- 

zendas , perdeflem fobre ellas as vidas , e 
fe defendeífem ate acabarem. Em fim de*- 
batido o negocio , houve de vencer o defejo 
da vida , e mandaram dizer a Roque de Bri- 
to que acceitavam a condição , que alli efta- 
va a náo , e as fazendas : o Alibec mandou 
trazer o Capitão , e os Portuguezes ; e que- 
brando-lhes a palavra, os metteo a banca, 
e a náo foi faqueada , e roubada , e com 
ella andou á toa por todos aquelles por- 
tos , refgatando as fazendas , enchendo-fe 
de ouro, âmbar, marfim, e efcravos , em 
quê gaitou até todo Abril , e tratou com 
todos aquelles Reys que mandaífem oíFe- 
Fecer vaílallagem ao Turco , o que os de- 
mais delles fizeram ; e os de Mombaça , 
Calife , Patê , e outros ordenaram Embai*- 
xadores pêra mandarem cpm o Alibec > 
pelos quaes mandaram offerecer ao Turco 
recolhimento naquella Ilha. Com iílo fç 
recolheo o Alibec, e chegou ao eftreito a 
tempo que já era partido Ruy Gonfalves 
da Camera dalli j e como a Galé era velha > 
chegando ao porto de Moca , fe lhe fez 
.em pedaços , e elle fe partio com os ca- 
tivos pêra a Cidade de Sana , e os entre- 
gou ao Baxá que os eílimoti muito , e logo 
mandou Roque de Brito de prefente ao 
Turco , e os mais metteo em hum jardim 
pêra trabalharem nelle , onde os tratou mui 

hu-. 



i86 ÁSIA de Diogo de Couto 

humanamente , depois fe refgatáram pou- 
cos e poucos , e Roque de Brito morreo 
em Conítantinopla , eftando já refgatado 
em dous mil cruzados. 

CAPITULO IX. . 

Do que fez Ruy Gomes da Grani em Pa* 

nane 5 e tornou de novo a fortificar 

aquella Fortaleza : e de como fe foi 

ver com o Çamorim. 

ENtregue Ruy Gomes daGram da For- 
taleza de Panane , e partido Ruy Gon- 
falves pêra Cochim , fez alardo da gente, 
e navios que lhe ficavam , e achou huma 
Galé , de que era Capitão Bernardim de 
Carvalho, e vinte e quatro navios , Capitães 
D. Nuno Alvares Pereira , filho do Conde 
da Feira, D. Bernardo Coutinho , Luiz Fal- 
cão , Gafpar de Carvalho de Menezes , Fran- 
cifco de Soufa Rolim , Chriftovao de Mel- 
lo, Duarte Malcarenhas , Jorge de Mello, 
Jorge Barreto , Gafpar Fagundes , Eílevão 
de Valladares, Pedro Vaz, Luiz deEfpino- 
la , André de Negreiros , António da Cof- 
ta Berrique , Manoel Carneiro , Ruy de 
Sá , Miguel da Maia , D. Pedro Real , Ma- 
noel Caldeira , Francifco Pinto Teixeira, 
Pedro Velofo , Domingos Alvares , Manoel 

da 



Década X. Cap. IX. 187 

da Veiga, Pedro Rodrigues Malavar, e ou- 
tros Fidalgos , e Cavalheiros lem navios , 
e trezentos e fincoenta íbldados ; e achan- 
do Ruy Gomes que o que eííava feito não 
era nada , mais que páos mettidos na ter? 
ra , e tão largos que por partes podiam 
entrar, e fahir , e que não podiam íbffrer 
entulho , por eftarem mal mettidos , com o 
parecer dos Fidalgos , e Capitães tornou a 
tirallos fóra , e enterrallos mais juntos, 
e tanto debaixo do chão , que pudeíTem 
fuftentar o pezo do entulho , que havia da 
fer muito largo, e affim foi correndo com 
o tapigo de duas faces , o qual hia logo 
entulhando, andando elle com todos osFi? 
dalgos , Capitães , e foldados na obra , e af- 
fim a foi acabando com muita preíTa ; e na 
ponta que ficava fobre o rio ordenou hum 
Baluarte com feus revezes , que refpondia 
dalli ao bafar dos Mouros, e varejava todo 
o campo , e efta obra encarregou a Gafpar 
Fagundes , que havia de fer Capitão dei* 
le , o qual acabou com muita induílria , e 
trabalho f eu ; e no meio da face , ou tefta 
do muro fez outro Baluarte muito fermo- 
fo , e no meio delie fe abrio hum fermofo 
poço de agua pêra gafto da obra ; e neíle 
Baluarte fe apofentou o mefmo Ruy Go- 
mes da Gram ; e na ponta do muro , que 
hia fechar no mar, fe fez outro Baluarte j 

e 



i#8 A S I A de Diogo de Couto 

e quanto a maré de baixa mar de aguas 
vivas podia cubrir , correram com huma 
couraça de entrar no mar , porque como a 
maré alli efpraiava muito , deixava hum 
grande lugar aberto por onde fe podia en- 
trar, e no Baluarte fizeram algumas guari- 
tas com feus andaimes em roda ; e todas 
eftas eftancias guarneceo com Falcões , e 
Berços dos navios ; e porque aquella par- 
te que ficava íbbre o rio , que corria do 
Baluarte de Gafpar Fagundes pêra a barra, 
era huma grande diftancia, que ficava dei* 
abrigada , aonde os navios não podiam 
chegar , por fer tudo baixia , mandou o Ca- 
pitão Mor fazer feus Baluartes pequenos 
em igual diftancia , e de hum a outro fe 
correo com huma tranqueira de madeira 
fingela que bailava pêra aquella parte ; e 
pofto que o Capitão teve nefta fortificação 
muito trabalho , o maior de todos , e que 
mais lhe pezou foi curar as defconfianças 
dos homens , porque havia muitos que lhes 
parecia que nao eftavam feguros naquelle 
Forte , pela pouca fé que o Çamorim coftu- 
mava guardar aos Portuguezes por induzi- 
mentos dos Mouros , mortaes inimigos dos 
Portuguezes , contra cujo parecer, e von- 
tade deo o Çamorim efte lugar pêra efte 
Forte', e receavam que com peitas , e com 
dadivas ovieílem ainda a tranftornar , eco* 

mo 



Década X. Cap. IX. 189 

íno elle era ainda por natureza falfo , e 
fementido , não lhe ciaria nada de quebrar 
a palavra \ antes folgaria muito de haver 
aquella preza ás mãos \ e que como en- 
traíTe o inverno , em que lhe não podia 
vir foccorro de fora, osfolTe cercar, clhes 
déíTe grande trabalho. Com eílas confide- 
rações, e defconfianças havia grandes mur- 
murações , e ajuntamentos dos loldados fepa- 
rados , que não fallavam em outra coufa , a 
que o Capitão acudio pêra atalhar aquellas 
uniões , e fez algumas falias a todos , em 
que os perfuadio a tirarem aquellas imagi^ 
nações , fegurando-lhes que da parte do 
Çamorim nunca haveria falta na fé , dan- 
do-lhes pêra iíTo muitas razões , que lhes 
não fatisfizeram , enão deixaram de remor- 
der todos os dias naquella matéria , e de 
fe moítrarem defcontentes , e defgoftolbs , 
e ainda quafi alterados. Vendo Ruy Gomes 
aquellas defordens, não achou já outro re- 
médio que ir ver-.fe com o Çamorim \ pêra 
que vendo os foldados a confiança que n el- 
le tinha , com fe ir metter em feu poder , 
perdeífem o receio em que eftavam , e fi- 
caííern com mais fegurança , e menos te- 
mor ; e embarcando-fe na Galé , tomando 
alguns navios comfigo, foi-fe pêra Calecut, 
deixando a Fortaleza entregue a Bernar- 
dim de Carvalho ; e chegando á bahia * 

mau- 



tço ÁSIA de Diogo de Couto 

mandou pedir licença ao Çamorim pêra a 
ir viíitar a fua caía , não querendo aguar- 
dar as ceremonias , e pontos dos outros 
Capitães Mores , pêra com ifíb o obrigar 
a mais : elle moftrou muito contentamen- 
to da fua vinda , e lhe mandou a licença 
que lhe pedia , mas que fe deixafle eftar 
até lhe elle mandar recado , porque não 
havia de fazer negocio algum > fenão no 
dia que os Bragmenes lhe deflem ; e aflim 
efperou até que elles em feus finaes , e cal- 
culações acharam bom dia , no qual Ruy 
Gomes defembarcou rodeado dos feus Ca- 
pitães , e foldadefca , e diante dez alabar- 
deiros 5 e efpingardeiros de fua guarda com 
feu tambor , pifano , e trombetas , e na 
praia achou Mangate Achem feu Regedor 
Mor , e outros Regedores ? e Parricaes , 
que o receberam muito bem , e lhe apre- 
fentáram hum andor muito rico da peífoa 
do Çamorim, e o quartão que o Vifo-Rey 
lhe tinha mandado com a guarnição de ve- 
ludo carmezim pêra efcolher qual delles 
quizeífe pêra fua peífoa; e porque lhe pa- 
receo mais foldadefca o quartão , cavalgou 
nelle , e os Regedores , e Mandadores , e to- 
dos os Fidalgos , e Capitães a pé de redor 
do quartão , e detrás huma grande quan- 
tidade de Naires Parricaes , e outros offi- 
ciaes de EIRey. Chegados aos Paços , to- 
mou 



Década X. Cap. IX. 191 

mou o Mangate Achem o Capitão Mór pe- 
ja mão , e entrou com elle pelos pateos ; e 
á porta das cafas , que eram fobradadas > 
achou EIRey , que o efperava com feus 
Bragmenes. Ruy Gomes tanto que o vio, 
fez-lhe íua cortezia a noflb modo , e o Ça- 
morim o recebeo graciofamente , e alli em 
pé lhe mandou Ruy Gomes dizer que elle 
eítava por Capitão na Fortaleza de Pana- 
ne , e que a tinha fortificado, e acabado, 
que pois aquella terra era de fua Alteza, 
que também a Fortaleza o era , e que da 
lua mão eítava nella , que lhe vinha dar a 
homenagem , porque entendia que EIRey 
D. Filippe diíTo havia de levar muito goi- 
to ; porque fendo affim , fegurava o animo 
dos feus foldados , e dos vaífallos de fua 
Alteza com verem todos que elle tomava 
aquella Fortaleza á fua conta , e que o fa- 
zia delia Capitão : iíto tudo ouvio EIRey 
muito prompto , e eftimou muito aquelles 
cumprimentos tão públicos, por ferem dian- 
te dos do feu Confelho , que foram contra 
o parecer de fe dar naquelle porto Forta- 
leza aos Portuguezes , porque lhe tinham 
dito que elles eram muito alterados, e que 
como eftiveífem fortificados , lhe não ha- 
viam de guardar fé, nem lealdade , antes 
de alli lhe haviam de fazer muita guerra ; 
c a iífo lhe mandou refponder , que elle 

ao 



lyi ÁSIA de Diogo de Couto 

acceitava aquelles cumprimentos : que a 
Fortaleza , e a terra eram de EIRey de 
Portugal , que elie a tomava á lua conta , 
e debaixo da iua protecção , e que dalli 
por diante lha entregava a elle Capitão pê- 
ra a ter ; e que além diíío o fazia Rege- 
dor dePanane, e lhe dava em toda aquella 
jurifdicção feus próprios poderes iobre to- 
dos os naturaes. Ruy Gomes fe humilhou, 
e acceitou a mercê com palavras de gran- 
des cumprimentos : difto tudo mandou elle 
logo a feus Officiaes que lhe palTaíTem fuás 
Provisões , e dalli fe defpedio EIRey y e 
Ruy Gomes ficou no pateo , e foi levado 
por todos aquelles Regedores a cafa de 
hum Mercador rico Gentio, que agazalhou 
a todos , e os banqueteou a feu modo mui- 
to honradamente , e alli efteve três dias , 
€m quanto lhe fizeram os Alvarás emOlas, 
os quaes lhe foram entregues aílinados peld 
Çamorim , com o que fe mandou defpedir 
delles j e o fez cos Regedores , que o acom- 
panharam até á praia; e embarcado , par- 
tio pêra Panane , aonde chegou ao outro 
dia , e com eftas coufas fe feguráram os 
foldados ; e porque pêra o inverno , que 
fe vinha chegando, eram neceílarias muitas 
coufas, de que a Fortaleza eftava falta, pa* 
xeceo bem a todos que folie Bernardim de 
Carvalho a Goa a dar razão ao Vifo-Rey 
- i áo 



Década X. Cap. IX. 193 

dó que eftava feito , e do que tinha paíla* 
do com o Çamorim , e a pedir~lhe provi- 
mentos , gente ^ e dinheiro, e lhe mandou 
o traslado das Olas j que o Çamorim lhe 
mandou paíiar ; e em quanto Bernardim de 
Carvalho ilão tornou > ficou Ruy Gomes 
dando ordem pêra fe fazerem cafas , e aga* 
zalhados pêra homens , e pêra armazéns. 

CAPITULO X. 

Do que aconteceo a João Caiado de Gam~ 

boa em Surrate fobre huma não , que 

Ca Hebe Ma h ame de queria lançar 

pêra fora fem cartaz. 

PÀrtido João Caiado de Gamboa pêra 
o Norte , como atrás diíTemos ^ foi 
dando guarda a huma cáfila de navios, que 
hiam pêra aquellas Fortalezas , e 110 cami- 
nho tomou hum Catacoulao de ladrões que 
levou comfigo, e em Chaul o armou pêra 
o acompanhar ; e depois de deixar a cafi-^ 
la fegura , foi correndo a cofta até á en- 
feada de Cambaia em bufea de ladrões, 
e atraveflbu a Dio a fazer negocio; e vol- 
tando pêra a cofta do Norte ^ lhe deram 
huma carta do Vifo-Rey D. Duarte , na 
qual lhe mandava fe fofle pôr ria barra de 
Surrate. , porque era avifado que o Cali* 
Ççuto. Tom, VI. P. Ih ' N ^ che 



ip4 ÁSIA de Diogo de Couto 

chè Mahamede tinha huma náo á carga 
pêra Meca , fem querer pedir cartaz : que 
relevava muito ao credito do Eílado , e á 
ília honra delle Vifo-Rey impedir-lhe a 
fahida , porque entendefle o Caliche que a 
refpeito doEítado não haviam fuás náos de 
•navegar -, porque tinha dado a entender ao 
Mogor que o havia de fazer aífim , e que 
não havia de tomar falvo condudto dos Por- 
tuguezes - y e ainda dizem , que eílando com 
'elle em praticas fobre eíle negocio , pu- 
dera a mão no traçado , e diííera : ÈJle 
he o cartaz que as minhas náos hão de le- 
var. Cornélia carta fe fez logo João Caiado 
na volta da enfeada deCambaia, fem em- 
bargo de entender que não levava Arma- 
da pêra eftorvar a fahida aquella náo, que 
eftava certo fahir muito provida de gen- 
te, e petrechos de guerra; e como o Vifo- 
Rey lhe não deixou nenhum poíligo aberto 
pêra fazer o que entendeífe , quiz antes 
obedecer , e arrifcar tudo , que tomar 
aquelie negocio fobre íi, e de caminho foi 
tomar Damão pêra fazer a faber aquillo a 
D. Luiz. de Menezes , Capitão daquella Ci- 
dade., e faber delle as novas que tinha da 
jiáo., Difto foi logo a Cidade avifada , e 
acudiram os Vereadores com grandes pro* 
teftos:, e requerimentos , pêra que deliílií^ 
fe 4a jornada ? .porque eílava certo feacon* 
ítf ,.'. . te» 



Década X. Cap. X*- 195* 

tecefle defaftre á náo , pagarem-no as ter-* 
ras de Damão , como já fizeram havia três 
annos por outra que Fernão de Miranda 
tomou ; mas João Caiado como hia ata- 
do ao que o Viíb-Rey lhe mandava, fec- 
camente refpondeo á Cidade , que elle fa*» 
zia o que lhe mandavam : que quanto a 
feus prot eitos , que o VifoKey tinha em 
Goa Confelho de Fidalgos, e Capitães ve-" 
lhos , a que não havia de ficar por enten- 
der aquellas coufas , e que elle não podia 
deixar de obedecer ; e provendo*fe de agua % 
e arroz , foi-fe pêra Surrate ; e chegando 
áquella barra , achou no Poço huma náo 
á carga , a qual era do Raju Governador 
de Cambaia , hum Baneane muito má çou- 
f a ; e depois de furgir, mandou perguntar 
aos da náo , fe tinham cartaz pêra pode-' 
rem navegar , que lho mandaíTem mof- 
trar , porque tendo-o , eftavà preíles pêra 
com aquella Armada lhe ajudar a carregar 
a náo, e rebocalla até fe fazei* á vela. Os 
da náo refpondêram que tinham cartaz , e 
que logo lho levariam , e aífim lho trou- 
xeram ao outro dia ; e vendo-o folemne^ 
| lhes mandou que carregaífem 3 e fe foílern 
embora, e lhe poz o cumpra-fe, e com if- 
to fe deixou alli ficar , favorecendo os Tau- 
ris que lhe traziam as fazendas pêra a car- 
ga i e porque foube que fem embargo de 

N ii d- 



19o ÁSIA de Diogo de Couto 

elle eftar naquella barra , o Caliche fazia 
dentro preftes a fua náo pêra a lançar fóra 
nas primeiras aguas , lhe mandou requerer 
que não quizeíle quebrar os contratos das 
pazes , e que fe defenganaíTe que nenhuma 
náo fua havia de navegar fem cartaz ; e que 
aquella que dentro tinha, que lha havia de 
tomar, porque peraiífo efperava porhuma 
náo de Chaul pêra com ella a abordar , e 
que de todos os damnos que fuccedeíTem, 
leria a culpa d elle Caliche. De tudo iílo 
lhe deo pouco , e diífimulou com os pro- 
teftos que lhefegundou, dando carga á náo 
á mor preífa , e mandando armar dez na- 
vios , em que fez embarcar muitos Mouros , 
e Malavai es que alli eftavam em Pagois pê- 
ra irem favorecendo a náo , porque a fua 
tenção era mandar peleijar os navios que 
armava , com João Caiado , pêra naquella 
revolta a náo dar á vela , e ficar-lhe o 
cartaz pêra outra náo , quando de todo em 
todo a não pudeífe lançar fora- por força. 
Deites defenhos foi João Caiado avifado , 
e defpedio logo recado a D. João Couti- 
nho , Capitão da Armada de Dio , que ef- 
tava em Goga , que lhe mandalTe alguns 
navios pêra aquelle negocio , o que elle 
fez, mandando-lhe dous mui bem negocia- 
dos, e cheios de bons foldados. Com eftes 
navios ficou João Caiado mui folgado , por- 
que 



Década X, Cap. X. 197 

que já ficava com Armada capaz depeleijar 
com toda a que íahiíTe deSurrate; e toda- 
via trabalhou com diífímulações de eítorvar 
a jornada á náo , e tornou a renovar os 
requerimentos com o Caliche / e bufcou 
modo com que o mandou dizer aos Mer- 
cadores da náo , que não fahiíTem a arrif- 
car fuás fazendas nella , porque ou elle ha- 
via de perder aquella Armada , ou havia 
de queimar aquella náo. Tantas coufas def- 
tas fez , e tantas lembranças mandou fazer 
ao Caliche , e Mercadores , que nab faltou 
quem aconfelhaffe aflim ao Caliche que não 
mandaíTe a náo , como aos Mercadores que 
não arrifcalTem as fazendas , e que traba- 
lhafíem por peitar a João Caiado , perà 
que fe foífe dalli , porque por muito que 
Jhe deífem , mais perdiam em não fazer a 
viagem. .Efte alvitre trouxe hum Baneane 
a João Caiado , e lhe prometteo três , ou 
quatro mil Venezianos , de que fe elle 
não moílrou efcandalizado por fegurar o 
Baneane , e Caliche , e levar aquelle ne- 
gocio por invenção , porque lhe hiam fal- 
tando mantimentos , e poderia iíío obrigallo 
a illos bufcar a Damão , e entre tanto fa- 
hir-fe a náo : e pêra mor diííimulação fe 
apartou com o Baneane, e fez grandes ef- 
carceos fobre o fegredo daquillo , e em fim 
de razões aílentáram que lhe foíle trazer 

qua- 



198 ÁSIA de Diogo de Couto 

quatro mil Venezianos , e algumas embaiv 
caçoes de mantimentos , e agua , porque 
pêra difíímulação com os íeus foldados 
moftraria fer neceflario ir a Dio , e que 
gaitaria lá até a náo ter agua pêra fe par^ 
rir , e que aílim ficaria a coufa fem o Vi- 
fo-Rey lhe poder pôr culpas , nem os da 
Armada entenderem o negocio, O Baneane 
foi dar conta ao Caliche, o qual logo man- 
dou negociar alguns mantimentos, eagua, 
e deo dinheiro ao Baneane pêra lho levar; 
e com êfta fegurança defarmou os navios, 
e mandou dar preíjfa á carga da náo : o 
Baneane chegou com tudo aquilla á Ai> 
mada 3 e entregou os Venezianos a João 
Caiado, os quaes bem puderam fazer the- 
fouros a alguns ; mas elle tomou os mam 
timentos , e agua , e repartio tudo pelos 
navios; e como fe vio provido por alguns 
dias, tomou o dinheiro ao Baneane, e lhe 
diífe que o levaííe ao Caliche ; e lhe diffeí* 
fe que não cuidaífe que era taonefcio, que 
lhe affirmava que nem pela valia de toda 
a náo havia de largar aquella barra , nem 
a fua náo havia de fazer viagem , que não 
quizera mais que prover- fe á fua cuíla de 
agua , e mantimentos , de que a fua Ar^? 
mada ficava abadada , os quaes elle lhe 
agradecia muito, O Caliche ficou com a^ 
queiie negocio embaçado > e o teve pela, 

pior 






e Década X. Cap. X. T99 

mór affronta que fe lhe nunca fez. Os Mer» 
cadores da náo fabendo aquillo ; não qui- 
seram embarcar luas fazendas , com o que 
a náo fe defarmou , e a que eltava no Poço 
com cartaz fe fez á vela. João Caiado terw 
do aviib de tudo, e não havendo ai li mais 
que fazer , por ferem paífadas as aguas , 
foi-fe pêra ir ajuntando a cáfila das Forta- 
lezas , o que fez 5 e a levou pêra Goa á 
falvamento. 

CAPITULO XI. 

Dos Capitães que foram entrar nas For- 
talezas : e do que aconteceo a Bernar- 
dim, de Carvalho até Panane : e de co- 
mo Ruy Gomes da Gram pro- 
veo as ejiancias. 

POrque o inverno fe hia acabando , e as 
mais das Fortalezas da índia vagavam 
em Abril, defpachou o Vifo-Rey os Capi- 
tães pêra ellas, que eram Miguel de Abreu 
de Lima pêra Baçaim, por acabar feu tem- 
po Thomé de Mello de Caftro , que nella 
eftava, e Manoel de Lacerda pêra Chaul^ 
aonde eftava D.Paulo de Lima , e Aires 
Falcão pêra Dio , por virem novas fer fa* 
lecido D. Dinis de Almeida, que havia pou- 
co que entrara naquella Capitania j e por-* 

que 



jõo AS IA de pfõGo de Couto 

que neíte tempo finha chegado a Goa Ber+ 
nardim de Carvaího a bufcar provimentos 
pêra o inverno de Panane , ordenou o Vi? 
Íb-Rey que elle mefmo foíle invernar na-? 
quelía Fortaleza com mais trezentos ho- 
mens , dos quaes , e dos Fidalgos , e Ca-r 
pitães que hiàm em fua companhia % havia 
de ficar feparado da jurifdicçao de Ruy 
Gomes da Gram ; mas que todavia nas 
coufas da guerra não íe faria coufa algu-r 
ma fem fua ordem. Negociado tudo o que 
havia de levar de dinheiro , e mantimentos , 
e munições , embarcou-fe na entrada de 
Maio , levando doze navios , de que , a fQfc 
ra-elle, eram Capitães D.Diogo Couti- 
nho, o Marialva, que tinha vindo deDio, 
D. Nuno Alvares Pereira , D. Gileanes de 
Noronha , Diogo Reino fa , Mathias de 
Piamonte , Domingos Alvares , Jorge Nu- 
nes , o Jamá, cunhado do Arei de Tanof 
Malavar , Pedro Velofo , Pedro Rodri- 
gues , e outros ; e indo lua viagem , levanr 
do alguns navios de Mercadores , e indo 
entre Cola, e Merifeu , amanheceo a Fufta 
de D.Diogo defgarrada ao mar , e perdi- 
da de toda a Armada , fem ver nenhum 
dos navios j e fazendo-ffc na volta da ter- 
ra , vio duas embarcações grandes que á 
vela o hiam demandar ; e cuidando ferem 
da Armada > os foi também bufcar; ç fçn? 

do 



Década X. Cap. XL zot 

cio perto , conheceram ferem de Malava- 
res , que já o tinham reconhecido , e o 
hiam demandar poítos em armas. D.Diogo 
Coutinho vendo-íe com os paraos quaíi ás 
Jans , foi-fe pondo em armas , e mandou 
endireitar a elles pelos embaraçar ; e toda*- 
via trabalhou por lhes tomar o balraven- 
ío , como fez , e já neíle tempo começa- 
vam a apparecer alguns navios da Arma* 
da , huns á vante , e outros á ré , os quaes 
também já tinham viítos , e reconhecidos 
os paráos ; e Bernardim de Carvalho , que 
hia á terra , foi-fe adiantando pêra lhe to- 
mar huma ponta , pêra elles a não vinga- 
rem , fe vieílem fugindo. D. Diogo tanto que 
vio os navios da Armada , e que tinha to*- 
jnado o balravento aos paráos , defandou 
fobre elles com tenção de os inveílir ; ç 
ao tempo que já elles faziam volta pêra fe 
acolherem i porque viram os outros navios , 
todavia como D.Diogo levava navio mui- 
to veleiro , alcançou hum , e dando-lhe a 
primeira furriada de arcabuzaria , o inveltio 
i vela ; e lançando-fe dentro com os feus 
foldados , em breve efpaço axorou o na- 
vio , matando a mor parte dos Mouros á 
efpada , e os mais fe lançaram ao mar, 
onde foram tomados ; e dando toa ao na- 
vio, o levou comíigo. O outro coífairo co- 
mo era muito ligeiro , foi tomando o bal T 

ra- 



ioz ÁSIA de Diogo de Couto 

ravento aos navios que o feguiam , cfoi-fe 
adiantando, deixando os noíTos ir, porque 
entenderam que o não podiam alcançar. 
Bernardim de Carvalho foi feu caminho, 
e paliou por Cananor íem o querer tomar, 
e íem íua licença fe deixaram ficar alli três 
navios pêra tomarem alguma coufa; e fen- 
do tanto avante como o rio de Cunhale, 
deixou-fe ficar efperando pelos navios que 
vinham atrás , porque teve avifo que o 
Cunhale tinha negociadas quatro Galeotas 
muito fermofas pêra ver fe podia fazer al- 
guma preza nos navios que ficalTem de- 
trás , porque já fabia daqueila Armada, e 
eftas Galeotas eílavam fora do rio cozidas 
com a terra. Bernardim de Carvalho tanto 
que houve vifta delias , poz-fe em armas, 
e ajuntou a íi os navios da fua Armada , e 
deixou-fe ficar atrás , e mandou os navios 
-da cáfila que fe adiantaíTem a todos ; e co- 
mo os levou diante , deixou-fe ir feu ca- 
minho muito feguro , fem fazer cafo dos 
paráos , os quaes pela confiança com que 
os viram ir, não ouíaram de ocommetter; 
e f e o fizeram , houveram de lhe dar mui- 
to trabalho , porque as quatro Galeotas 
eram muito poflantes , e levavam de van- 
tagem de cento e fincoenta homens de pe- 
leja cada huma , e os noíTos navios hiam 
defaperçebidos de tudo ; s fòs dous tinham 

fal- 



e 



Década X. Cap. XI. 203 

, falcões. Bernardim de Carvalho foi devagar , 
efperando pelos navios que ficavam em Ca- 
nanor, os quaes voltaram logo ; e por fe 
recearem da barra do Cunhale , foram-fe em- 
marando até haverem vifta da Armada , e 
Bernardim de Carvalho deiles , e defpedio 
a manchua de Ruy Gomes Arei , que lhes 
foi capiando, fem clles darem por iffo ; e 
aílim Jmns ao mar , outros á terra chega- 
ram a Panane a hum mefmo tempo , eRuy 
Gomes da Gram , depois de recolher os 
provimentos , tratou de repartir as eftan- 
■cias ; e porque houve mudança em al- 
guns , fera neceffano dizermos a ordem 
que nifto teve. No baluarte grande da ban- 
da do rio, queGafpar Fagundes fez , ficou 
elle mefmo ; no revéz delle da banda da 
terra ficou Gafpar de Carvalho de Mene- 
zes ; nas duas guaritas, que corriam dellq 
fite a eílancia de Ruy Gomes , que era o 
Baluarte do meio , ficaram Pedro Real, e 
Domingos Alvares ; e na outra guarita, 
que ficava da outra banda , logo pegada ao 
Baluarte , poz D. Bernardo Coutinho , e 
Francifco Pinto Teixeira \ no Baluarte da 
ponta fobre o mar 5 e no lanço dos páos 
tofcos , que corriam delia até fe metterem 
110 mar, ficaram D.Nuno Alvares Pereira, 
D. Pedro de Lima , irmão de D. Paulo de 
Lima, e Diogo Reinofo ; nos féis Cubei?- 

los , 



"204 ÁSIA de Diogo de Couto 

los, que ficavam nabaixia da banda do rio, 
que guardavam aquella parte, no primeiro 
junto de Gafpar Fagundes poz D. Fernan- 
do de Souto-maior ; no fegundo Pedro Vaz ; 
no terceiro Eítevão de Valladares ; no 
quarto Jorge Barreto ; no quinto Duarte 
da Guerra ; no fexto António da Coita Be- 
nique ; e em huma guarita de madeira, 
que foi a primeira que nefta parte fe fez 
abaixo dos Cubellos , poz Ruy de Sá que 
a fez; e na ponta da lingua da terra, que 
ficava bem fobre cabada , fe apolentou D. 
Diogo Coutinho com outros Capitães , por- 
que aquella parte era mais arrifcada , por 
poderem navios pozar nella ; e pêra maior 
fortificação fua , poz o Capitão alli duas 
barcaças atracadas huma á outra com gran- 
des , e fortes vigas com luas mantas , e 
arrombadas , as quaes jogavam hum leão, 
hum camelo de marca maior , hum carne- 
lete , quatro falcões, dous meios falcões, 
e dous berços , e delias era Capitão Mi- 
guel da Maia com trinta foldados arcabu- 
zeiros. Com iílo eftava a fortificação tão 
fechada , que não podia fer commettida 
por nenhuma parte. Ruy Gomes , e Ber- 
nardim de Carvalho ficaram de fora pêra 
acudirem onde foíTe neceíTario , trazendo 
grandes intelligencias , e efpias no Cunhale 
pêra faber fe havia alguma alteração nos 

Mou- 



Década X. Cap. XI. iof 

Mouros , porque andavam mui afTombra- 
dos com aquella Fortaleza pela obrigação 
que havia pelo contrato das pazes de fc 
derrubar a de Cunhale ; mas como elles 
entendiam da natureza do Çamorim , que 
lo dadivas tinham com eile mais força, 
que todas as outras obrigações y foram-fe 
antecipando, e negociando com elle, e to- 
davia os noílbs eftiveram quietos todo o 
inverno. 

CAPITULO XII. 

Das coufas que aconteceram em Malaca y 
depois que João da Silva tomou pojfe 
daquella Fortaleza até chegar lá D. Ma- 
noel Pereira : e de como o Rajale deter- 
minou jazer guerra aquella Fortaleza : 
e do Joccorro que o Vifo-Rey mandou. 

DEixámos atrás D. Manoel Pereira par- 
tido pêra Malaca com aquelles dous 
Galeões ; e porque não temos dado conta 
das occafiões que teve o Rajale pêra que- 
brar as pazes , fera razão fazermo-la agora 
pêra não ficarem as coufas ás efcuras. Tan- 
to que João da Silva tomou poíFe da For- 
taleza de Malaca 5 logo ordenou huma Ar- 
mada pêra aquelles eftreitos pêra fazer vir 
os juncos dos Jaós aquella Fortaleza , e 

ai- 



io& ÁSIA de Diogo r>is Couto 

alguns bantins pêra correrem a coíla até 
o Cabo Rachado a fegurar as embarcações 
que de ordinário vem de Muar , de Chegar , 
e de outras partes com as nipas , que são 
os vinhos daquellas partes. Deita Armada, 
que foi de duas náos 5 duas Fuítas , e al- 
guns bantins , fez Capitão Mor feu fobri- 
nho D. Manoel de Almada 3 a qual an- 
dando correndo a coíla pêra a banda do 
Cabo Rachado, encontrou hum balo carre- 
gado de Calaim , no qual vinha hum Achem , 
homem honrado , com alguns criados feus , 
que havia muitos annos vivia em Jor, vaf- 
fallo do Rajale , cujo diziam que 7 o balo 
era , o qual trazia cartaz do Capitão , paf- 
fado com as condições com que todos fe 
pa{Tam , cujo principal Capitulo era , que 
não trariam Achens , por ferem inimigos 
daquella Fortaleza. D. Manoel de Alma- 
da labendo que aquelle homem eia Achem, 
pofto que morador de Jor , e vaíTalío do 
Rajale , o mandou a João da Silva , pêra 
que elle determinafle o que foíTe juftiça* 
Vindo a Malaca , poz o Capitão aquelle 
negocio em Confelho , e houve pareceres 
differentes , porque huns diziam que o balo 
era perdido por trazer Achens ; e que pof- 
to que aquelle morava em Jor , por natu- 
reza era inimigo de Malaca , como todos 
o eram , que o bom feria dar-lhe fundo 

por 



Década X. Cap. XII. 107 

por terem menos inimigos ; outros foram 
de parecer que felargaíle o balo , pois tra- 
zia cartaz, e aquelle homem havia muitos 
annos que vivia em Cidade de Rey ami- 
go , e valíallo feu ; mas como entre eíles 
dous pareceres fe mettia no meio a cubi- 
ca do Calaim , que era ^o, ou 60 Bares, 
que ficavam perdidos ; e condemnando-fe 
o baio , julgou o Capitão que era de pre- 
za , e que deíTem fundo a todos os Achens 
por não apparecerem mais ; e affim foram 
todos amarrados , e dentro no mefmo balo 
lhe deram fundo , entre a Ilha das náos, 
e Malaca; e permittio Deos (a quem não 
ha coufa que mais lhe aborreça que fem 
juíliças) que debaixo d 5 agua fe defamarraf- 
fe hum ? e foíTe a nado tomar hum Junco 
de Jaós que alli eítava , onde contou tudo 
o que era paliado , e diíto foi logo o Ca- 
pitão avifado, e o mandou tomar, e dai- 
Ihe outra vez fundo ; e como elle tinha já 
contado tudo aos Jaós , de boca em boca 
foi a nova a Jor , com o que aquelle Rey 
defpediologo hum Malaio muito honrado, 
chamado Neiradam , pêra que foíTe a Ma- 
laca com queixas ao Capitão das fem juf* 
tiças que fizera a feus criados , e a pedir- 
lhe o Calaim que era feu. João da Silva 
teve com efte homem grandes defcargas , 
e logo defpedio D. Sebaítião Tamugao pei 

ra 



*4o8 AS IA t)E Diogo de Coura 

ra ir a Jor ter deículpas com o Rajáíe^i 
e quiz que em quanto elle nao tornaííe, fi- 4 
caiíe alli o Neiradam como em reféns. Ef- 
te homem chegou ajor, e teve com aquel- 
le Rey muito grandes fatisfaçoes , lançando 
toda a cujpa do balo aos Capitães da Ar-* 
mada , dizendo-lhe que por cuidarem ferem 
do Achem lhe deram fundo , e o rouba- 
ram , e que depois que foubera fer de Jor ^ 
e feu vaífallo , o fentíram muito, e dera 
bufca ao Calaim , c fó vinte bares achara , 
que eftes eftava preftes pêra entregar pelo 
preço daqueila Fortaleza , e que pois da 
lua parte não havia culpa , e o cafo fora 
accidental , que foifem amigos como dan- 
tes , que elle caftigaria os Capitães mui 
bem ; e que lhe lembrava que era fobrinho 
de D. Leoniz Pereira , de quem elle fora 
■tamanho amigo, que por duas vezes o fo- 
ra vifitar áquella Fortaleza , e que fe aca-* 
baíTem as queixas, e que correfle com eI-> 
le em amizade , porque havia de fer ta- 
manho feu fervidor , como feu Tio o fora* 
O Rajale ouvio bem eftas defculpas , mof* 
trando por então que ficara fatisfeito com 
ellas ; mas lá calou no peito outra coufa , 
c defpedio o Tumugão com fe moftrar le- 
ve naquelle negocio , mandando dizer ao 
Capitão que era feu amigo , e que o paf» 
fado paliado. Eíta diíTunulação que mofc 

trou^ 



Década X. Cap. XII. 209 

trou , e preíía com que defpedio o TumiH 
gão , foi por lhe darem novas que a Ar- 
mada de D; Manoel Pereira era chegada 
a Malaca , como de fadto era alíim ; poi- 
que poucos dias depois do Capitão man- 
dar oTumugão, íurgioelle naquelle porto 
com os dous Galeões , e com outras náos 
de Mercadores , que faziam huma grande 
Armada. Chegado o Tumugao a Malaca 
com aquella refpofca , havendo João da Sil- 
va que o Rajaie eílava fatisfeito , defpedio 
o JNSeiradam com muitas honras , e com 
a paga do Calaim ; e porque D. Manoel 
Pereira levava por regimento que fe as 
coufas de Malaca eíliveffem quietas , fé 
tornaííe pêra a índia , pedio pêra iflb li^ 
cença a João da Silva , a qual lhe elle deo , 
e quiz que ficafle Jeronymo Pereira com 
a fua Galeaça. O Rajaie pêra mais diííi- 
muiação deixou correr pêra Malaca todos 
os Juncos , e embarcações dos Jaós cora 
mantimentos , e fazendas pêra com iflb. fe- 
gurar mais o Capitão; e depois de D. Ma- 
noel Pereira fe partir pêra a índia em Ja- 
neiro pafladoj- tornou João da Silva a man- 
dar feu fobrinho D.Manoel de Almada aos 
eftreitos com hum Galeão, e huma Galeo- 
ta j de que era Capitão Diogo Ratibaò, e 
nove bantins 5 de que foi Capitão Mor 
hum António de Andria, filho de Malaca 7 
Couto. Tom. VL R li. O mui- 



2io ÁSIA de Diogo de Couto 

muito bom cavalleiro , e com efta Armada 
fe foi D. Manoel pôr na barra de Jor pêra 
fazer correr as embarcações a Malaca. O 
Rajale tanto que vio partido D.Manoel pê- 
ra Goa , e todas as mais náos , como ti- 
nha peçonha no peito , logo a começou a 
lançar pêra fóra ; e negociando huma Ar- 
mada de lincoenta velas , a mandou pôr 
rio eílreito pêra fazer arribar os Juncos de 
Jáo a Jor ; e o eílreito de Sincapura , que 
he o continuado de nolías náos , mandou 
entupir com certos Juncos velhos , e pa- 
taias de madeira , a que mandou dar fun- 
do no meio do canal cheias de pedra pê- 
ra impedir aquella paílagem ás náos , que 
efperavam da China. Deitas coufas foi logo 
avifado João da Silva , e com muita brevi- 
dade deípedio outra vez a Armada , que já 
eftava recolhida , pêra fe pôr fobre a barra 
de Jor, pêra fazer ir os Juncos a Malaca; 
mas o Rajale como trazia fóra a fua Arma- 
da , que era mais poíTante, fazia ir todos a 
Jor fem D.Manoel os poder eftorvarj e ven- 
do que totalmente eftava o eílreito impedido 
com os Juncos no fundo , mandou os Bantins 
que fe metteííem entre aquellas Ilhas , e vif- 
fem fe achavam outro algum canal por 
onde pudeíTem paliar as náos que efperava 
da China, e Maluco; e chegando eíles Ban- 
tins ao canal da Varela, que alíim fe cha- 
ma 



Década X. Cai». XIT. 211 

ília o continuado que eítava impedido (a 
que commummente chamam de Sincapura) 
c dobrando aquella Ilha pêra o Sul $ acha- 
ram outro canal , que não fora tratado ; e 
entrando por elle , o foram fondando j e 
notando devagar, e acharam por elle 7.8. 
e 9. braças de fundo , o qual não feria de 
comprimento mais que de hum tiro de Ca- 
melete , e no mais largo delle 100. braças i 
e na entrada , e no meio delle não teni 
de largura mais que 14. braças \ e aíTen- 
taram que podiam muito bem francamen- 
te pairar por alli as náos , e lhe puzeram 
o nome O canal da Santa Barbara. 
Com ifto metteo D. Manoel de Almada 
por alli alguns juncos ; mas os mais fez a 
Armada dejòr arribar ao feu rio 3 fem lha 
poder defender a nofía Armada , com o 
que a Fortaleza começou a padecer falta 
de mantimentos ; e chegou a tanto aperta 
de fome , que poz a todos em muitas ne* 
ceíTidades , ainda que os ricos recolheram 
os mantimentos ; mas os pobres de total- 
mente lhe faltarem , morriam já por eíTaS 
ruas á mingua. O Capitão vendo aquilío ,e 
entendendo então que tudo odoRajale fo- 1 
ram diíTimulações , foi-ihe neceflfario avifar 
aoVifo-Rey; e porque as náos eram todaâ 
partidas , negociou hum a champana , em 
*jue mandou embarcar hum foldado de ai- 

O ii cu- 



212 ÁSIA de Diogo de Couto 

cunha o Trovifcado , homem valente , e 
determinado, e por elle efcreveo ao Vifo- 
Rey o trabalho em que ficava , pedindo- 
lhe o íbccorreííe. Efte homem deo tanta 
preífa por achar bons tempos , que em 
poucos dias foi ter á cofia de Coroman- 
dei , ou de S. Thomé ; e tomando o cami- 
nho por terra , chegou a Goa já em fim 
de Abril ; e dando as cartas, o Vifo-Rey 
vio por ellas o trabalho em que ficava ; e 
porque já não havia mais que partir pêra 
Malaca, que D. António de Noronha, que 
hia fazer a viagem de Maluco , e as mais 
nács da China , e Malaca eram partidas, 
mandou tomar huma náo de partes que 
eítava na barra, e em dous dias a mandou 
negociar , e carregar de mantimentos , e 
munições , e embarcou nella D.Jeronymo 
de Azevedo , e lhe deo Provisão de Capi- 
tão Mor daquelles eílreitos ; e porque D* 
António de Noronha eítava ainda na bar- 
ra , fem embargo da Provisão que tinha 
paliado a D.Jeronymo, deo hum regimen- 
to a D. António de Noronha , em que di- 
zia que fe Malaca eítiveíTe em neceífidades, 
e fe entendeíTe que era neceífario ficar 
elle naquella Fortaleza , que em tal cafo 
mandaífe fazer a viagem por quem qui- 
zelfe, e elle aíliftiíle por Capitão Mór da- 
quelles eílreitos, e que D.Jeronymo ficaíTe 

com 



Década X. Ca?. XII. 213 

com elle , do qual Regimento não foi fa- 
bedor , e em alguns dias de Maio deram 
ambos á vela , mandando o Vifo-Rcy a 
D. Jeronymo que até Malaca obedeceíle 
a D. António. 

CAPITULO XIII. 

De como o Rajtí matou o Madunch feu pai : 
e da Cidade nova que fez fobre o rio 
do Canale : e do cerco que come- 
çou a pôr d Fortaleza de 
Columbo. 

REcolhido o Rajú do cerco que poz 
íòbre Columbo , fendo Capitão Ma- 
noel de Soufa Coutinho , como fica dito 
na Década IX. havendo-fe por muito af- 
frontado de não tomar aquella Fortaleza , 
como era de condição foberba , e ambicio- 
fa , determinou de matar o pai , e levan- 
tar-fe com aquelleReyno, pêra comoRey, 
e com o poder que elle ordenafle , tornar 
fobre aquella Fortaleza pêra fe d efa Afron- 
tar; e não querendo affaftar-fe pêra longe, 
em pafíando o rio Calane , começou a fun- 
dar huma nova Cidade, duas léguas e meia 
da noífa Fortaleza , a qual acabou em bre- 
ve tempo , e lhe poz o nome Biagão ; è 
poíto que elle , como Capitão Geral de feu 

pai, 



214 ÁSIA de Diogo de Couro 

pai , mandava tudo , fem três irmãos que 
tinha legítimos , e hum delles herdeiro na- 
tural , entenderem com elle em nada , to- 
davia era-lhe mui grande lobreííb pêra fua 
tyrannia ter feu pai vivo: pelo que deter- 
minou de o matar pêra ufurpar o P\eyno , 
e haver os irmãos ás mãos pêra os acabar 
a todos ; e concertando-fe com algumas 
peffoas de que neíta parte fe podia fiar , e 
por quem aqtieile negocio podia correr , 
por ferem.de portas a dentro de pai, lhe 
Fez dar peçonha , de que em poucos dias 
morreo em idade de oitenta annos , per? 
mittindo a Juítiça Divina que o que foi ho- 
micida de feu pai , morreífe á mão de feu 
próprio filho ; e que affim como matou feus 
irmãos pêra lhes tomar o Reyno , lhe ma- 
ta (Te outro feus filhos pêra lhe tomar o feu. 
Morto aquelle infolente , e foberbo Ma- 
dunch , que tanto trabalho deo aos Portu- 
guezes j logo o Raju alevantou o feu exer- 
cito , e foi aCeitavaca, e fe apoderou dos 
paços, e thefouros do pai ; e havendo es 
irmãos ás mãos, os matou, em que entra- 
vam o herdeiro do Reyno chamado Pale 
Pandar , a que commummente chamavam 
o Barbinhas , o qual era grande amigo dos 
Portuguezes ; e como os teve mortos , a- 
levantou-fe por Rey , e começou a ufar o 
oflicio de todos os tyrannos 5 que lie xnataf 

to- 






Década X. Cap. XIII. ' si? 

todos, de que fe podia temer, e entre elles 
hum filho de TribuliPandar , que era meio 
irmão de EIRey D. João da Cota , a que 
também pertencia o Reyno , e depois de 
fe defalivar de todos os perteníbres , quiz 
também fegurar-fe dos Grandes ; e de to- 
dos os que lhe podiam fazer hum pequeno 
pezo , mandou matar diante defi pelos feus 
efgrimidorcs , entre os quaes foi também 
Biera Matiga , Modiliar Maior , e feuMef- 
tre de Campo , que o inítruíra na arte Mi- 
litar, e de quem tinha recebido mui gran- 
des ferviços por efpaço de trinta annos , 
por cuja induílria tinha alcançado o fenho- 
rio em que eftava , fartando fua crueza na- 
quelle fanguinoíb efpeftaculo ; e porque já 
não ficava de quem fe temer mais que de 
Necheramy , mulher que fora de feu pai , 
c mai dos filhos que elle matara , Se- 
nhora muito grave , e muito honrada , a 
qual por fer baixeza entre elles matar mu- 
lher, a mandou levar diante de li., e a fez 
defpir até a deixar em hum pobre panno , 
e depois a degradou pêra huma ferra muito 
longe. Dallt efta trifte mulher íahindo do 
Paço naquelle miferavel eítado , fendo , ha- 
via tão pouco , Rainha , e Senhora , ven- 
do-fe então , como fe fora malfeitora , em 
trages tão baixos , e vis j queixando-íe da 
fortuna y e da crueza que com ella ufára 

hum 



2i6 ÁSIA de Diogo de Coirro 

hum filho de feu marido , que cila creira 
como feu próprio , e pondo as mãos no 
rofto pêra alimpar as lagrimas que porelle 
abaixo corriam , acertou de dar com ellas 
nas orelhas ; e achando ainda humas ore- 
lheiras de ouro , e pedraria , que parece 
lhe não vira a tyranno , tirando-as muito 
de preíla , lhas mandou por hum dos Mi- 
niftros que a levavam i dizendo-lhe , que 
alli lhe mandava aquella pobreza , que pa- 
rece lha deixara pela não ver : que fartai* 
fe a ambição quanto pudefle: que também 
Jhe mandaria á volta diíTo a vida , fe lhe 
não fora tachado de pouco animo, onde as 
mulheres como cila o haviam de moftrar 
melhor; mas que todo o tempo que da vi- 
da lhe refrava , gaitada cm chorar a mofte 
do velho Rey Madunch feu marido, e Se- 
nhor , com pedir juftiça a Deos de tão 
cruel , e abominável tyranno , que huma 
fraca mulher, que o creára como filho , e a 
que o fora de feu pai, tratara daquella ma- 
neira; e pondo os olhos no chão, foi atra- 
veífando aquella Cidade, em que ella tan- 
tos annos fora tão venerada , e fenhora, 
por não ver nada nella. Pofta no lugar do 
degredo , durou depois pouco , porque por 
fim morreo de puro nojo. Vendo-fe o Ra*- 
ju feguro , começou a preparar achegas pê- 
ra o cerco que determinou pêra 3 Fortala- 



Década X. Cap. XIII. 217 

ga de Columbo , com determinação de ou 
morrer na demanda , ou deitar delia os 
Portuguezes. Diílo tudo foi logo avifado 
João Corrêa de Brito , Capitão daquella 
Fortaleza , e de como o Rajú determinava 
cm fe acabando o verão defcarregar toda 
a fua fúria com a potencia do Ceilão fobre 
r.quelles fracos muros : e por eílar aquella 
Fortaleza falt? de tudo, avifou com muita 
jarefla o Vifo-Rey , e defpedio hum Trif- 
tão de Abreu da Silva com cartas pêra 
elle , em que lhe pedia o foccorrefle. De* 
preíTa efte homem fe embarcou em hum 
Tone , e paliou á outra cofta da pefearia , 
e de longo delia foi até Cochim , onde 
achou embarcação pêra Goa , em que fe 
merteo , e chegou áquelía Cidade já na 
entrada de Abril ; e vendo o Vifo-Rey as 
carta? , e as neceffidades em que a Forta* 
leza ficava , e que forçado fe lhe havia de 
acudir, como tinha grande coração, e ani- 
mo , não lhe lembrando quantos trabalhos 
havia por todas as outras-partes , e as ne- 
ceffidades do eftado , mandou logo carre- 
gar de mantimentos , e munições huma 
#áo , que fretou a hum Domingos de 
Aguiar , porque eílava na barra de verga 
d 5 alto , na qual fez embarcar Simão Bote-? 
Jho com quarenta foldados ; e porque po-> 
fjeria fer quç não pudeffe paílar a Ceilão , 

man- 



ai 8 ÁSIA de Diogo de Coirro 

mandou negociar dous navios de remo 
com munições, e muito dinheiro pêra a pa- 
ga dos foldados , e provimentos daquella 
Fortaleza, e os defpedio em companhia da 
náo , e em hum foi por Capitão o mefmo 
Triftao de Abreu , e no outro Pedro da 
Cofta , e aífim foram íeguindo fua viagem , 
a que logo tornaremos. 

CAPITULO XIV. 

Das coufas que aconteceram em Ceilão até 
chegar ejle provimento : e da grande vi* 
Eloria que os nojjos houveram da gente 
âo Rajii dia da Exaltação da Cruz : e de 
hum cafo efpantofo que aconteceo em hum 
fobrinho do Raju. 

DEpois de João Corrêa de Brito , Ca- 
pitão de Ceilão , defpedir Triftão de 
Abreu com o recado ao Vifo-Rey , e pe- 
dir ofoccorro, receando-fe que lhe tardaf- 
fe , e eftando muito certificado que o Ra- 
ju lhe havia de pôr o cerco aquelle Inver- 
no , por fe não arrifcar a huma defaventu- 
ra por falta de mantimentos , mandou a 
Cochitn algumas peflbas de recado com 
credito feu , pêra que tomaíTem dinheiro a 
partido , não abadando algum feu que lá 
eítava, eque fe foífem á coita daPefcaria,. 



Década X. Cap. XIV. 219 

e compraficm todo o mantimento que pu* 
deííem , e que com a mor prefla foíTem 
cem elle. Eíles homens fe deram tanta 
preíTa <, que em breves dias foram a Co- 
chim, e ajuntaram huma íbmma de dinhei- 
ro; e voltando pela cofia da Pefcaria , dei-? 
xáram comprados mantimentos , e fretadas 
embarcações pêra os levarem , e elles fe 
a prefla ram 9 e foram ter a Manar , donde em 
dous Tones fe puzeram no caminho de 
Ceilão ; e chegando já á vifta da Fortale- 
za , acháram-fe em meio de muitos navios 
do Rajú , os quaes elle tinha lançado fora 
pêra tolherem os provimentos que elle ía- 
biaque íeefperavam. Hum dos Tones, que 
hia diante, ficou tão apertado dos navios, 
e tanto debaixo dos efporoes que fe houve 
por perdido; mas hum homem, a que não 
foubemos o nome , que era de animo , e 
de esforço , mandou ter os marinheiros ao 
remo a ponto , pêra que em elle fazendo 
final o apertaífem , e que foíTem deman- 
dar affim como fracos os navios dos ini- 
migos , como fizeram. Os inimigos vendo 
ir affim aqueile Tone, havendo que fe hia 
entregar, levaram o remo pêra elle chegar; 
e fendo emparelhados com elles , que ef- 
tavam parados , tanto que lhe vingou os 
efporoes , apertou o remo ; e como era le- 
ve ? e ligeiro , paííou por todos tão preítes 

que 



320 A SI À de Diogo de Couto 

que primeiro que voltaííe já lhes hia hum 
bom efpaço alongado , e aííim efcapou mi- 
lagrofamente , e fe foi metter na Fortaleza , 
€ o Capitão íàbendo o rifco em que o ou- 
tro Tone ficava , mandou-lhe foccorrer por 
algumas Fuftas , que eftavam na bahia cheias 
de muita gente. Fernão Soares , que vinha 
no outro Tone, que era muito prático na- 
quella coita , tanto que vio os navios do 
Rajú , e que fe hiam ettendendo pêra o mar 
pêra o cercarem , atirando-lhe muitas bom- 
bardadas pêra o embaraçar, pondo a for- 
ça , e o remédio no remo, trabalhou tudo 
o que pode por lhe tomar obalravento, e 
o fez com muito trabalho, e lhe foi fugin- 
do tudo o que pode: a noífa Armada , que 
foi a foccorrello , houve logo viíta dos ini- 
migos ; e vendo que elles também traba- 
lhavam , em os vendo pêra fe porem a bal- 
ravento , temendo-fe que lhe fofle tomar a 
barra, voltaram pêra ella , ficando com if- 
to fôlego ao Tone pêra fe recolher a fua 
vontade , e aííim foi feílejado na Fortaleza 
como aquelle que lhe trazia amor parte do 
dinheiro de que fe haviam de prover aquel- 
le inverno , do qual o Capitão começou a 
fazer humas pagas aos foldados , e a ne*- 
gocear-fe pêra o cerco que efperava ; e 
porque a gente do Rajú já chegava , lan- 
§ou-lhe fora alguns Modeliares y os.quaes 

fem- 



Década X. Cap. XIV. 221 

jfempre trouxeram algumas cabeças dos ini- 
migos ; e fendo avifado que o Paliconda 
Arache Mor do Rajú andava com muita 
gente fazendo alguns aíTaltos , mandou os 
Modeliares Diogo da Silva , Manoel Perei- 
ra , Pedro AíFonfo , e outros em compa- 
nhia de Francifco Gomes Leitão , Capitão 
do Campo , com alguns Portuguezes pêra ve- 
rem fe podiam travar com eile ; e pêra a 
banda de Viras mandou outros Lafcarins 
com feus A raches pêra fe embrenharem, 
e dalli darem alguma pancada nos inimi- 
gos. Foi iíto em fim de Abril ; e quando 
foi a 3. de Maio , dia da Exaltação da 
Cruz de Chrifto , acabada a pregação , em 
que delia diífe o Padre grandes maravi- 
Lias , encontraram os noííbs com Palicon- 
da , que trazia dous mil e feiscentos eíco- 
Ihidos ; e commettendo-fe huns aos outros , 
travaram hum a muito afpera batalha , na 
qual os da noíla parte fizeram grandes ma- 
ravilhas , e mataram logo a Paliconda com 
outros Araches , e muita gente da fua. Os 
mais vendo aquelle eílrago, e o feu Capi- 
tão morto , foram-fe recolhendo, íicando- 
lhe no campo de redor de feiscentos eíK- 
rados , e alguns cativos, com que os noíTos 
fe recolheram ; e como o dia era todo de 
mercês deDeos, naquella mefma conjunção 
veio acahir outra cabilda de inimigos nas 

mãos 



222 ASIÁ de Diogo de Couto 

mãos dos que eílavam em Veras ? lançados 
em filada - y e dando nelles , fizeram huma 
grande mortandade; e desbaratando de to- 
do os inimigos , foram-fe recolhendo com 
algumas cabeças em final da viítoria , e 
entraram pela Fortaleza juntamente com 
Franciíco Gomes Leitão , e com os mais 
que também vinham cheios de prezas. Foi 
efta viítoria tão feftejada de todos , que 
muitos dias andaram os meninos pelas ruas 
cantando louvores á Cruz de Chrifto ; e 
porque efta vistoria foi em dia tão affina- 
lado , fe ordenou fazer-fe nelle todos os 
annos huma folemne procifsão. Poucos dias 
depois chegou o provimento que o Vifo- 
Rey D. Duarte mandava , com o que fica- 
ram todos defalivados do receio com que 
eftavam por falta de mantimentos : o Ra- 
yxx fentio muito a perda dos feus , e ella 
lhe fez apreílar mais as coufas pêra o cer- 
co que pertendia , porque efperava tomar 
huma grande vingança ; e porque nefte mef- 
mo tempo aconteceo hum cafo eípantofo 
com hum fobrinho feu , que não he pêra 
deixar no tinteiro , nos pareceo bem dar- 
mos razão delle, o qual foi deita maneira. 
De hum irmão, que efte tyranno matou 5 fi- 
cou hum filho chamado Reigáo Pandar ? que 
fe acolheo a huma aldeia efcandalizadiífimo 
da morte do pai , e não pouco receofo da< 

erue- 



Década X. Cap. XIV. 223 

crueza do tio. Com eíte Príncipe fe car- 
teava João Corrêa de Brito em fegredo , e 
o períuadia rijamente a tomar vingança 
da morte do pai , ofFerecendo-lhe pêra iífo 
toda a ajuda, e favor, e nifto metteo mui- 
to cabedal ; e porque quando por alli não 
pudeíle ordenar a morte ao Rajú , ao me- 
nos urdiria taes ódios entre elles que os 
InquietaíTe. O Rajú ou foíle por ter deíte 
caio algum avifo , ou porque lhe não fof- 
fria fua crueza deixar com vida aquelle po* 
bre Principe , defejando de extinguir toda 
a coufa que procedeíTe do fangue dos an- 
tigos Reys , mandou diílimuladamente cha- 
mallo , como que era pêra negocio ; mas 
elie como fe temia do Tio , não lhe pare- 
ceo bem aquelle chamamento ; e dillimu- 
lando com a ida, fingio-fe enfermo, e af- 
íim íe moftrou no leito a quem o foi cha- 
mar, Diíto tomou o tyranno motivo de 
defobediencia , pelo que defpedio alguns 
Modeliares com muita gente, pêra que lho 
levaífem, porque não foífriá fua brutalida- 
de que o mataííem lá , porque queria ver 
com os feus olhos verter aquelle innocen- 
te fangue pêra fartar fua fede. Chegada ef- 
ta gente iquella aldeia , -cercáram-lhe as 
cafas , e lhe mandaram dizer que fe fizef- 
fe preíles pêra ir a Ceitavaca a ver-fe com 
feu Tio j e não faltou na companhia quem 

o 



224 A S í A dê Díodo de Couto 

o avifafle do pêra que. Dado o recado' j 
entreteve elle os Modeliares com lhes di- 
zer que fe lua fazer prefíes ; e recolhendo-* 
fe a huma camera , chamando fuás mulhe- 
res , filhos , e mais familia , lhes diífe : » 
» Bem vedes o eílado em que efte cruel tem 
» poílo todos os Principeá; de Ceilão , e 
» que de todos não ha mais que eu , com 
» que não ha de defeançar até banhar as 
» mãos nefte innocente fangue , porque nem 
» perdoou a feu próprio filho : que fe pó- 
» de efperar delle? Eu fou de parecer que 
» lhe não demos gofto de feus olhos ve- 
» rem o que tanto defeja ; e que pois fois 
» todos tão parentes i filhos , e mulheres 
» deite fern ventura Reigáo Pandar , me 
» queirais feguir nifío , e fazerdes o que 
» eu foço » ; e tomando hum vafo de pe- 
çonha eruelillíma, a poz na boca, e bebeò 
hum grande trago , e affim foi dando a to- 
dos os que alli eftavam , os quaes hum e 
hum foram cahindo , e em breve efpaço 
deixaram todos as vidas nas mãos da cruel 
peçonha. Os criados vendo aquelle piedo- 
fo efpeélaculo , fizeram hum pranto fobre 
aquelles corpos muito pêra internecer até 
as coufas infeníiveis. Os Modeliares que o 
hiam bufear, ouvindo o choro , entraram 
dentro, e acharam aquelle facrificio , o qual 
os aífombrou- de maneira que ficaram co* 

mo 



DfcCADA X. CAP. XIV. 22JT 

mo patinados, e fe foram comaquellas no* 
vas ao Rajú , com as quaes fe elle não en^ 
tnfteceo. Efte Príncipe efteve muitas vezes 
abalado pefa fe ir peha a nòílá Fortaleza 3 
e João Corrêa teve fobre iífo algumas 
Olas fuás ^ e com efte caio teve elle algu- 
ma occafião pêra tentar o Rajú com algum 
modo de pazes , porque lho encommenda- 
va o Vifo-Rey muito ; e tratando-fe efte 
negocio , mandou a iíío hum António Guer- 
reiro , calado em Columbo , e hum Duarte 
Ribeiro com licença do Rajú pêra o trata- 
rem com elle, e por elies lhe mandou hum 
prefente de coufas que lhe pareceo eftima* 
ria : eftes homens fe viram com elle , e 
concluíram em tréguas , e não por tempo 
limitado , mas com condição que primeiro 
que o Rajú as quebraíTe , avifaria diífo ao 
Capitão j o qual pofto que bem fe enten- 
deo que eftava com o animo damnado , e? 
que tudo era diffimulação pêra naquellé 
tempo das tréguas fe prover de muitas 
coufas 5 que também foram neceílarias aos 
noflbs, porque naquelles dias mandou João 
Corrêa recolher na Fortaleza madeifa, pa* 
lha , junco j e outras coufas pêra cubrir, 
e reformar as cafas pêra a invernada , e 
de fe fortificar o melhor que pode pêra o 
cerco que efperava , do qual avifou de 
novo ao Vifo-Rey ; e as tréguas licáram 
Couto. Tom. VI. P. li. P cor- 



2i6 ÁSIA de Diogo Ce Couto 

correndo até fe quebrarem, como adiante 
fe verá. 

CAPITULO XV. 

De como Cofme Faia foi morto na Ilha de 

C amaram com todos os que com elle 

hiam: e do que aconteceo a Ruy 

Gonfalves da Camera no 

ejireito. 

DE propofito guardámos pêra eíte lu- 
gar todas as coufas fuccedidas a Ruy 
Gonfalves da Camera no eftreito pêra as 
contarmos todas juntas , pelas muitas que 
fe mettêram no meio. 

Partido Cofme Faia de Goa , como 
atrás diífemos , foi tomar Chaul ,* onde 
mudou navio , porque o que levava , era 
hum pouco pezado ; e partindo dalli em 
Janeiro com bom tempo, tomou outra cof- 
ta da Arábia , e de longe delia foi bufcar 
ò eftreito de Meca , no qual entrou fem 
contrafte , e determinou paliar á Ilha de 
Camaram , aífim pêra fazer aguada primei- 
ro que paílaífe a Macua a lançar a João 
Baptifta Briti , como pêra tomar falia da 
terra , e das Galés , pêra tornar a avifar 
Ruy Gonfalves , e efperallo no eftreito ; e 
antes de chegar a Camaram , encontrou 

hu- 



Década X, Cap. XV. 22? 

imma Almadia de pefcadores , que lhe não 

Í)ode fugir, e a tomou, e dos Arábios dei- 4 
a foube como Miralibec era paíTado a 
Melinde com huma Galé , e como a outra 
arribara ; e levando os Arábios comíigo \ 
chegou a Camaram , e largou a Armadia 
com dous dos Arábios , pêra que lhe fof- 
fem trazer alguns mantimentos da terra Ar-* 
me , ficando-lhe outros em reféns pêra lhe 
moítrarem a aguada da Ilha , e alli ficoit 
efperando pelos mantimentos , e fazenda 
agua , e lenha. Efta Ilha de Camaram eílá 
em altura de 15*. gráos de Norte aífaftada 
da terra firme da Arábia Feliz , pouco mais 
de quatro léguas : a fua feição he de hum 
meio coração cortado ao comprido , e a 
boca lhe fica pêra a banda da terra da Ara* 
bia , onde faz huma bahia , e na fua íitua- 
cão parece a Ilha que Ptolemeu chama 
Cardemene (fegundo Luiz Vertemão) , a 
qual elle mette em 16* gráos do Norte na 
fua fexta Taboa da Afia pegada á mefma coita 
da Arábia ; e tornando aos Arábios da Al- 
madia, que Cofme Faia mandou por man- 
timentos, foram- fe direitos á terra a huma 
Cidade que fe chama Teis , que eftá fron- 
teira á Ilha , como Almada de Lisboa , aon- 
de refidia hum Xeque poílo da mão do Ba- 
xá , ao qual deram as novas do navio Por- 
tuguez ; e como ficava em Camaram efperan-* 

P ii do 



228 ÁSIA de Diogo de Couto 

do que lhelevaílem mantimentos. O Xeque 
pareceo-lhe aquillo lanço pêra não fe per- 
der , e armou logo duas Gçlvas grandes , 
nas quaes mandou embarcar cem homens 
de armas em cada huma , alaftrados todos 
por baixo , e mandou cubrillos de vigas , 
e por íima muitos carneiros , gallinhas , e 
outras coufas , e defpedio a Almadia com 
ellas : eftas embarcações chegaram a Cama* 
ram á vifta da Fufta ; e tanto que delJa vi- 
ram os carneiros , e gallinhas , e a Alma- 
dia que tinham mandado a bufcar manti- 
mentos 5 e fem fazerem coníideraçao , efpe- 
ráram as Gelvas com grande alvoroço pêra 
lhe comprarem aquellas coufas; e chegan- 
do á. Fufta , fahíram debaixo os Mouros 
fobre os noííos ; e como os tomaram fem 
armas , e defcuidados , foram todos met- 
tidos á efpada , acabando alli João Baptif- 
ta y queelcapou dosNiquilús, e a Fufta foi 
logo levada ao Xeque de prefente, e elle 
a mandou de prefente ao Baxá de Moca 
que a feftejou muito. Outro cafo femelhan- 
te a efte aconteceo a outra Fufta noífa em 
outro lugar vizinho a efte , donde fahíram 
eftas Gelvas , chamado Ceilife. Eftando ç> 
Governador Lopo Soares nefta Ilha de Ca- 
maram , quando entrou até a Cidade de 
Judá o anno de i^ió. que indo áquelle 
lugar de Ceilife huma Fufta > de que era 

Ca* 



Década X. Cap. XV. 229 

Capitão hum Baítiao Rodrigues a refgatar 
algumas coufas , alli foi tomado cativo, e 
elle com todos os Portuguezes , por duas 
Gelvas com negaça de mantimentos , e de- 
pois foram mandados de prefente ao Tur- 
co Seli , por terem chegado novas que ma- 
taram em batalha Turno Bejo , Soldão do 
Egypto , que fenhoreava todas as Arábias, 
os quaes lhe mandou Rax Solimao , Capi- 
tão da Armada do Soldão , que eílava def- 
ta banda do eílreito mandando dar obediên- 
cia ao Turco, como primícias dâquelle fe- 
nhorio que de novo ganhara. 

Agora continuaremos com Ruy Gon- 
falves da Gamera , o qual deixamos parti- 
do de Cochim ; e feguindo fua viagem com 
levantes tendentes , foi tomar Socotorá, 
onde fez aguada , e dizem que alli achou 
novas da Galé dos Turcos fer paífada a 
Melinde : dalli foi demandar as partes do 
eílreito , onde cuidou achar Cofme Faia com 
avifo do que hia dentro ; e entrando den- 
tro , virando logo aponta da banda da Ará- 
bia, furgio em a enleada que alli faz lete, 
ou oito léguas da ponta da garganta; e dez 
ou doze da Cidade Moca, que elle levava 
por regimento quequeimaífe com as Galés , 
que diziam eílarem em eftaleiro , não lhe 
faltando de fua companhia mais que os 
Galeões que feguíram outra derrota , e fe 

apar- 



%-$o ÁSIA de Diogo de Couto 

apartaram logo da Armada. Aqui fe dcU 
xou Ruy Gonfalves ficar por efperar que 
viefle Cofme Faia , deitando efpias em ter- 
ra , pêra faber o modo de como a Cidade 
de Moça eftava provida , e da gente que 
tinha y porque determinava de a queimar. 
Eftá eíla Cidade de Moca da garganta da- 
quelle eftreito pêra dentro na cofta da Ara* 
bia, virando logo a ponta daquella terra pe-> 
ra dentro , que parece aquella que Pto- 
lemeu chama Polindromos em ri. gráos e 
dous terços , o qual hoje anda verificado 
em 12. e dous terços; e a Cidade de Mo* 
ca tombem parece fer aquella , que elle 
chama Ocelis lmperium , a qual Eftrabao 
xiomea por Acyla, que fempre foi grande 
eícala, e ainda hoje o he de todas as náos 
de Levante , aonde o Turco manda ter 
guarnição de Galés por caufa da Cidade de 
Adem , que eílá fora daquelle eftreito em 
13. gráos efeaços , a qual o Douto Jovio 
faz havella de Oceli , que deve de fer o 
mefmo Acyla de Eftrabao , no qual fob 
reverencia he notável erro , porque Oceli 
cftá da boca do eftreito pêra dentro 18. le-* 
guas , eha de ficar da banda da barra 35.; 
e fegundo Michael Miravolano , que tras- 
ladou as obras de Ptolemeu de Grego 
em Latim , a Cidade de Adem , e a que 
Ptolemeu chama Arábia? Emporiym , qug 



Década X. Cap. XV. 231 

mettem em ir. gráos e meio , junto ao 
Promontório Melan , a que os Arábios ho- 
je chamam ferra de Arzera , e o meímo 
tem pêra íi Ludovico Vartomano Liv. II. 
Cap. IV. Jeronymo Rufeili , e outros Cof- 
mografos. E tornando á Armada, que ef- 
tava furta naquella enfeada, como hiamos 
dizendo , ao terceiro dia houveram viila 
de hum a fermofa náo , que entrava pêra 
dentro infunada com todas as velas , e com 
o vento Levante muito efperto; e em a ven- 
do , mandou o Capitão Mor Pedro Homem 
Pereira com alguns navios, pêra que afof- 
fe commetter ; e chegando a ella , lhe ati- 
rou a amainar , o que ella não fez , antes 
fe deixou ir íeu caminho muito fegura , 
como aquella que levava nas velas vento , 
que a havia de livrar de tudo. D. Jorge 
da Gama também fe levou com a fua Ga- 
lé , e foi feguindo a náo , e apôs ella os 
mais navios poucos e poucos , ficando o Ca- 
pitão Mor com fó finco , ou féis ; e che- 
gando á náo , a foram esbombardeando 
fermofamente , varando-a per algumas par- 
tes , e desfazendo-lhe as obras per lima to- 
das , fem ella deixar feu caminho, defea- 
dendo-fe também com mais bombardadas ; 
c dando moftra de muita gente que levava 
poftos todos em armas , os nofíbs nur.ra 
oufáram abalroarem-na , por ferem os ma- 
res 



z$t ÁSIA de Diogo de- Couto 

res mui groífos , e o vento mui rijo , e af- 
íim a foram feguindo até á noite, por vxr 
rem íe lhe dava o tempo lugar pêra a 
commetterem ; mas o vento era cada vez 
maior, e a noite vinhadte chegando, pelo 
que lhes foi forçado deixarem-na \ e queren- 
do tornar a feu pofto , já não puderam , 
porque em todo aquelie eftreito , que he 
muito perigoio debaixias em tempo de le- 
vantes , que sao mui forçofos , e defgaiv 
roes , em que he neceffario nao largar ag 
cnfeadas , e as calhetas , nem fe affaítarem 
da terra, onde as tenham á mão; e quan- 
do os nolíos as quizeram ir demandar, 
já não puderam ; e porque ao por do Sol 
Jhe foi crefcendo o tempo , com muito 
rifco , e trabalho foram correndo com ve- 
las pequenas pêra onde cada hum pode, 
fem fabcrem pêra onde hiam. Ruy Gonfal- 
ves da Gamem , quando vio que ao outro 
dia nao vinham os navios, e que o tempo 
crefcia , ficou enfadadiffimo , e receou-lhcs 
grandes defaítres ; e porque nao podia al- 
fazer , deixou-fe allj ficar pfpetando por 
dles. 



CA. 



Década X. Cap. XVL 233 

CAPITULO XVL 

JDo que aconteceo a Francifco de Soufa Pe~ 
reira , e a Trijião Vaz da Veiga , indo 
fazer aguada : e de huma briga que ti~* 
veram com os Turcos : e do que aconte- 
ceo aos navios da Armada que andavam 
defgarrados, 

EM quanto Ruy Gonfalves não recolhia 
os feus navios , de que não havia no- 
vas , determinou mandar fazer agua, porque 
citava muito falto delia ; e porque por ai- 
li não havia outra fenão meia légua pela 
terra dentro , mandou a três Capitães dos 
navios , que com elle ficaram , que eram 
Francifco de Soufa Pereira, TriítãoVaz da 
Veiga , e Diogo Vaz da Veiga , irmãos, 
com a gente de fuás companhias , que a 
foííem fazer , e eftes homens levaram fef* 
fenta foldados , e muitos marinheiros , e 
mouros com vafilhas pêra agua ; e cami- 
nhando pêra o lugar da aguada , e indo 
já perto delia, arrebentaram perto de tre-* 
zentos Turcos de pé ,e trinta de cavallo 
acubertados ; e achando diante alguns fol- 
dados que fe defmandáram , mataram fin- 
co , e cativaram hum , e todavia fizeram 
eftes feu dever primeiro, e venderam fuás 
vidas bem caras. Francifco de Soufa Perei* 

nu 



^34 ÁSIA de Diogo de Couto 

ra , e Triftão Vaz da Veiga que hiam jun- 
tos, tanto que viram os inimigos, ajuntan- 
do os feus foldados , que feriam quarenta , 
puzeram-fe em hum tezo , onde os cavai- 
los lhe não podiam chegar , por fer Íngre- 
me , e pedregoíb , e dalli fe defenderam 
dos de pé com muito animo , e esforço. 
Diogo Vaz da Veiga , que ficou na praia 
com os feus foldados efperando por enxa- 
das , e machados , indo já caminhando, 
chegaram a elle alguns Mouros da compa- 
jihia dos que peleijavam , e lhe deram re- 
cado do que paífava,; e vendo elle que não 
tinha gente pêra os foccorrer, voltou pêra 
o Capitão Mor, a quem deo conta do ne- 
gocio ; pelo que elle com muita brevidade 
defpedio Simão Moniz com Diogo Vaz da 
Veiga, e oitenta foldados, no que fizeram 
detença de quatro horas ; e querendo-fe 
pôr a caminho , chegaram outros Mouros , 
que também vinham fugindo , e diíferam 
ao Capitão Mor que todos os Portuguezes 
eram mortos ; pelo que mandou fazer finai 
a Simão Moniz que íe recolhefle , porque 
já hia caminhando ; e pofto que elle , e 
Diogo Vaz da Veiga ouviram amiudar as 
bombardadas , não deixaram de ir avante , 
porque quiz Deos aífim pêra livrar os ou- 
tros : os que peleijavam com os Turcos tra- 
taram jao mal aos de pé, que foi ncceífa- 

rio 



Década X. Cap. XVL itf 

rio aos de cavallo defcerem-fe pêra averi- 
guarem aqueile negocio , e foram commet- 
ter os noíTos com muita determinação ; e 
como elles eílavam apoítados a venderem 
as vidas muito caras , receberam huns , e ou- 
tros com grande animo, defendendo-íe , e 
oíFendendo-os , como fe foram muitos , e 
muito sãos , eílando a mor parte delles fe* 
ridos ; e tendo já eílirados no campo mais 
de trinta Turcos de pé, e três dos de ca* 
vallo, e entre elles hum de traje differen* 
te dos mais que parecia Capitão , porque 
mandava , e governava na briga : e certo 
que efta foi huma das mais bem pelei* 
jadas que fe viram pela deligualdade d^ 
gente, porque já os noffbs eram menos de 
quarenta , e os Turcos mais de cem , por* 
que recrefcêram depois , e todavia os noíTos 
fempre moftráram hum animo , e esforço^ 
não afracando nada , tendo razão pêra ef* 
tarem bem canfados , por haver mais de 
oito horas que peleijavam , porque come- 
çou a briga ás fete de pela manhã , e ifto 
era já depois de duas horas , fem em todo 
efte tempo tomarem hum pouco de repou- 
fo , nem huma refeição de agua, ou outra 
coufa alguma; e já alguns foldados de fe* 
ridos , e canfados não podendo mais com* 
íigo , deixaram-fe cahir alguns , e outros 
mçftravam defçonfian^a , fe Francifco de 

Sou* 



236 ÁSIA de Diogo de Couto 

Soufa , e Trilião da Veiga , que ambos 
eíle dia tinham bem moílrado o valor de 
feus corações , os não animaram , e esforça- 
ram com bradarem muitas vezes que fe 
alegraílem , que já apparecia foccorro ; e 
tantas vezes os foram enganando com ido , 
até que apparecêram Simão Moniz, e Dio- 
go Vaz , os quaes vendo os noííos naquel- 
le rifco , e multidão dos Turcos , que os 
tinham cercados , fazendo-lhes a honra , e 
o amor de irmãos , e amigos , defprezar 
todos os perigos , arremettêram de longe 
com huma grita grande , tocando os tam- 
bores , com o que animaram os que pelei- 
javam , e defcorçoáram os Turcos de feição , 
que não fazendo conlideração , foram fu- 
gindo , e deixando o pé do monte cheio 
de corpos mortos , que ás efpingardadas 
derrubaram : os do foccorro chegaram aos 
outros y que eftavam banhados de fangue , 
e fuor , e todos fe abraçaram com tama- 
nho alvoroço que o cafo requeria ; e por- 
que havia muitos feridos , e todos eftavam 
pêra efpirar de fraqueza , e canfaço do tra- 
balho paíTado , porque como arrefeceram 
da fúria, fez a natureza feuofficio, encom- 
mendando os feridos aos sãos do foccorro 
pêra os ajudarem, foram-fe recolhendo pê- 
ra a Armada , á qual chegaram ainda de 
dia; e foram tão bem recebidos , e fefteja- 

dos 



Década X. Cap. XVI. 237 

dos do Capitão Mor , como homens que 
havia por mortos , e logo fe curaram os 
feridos com muito refguardo , e a todos os 
mais deram refeição , com que tornaram 
a recobrar alento , e com grande goílo de 
tcdos contaram da batalha , que foi muito 
pêra iflb. Partidos os nofíbs do porto da 
briga, arrebentaram de redor de dous mil 
de cavallo , que o Baxá de Moca defpe- 
dio , porque logo teve rebate , e acharam 
os feus desbaratados , e perdidos, porque 
o modo que levavam os fez efpalnar ; e 
cuidando eftes que os Portuguezes tornaf- 
' fem a bufear sgua , que daquella vez não 
levaram , embrenháram-fe \ mas fahio-lhes 
em vão fua efperança. 

Ruy Gonfalves da Camera ao outro 
dia que iilo íe paílbu , levou ancora pêra 
ir bufear a fua Armada , de que não havia 
novas ; e indo a vela , vio entrar pelo ef- 
treito outra náo com vento muito frefeo ; 
e voltando a elia , a foi commetter por 
emendar a defgraça que lheaconteceo com 
a outra ; e chegando perto , lhe atirou a 
amainar, o que elia não quiz fazer , pelo 
que a foi feguindo ás bombardadas j e tan- 
to apertou com elia, que amainou, e mof- 
trou bandeira de paz, O Capitão mandou 
levar diante de fi o Meílre , e Piloto , e 
delles foube que aquella náo era deElRey. 

de' 



238 ASIÀ de Diogo de Couro 

de Pegú, e que não levava cartaz; e mau-* 
ciando furgir a náo , o fez eile também 
hum pouco aífaftado ; e tanto que anoite- 
ceo, fobrevindo hum temporal grande , foi 
neceííario ao Capitão Mor levar-fe, e pôr- 
lhe a poppa , e a náo fez o mefmo , e fo- 
ram correndo tormenta bem grande ; e a 
náo em amanhecendo , vendo-fe perto de 
Moca, metteo-fe dentro : a noíTa Armada 
foi em traquete pelo eftreito dentro , por- 
que era levante , e chegou até á Ilha de 
Camarão , onde íurgio , e o Capitão Mor 
mandou por Simão Moniz, e por Francif* 
co de Soufa , e Diogo Vaz da Veiga ( que 
fó eftes chegaram) que foflem queimar a 
povoação da Ilha , a qual fe deípejou , e 
a queimaram toda : alli fizeram todos agua- 
da 5 e lenha emabaftança, no que gaitaram 
três dias; e levando-fe pêra tornarem afeu 
porto , paíTando por huma coroa de arêa , 
que eftava no mar da Ilha , ouviram nella 
huma bombardada ; e acudindo as fuftas a 
ella , acharam o navio de Ayres da Silva , 
que era hum dos defapparecidos , o qual 
havia três dias que alli eftava encalhado, 
porque vindo correndo com aquelle tempo , 
foi de noite varar naquella coroa , na qual 
eftava com o fato em terra , e com a gente 
bem defconfiada de poderem concertar a 
fuíla por eftar toda aberta» Os noíFos em o 

ven- 



Década X. Cap. XVI. 239 

vendo, com grande alvoroço fe lançaram a 
terra com todos os marinheiros , e com 
muita preíTa remediaram a fuíla o melhor 
que puderam, e a lançaram ao mar, e fize- 
ram embarcar nella o feu Capitão , e Tol- 
dados , que eftavam todos como mortos do 
trabalho paflado ; e tomando a fuíla no 
meio de outras duas , pela muita agua que 
hia fazendo , a foram levando com muita 
vigia , e dalli a dous dias faleceo Ayres da 
Silva de humas febres que deram em o bai- 
xo , do grande Sol , e trabalho , do que 
todos receberam muita dor , por fer hum 
mancebo de muito grandes penfamentos , 
e efperanças , c que procedia muito bem 
no ferviço deElRey: era efte Fidalgo filho 
do Regedor Lourenço da Silva , e de Do- 
na Ignez de Caílro fua mulher: o Capitão 
Mor foi demandar a boca do Eítreito pêra 
alli ajuntar a fua Armada, e pelo caminho 
foi encontrando as fuítas defgarradas, hoje 
três , á manha quatro , até fe ajuntarem 
todas fem perder nenhuma; mas todas tão 
deítroçadas da tormenta , e tão faltos de 
agua, e mantimentos , por fe lhes terem da- 
mnado, que vinham quafi defefperados do 
remédio. Com eíte trabalho chegaram ás 
portas do Eítreito , onde acharam o Galeão 
de D. Francifco Mafcarenhas , do qual 
todos fe proveram , e quiz Deos ievallo 

ai- 



140 ASÍ A de DíOGó de Coifào 

alli , porque fem dúvida que fe perderam 
á mingua. 

CAPITULO XVII. 

Do que mais aconteceo a Ruy Gonfalves 
da Camera , e a D< Francifco Mafcare- 
nhãs , que ficou no Eftreito : e de coma 
Ruy Gonfalves chegou a Mafcate , e def->. 
pedio Fedro Homem Pereira com a Àr~ 
mada de remo pêra Ormuz. 

TAnto que Ruy Gonfalves da Camera: 
teve junta toda a íua Armada i e que 
era tempo de fe acabarem os levantes , fez-' 
fe á vela pêra Ormuz , onde levava por 
regimento que invernaíTe pêra a jornada 
dos Niquiliis , fobre que Mathras de Al- 
buquerque tanto puchára i e deixou na bo- 
ca do eftreito D. Francifco Mafcarenhas y 
porque não teve tempo o Galeão pêra fa- 
zer-fe á vela ; e fendo o dia da Pafcoa dai 
Refurreição , pela manha chegaram ahuma 
cnfeada , que fe chama dos Mordexis , féis 
léguas da boca do eítreito pêra fora , já 
tão faltos de agua , que não tinham quer 
beber ; e como aquelle dia era todo de 
mercês y fez-lhe alli tantas , que cavanda 
ao pé de huma palmeira , em quafi dous 
palmos lhe rebentou huma fonte áe agua 

fe- 



Década JC. Cap* XVII. 241 

fefeniílima ; e em quantas outras partes ca- 
varam , em tantas lhe rebentaram outras i 
nas quaes fizeram fua aguada eom grande 
fefta* e alvoroço, dando todos muitas gra- 
ças aDeos nofíò Senhor por tamanha mer- 
cê , e por elía puzeram o nome áquelle lu- 
gar a Agua da Pafcoa ; e certo que não foi 
menor milagre eite que aqúelle , que Deos 
fez pelos fiihos delfrael* paíTando pôr eíta 
mefma Arábia $ quando lhe abrio fontes 
de agua na pedra > indo todos pêra perece- 
rem , como agora efteshiam. Aqui pairaram 
todas as Oitavas ^ em que tiveram alguns 
rebates de Turcos , que em terra mataram 
alguns marinheiros ^ e hum Piloto Mouro 
que fe defmandárairu Daqui partiram ^ ain- 
da que fartos de agua , muito faltos de 
mantimentos pelos não haver já; e chegan- 
do defronte de Adem , acharam furto o 
Galeão de Chriftovão da Veiga , do qual 
fe refizeram \ e a Fortaleza como vio a noíTa 
Armada , que lhe foi paíTando de longo í 
atirou-lhe muitas bombardadas , fem os no£ 
fos fazerem cafo delias i deíxando-fe ir feu 
caminho muito feguros com darem muitos 
pelouros entre os navios, eaffim foram fe^ 
guindo fua derrota com ventos ponteiros f 
que lhes deram muito trabalho $ e os deti- 
veram tanto 5 que lhes tornou a faltar a 
£gua de todo ; e chegou a Armada a tanto 
Couto. Tom. VL P. lié (^ ap er« 



4$í A S I A de Diogo de Couto 

aperto pôr falta delia 5 que fe vio de todo 
perdida ; e Roque da Fonfeca, que havia 
três dias que no feu navio não bebiam 
agua , chegou á Galé do Capitão Mor , e 
lhe pedio o foccorreíle, e fenao que já não 
havia outro remédio , íenão varar naquella 
terra , porque antes querião morrer com 
os pés nella peleijando , que no mar de 
pura fede. O Capitão Mor hia tal que nem 
a fi podia valer , e com grande pezar lhe 
diíTe , que fizeííe de íi o que quizeífe 5 que 
elle também eftava tão neceífitado como 
elle. Roque da Fonfeca como defefperado 
deo toda a vela , e mandou endireitar 
com a terra pêra varar nella ; e indo já 
muito perto , vio huma aberta , pela qual 
fahia huma fermofa ribeira a defcarregar 
fuás aguas no mar; e vinha tão profpera, 
e còm tamanha força , que mais de hum 
tiro de béfta ao mar era tudo doce. Os 
marinheiros como hiam efpirando á fede , 
acertaram de provar a agua do mar , e a- 
chando-a doce , deram todos comfigo no 
mar , como acontece ao que vai ardendo 
em vivo fogo , que em vendo agua fe ar- 
remèífa a ella , com aquella fúria que lhe 
faz levar as flammas em que vai ardendo v 
e tanto que fe vê na agua que fe lhes apa- 
gam as lavaredas , resfolega , e parece que 
começa a viver j aUim os foldados fe lan- 
ça- 



Década X. Cav. XVIÍ. 245 

çáram ao mar apôs os marinheiros com as 
bocas aberras , havendo que nem todo a^ 
quelle mar lhes mataria a fede que leva* 
vam , e não lhe efqueceo com todo aquelle 
alvoroço a neceffidade em que toda a Ar- 
mada hia ? porque logo mandou Roque da 
Fonfeca atirar huma bombardada , pêra que 
acudiíTe , como fez ; e chegando alli que 
viram aquillo, houveram que era obra de* 
Deos que os foccorría na mor neceíTidade 
em que nunca fe viram, como fez em ou- 
tros muitos trabalhos que lhes aconteceram 
naquella viagem ; e dando-lhe todos muitas 
graças , fizeram muito baftantemente fuás 
aguadas , e fe recrearam 3 e lavaram, e£ 
quecendo-lhes logo o trabalho em que vi- 
nham , porque o alvoroço do goíio prefen- 
te lhes varrco da memoria todo o perigo 
paliado. Partidos dalli, foram tomar Qye- 
xumes , que eítá na coita da Arábia antes 
do Cabo de Fartaque 5 em altura de 16. gráos 
do Norte , ao qual Ptolemeu chama Sea-- 
gro , que mette na fua fexta taboada da Afia 
na mefma coita em 14* gráos ! aqui eiri 
Quexumes fe apercebeo toda a Armada def 
coufas que havia de miíter , e o Capitão 
Mórdefpedio os navios pequenos pêra irem 
efperar em Mafcate , e fez Capitão Mor 
de todos o Pinheiro , que hia na íua xnan- 
chua: eftes navios fe fizeram á vela., e com 

CL tf « 



^44 ÁSIA de Diogo de Couto 

o tempo que era rijo, fe apartaram de noi- 
te , e fomente os navios de D. António 
Manoel de Santarém , eode Fernão Gon- 
falves da Camera fe compaífáram com a 
manchua, e foram fempre feguindo o farol, 
indo demandar a enfeada da Macieira an- 
tes do Cabo Rofalgate ; e foi o v^ento cref- 
cendo da banda do Ponente com tamanha 
cerração , que nem aquelle dia , nem outro 
(que foram correndo á vontade dos ventos) 
pode o Piloto , que hia na manchua , to- 
mar o Sol ; e o terceiro que o tempo foi 
abrindo , que lhe deo lugar pêra tomarem 
a altura , acháram-fe 8o. léguas affaftados 
da terra , do que foi caufa as grandes cor- 
rentes das aguas , que fahiam da boca de 
Sinu Períico; enão fendo poílivel tornarem 
pêra Ormuz , por fer o tempo groíTo , e 
os navios pequenos 5 que não puderam íòf- 
frer o ló , houveram por melhor confelho 
fazer-fe na volta de Dio , e com o ponente 
que era rijo , em quatro dias foram haver 
vifta do Pagode de Jaquete , no qual por 
fer de noite , e a terra raza , houveram de 
varar , e eftiveram com as proas em terra , 
fe ao mefmo tempo fe não accendêra hum 
farol que o Pagode tem; e em vendo , fe 
foram aífaftando , e ao outro dia foram a 
Dio -, onde invernáram. Os mais navios , 
que logo fe apartaram deites > foram-fe che- 
gai 



♦ Década X. Cap. XVII. 24? 

gando á terra , e de longo delia com pou- 
ca vela navegaram com menos trabalho, 
tendo tento na terra fem a quererem lar- 
gar ; e paliados os dias da cerração , foram 
mais folgadamente , e paliaram o Cabo 
Rofalgate , e dalli foram efperar a Armada 
a Mafcate : o Capitão teve o tempo em 
Qu exume furto ; e como lhe paliou , deo 
á vela com as Galés ; e poílo que gaftou 
muitos dias , foi tomar Mafcate ; e primei- 
ro que contemos o que mais fuccedeo , fe- 
ra bem que continuemos com D. Francis- 
co , e com outro Galeão , que ficaram ef- 
perando tempo , e porque ao Galeão de 
Chriftovão da Veiga não aconteceo coufa 
notável , e foi ter a Mafcate a falvamento, 
onde o deixaremos 5 por continuarmos com 
D. Francifco Mafcarenhas. Apartando-fe o 
Capitão Mor delle , ficou alli furto efpe^ 
rando por tempo , que lhe não entrou fe- 
não dahi a mais de vinte dias; e tanto que 
lhe deo lugar pêra fe poder fahir , deo á 
vela , e foi fazendo fua viagem de vagar; 
e por lhe faltar agua , a foi fazer a Monte 
de Félix , onde foi com elle dar huma náo 
muito fermofa que hia pêra Meca ; e fa- 
zendo-a furgir ? mandou levar o Capitão, 
que era hum Abexim , homem de muita 
bom entendimento , o qual D. Francifco 
recebeo mui bem, e delle foube fer a náo 

de 



^46 AS IA de Diogo de Coutg 

de Hecbar Rey dos- Mogores , e que le- 
vava cartaz que lhe moítrou. Eíte Abexim 
em praticas que teve com D, Francifco 
Mafcarenhas , fabendo que era da compa- 
nhia da Armada de Ruy Gonfalves da Ca- 
niera, perguntou-lhe pelo Capitão Mor, e 
pelo que fizera no Eftreito , porque pela 
fama , e terror que eíta Armada metteo em 
toda a índia , houve que elle pelo menos 
deixaria Moca queimada , e a mor parte 
da coita da Arábia : fabendo o pouco que 
fizera , e os defaftres que lhe aconteceram , 
apertando as mãos , e dando á cabeça , co- 
mo magoado , dilfe pêra D. Franciico : 
Não fizeftes mais com ejla vinda , que a- 
cordar o cão que ejlá dormindo ; e aílím 
foi por certo , porque logo em fahindo a 
Armada , mandou o Baxá de Suez reformar 
Adem , fazer Fortaleza em Gamaram > e ou- 
tras no porto de Arquico , e Macua na 
coita da Abaílía , provendo-os de guarni- 
ções baítantes ; e efcreveo ao Turco pela 
poíta daquella Armada, o qual com muita 
preíTa mandou lavrar madeira pêra Galés , 
e defpedio hum Baxá a Suez com os Offi? 
ciaes pêra as levantarem , o que começou 
3 fazer com muita. preíTa; e por haver dif- 
ferenças entre o Baxá que foi, e o que lá 
eítava, ficaram imperfeitas , tendo já dez 
Çalcs alevantadas ? porque o Baxá de Sue£ 



Década X. Cap. XVII. 147 

eícreveo ao Turco que não eram neceífa* 
rias tantas Galés pelos grandes gaftos que 
faziam , e que aquellas fe fe acabaíTem baf- 
tavam pêra guarda daquelle eítreito ; e com 
iílo efcreveo mexericos do outro Baxá, com 
que fez mandallo o Turco logo chamar. 

D. Francifco Mafcarenhas defpedio o 
Capitão da náo do Mogor , e elle foi feii 
caminho, em que o deixaremos até tornar 
a elle. 

CAPITULO XVIII. 

JDa Armada que Ruy Gonfalves da Came- 
ra mandou contra os Nequi/us , de que 
foi por Capitão Mor Pedro Homem Pe- 
reira y e do que lhe aconteceo na jorna- 
da \ e de como def embarcou na fua Cof- 
ta^ e foi desbaratado com morte de quaji 
todos os Capitães , e mais de trezentos 
homens. 

CHegado Ruy Gonfalves da Camera a 
Mafcate , onde os navios da Armada 
filavam já efperando por elle , tratou de 
defpedir dalli os que havia de mandar $ 
JSTequilús j como levava por regimento ; e 
pelas cartas que aíli achou de Mathias de 
Albuquerque, e de João Gomes da Silva, 
que já eítava de poíle da Fortaleza de Or* 

muZj 



'%$ ÃSIA de Diogo de Couto 

ttiuz , fe houve que feria melhor partirem 
dalli ? porque não íbubelTe da Armada 5 
fenao quando déíTe Íobre elles ; porque fe 
foífe a Ormuz , logo haviam de fer avifa- 
dos, e eftariam precatados, foccorridos de 
Lara ; e mandando prover pêra vinte dias 
dos navios que haviam de ir , os defpe- 
dio, elegendo pêra Capitão Mor daquella 
jornada Pedro Homem Perçira , que logo 
fe fez a vela. Os Capitães que com elle 
foram, são os feguintes : D. Jorge da Gama 
na fuaGalé, D. António Manoel , irmão do 
Conde da Atalaia , D. Miguel de Caftro , 
filho deD.Alvaro de Caftro , D. Manoel de 
Lima , Duarte Moniz Barreto , filho de An- 
tonio Moniz Barreto , Governador que foi 
da índia , e Triftao Vaz da Veiga , e Diogo 
Vaz irmãos, Roque daFonfeca , André de 
Soufa , João Rodrigues Cabral , Francifco de 
Soufa Pereira , Fadrique Carneiro , filho de 
Francifco Carneiro , irmão de Pedro de Al- 
cáçova , Conde das Idanhas , António Gon- 
falves de Menezes, e António Coelho iriam 
neftes navios de redor de quinhentos folda- 
dos dos melhores da Armada : levava Pe- 
dro Homem por regimento que foífe fobre 
os Nequilús , e os deftruiífe , e caftigaíía 
pelas aífrontas que tinham feito á noífa 
Fortaleza de Ormuz y e que não tocaíle 
ncfta Fortaleza , porquq não tivefíem os 



Década X. Cap. XVIIl. 249 

inimigos primeiro avifo delles, que os vif- 
fem defembarcar em fuás praias. Efta Ar- 
mada foi feguindo feu caminho com tem- 
pos ponteiros , em que gaitou quaíi todos 
os dias de provimentos que levava por Re- 
gimento ; foi-lhe faltando o mantimento, 
pelo que lhe foi forçado arribar á Ilha de 
Lareca perto de Ormuz 5 donde não mandou 
recado ao Capitão daquella Fortaleza por 
lho defender o feu regimento. João Gomes 
da Silva mandou negociar 05 mantimentos 
pêra lhe mandar; e pela detença que niíTo 
houve , chegou Kuy Gonfalves da Camera 
primeiro que foífem , e defembarcando em 
terra , praticando fobre aquellas coufas com 
Mathias de Albuquerque , e com João Go- 
mes da Silva , pareceo bem a todos ir a 
Anilada prover-fe a Ormuz , e pêra a re? 
forçarem aílim de gente, como de navios ^ 
com o que mandaram chamar Pedro Ho- 
mem ; e dando-fe preíla aos provimentos , 
e navios da obrigação daquella Fortaleza, 
que mais haviam de ir, os defpedíram em 
breves dias , levando Pedro Homem mais 
íinco navios da obrigação daquella Forta* 
leza , dos quaes era Capitão Mor Paulo da 
Silva parente de João Gomes da Silva ; e 
por ordem de Mathias de Albuquerque , 
foi também Álvaro de Aveílar em hurq. 
pavio çom Regimento a -Pedro Homem, 

que 



iço ÁSIA de Diogo de Couto 

Í[ue não fizefle nada fem feu confelho , por 
er hum homem muito prático naquelle ef- 
treito , e muito bom cavalleiro : levavam 
eftes navios da obrigação da Fortaleza 
cento e íincoenta homens , com o que pre- 
faziam o numero de feiscentos e fincoenta. 
Partida eíla Armada , foi entrando o 
eftreito , e no caminho teve o Capitão Mor 
avifo de como os Nequilús eftavam foccor- 
ridos da gente de Lara , e que no feu por- 
to nao havia que fazer , porque não tinham 
povoações , nem embarcações pêra fe lhe 
poderem queimar, que tudo eftava deferto 
em fuás terradas , enterradas debaixo da 
arêa , de que toda aquella praia era ; e 
informado bem difto 5 efcreveo ao Capitão 
Mor Ruy Gonfalves da Camera , e ao Ca- 
pitão de Ormuz , e a Mathias de Albuquer- 
que o que fobre iílo achou , e que todavia 
hia efperando por refpofta pêra lhe fazer 
p que mandaífe. Viíta a carta por todos, 
<e notados os inconvenientes que lhes elle 
apontou , lhe refpondeo Ruy Goníalves da 
Camera , que foíTe aonde o mandavam , e 
que déííe em Nequilús , e que não arribaf- 
le tantas vezes. Eíla carta os tomou já fo- 
bre o porto de Nequilús 9 o qual (como 
já diífemos) eftá na coita brava naquella 
parte , onde chamam de Leitão , fronteira 
á Ilha de Cães , que tudo são medãos dç 

aréa 



Década X. Cav. XVIII. ajt 

;arêa folta ; e como ventão os Sudoeftes 
que alli cursão muito , e ficam travefsoes , 
fazem naqueila parte os mares tamanhos 
efcarceos que mettem medo ; e poílo que 
ao tempo que alli chegou a Armada ven- 
tava pouco , e o mar dava lugar , e jazi- 
go , todavia bem pareceo a todos ; e ven- 
do a coíla , e aquelles medaos de arêa , 
fem verem povoação , embarcação , nem 
coufa que íe pudeíTe queimar , que não 
deixaria de fer fua defembarcação muito 
arriícada , e fem fruto nenhum , e aífás de 
pouco confelho em commetterem-fe coufas , 
em que o perigo eftá muito certo , e a 
honra , e proveito nenhum ; e efta era a 
razão, por que Sandanes Lidio aconfelhou 
aCreíTo, quando quiz conquiítar os Perfas , 
que nunca fizeífe guerra a gente que be- 
bia , e veítia pélles , pois em os vencer não 
podia alcançar gloria , nem proveito , co- 
mo com eíles Nequilús fenão podia alcan- 
çar ? por ferem homens que fe fuílentavam 
de tâmaras , e peixe fecco ao Sol , e be-* 
biam aguas falobras , e veítiam pélles , é 
trajes afperos, 

E tornando ao noflb fio , dada a carta 
a Pedro Homem Pereira , vendo a fequidao 
delia , deram-lhe tamanhas defconíianças , 
que fem embargo de ver claro fua perdi- 
ção «, determinou defembarcar 7 e fazer o 

quç 



%j§ ÁSIA de Diogo de Couto 

que lhe mandavam. Chamando todos os 
Capitães , moftrando-lhes a carta , e decla- 
rando-lhes a fua tenção > que era defem- 
barcar em terra , votaram todos que alli 
não havia que fazer ; e que fem embargo 
do que o Capitão Mor dizia , fenão com- 
metteífe coufa tanto fem fruto , e de tanto 
rifco, comoaquella, pois tudo o que viam 
não eram mais que medãos de arêa folta ; 
e que ir bufcar os inimigos ao Certão , 
iflb lhe não mandava o leu Regimento y 
nem era ferviço de EIRey , fe o fizeífe : 
que o bom feria tornar-ie pêra Ormuz. 
Pedro Homem Pereira bem entendeo que 
aquillo era o bom ; mas como eftava cheio 
de defconfianças , pareceo-lhe que fe defa- 
creditava em não defembarcar , poíto que 
mais não fizeífe que pôr os pés em terra ; 
e tratando iífo com oAvellar, pareceo-lhe 
bem aquillo , fó porque viífem os Nequi- 
lús que lhe podia defembarcar nas fuás ri- 
beiras, eque não fizeífem mais que encher 
hum facco daquella arêa pêra final de co- 
mo puzeram nella os pés , e pêra o leva- 
rem de prefente a feus Capitães , não lhe 
lembrando quando EIRey David eílranhou 
áquelles valentes mancebos , trazerem-lhe a 
agua que elle defejou da ciílerna de Be- 
thelém com tanto rifco feu, pelo que não 
quiz beber , e a derramou pelo chão, por- 
que 



Década X. Cap. XVIII. 2^3 

que os rifcos em que fe não aventura a ga- 
nhar muito , são temeridades mui aborre- 
cidas a Deos , e aos homens. Em fim af* 
fentados os noílbs naquella indifcreta de- 
terminação , puzeram em ordem o modo 
da defembarcação , e repartio-fe toda a gen- 
te em duas bandeiras : da primeira feria 
Capitão D. Jorge da Gama , e a outra fi- 
caria em guarda da Bandeira de Chriílo 
com o Capitão Mor , e que cada huma def- 
tas companhias deíembarcaria em cada hum 
feu pofto pêra divertirem os inimigos , fe 
lhe vieíTem defender a defembarcação. Pof- 
to tudo em ordem , mudáram-fe os Capi- 
tães das Galés , e fuftas pequenas nas ba- 
teiras , e em outros vazilhas menores , e 
foram juntamente commetter a terra , e 
puzeram nella as proas , poílo que o mar 
andava de levadio. D.Jorge da Gama com 
fua companhia defembarcou na parte que 
fe lhe limitou , e na primeira barcada lan- 
çou em terra de redor de feíTenta foldados 
com a fua bandeira , ficando-lhe pêra na 
outra batelada fe defembarcar com todos 
os mais ; e tendo dado ordem ao feu Al- 
feres que fe não apartaífem da borda da 
agua até elle fer em terra com toda a mais 
gente; e elle, e os mais de foíFregos , ou 
de haverem que não havia nada , pois não 
apparecia gente alguma 3 foram logo mar- 

chan- 



1Ç4 ÁSIA de Diogo de Couto 

chando fem efperarem pelo feu Capitão^ 
e encaminharam pêra os medãos de arêa 
que eílavam aíFaftados da agua quaíi hum 
tiro de berço , os quaes cingiam a praia a 
modo de meia Lua , e de hum a a outra fi- 
cava huma fermofiílima , e grande praia, 
que era aquella em que defembarcáram. 
D. Jorge da Gama defembarcou na outra 
batelada ; e vendo ir a fua bandeira pêra 
o monte , foi feguindo-a , e chamando pe- 
los feus que o efperaíTem 5 e que fe deti^ 
veílem , porque receou que lhe aconteceíTe 
algum defaftre ; mas como todas as defa- 
venturas que na índia tem acontecido fo- 
ram por grandes defarranjos dos foldados 
pela falta que nelles ha da difciplina mili- 
tar, não guardando eftes a ordem que ef- 
tava dada de fe não apartarem da agua, 
nem obedecendo ao feu Capitão que os foi 
chamando , foram defatinadamente pêra fe 
porem em íima dos medãos , fem lhes dar de 
nada. D. Jorge da Gama vendo que toda- 
via os feus foldados lhe levavam a bandea- 
ra , foi-fe com os mais foldados apôs ella 
até fubir a cabeça dos medãos. Os Niqui- 
lús , que eftavam já preftes ( porque tanto 
que fouberam da Armada chamaram foc-- 
corro de Lara) vendo defembarcar os nof- 
fos , deitáram-fe da outra banda dos me* 
daos em filada pêra darem jazigo aos nof* 

fos 



Década X. Cap. XVIIL itf 

íbs de deíembarcarem á fua vontade ; e 
vendo a bandeira de D.Jorge da Gama em 
fima 5 arrebentaram mais de quinhentos de 
cavallo, e muita gente de pé; e dando em 
D.Jorge, poílo que fe defendeo mui bem, 
no primeiro encontro encarou hum Foao 
Carvalho a efpingarda , e difparando-a em 
hum Mouro, que vinha diante, que pare- 
cia o Capitão \ deo com elle de pernas a£ 
Uma ; e lançando-Ihe a mão ás rédeas do 
cavallo , faltou em íima delle ; mas como 
os Mouros vinham de tropel, deram nel- 
le , e em todos , e alli os mataram : alli 
andou D. Jorge peleijando valerofamente , 
mancebo de quem todos tinham muito gran- 
des efperanças. Desbaratados eítes , foram 
os inimigos defcendo abaixo á praia, aonde 
já eftava o Capitão Mor com toda a fua 
companhia , pondo a fua gente em ordem ; 
e como levava muitos mancebos Fidalgos 
de pouca experiência , que fe não tinham 
vifto em nenhum perigo , não lhes dando 
do feu Capitão , tirou cada hum por onde? 
quiz , e quando os Mouros arrebentaram 
de fima , achando todos eftes derramados , 
deram nelles , e os começaram a matar, e 
atropelar: o feu Capitão Mor acudio com 
o corpo da gente pêra os recolher ; e fe 
queria valer a eftes , via de lá vir outros 
defmandados fugindo , e de maneira que 



iç6 AS IA de Diogo de CotTò 

ficou tudo huma confusão , que não fè en^ 
tendia , nem nenhum fabia o que fizefTe* 
Os Mouros vieram com aquelle tropel , 
trazendo diante de íi alguns , e deixando 
os mais já atropelados; e os que puderam 
efcapar fe acolheram ao mar, no qual com 
o medo fe arremedavam i fem verem que" 
por fugirem de hum perigo davam em ou- 
tro maior. Pedro Homem vendo tudo des- 
baratado , chegou-fe á borda da agua , e 
com as coitas nella eíleve recolhendo os 
que pode, e os Mouros de foífregos che- 
garam até á borda d 5 agua , e todavia achá^ 
ram alguns que fe lhes puzeram diante , e 
lhes tiveram aquella fúria , como foram 
Francifco de Soufa Pereira , os Veigas , 
Duarte Moniz , e outros , que com fuás 
alabardas fe atraveífavam , porque os Mou- 
ros não acabaífem de romper tudo : e por j 
que não achaífem ao Capitão Mor , aqui 
foi a confusão grande; porque aífim os que 
vinham fugindo , como os outros que eíta- 
vam da borda d ? agua, fe lançaram ao mar 
pêra fe fal varem nas embarcações que eíta- 
vam de largo , por caufa da quebrança da 
agua ; e como hiam carregados de armas , 
e alguns não fabiam nadar, affogáram-fe a 
mor parte deli es , fem as fuílas favorece- 
rem os noíTos com a fua artilheria, porque 
tudo foi mal ordenado, e tudo deíarranjo, 

Ven- 



Década X. Cap. XVIII. 257 

Vendo-fe o Capitão Mor perdido, e aper- 
tado dos Mouros , recolheo-fe a algumas 
embarcações com os que o puderam fe- 
guir, tudo com muito rifco , trabalho , e 
defordem : eíle foi o mais piedofo efpeóla- 
culo que fe podia imaginar, porque quanto 
fe via em terra , eram homens por baixo 
dos pés dos cavallos , e corpos efpalhados 
por fima da arêa ; quanto apparecia do mar 
eram homens , huns já afFogados , outros 
trabalhando por chegarem aos navios : huns 
chamando pelo nome de Jefus , da terra ; 
e outros pelo de noíTa Senhora por debai- 
xo das ondas , de maneira que eíle foi o 
mais miferavel cafo , e maior defaventura 
que quantas aconteceram aos Portuguezes 
neíte Eítado , porque em menos de huma 
hora Te vio tamanha matança , e deftruição 
em huma Armada , que nao tinha menos 
gente que outras com que fe a índia toda 
conquillou , e com que fe tomaram fortifli- 
mas, e poderoíilHmas Cidades, e desbara- 
taram potentes , ç foberbas Armadas de 
Turcos, e de outros inimigos; e acontecer 
ifto em parte, que nem honra , nem pro- 
veito dava ao Eítado da índia , podemos 
cuidar que tudo procedeo de peccados , 
que quizeram caftigar os Portuguezes com 
cegar tantos homens , quantos foram de pa- 
recer que fe fizeífe eíta jornada , a^que não 
Couto. Tom, VL P. J/. R fa- 



2?8 AS I A de Diogo de Coí/to 

fabemos dar fundamento ; porque pêra caf- 
tigar aquelles bárbaros , bailavam fuftas no 
mar , que lhes defendelíem a navegação al- 
guns annos , com que não fizeíTem roubos ; 
porque como lhes faltafíem , muito certo 
eílava não fe poderem fuftentar, nem vin- 
gar deita afFronta , . com a qual já ficou o 
Eftado fem tomar fatisfaçao. Em fim re- 
colhidas aquellas relíquias da Armada com 
grande dor , e pezar dos que efçapáram, 
fe fizeram á vela pêra Ormuz, aonde che- 
garam perdidos 5 e deítroçados de todo : 
fez iílo hum grande abalo em toda aquella 
Ilha ; e o que foi mais pêra fentir , de fer 
entre os Eftrangeiros Perfas , Coraçones , 
Arábios, e outras Nações , que alli eftavam 
com fuás fazendas , que fe haviam de glo- 
riar da morte de tantos Fidalgos, eCaval- 
leiros , dada por mãos da mais barbara 
gente do Oriente, fem nenhum cufto feu; 
e fe acafo acontecera na Cidade de Moca, 
que Ruy Gonfalves da Camera levava por i 
Regimento de queimar , pudera-fe fentir 
menos. Efte infeliz fucceíTo , no que final- 
mente fe perderam perto de duzentos eíin- 
coenta homens , em que entrava a flor da 
índia, affím da Fidalguia, como da folda- 
defea, deixando eíta, que fenão pode con- 
tar , nomearemos os Fidalgos que á noífa 
noticia vieram: D.Jorge da Gama, D.Mi- 
guel 



Década X. Cap. XVIIL 25*9 

guel de Caítro , D. António Manoel d'Àta- 
laya , Paulo da Silva , Duarte Moniz Barre- 
to , D. Manoel de Lima , D. António de 
Lima feu irmão , António Gonfalves de 
Menezes, Triftao Vaz , e Diogo Vaz da 
Veiga feu irmão, Manoel de Anhaia, Mar- 
tim AfFonfo de Mello Pereira , Pedro Car- 
valho, e outros muitos. O mefmo dia que 
efta Armada chegou a Ormuz, furgio tam- 
bém D. Franciíco Mafcarenhas com o feu 
Galeão* 




R ii DE- 



l6o 

DÉCADA DECIMA 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO VIII. 



CAPITULO I. 

Do que ejle anno ac otite eco na Ter fia : e 
de como mataram o Príncipe Mizhazem 
Mirta : e de como o Turco mandou Serat 
Baxd a prover o Forte de T abris , e fa- 
zer outro em Gazat , e do que o Xá fez. 

JA que. eítamos deita parte de Ormuz, 
e temos entrado no inverno , que fem-> 
pre guardámos pêra as coufas alheias, 
fera bem continuemos com as da Perlia por 
demais perto. 

Atrás deixámos o Forte feito em Tabrís , 
e morto OfmanBaxá, agora continuaremos 
com as coufas que depois aconteceram. 
Recolhido Ofman Baxá de fobre Tabrís , e 
fenrindo o Xá que o Turco trabalharia de 
mandar fazer logo outro Forte na Cidade 
de Ganjar , que fera apartada de Tabrís 
algumas dez léguas, pêra fegurança delia, 
c pêra os focçorros , e provimentos que 

lhe 



Década X. Cap. I. 261 

Jhe mandafíe , poderem ir mais feguros : pe* 
Jo que ordenou que o Príncipe feu filho 
foíTe invernar emGanjar, dando-lhe ordem 
pêra fe concertar com todos os Senhores 
da Geórgia pêra fe unirem , e ajuntarem 
contra o Turco. Pêra ifto lhe deo vinte 
mil cavallos , e Angelichan , e Ifmatichan , 
Capitães de Quexil Baxís por homens de 
grande governo , e confelho , e EIRey com 
o mais exercito fe foi pôr fobre a Cidade 
deTabrís pêra cercar a Fortaleza dos Tur- 
cos , e lhe defender não fahiífem pêra fora 
a fazer damnos pela terra. Aqui paíTou o 
Xá todo o inverno , tendo os feus muitos 
recontros com os Turcos , em que houve 
damnos , principalmente da parte delles, 
porque os Perfas como homens que eftavam 
em fuás terras, aílim apertaram com elles, 
que os encurralaram de todo na Fortaleza, 
onde começou a haver falta de tudo , por 
fe lhes irem gaitando os mantimentos que 
lhes ficaram , principalmente carnes ; em 
fim chegaram a eftado que valeo huma 
gallinha três cruzados , huma medida de 
arroz , hum pão de finco reis , dous ; vac- 
ca, nem carneiro já totalmente não havia, 
e fuítentavam-fe de carne de cavallos , e 
de afnos , de que hum arrátel valia hum 
veneziano ; e ainda chegou a coufa a mais , 
que houve muitos que comeram carne hu- 
ma- 



262 ÁSIA de Diogo de Couto 

mana dos meímos que morriam á fome, 
c aflim os poz o Xá no derradeiro extre- 
mo : de tudo ifto avifáram ao Turco por 
muitos correios , pedindo-lhe mifericor- 
dias , fenão que por força fe havia de en- 
tregar a Fortaleza aos Perfas. O Príncipe 
Mirhazem Mirra foi-fe pôr na Cidade de 
Ganfar , donde defpedio Himagolichan , 
Capitão daquella Cidade , homem valero- 
fo , e de grande entendimento , e confe- 
lho pêra ir á Geórgia perfuadir a Simão 
Hombel , e a feu cunhado Manuchiar , e 
outros Potentados a fe ajuntarem com elle 
pêra defenderem a paragem aos Turcos , 
pêra que não pudeíTem prover Tabrís, 
porque niífo eftava perder-fe aquella For- 
taleza. Efte homem fe poz a caminho , 
ficando o Príncipe em Ganfar , efperando 
pelo recado ; e como era mancebo da- 
do ao peccado da luxuria , como todos 
são , fabendo que o Himagolichan tinha 
huma filha doflzella muito fermofa , co- 
mo as mais das Perfas são , pelas quaes 
dizia o grande Alexandre que eram todas 
mágoa dos olhos , e dor dos corações, 
começando o amor , e o defejo de a ha- 
ver a fazer em feu peito o que coftuma 
fazer nos mancebos de fua idade , princi- 
palmente nos que tem poífe como efte, 
tanto trabalhou , e tal modo teve , que 

hou- 



Década X. Cap. I. 263 

houve a moça , e fe logrou delia , ainda 
que pouco , como logo fe verá. Ifto não 
pode fer tanto em fegredo , que fe não 
vieíTe a faber de alguns amigos do pai , 
que logo o avifáram pela pofta ; e dando- 
lhe as cartas , e fabendo o que paífou, 
fentio muito em feu peito a injúria que o 
Príncipe lhe fizera ; e diífimulando ifto o 
melhor que pode , abbreviou o negocio a 
que hia , e acabou com aquelles fenhores 
tudo o que o Xá pertendia , porque não 
quiz largar o ferviço de feu Rey pela cul- 
pa do máo filho , e logo voltou pêra Gan- 
jar. Chegando áquçlla Cidade , fez-fe de 
novas, e deo conta ao Principe do que ti- 
nha feito , e como aquelles íenhores le fi- 
cavam fazendo preftes pêra fe irem ajun- 
tar com elle: depois ajuntou-fe com muito 
fegredo com Angelichan , e Ifmaelchan, 
dos quaes era muito amigo , e deo-lhes 
conta de fua mágoa, fazendo-lhés fobre iíTo 
huma falia muito fubftancial , que toda vi- 
nha a redundar em vingança de fua affron- 
ta , affirmando-lhes que fe diíTimulaífe com 
aquelle negocio , que quando elle fendo 
Principe, e em vida fendo pai fazia aquel- 
le aggravo, e injúria a humVafTallo como 
elle, não fe podia efperar fendo Rey, fe- 
nao que tomaífe as mulheres , e filhos a 
todos, com o que aquelle Império da Per- 

fia 



2Ó4 A SI A de Diogo de Couto 

fia fe vieíTe a perder , o que elles como 
peflbas tão principaes eram obrigados a 
fuítentar. Tanto os moveo y e com tantas 
razões os períuadio ao que queria , que os 
venceo , e aíTentáram de matar o Príncipe , 
pois EIRey tinha outros filhos , que pode- 
riam ferReys, e que os não affrontaíle na 
honra. Confultado o negocio , deram conta 
delle a hum Barbeiro do Principe (o qual 
coítumava a ficar com elle na Camera pêra 
o abanar ,. coufa muito ordinária em todos 
os Reys deíle Oriente) e o peitaram pêra 
que o mataíle , dando-lhe logo mil tomãos 
de Laris , e cada tomão tem vinte cruza.- 
dos ; e indo o Principe hum dia a folgar 
junto do rio Curatchai y que eílá fora da 
Cidade, eítando dormindo aféfta, e o Bar- 
beiro abanando-o , vendo-fe fó , levou de 
hum punhal fecreto, e taes feridas lhe deo 
fobre o coração que o matou, e todavia o 
Príncipe com a dor da morte deo alguns 
brados , a que acudiram alguns familiares 
de cafa a tempo que o Barbeiro hia fugin- 
do ; e lançando mão delle , o fizeram logo 
em pedaços , fem lhe perguntarem quem 
lhe mandara fazer tamanha traição, logran- 
do elle bem pouco o dinheiro que lhe de- 
ram, e o Principe a filha alheia, por onde 
devem os Príncipes do mundo de fe fujei- 
tarem nefta matéria , e não injuriarem em 

cou- 



Década X. Cap. I. 165: 

coufa que tanto doe a vaífallos tão honra- 
dos , por lhes não darem occafião de tra- 
tarem contra elles deslealdade > coufa tão 
aborrecida até entre bárbaros. Morto o 
Príncipe , não fe foube por então donde 
lhe viera o mal. Ifto chegou logo ao Tur- 
co , e juntamente os correios de Tabrís , 
que lhe íignificáram o aperto em que 
aquella Fortaleza ficava , pelo que logo 
çom muita brevidade defpedio Ferat Baxá > 
pêra que fe folie pôr em Erzerum > e con- 
vocaífe o mór poder que houveífe , e foc- 
correífe os cercados , e fizeífe hum Forte 
em Ganjar (onde o Xá bem o receava) 
porque houve o Turco que já aquelle ne- 
gocio lhe ficava mais fácil com a morte 
do Principe , que os Turcos tanto recea- 
vam. O Baxá defpedio logo recado a todos 
os Baxás das Províncias , pêra que fe fof- 
fem ajuntar com elle em Erzerum , o que 
elles fizeram em poucos dias ; e os que fe 
alli ajuntaram são os feguintes : Murat Ba- 
xá de Alepo , Chedor Baxá filho de Portu- 
guez , que foi cativo em menino , e não 
pudemos cá faber de que terra , nem cujo 
filho era, o qual foi Baxá deRaivan, quan- 
do os Turcos o tomaram , e depois o foi 
de Naichivan , huma Fortaleza que eftá ao 
tope dos montes, aonde feaífentou a Arca 
de Noé ' y Belchiogiiafan Baxá de Cuílá , 

Ar- 



2<56 ÁSIA de Diogo de Couto 

Arménio 5 que refidia em Raivan , Delacha- 
dar Baxá de Maras, Mahamede Baxá filho 
de Eícander Baxá , cafta Georgiano , que 
governava a Província de Xum , junto de 
Jerufalem, Homar Baxá deErzeni, Haidar 
Baxá deSaivas, Ahebrai Baxá deÁmidna, 
Arménio. E feita a maia do exercito , que 
era de cento e feíTenta mil homens de ca- 
vallo , e huma grandiílima fomma de baga- 
ge , e artilheria , munições , mantimentos , 
dinheiro , e outras coufas pêra os provi- 
mentos de todos aquelles Fortes , come- 
çaram a caminhar com a mór preíTa que 
puderam pelo rifco , e perigo em que etta- 
vam os de Tabrís , e em breves dias en- 
traram pelos Eftados da Períia. O Xá tan- 
to que teve avifo daquella Potencia , não 
fe atrevendo a efperalla, mandou recolher 
os lavradores de todos os campos á roda 
com feus gados , e mantimentos pêra der- 
redor da Cidade de Casbi , aonde elle fe 
foi metter , deixando Tabrís , e todos os 
lugares circumvizinhos defertos , e defpo- 
voados , porque os Turcos fe não refizef- 
fem neiles. Ferat Baxá chegou áquella fer- 
mofa Cidade de Tabrís', na qual achou 
huns poucos de mefquinhos 5 fem por todos 
aquelles campos achar humà peífoa de 
quem pudefle faber o que hia pela terra , 
nem a que parte fe recolhera o Xá , o que 

lhe 



Década X. Cai\ L i6y 

lhe deo muito trabalho , porque não achou 
palha , nem herva pêra os cavallos , por 
deixar o Xá tudo abrazado, e feito cinza; 
e entrando no Forte de Tabrís , o proveo 
baftantemente \ deitando fora os fracos , e 
doentes , e reforçando aquellc preíidio com 
outros sãos , e de refrefco , e tornou logo 
a voltar pêra Ganjar pêra levantar a For- 
taleza que o Turco mandava. He efta Ci- 
dade huma das fermofas y e grandes da Me- 
dia ., a qual divide da Província de Xer- 
vao o rio Liro , a que os Turcos chamam 
Cur , a qual também eftava deípejada , e 
feus campos efcaldados , porque não achaf- 
fe alii o Baxá coufa que lhe aproveitaíTe : 
aqui traçou logo a Fortaleza em huma 
parte da Cidade, que lhe pareceo mais ac- 
commodada , e que tinha mais agua ; e 
tanta preíTa lhe deo , que em menos de 
dous mezes a poz em altura defeníivel , e 
a proveo deartilheria y munições, e manti- 
mentos muito abaftadamente , e deixou 
nella por Capitão Chedar Baxá , Portuguez, 
com finco mil homens. Feito ifto , voltou 
pêra Erzerum , e desfez o exercito , e foi 
dar ao Turco razão do que deixava feito 
naquella jornada. 

Nefte eftado ficaram as coufas da Per- 
íía , e com grandes alvoroços pela morte 
do Príncipe , e o Rey Codabanda cego, 



i68 ÁSIA de Diogo de Couto 

fó , e fem filho, que lhe ajudava a fuften- 
tar aquelle Reyno ; e que fe fora vivo , 
não fe houvera de recolher FeratBaxá tan- 
to a feu fabor , e o Reyno da Perfia com 
aquelles grilhões das Fortalezas , que o 
Turco nelle tinha , e tudo entregue ás ca- 
beças dos Quixil Baxís , que muitos perten- 
diam alevantar por Rey ao filho de EIRey 
mais moço , chamado Thomaz Mirza , que 
feria de dezoito annos , de que o Abax 
Mirza , que eftava no Cohoraçone , foi lo- 
go avifado, e acudio a iflb, como adiante 
fe verá. 

CAPITULO II. 

De como chegaram a Malaca os navios da 
Índia : e de como D. Jeronymo de Aze- 
vedo fe foi pêra o ejlreifò de Sinc apura: 
e do que lhe aconteceo > ejlando nelle com 
a Armada do Jor. 

DEixámos atrás o Rajale Rey de Jor 
com aquella má inclinação contra a 
Fortaleza de Malaca; e com ter o eítreito 
de Sincapura entupido , porque não pudef- 
fem paliar as náos da China , e Maluco , 
agora como foi tempo lançou a fua Arma- 
da no mar , que tomou as bocas dos eftrei- 
tos, donde fez arribar todos os Juncos dá 

Jaoa , 



Década X. Cap. II, 269 

Jaoa , e outras partes ao Teu rio de Jor : 
com o que poz os da .Fortaleza em tanto 
aperto de fome, que começaram a morrer 
os mefquinhos por eíTes campos de come- 
rem Jierva, e raizes peçonhentas, que lhes 
corromperam a natureza ; e poíto que D. 
Manoel de Almada andava daquella banda 
com a fua Armada , não era ella baílante 

Íiera eftorvar a do inimigo o recolher os 
uncos , e embarcações que paliavam pêra 
o feu porto ; e algumas vezes que fe en- 
contraram , fefaiváram de longe fem poder 
fer mais , porque a Armada do inimigo era 
ligeira , e chegava , ou fe aíFaítava quando 
queria. Nefte eftado eftavam as coufas , 
quando chegou a Malaca D. Jeronymo de. 
Azevedo , que fe adiantou de D. António , 
e pelas Provisões que levava o defpachou 
logo o Capitão João da Silva pêra ir d'Ar- 
mada aos eftreitos no mefmo Galeão , em 
que chegara , porque a mais Armada tinha 
D. Manoel comfigo ; e para fe elle vir, 
mandou negociar huma náo , e deixar o 
Galeão a Diogo Pereira Tibao , que havia 
de ir na mefma náo pêra andar nelle por 
Capitão. Chegado D. Jeronymo aonde ef- 
tava D. Manoel , entregou-lhe elle logo a 
Armada, ficando muito aggravado doVifo- 
Rey D. Duarte por prover aquelle mar de 
Capitão Mór > andando elle nelle. IX Je- 

ro- 



ijo ÁSIA de Diogo de Couto 

ronymo tanto que tomou pofle, fez Capi- 
tão Mor dos bantins , que eram oito , a Pe- 
dro Velho , porque António de Andria , 
que andava nelles , queria-fe vir com D. 
Manoel pêra Malaca ; e a primeira coufa 

Í[ue fez , foi mandar a Pedro Velho com os 
eus bantis que foffe queimar huma povoa- 
ção de EIRey de Jor , que eftava pouco 
mais de três léguas do eílreito de Sinca- 
pura , o que elle fez ; e dando neila > a 
queimou , e aflbJou de todo 5 e fe recolheo 
com muitos que cativaram; e vindo- fe re- 
colhendo com efta vidtoria , quatro horas 
da tarde á vifta da Armada fe fahio a do 
inimigo , que era de duas Galés , quatro 
fuílas , dez lancharas , e nove bantins ; c 
efpalhando-fe , tomaram os noífos bantins 
em meio ; e pofto que houve huma grande 
briga mui bem defendida da parte dos nof- 
fos , como os inimigos eram tantos mais , 
ficaram desbaratados , perdendo o Pedro 
Velho três bantins , que os inimigos lhe to- 
maram , e hum que deo á coita em huma 
Ilha daquellas ; e dos noífos Galeões bem 
viram a briga , mas não puderam foccor- 
rer-lhe por ler entre Ilhas , e reftingas , em 
que os Galeões corriam rifco ; e todavia 
Pedro da Cunha Carneiro , que andava por 
Capitão de huma Galcota , não lhe foffren- 
do o animo ver aquillo , foi foccorrer os 

nof- 



Década X. Cap. II. 271 

noíTos ; e mettendo-fe no meio da Armada 
do inimigo a rifco de fe perder , fez entre 
clles maravilhas, e peleijou tão esforçada- 
mente , que foi caufa de fe falvarem os 
outros bantins, porque aflim puderam efca- 
par aos inimigos , que também fe recolhe- 
ram bem efcalavrados. Pouco depois deite 
fucceífo chegou Diogo Pereira Tibáo com 
a náo, na qual fe embarcou D, Manoel de 
Almada , e fe foi pêra Malaca , e o Diogo 
Pereira ficou no Galeão , em que elle anda- 
va. Poucos dias depois chegaram á Arma- 
da huma náo de Solor , e hum Junco de 
Paneruca, aos quaes D. Jeronymo mandou 
dar guarda por Diogo Pereira Tibao , o 
qual chegou com ellçs até ao llheo de Pu- 
lopizão , dezoito léguas de Malaca , aonde 
achou a Armada do Rajale , pela qual paf- 
fou, e foi com as náos até o porto de Ma- 
laca fcrn os inimigos o commetterem. Já a 
cíle tempo era chamado D. António de No- 
ronha, e as mais náos da índia ; João da 
Silva tornou a defpachar Diogo Pereira 
Tibao pêra tornar a D. Jeronymo, o qual 
fe foi pôr fobre a barra de Jor , por fer 
avifado que o Rajale reforçava a fua Ar- 
mada, e que determinava de elle em pef- 
foa ■ embarcai -fe nella. O Rajale como teve 
toda a Armada preftes , embarcou-fe , e 
fahio pela fua barra fora , dando huma boa 

fal- 



272 ÁSIA de Diogo de Couto 

falva de artilheria á nofía Armada , c ella 
também o fervio á fua vontade. Paflado o 
Rajale , foi com toda a fua Armada dar 
huma vifta a Malaca á maneira de fobran- 
çaria , pêra fe moftrar que andava fenhor do 
' mar, eaffím appareceo hum dia com todas 
as fuás embarcações eftendidas por todo 
aquelle mar , porque eram cem velas , dez- 
efeis Galés grandes , e outras pequenas , e 
tudo o mais lancharins, e bantins ; e che- 
gando-fe perto, falvou a Cidade com toda 
a fua artilheria , e delia também lhe re- 
fpondêram arrazoadamente. O Capitão ,Bif~ 
po , D. António de Noronha acudiram á 
praia pêra porem cobro nas náos , e D. 
António fe embarcou no feu Galeão, e fç 
negociou huma Galeota , em que fe embar- 
cou Jorge de Figueiredo , e quatro bantins 
mais , e por as outras náos fe repartio a 
gente neceílaria ; porque fe os inimigos os 
quizeífem commetter, as achaíTem providas. 
O Rajale depois de falvar a Cidade , man- 
dou vifítar o Capitão , quaíl que o defana- 
va , ao que lhe elle refpondeo que fe eíT 
peraífe , que hum Galeão fó daquelles baiV 
tava pêra peleijar com elle : depois por ef- 
paço de quatro dias- que o Rajale andou á 
vifta da Fortaleza, em todos elles mandou, 
dizer que queria pazes , a que lhe não re- 
fpondêram a propofito , porque hiam dando 

pre£ 



Década X. Cap. TL 273 

prèila ás embarcações affima , pêra D. An* 
tonio fahir a peleijar com elle. Paliados os 
quatro dias , voltou logo o inimigo , e foi 
paliando pela Ilha da Pedra , que he huma 
légua de Malaca : levou delia alguns ca- 
vouqueiros com gado do Capitão , que alli 
andava pafcendo. D* António de Noronha 
deo-fe tanta preíTa , que o mefmo dia qu£ 
o inimigo fe recolheo , fahio apôs elle , e 
foi-o feguindo, e no caminho encontrou o 
Galeão de Diogo Pereira Tibao , que por 
fer tempo contrario fe foi detendo , e com 
todos os navios fe foi ajuntar com D. Je- 
ronymo , e ambos entraram emjor, aonde 
já citava recolhido o inimigo , e ainda o 
alcançaram á vifta da fua Cidade, e pelei- 
járam com ellé , e lhe deítruírani alguns 
navios , e lhe fizeram outros damnos. Com 
efta vicloria fe fahíram pêra fora , e D# 
António fe tornou pêra Malaca , e D. Je- 
ronymo ficou com a fua Armada em guar- 
da dos eílreitos ; e vindo hum junco de 
Chincheos dar com elle, o abalroou , e to* 
mou, matando-lhe quafi toda a gente, do 
qite em Malaca houve tamanhos alvoroços 
contra D* Jeronymo , que requereram a 
mandaflc vir , e elle ficou aguardando pe«> 
las náos da China , e Maluco , ao eítreito 
de Sabaó ; e andando por alli, foi dar corri 
o Galeão de Maluco , Capitão Fernão Orth{ 
Çouto.Tom.FLP.hé S de 



174 ÁSIA de Diogo de Couto 

<le Távora, o qual eílava encalhado íbbr£ 
huma coroa de arèa , e com muito trabalho 
o tirou do perigo ; e ajuntando as náos , 
por que efperava , fe recolheo com todas 
pêra Malaca ; e porque a terra eftava falta 
de mantimentos , deípedio o Capitão huma 
embarcação , e nelía hum Embaixador pêra 
EIRey de Pegú com hum bom prefente , e 
lhe mandou pedir o quizeíle íbccorrer com 
alguns mantimentos , que fe lhe pagariam 
bem. Eíta Embaixada recolheo bem aquelle 
Rey , e por ordem de António de Soufa 
Godinho , que ainda alli eílava , mandou 
algumas náos carregadas de arroz , as quaes 
chegaram a Malaca , e fartaram a terra. 

CAPITULO III. 

De como Artur de Brito chegou a Maluco : 
e do que lhe aconteceo naquellas Ilhas : 
e da Embaixada que deo a EIRey de 
Ternate fobre a entrega daquella Forta- 
leza : e do que fobre ijfo fe pajfou. 

NO Capitulo V. do Livro VI. deita Dé- 
cada X. temos contado de como a 
primeira coufa em que o Vifo-Rey D. Duar- 
te proveo , foi defpedir o Galeão de Ma- 
luco , e Artur de Brito nelle com a Em- 
baixada áquelle Rey - y e agora continuare- 
mos 



Década X. Ca?* III, 27? 

mos com elle, porque nos cabe aqui. Par-* 
tido efte Galeão de Goa , foi fua derrota 
pela via de Borneo, e em Outubro palia-* 
do chegou á vifta das Ilhas de Maluco , e 
por defcuido do leu Piloto foi tomar o mor- 
ro , e metteo-fe na ponta da banda do 
Norte entre infinitas Ilhas que alli ha. An- 
dava naquelle tempo Cachil Suguo , Tio de 
EIRey de Ternate i com huma Armada de 
Corocoras por aquella coita ; e tendo re* 
bate do Galeão , acudio lá com muita preft 
fa ; e dartdo-lhe cabos , o tirou com muito 
trabalho dos baixos , e o levou a íiirgir em 
parte fegura entre as Ilhas de Chau , e 
kau , que citavam da ponta do morro pêra 
dentro em altura de dous gráos efcaços def- 
tas Ilhas, fó a do Chau anda nas Cartas de 
marear , e he hum ponto vermelho muito 
pequeno , que fica ao Sul ; e ade Rau , 
que difta da outra meia légua , e coubef 
aquella virtude em Cachil Suguo, com fer 
inimigo , e eftar efcandalizado pela morte 
de EIRey Ahiro; e pela ventura que fe el- 
le não fora , não falara aquelle Galeão da- 
quelle perigo, fobre o que Artur de Brito 
teve com elíe muitos cumprimentos. A no- 
va deite Galeão chegou a Diogo de Azam- 
buja , fem lhe faberem dizer qual era , pe- 
lo que pedio a EIRey de Tidor.e quizeífe 
acudir com fuás corocoras 5 o que elle fez* 
S ii in- 



2j6 ASIÀ de Diogo de Couto 

indo em fua companhia Paulo de Lima, e 
alguns Portuguezesj e rogou a EIRey, que 
pois hia em peíToa áquelle negocio , não 
entendefle em outra coufa , nem fe emba- 
raçaífe em dar em alguma terra de EIRey 
de Ternate , porque não era tempo pêra 
iflb : iílo lhe pedio , porque lhe fentio in- 
clinação de fe vingar da affronta que EI- 
Rey de Ternate lhe tinha feito em lhe ne- 
gar fua irmã , tendo-lha promettido , como 
atrás diílemos. Partido EIRey , fem lhe dar 
pelo que Diogo de Azambuja lhe pedio, 
foi dando , e deftruindo todos os lugares 
daquelle Rey , fem perdoar a coufa algu- 
ma; e chegando ao Galeão, entrou dentro, 
e vio-fe com Artur de Brito , que lhe fez 
muitas honras, e recebimentos, e trataram 
tirallo dalli. O Cachil Suguo , que ainda 
alli andava com a fua Armada, tanto que 
teve rebate da Armada de EIRey de Ti- 
dore , recolheo-fe a hum. porto do mar, 
por fe fegurar dclle. Artur de Brito entre 
as coufas que alli tratou com EIRey de 
Tidore , foi pedir-lhe muito que fe viíTem 
ambos com Cachil Suguo , e que lhe def- 
fem ambos os agradecimentos do foccorro 
que lhe deo , e trataíle com elle fobre q 
negocio da fua Embaixada , pêra o perfua- 
dir a fazer com EIRey feu fobrinho que 
Jhe entregafíe a Fortaleza, e que tornaífem 

a 



Década X. Ca?. III. 277 

a correr na amizade antiga ; porque como 
elle tiveíTe grangeadas as vontades dos Tios 
de EIRey , havia o feu negocio por acaba- 
do. A EIRey lhe pareceo bem aquillo ; e 
mettendo-fe Artur de Brito no batel com 
alguns Portuguezes , deixou o Galeão en- 
tregue a João Varella Boto , que hia por 
Efcrivao delle , e lhe deixou encommenda- 
do que fe houveíle vifta da Armada de 
EIRey de Ternate , que fe fufpeitava que 
fe negociava pêra fahirem á bufca de EI- 
Rey de Tidore , lhe fizefle final com algu- 
mas bombardadas pêra fe recolher. Parti- 
dos do Galeão, EIRey nas fuás corocoras , 
e Artur de Brito no feu batel , mandaram 
diante recado ao Cachii Suguo que os qui- 
zeffe ver, porque tinham negócios que tra- 
tar, o que elle concedeo , e o efperou na 
praia, aonde houve grandes cumprimentos, 
e Artur de Brito lhe deo a carta da Em- 
baixada , que EIRey D. Filippe de Portu- 
gal mandava a EIRey feu fobrinho, pedin-r- 
do-lhe muito que fizeífe com elle que fe 
efqueceíTe das paixões paliadas, pois EIRey 
lhe promettia tantas fatisfações de fuás 
queixas , e que lhe fizefle entregar a Forta- 
leza pêra tornarem acorrer naquella antiga 
amizade, e commercio ; eeítando elle pra- 
ticando fobre eíle negocio , ouviram bom- 
bardadas no Galeão , porque viram delle 

ap- 



178 ÁSIA de Diogo de Couto 

apparecer a Armada de EIRey de Terna- 
te, que era de doze corocoras , o qual hia 
mui defejofo de fe encontrar com EIRey 
de Tidore, pêra fe fatisfazer dos damnos 
que lhe fora fazendo por fuás terra?, Artur 
de Brito em ouvindo o final, deixou o ne- 
gocio em que eítava , e recolheo-íe ao ba- 
tel pêra neíle fe recolher ao Galeão, o que 
EIRey de Tidore não confentio pelo riíco 
que corria , e quaíí por força o recolheo 
■na fua corocora , que era muito ligeira ; e 
afFaílando-fe pêra fora, houveram logo vif- 
ta da Armada de Ternate. E entendendo 
JEIRey de Tidore 'que já não poderiam paf- 
far fem fe encontrarem , voltou de longo 
do morro , e foi apertando o remo tudo 
o que pode , e EIRey de Ternate apôs eU 
le ; mas como as corocoras de Tidore eram 
mais ligeiras / e mais hiam fugindo , depois 
da Rey de Ternate as feguir todo o dia , 
tornou a voltar , e com ifto teve o batel 
tempo de fe recolher ao Galeão, que efta- 
va em armas pêra o que foíTe neceífario. 
Ao outro dia chegou EIRey de Ternate a 
elle , e de fora perguntou por novas , as 
quaes lhe deo a bordo Franciíco de Lima, 
que alli hia defpachado com a Capitania 
de Ternate, o qual EIRey folgou de ver, 
porque eram grandes amigos, eaíTim mof- 
trou eíHmar muito mandar-lhe EIRey D, 

Fi, 



Década X, Cap. III. 27? 

Filippe aquella Embaixada , e querer ter 
com elie fatisfação da morte de leu avô , e 
com iflb lhe mandou dar algum refrefco, 
e fe lhe offereceo pêra dar toa áquelle Ga- 
leão até o porto deTalangane, em quanto 
tardava Artur de Brito , o que elles accei- 
táram , e elle lhe deo toa com a lua coro- 
cora , e a elle todas as mais , e levou o 
Galeão ao porto de Taíangane, onde íur- 
gio á fua vontade, fempre com muito ref- 
guardo , e vigia todos , fem largarem as 
armas , porque por derradeiro aquelle era 
inimigo , e feosviííe deícuidados , poderia 
reinar malicia. Surto o Galeão, recolheo-fe 
EIRey , e de terra lhe mandou tudo o de 
que tinha neceííidade. João Varella Boto 
defpedio logo recado a Diogo de Azambuja 
de tudo o que era paíTado , pedindo-lhe 
mandaííe mais alguma gente , porque tinha 
pouca , e eílavam em porto de inimigo fin-* 
gido , o que elle fez, e lhe mandou vinte 
homens , com o que o Galeão ficou feguro. 
E tornando a EIRey de Tidore , foi 
dando' volta a todo o itioito , e fahio pela 
outra parte da banda do Sul pelo boquei- 
rão de Gane , que eftá junto das Ilhas de 
Bachão , e por entre as Ilhas de Ambulato , 
que eftam em hum gráo e meio do Sul , 
na qual volta gaftou vinte ehum dias, e já 
os do Galeão eítavam bem defconfiados , 

e 



%%<à ÁSIA de Diogo de Couto 

e Diogo de Azambuja não muito contente 
com tal tardança, e já os deTidore anda-? 
vam paímados , por não faberem novas de 
feu Rey , fenão quando elle aportou com 
Artur de Brito naquella Ilha , a que todos 
acudiram com grande alvoroço ao recebe-? 
rem , e feílejarem. E praticando Artur de 
Brito com Diogo de Azambuja o negocio 
a que hia , lhe diffe elle que fem embargo 
do regimento que levava pêra não dar o 
prefente a EIRey , fe lhe não entregaíle a 
Fortaleza , que não deixaíTe de lho dar, 
pois niílb hia pouco ; e João Menua pelo 
favor que deo ao Galeão , e o atoar, e le- 
var a feu porto, quanto mais que era obri- 
gação darem-lhe o que EIRey mandava; 
affim porque de lua grandeza não fe podia 
efperar que a tentaffe por aquella pouqui-? 
dade , como porque quando elle viíTe a 
conta que EIRey com elle tinha, por ven- 
tura o moveria a dar a Fortaleza, ainda que 
não foíTe logo. E porque era necefíario af- 
fiílir no feu Galeão , foi-fe logo pêra elle 
nas corocoras de EIRey , e mandou recado 
a EIRey de Ternate a pedir licença pêra 
dar fua Embaixada , e ordem pêra fua def- 
^mbarcação , pêra o que lhe mandou EI- 
Rey reféns baíhntes , que ficariam em o 
Galeão , e ao outro 4ia defcmbarcou elle 
acompanhado de João de Banha > Françifco 

de 



Década X. Cap. III. 281* 

de Lima , e o Hefpanhol Aranda , que com- 
figo levava pêra teftemunha daquelle nego- 
cio , e alguns outros foldados ; e fem em- 
bargo de Diogo de Azambuja lhe ter dado 
as razões que dizemos , pêra haver de dar 
o prcfente áquelleRey, determinou de lho 
não dar , íenão vifle nelle vontade de* en- 
tregar a Fortaleza , e por iíTo o não quiz 
levar comíigo. EIRey o mandou receber na 
praia pelos Tios , e com muita honra foi 
levado á Fortaleza, onde EIRey oefperava 
com os feus principaes , e o recebeo com 
grandes gazalhados ; e depois de paliadas 
as palavras geraes da vifitaçao , lhe deo 
huma carta de EIRey, e outra do Vifo-Rey 
D. Duarte , as quaes logo alli mandou ler 
com moftras civis, e de amizade j e vendo 
que na do Vifo-Rey lhe dizia que Artur de 
Brito lhe daria hum prefente de coufas do 
Reyno , lhe perguntou por elle ; ao que 
Artur de Brito diílimulou, e foi dando fua 
Embaixada, cuja fubílancia era , que EIRey 
D. Filippe lhe mandava pedir que fe hou- 
veííe por fatisfeito de fuás queixas , pois 
da fua parte efteve , e eftava fempre preftes 
pêra correr com elle em muita amizade , e 
fatisfações ; e da dos Vifo-Reys da índia 
pilava feito tudo o que lhe requereo , que 
era fazer-fe juftiça do matador de feu avô, 
p qual indo femenciado pela Relação da 

In«* 



i2z ÁSIA de Diogo de Couto 

índia pêra Ter degollado naquella praia dè 
Ternate á vifta ília , e de feus vaffallos , 
acontecera aquelledefaftre na coita dejaoa, 
onde o aggreífor morrera ás lançadas ; que 
fe ifto não bailava , elle eftava preftes pêra 
o fatisfazer em tudo o mais , entregando- 
Jhe £lle logo aquella Fortaleza ; e tornando 
a correr com elle em muita amizade , e 
amor, como tantos annos havia feus avós, 
e pais tinham corrido com os Reys de 
Portugal feus Predeceffores. EIRey ouvio 
tudo com muita attenção ; mas ficou muito 
tomado de Artur de Brito lhe não levar o 
prefente , porque todos eíles Reys Mouros , 
e Gentios da índia eííam fempre com o 
olho nas mãos ; e enfadado diífo , lhe tor- 
nou a Carta do Vifo-Rey , dizendo-lhe que 
aquella não vinha pêra elle , pois lhe não 
dava o que nella lhe dizia ; e fem tomar 
conclusão, odefpedio, e mandou agazalhar 
cm terra : depois fe tornou Artur de Brito 
a ver com elle por efpaço de três dias , 
diílimulando fempre com o prefente , o que 
todos lhe eftranháram muito ; e que poíto 
que por então não dava moftras de entre- 
gar a Fortaleza , lhe diíferam que poderia 
depois tomar melhor confclho , quando vif- 
fe que EIRey D. Filippe o obrigava com 
palavras , e com obras. No cabo dos três 
dias o defpedio EIRey , dizendo-lhe que 

ve- 



Década X. Cap. III. 2S3 

•veria feu Tio Cachil Suguo pêra com elle , 
e com os mais do feu Coníelho tomar re- 
folução naquellas couías ; e que em quanto 
fe ifto não fazia , lhe pedia quizeííe eílar 
naquelle porto ; e porque as coufas fe fo- 
ram dilatando muito , efperando EIRey fem- 
pre que lhe mandaffe o preíente , do que 
Artur de Brito eftava fora , o qual vendo a 
pouca conclusão que EIRey tomava naquel- 
le negocio, começou a tratar de pazes, to- 
mando por terceiro EIRey de Tidore , ou 
querendo que elle também entraíle nellas ; 
c querendo-lhas conceder , ajuntáram-fe am- 
bos os Reys , Diogo de Azambuja , Artur 
de Brito , e outras peííoas principaes , e as 
viftas foram em corocoras ao longo do Ga-' 
leão , aíli fe abraçaram todos , e aílentáram 
as pazes , promettendo EIRey de Ternate 
de refponder a Embaixada , e que daria 
carga pêra o Galeão, e que foílem os Por- 
tuguezes livremente á fua Cidade afazerem 
feus negócios, e que daria a Irmã a EIRey 
de Tidore , como eítava entre elles aífen- 
tado em vida do pai ; e affinados eftes apon- 
tamentos , recolhêram-fe todos , e ficaram 
correndo em amizade, que não durou mui- 
to, porque veio EIRey a faber que levava 
Artur de Brito por regimento , que fenão 
fentifle nelíe moftras de entregar a Forta- 
leza, UiQ não déíle o prefente, de que fe 

elle 



n%4 ÁSIA de Diogo de Couto 

clle ria ; e dizia zombando , que a fua For- 
taleza a não entregava por quatro peílas : 
e porque defejou logo de romper a paz , 
quiz que foíle por parte dos Portuguezes ; 
e porque não achou outra coufa de que elles 
mais pudeíTem tomar occafião pêra iílb , 
que pontos de opinião , mandou lançar hum 
pregão, que todos os Portuguezes que fof- 
fem a Ternate defcalçaíTem na praia os ça- 
patos , fob pena deferem prezos. Deite pre- 
gão foi logo Diogo de Azambuja avifado ; 
mas diíTimulou , e não defendeo aos Portu- 
guezes a ida a Ternate , porque lhe pare- 
ceo que não queria EIRey executar nelles 
aquella Lei , por não fer o primeiro que 
quebraífe a paz. E aífím o primeiro Portu- 
guez que lá foi , em pondo os pés em ter- 
ra , lhe fizeram defcalçar os ça patos , com 
o que Diogo de Azambuja defendeo logo 
a ida de Ternate a todos, porque entendeo 
o animo de EIRey , e aífim foram outra 
vez rotos, 

Artur de Brito fempre ficou no porto 
de Talangane efperando a refpofta da Em- 
baixada , a qual EIRey diffimulou , e de 
tudo tirou feus papeis , e inftrumentos , 
que deo a Fernão de Aranda pêra por via 
das Filippinas fe ir pêra Hefpanha , e em 
fua companhia mandou as peífas do pre- 
fente pêra nas Manilhas fe venderem , e 

tra- 



Década X. Cap. IIL 285* 

trazerem do procedido mantimentos pêra 
o Galeão; e defenganado da refpofta , e da 
carga pêra o Galeão 5 fe recolheo a Tido- 
re, como adiante fe verá. 

CAPITULO IV. 

De como Duarte Pereira veio das Mani- 
lhas , e tomou pojje da Capitania de Ti- 
dore : e das coufas que mais fuc cederam : 
e do diabólico extratagema que EIRey 
de Tem ate ufou pêra matar o Príncipe 
Mandraxa. 

NO Capitulo IX. do Livro VI. deixámos 
ido Duarte Pereira pêra as Filippinas 
a efperar que Diogo de Azambuja acabaíTe 
feu tempo , e lá efteve ate Janeiro paffado 
de 1586. em que lhe cabia entrar naquella 
Capitania , que fe embarcou em huma náo, 
e foi ter a Tidore ; e defembarcando em 
terra , foi-fe agazalhar em cafa do Vigaria 
da Fortaleza. Diogo de Azambuja , que já 
efperava por elle, e tinha ordenado furtar- 
Jhe o corpo , porque fe não quizeífe fatif- 
fazer , mandou logo embarcar no Galeão 
que alli eítava (que era o mefmo em que 
elle tinha ido ) toda fua fazenda , artilhe- 
ria , munições , e tudo o mais que lhe pa- 
receo nece/fario > e todos os feus criados y 



286 ÁSIA de Diogo de Couto 

c gente de obrigação , porque lhe não fí* 
caífe coufa em teria em que Duarte Perei- 
ra lhe pudeíTe empecer; e como teve tudo 
preíles , e negociado, mandou chamar El- 
Rey , e o Padre Vigário , e lhe fez entre- 
ga da Fortaleza, por íe não ver com Duar- 
te Pereira , e logo fe embarcou.- Duarte 
Pereira tanto que o foube , foi-fe com os 
Officiaes metter na Fortaleza , a qual lhe 
EIRey entregou, e logo alli mandou fazer 
hum auto de como Diogo de Azambuja 
lhe deixara a Fortaleza , e que embarcara 
a artilheria , e munições , e tudo o que 
quizera , e que levava os íbldados , e dei- 
xava a Fortaleza fó ; e com ifto mandou 
ao Galeão hum Official a fazer-lhe protef- 
tos , e requerimentos , que mandaife defem- 
barcar a artilheria da Fortaleza , gente , e 
todas as mais coufas que levava , porque 
ficava de guerra ; e que fe algum defaftre 
por iífo aconteceíle, elle daria conta diflb 
a EIRey. A eftes requerimentos não defirio 
Diogo de Azambuja , antes logo fe fez á 
veia pêra Amboino. Duarte Pereira come- 
çou logo a entender na carga do Galeão 
da carreira , de que era Capitão Fernão' 
Boto Machado , porque aquelle era o an- 
no da novidade em que havia muito cravo j. 
e porque Artur de Brito eítava ainda em 
Ternate efperando por refpoíla , efereveo 

ku- 



Década X, Cap. IV. 287 

huma carta áquelle Rey , na qual lhe fazia 
a faber de fua fuccefsão , pedindo-lhe mui- 
to quizefle entregar a Fortaleza , como ef- 
tava obrigado pelo contrato das pazes que 
feu pai unha feito ; e que pois EIRey D. 
Filippe fe não defcuidava de fuás coufas, 
antes em fuccedendo no Reyno , tratara 
delias, e lhe mandara Embaixada de fatif- 
fações í e os Governadores da índia ti- 
nham cumprido com a fua obrigação em fen- 
tenciar o aggreílbr , pêra que diante delle 
lhe cortaíTem a cabeça , fe havia de haver 
por íatisfeito ; e que lhe lembrava que 
mais lhe importava a amizade, e commer- 
cio dos Portuguezes que a mefma Fortale- 
za ; e com iíto efcreveo também a Cachil 
Suguo Tio de EIRey , perfuadindo-lhe , e 
rogando-lhe fize^Ie com EIRey feu fobri- 
nho que lhe entregaífe aquella Fortaleza , 
pois elle também eftava aílignado no con- 
trato que EIRey feu irmão fizera com Nu- 
no Pereira de Lacerda , no qual elle fe 
obrigava a tanto , que fizeífe juftiça de 
quem matara feu pai , fazer com feu irmão 
que tomaífe aquella Fortaleza aos Portu- 
guezes aífim , e da maneira que elles lha 
entregaram. A eftas cartas refpondeo EI- 
Rey , que elle queria efcrever a EIRey 
D. Filippe a refpofta da fua carta , e pe-? 
dir-lhe algumas coufas em favor de feu 

Rey- 



i38 ÁSIA de Diogo de Couto 

Reyno ; e por não poder acabar nada corri 
aquelle Rey b lhe commetteo pazes , as 
quaes fe concluíram com condição , que 
lhe daria carga pêra o navio de Fernão 
Boto , que elle deo : e em Fevereiro fe- 
guinte fe fez á vela com perto de mil ba- 
res de cravo ? dos quaes lhe deo EIRey de 
Ternate a mor parte , fem embargo de ter 
tomado dinheiro aos Mercadores de vinte 
juncos de Jaoa que alli eítavam , do que 
íe elles efcandalizáram muito. Deitas pa- 
zes , e do cabedal que EIRey D. Filippe 
mettia, como o de Ternate andava com o 
de Tidore muito ciofo , e fcntia muito efr 
tar o Galeão de Artur de Brito no porto 
de Ternate , de que andava defcontiado 
pelo muito que lhe importava o commer- 
cio , e amizade dos Portuguezes \ e não po^ 
dendo diífimular ifto , requereo a Duarte 
Pereira que mandaífe vir aquelle Galeão 
pêra o feu porto : e que lhe lembraíle que 
fe não podia fiar de EIRey de Ternate, 
inimigo tamanho dos Portuguezes , que ca- 
da vez que pudeífe lhe havia de fazer to- 
do o damno que fe lhe offereceíTe; e mais 
que por cartas o palpara muitas vezes , pê- 
ra que lançaífe os Portuguezes fora da fua 
Ilha , a que elle nunca dera orelhas pela 
muita amizade que com elles tinha, e pe- 
la lealdade que lhe defejava guardar , o 

que 



DecadatX. Cap. IV, z$% 

ç|iie não havia de fazer EIRey de Terna tt 
■pelo grande ódio que a todos tinha. Duar* 
te Pereira pareceo-lhé bem aquillo , e logo 
eícreveo a Arthur de Brito que fe devia 
de paííar pêra Tidore , porque entrava a 
Quarefma: eque não era bem eítar naquel- 
le porto em converfação de tantos Juncos 
Jaós , dos quaes fe não podia efperar boa 
vizinhança ) o que Arthur de Brito logo 
fez , e os Juncos fe foram efcandalizados 
de EIRey, por lhe não dar cravo, tendo^ 
lhe tomado fua Fortaleza. Deita maneira 
ficaram as coufas daquellas Ilhas efperan* 
do cada dia EIRey de Tidore que o de 
Ternate lhe déíle lua irmã , como eítava 
aflenrado no contrato das pazes i do que o 
outro eítava bem fora , antes por lha não 
dar, urdio ó mais diabólico cafo que nun- 
ca entrou na imaginação deneíihum viven* 
te 5 o qual foi efte. Já temos contado mui- 
tas vezes como Cachil Mandraxa , Tio de 
EIRey de Ternate , era o verdadeiro her* 
deiro daquelle Reyno , porfer filho daRai* 
nha daqueíla antiga Coita, donde os legí- 
timos herdeiros hão de proceder. Efte an* 
dava naquella Ilha com infígnias de Prin* 
cipe herdeiro , e muito afieiçoado á Infan- 
ta fua fobrinha irmã de EIRey , aquella 
que o de Tidore pertendia por mulher; e 
receando-fe aquelle Rey que o Tio fe con* 
Couto. Tom. VL P. Iu T cer- 



290 ÁSIA de Diogo de Couto 

cèrtaíTe com os outros irmãos, e que o de- 
puzeílem do Reyno , ordenou de fe fegu- 
rar como pudelfe , e hum dia mandou cha- 
mar o Príncipe leu Tio , e fós ambos lhe 
diffe, que muito bem fabia quanto affeiçoa- 
do andava á Infanta fua irmã , a qual elle 
defejava por mulher ; e porque a tinha 
promettido a EIRey de Tidore , queria 
que fizeífe huma coufa com que elle ficaííe 
defculpado, a qual era, que elle huma noi- 
te em muito fegredo entraíle na Fortaleza, 
e levaífe a Infanta efcondida , e lá fe ca- 
falíe com ella , pêra o que lhe daria geito , 
porque então ficaria elle fazendo-lhe a von- 
tade, e defculpado com EIRey de Tidore, 
quando foubeíle aqueile negocio ; e ficando 
ambos concertados niílo , íem fe dar conta 
á Infanta de nada , huma noite aprazada 
entrou o Cachil Mandraxa na Fortaleza, 
e tomou a fobrinha por força , e a levou 
comfígo pêra huma Aldeia da outra banda , 
aonde a teve , e fe defpofou com ella. Ao 
outro dia , que fe achou a Infanta menos , 
fazendo-fe EIRey de novas , mandou tirar 
grandes devalías , e inquirições, chamando 
os Tios , e Grandes do Reyno , e diante 
Telles esbrabejou , dizendo, que feu Tio 
Mandraxa lhe entrara na Fortaleza por for- 
ça , e lhe tomara a Infanta fua irmã , como 
CQHÍtava pelas devaílas , rogando-lhes que 

lhe 



Década X. Cap. IV. 291 

lhe ajudaflem a fazer juíliça daquelle caio; 
e tratando com elies o modo de caíligo^ 
como elles não fabiam o ardil com que elle 
tinha feito aquillo , alTim fe efeandalizáram 
daquelle negocio , que aííentáram que o 
cafo era de morte ; mas que pois era feii 
Tio, e verdadeiro herdeiro daquelle Rey-* 
no , que lhe todos tiraram , bailaria pren* 
dello pêra fatisfa^ío de EIRey de Tidore. 
Com iílo o mandou levar diante de fi , e a 
fez embarcar em huma corocora , dizendo 
aos que o levavam que o tiveílem no mar 
hum pouco á vifta de EIRey ,<ie Tidore 
pêra o elle faber , e ver que nao tinha cul^ 
pa em lhe não dár a irmã que lhe promet- 
têra. Mettido o Mandraxa na corocora, e 
affaftada ella da terra , como EIRey tinha 
fallado em íegredo com os que nellahiam, 
mataram O pobre Principe.ás crizadas, de 
que todos os Tios , e Grandes do Reyno 
fe efeandalizáram muito , e em Tidore fe 
foube o calo, que aquelle Rey fentio mui- 
to , porque defejava de cafar com aqtiella 
Infanta : iílo tudo fuecedeo neíle Julho de 
586. em que andamos; e neíle eílado dei** 
xaremos as coufas deitas Ilhas* 



T ii CA- 



292 À SI A de Diogo de Couto 

CAPITULO V, 

Do que acontece o d gente da náoSant-Iago 
depois de fer em terra até chegar a 
Moçambique : e de como fe parti- 
ram pêra a Índia. 

DEixámos a gente da náo Sant-Iago que 
fe falvou no batel roubados dos Ca- 
fres ; e levados todos pêra huma Aldeia do 
Certao , alli eftiveram quinze dias , onde 
pairaram muitas fomes , frios , e trabalhos , 
porque os deixaram nus, fem coufa que os 
cubrifTe : os dous homens , que fe tinham 
apartado delles , que eram Fernão Rodri- 
gues , e João Soeiro , foram ter ao rio de 
Laranga , e deram conta áquelles Cafres, 
que eram amigos dos Portuguezes , daquel- 
la gente que alli ficava, e do modo que os 
Jevavam, femfaberem ainda pêra onde. Os 
Cafres pelo intereíTe que efperavam do feu 
refgate , foram-fe logo huns com alguns 
panos, e por inculcas os acharam em huma 
aldeia , como reteudos , e cativos ; e refga- 
tando-os por poucos panos , os levaram 
comíigo pêra Laranga , aonde eftiveram 
dous mezes padecendo também fomes , e 
frios , e defaventuras bem grandes , com 
o que de puro trabalho morreram os Pa- 
dres da Companhia Pedro Alvares , o Padre 



Década X. Cap. V. 293 

Capata , João Gonfalves , e outros, osquaes 
tinham moftrado neíta perdição mui grande 
exemplo de virtude , e efpantofa caridade 
com os pobres. Eftando aqui todos bem 
defeoníbiados , apartou-fe aquelle moço 
Diogo de Couto , que de piedade tomaram 
os do batel , e foi-fe fem difeurfo , nem 
faber pêra onde hia , ou pêra onde o le- 
vafTe a íua ventura , e ella o foi encami- 
nhando até o rio chamado Quefungo, aonde 
achou hum pangaio do Capitão de Mo- 
çambique Nuno Velho Pereira , do qual 
era Capitão André Colaço ; e dando-lhe as 
novas da gente que ficava em Laranga, 
partio-fe logo no feu pangaio, efoi tomar 
aquelle rio , que ficava ao Norte de Que- 
fungo fete , ou oito léguas , e alli achou 
todos os perdidos em poder dos Cafres , 
que os foram refgatar •, e concertando-fe 
com elles , lhes deo hum golpe de roupa 
por todos , e os tomou comíigo no pan- 
gaio, e os levou a Cuama , e dalli a Sena, 
aonde eílava hum Forte, onde acharam já 
Fernão de Mendoça , e os da fua compa- 
nhia , e os da jangada Simão Moniz , que 
havia dias eram chegados. Os cafados , e 
moradores daquella povoação vendo aquel- 
las peflbas daquelle modo , os repartiram 
entre íi , e os agazalháram com muita ca- 
ridade y dando-lhes de veítir , e calçar , e 

em- 



194 ÁSIA de Diogo de Couto 

empreitando o feu dinheiro a muitos. AM 
eftiveram até eíte Janeiro paílado , que le 
embarcaram pêra Moçambique , tomando 
Duarte de Mello á fua conta a mor parte 
daquelles Fidalgos , e lhes fez os gados j e 
em Moçambique recollieo Nuno Velho Pe- 
reira , que alli eílava por Capitão , parte dei- 
les , e outros ficaram com Duarte de Mel^ 
Ío , e os mais foram providos, e remedia- 
dos , affim da Mifericordia , como daquel- 
les moradores que acudiram ás fuás necelli-* 
dades com muito amor. Pouco depois diíto 
chegou áquella Fortaleza D. Jorge de Me* 
nezes , Alferes Mor do Rey.no ? e tomou 
poíle delia , e proveo a todos os da pei> 
dição mui bem, e deo muito dinheiro aos 
Padres Fr. Thomaz Pinto . Inquifidor , e 
Pedro Martins , Provincial da Companhia 
da índia ; e porque Duarte de Mello , e 
aquelles Fidalgos quizeram ir invernar á 
Índia, lhe deo o Alferes Mor huma naveta 
iua com todas as defpezas , gaítos , e ma- 
talòtagens á fua cuíla , e deo dinheiro a 
xjuem lho pedio , e era Duarte de Mello 
íilho de Heitor de Mello , que foi cafado 
fcm Baçaim fegunda vez com Dona Maria , 
ilha de D. Roque Tello, e de fua mulher 
Dona Filippa, de que não houve filhos, e 
a primeira vez com Dona Margarida , filha 
de Manoel de Sá y da qual nafceo eíte Duarte 

de 



Década X, Cap. V. 295* 

de Mello, eDona Filippa , que depois ca- 
iou com Ruy Gomes da Silva , e outros 
três, ou quatro filhos mais, que morreram 
na índia em ferviço de EIRey. 

CAPITULO VI, 

Da Armada que ejle anno de ^8 6. par tio 
do Reyno : e do novo arrendamento que 
EIRey mandou fazer da cafa da índia : 
e de como o Galeão Reys Alagas , que 
hia pêra Malaca , peleijou com os Ingle~ 
zes : e do grande naufrágio que pajjou a 
não S. Lourenço , indo pêra o Reyno : e 
de como chegou a Moçambique. 

CHegada a monção , em que no Reyno 
fe começaram a negociar as náos pêra 
a índia , começou Manoel Caldeira , que 
corria com o feu contrato a negociar ; e 
em quanto fe hia dando ordem aos defpa- 
chos , tratou EIRey (por lhe dizerem fer 
aífim mais proveito da fua fazenda) de ar- 
rendar a cafa da índia , e fez delia hum 
novo contrato por tempo de fete annos 
com Jacome Gomes Gallego , Jeronymo 
Duarte , Manoel Martins , Francifco Ro- 
drigues de Elvas, e Manoel Jorge por pre- 
ço , e quantia de cento e trinta e fete con- 
tos de reis cada hum anno y com o que fe 

fi-' 



t$6 ÁSIA de DroGo de Couto 

ficou fechando o favor aos pobres , que da 
Índia vam com tantos rifcos , e perigos , 
com os quaes fe diffimulou fempre com o 
feu caixão , e com o feu quintal de canelv 
Ia, e cravo, e com o feu brinco , e cane- 
qui , que a EIRey montava pouco, e a el- 
les muito pêra as defpezas defeus requeri- 
mentos , o que com ifto ficou bem diffe- 
rente, porque os rendeiros aíTím efpremem 
tudo , que não paíía panno pêra camizas , nem 
arrátel de canella pêra dar , que não pague 
feus direitos ; e deitas , e de outras cem 
mil coufas nunca os Reys são avifados, 
porque não lhes dizem o que he em prol , 
e accrefcentamento de feus vaíTallos po- 
bres , fenao aquillo que he em favor , e 
bem de fuás rendas; porque fempre houvç 
nas cafas dos Reys homens tão zelofos , e 
amigos de fuás fazendas , que trabalharam 
de dar alvitres pêra as fazer crefcer á cufta 
dos pobres vaíTallos , porque também com 
iffo accrefcentam em fuás commendas , e 
morgados ; e affim de ordinário o favor 
que fe tira aos pobres , vem a dar a eftes 
de que nunca informão aos Reys , porque 
elles são pais de pobres , e nunca feram 
contentes de os apertarem tanto. E tornan- 
do ao noífo fio, andando-fe fazendo pref? 
tes as náos, foiElRey avifado que em In^ 
glaterra fe negociava huma Armada , fem 



Década X, Cap. VI. 297 

faber pêra onde ; e porque pela ventura 
que quereriam paflar a índia pêra as par- 
tes de Malaca 5 quiz avifar ao Capitão da- 
quella Fortaleza , pêra que eftivcíFe preftes , 
e ao Vifo-Rey da índia , pêra que o foc- 
correfle : pêra o que mandou dar preíTa ao 
Galeão Reys Magos , que fe negociava pê- 
ra Malaca , do qual eftava nomeado por 
Capitão João Gago de Andrade , homem 
Fidalgo 5 e muito antigo da índia , e em 
5. de Janeiro de 15*86. fe fez á vela , e 
mandou EIRey embarcar nelle Eftevao da 
Veiga com cartas pêra o Vifo-Rey D. Duar- 
te , e huma pêra o Capitão de Moçambi- 
que , na qual lhe dizia que em chegando 
alli aquella náo , logo negociaffe alguma 
embarcação pêra nella paífar Eítevao da 
Veiga á índia por cumprir affim a feu fer- 
viço. Neíla náo fe embarcaram alguns Pa- 
dres de S. Domingos á fama da grande 
Chriftandade que os Padres da fua Religião 
faziam nas Ilhas de Solor, os quaes fe of- 
fereceram a feus Prelados pêra fe acharem 
naquella conquiíla efpirituaí , com grande 
defejo de também merecerem o jornal dos 
obreiros da vinha de Deos. 

Dada afta nio á vela , foi feguindo 
fua jornada, a que logo tornaremos. 

A mais Armada, que havia de ir pêra 
g índia 7 partio por todo o Março , e hi^ 

por 



298 ÁSIA de Diogo de Couto 

por Capitão Mór delia D. Jeronymo Cou- 
tinho , que fe embarcou na náo S. Thomé , 
os mais Capitães da íua companhia eram 
António Gomes do Galeão Bomjefus, por 
outro nome Caranja , onde fe embarcou 
Manoel de Soufa Coutinho cheio de hon- 
ras , e mercês , porque trazia a Capitania 
de Malaca , e Jiuma viagem de Japão , e a 
Capitania de Baçaim, de que havia annos 
era provido pêra cafamento dehuma filha, 
e habito de Chrifto com boa tença; e pelo 
que depois fe foube vinha na fegunda fuc- 
cefsão da Governança da índia , em que 
logo fuecedeo por morte do Vifo-Rey D. 
Duarte , como em feu lugar diremos , coufa 
poucas vezes acontecida na índia. As mais 
náos eram o Salvador, Capitão Miguel de 
Abreu , da Relíquias Francifco Cavalleiro , 
e de S. Fiiippe João Trigueiros , e todas 
juntas foram lua derrota com grande ref- 
guardo , e vigia pela fama que havia de 
Inglezes ; e em quanto vam feu caminho, 
tornemos ao Galeão que hia pêra Malaca : 
efte indo feguindo fua derrota, fendo hum 
gráo e meio antes da linha da banda do 
Norte , aos 14. dias de Fevereiro , antes 
do Sol nafcer , houveram vida de huma po- 
derofa náo , e de hum patacho , que já os 
vinha demandar ; e conhecendo ferem In- 
glezes , fizeram leites a artilhem , e prepar 

rá- 



Década X. Cai>. VI. 299 

riram mui bem a náo , mandando pôr nas 
gavias marinheiros valentes homens com 
aJgumas eípingardas , zargunchos , e mui- 
tos calhaos , e algumas panellas de pólvora. 
•O Capitão João Gago , que era muito ve- 
lho , e goto lo , aííentou-fe em íima do pro- 
pao na poppa em huma cadeira pêra dalli 
ver tudo, e governar, e encarregou o con- 
vés aEítevao da Veiga com trinta homens: 
a proa encarregou a António de Vilhegas , 
que hia defpachado com a Capitania de So- 
lor, e a Rodrigo Leitão , ambos cafados 
em Malaca, mui bonsCavalleiros : iriam na 
•náo duzentos homens entre marinheiros , e 
Toldados. Preftes tudo , fendo dez horas , 
chegaram os Inglezes a tiro de bombarda, 
£ falváram o Galeão , e os noflbs fizeram o 
mefmo com a efpera que lhes foi zonindo 
pelas orelhas, porque videm o com que os 
haviam de hofpedar. Os Inglezes como mais 
ligeiros , tomaram o balravento , e come-* 
çáram a bater a náo com grande fúria , e 
o mefmo fizeram do Galeão por efpaço de 
.huma hora, na qual femettêram em ambas 
as partes muitos pelouros dentro em huma , 
e outra náo, os quaes na noífa feriram al- 
guma gente , e na Aia não havia de haver 
menos perigo. Os Inglezes vendo que da 
bateria não paliavam melhor , determinaram 
ú& abordar o Galeão , como logo fizeram , 

e 



300 ÁSIA de Diogo de Couto 

c ás lançadas fe começaram a combater to- 
dos com grande animo , e determinação por 
efpaço de duas horas. Os nofíbs fizeram 
grandes coufas , principalmente António de 
Vilhegas , Eftevão da Veiga , e Rodrigo 
Leitão : os Padres de S. Domingos toma- 
ram o officio de animarem a todos , e de 
acudirem aonde havia necefndade , e de 
trazerem o olho nos que fe tiravam dos 
íeus lugares pêra os fazerem tornar a elles. 
Os marinheiros , que eítavam nas gáveas , 
fizeram dentro na náo Ingleza grande des- 
truição ; e aífim os trataram por todas as 
partes, que tomaram elles por partido def- 
abordarem , e affaftaram-fe pêra fora ; e 
ao paliar pela proa do Galeão deram ta- 
manha pancada em huma unha da ancora, 
pela qual foram roçando , que fe indireitou 
toda, Affaftada a náo , e o patacho , que 
todo aquelle tempo ficou de fora ás bom- 
bardadas , foi ella fazendo-fe em hum , e 
outro bordo , dando querenas , como que 
hiam tapando buracos que lhe fizeram com 
a artilheria do noíío Galeão , e foram-fe 
feu caminho. Prefumio-fe que eftes navios 
feriam da reçaga dos trinta Galeões que 
neíle tempo foram faquear Santo Domin- 
go, que foi a Armada de que ElRey teve 
avifo ; no Galeão ficaram muitos feridos , 
e hum fó morto , e efte foi hum marinhei 






Década X. Cap. VI. 301 

ro, que efteve toda huma hora ao leme; e 
entregando-o a outro , fubio affima pêra 
ver a briga contra vontade de alguns que 
lhe diíTeram que não fofíe ; e chegando ao 
convés , lhe deram huma efpingardada pela 
teíta , de que logo cahio morto. Os noííbs 
tanto que foram defapreíTados , foram fe- 
guindo lua derrota, e em fim de Abril paf- 
fáram o Cabo da Boa Efperança ; e indo 
feu caminho na demanda de Moçambique, 
houveram viíta de huma náo tanto á vante 
com a terra do Natal, a qual hia toda def- 
troçada fem maftareos , gorupés , mezena , 
nem varanda , e parecia que eftava em gran- 
de trabalho. E pofto que o Galeão hia cor- 
rendo com pouca vela , com hum temporal 
grande foi guinando pêra a reconhecer ; e 
vendo-a tão deftroçada , e que delia lhe 
capiava com muitas coufas , entendeo que 
eítavam em trabalho , e que não feria pof- 
íivel foccorrer-lhe , e por caufa da muita tor- 
menta não fe quizeram embaraçar , e fo- 
ram feu caminho, deixando os da náo mui- 
to defconfolados : era efta náo S.Lourenço, 
em que hia por Capitão Reimão Falcão, 
filho do Licenciado Simão Gonfalves Pre- 
to , Chanceller Mor do Reyno , a qual 
com o tempo, e tormentas que teve defap- 
parelhou daquella maneira , e abrio por 
muitas partes 5 pelas quaes começou afazer 

agua, 



302 ÁSIA de Diogo de Couto 

agua, que já as bombas anão podiam véu-* 
cer, antes crefceo tanto que chegou a dez- 
oito palmos , com o que lhe foi forçado 
alijarem ao mar toda a fazenda que hia 
em lima , e nas bocas das efcotilhas orde- 
naram huns andaimes , pelos quaes come- 
çaram a correr barris de féis almudes de 
dous em dous , e toda a gente da náo re- 
partida por elles , e pelas bombas , de que 
nunca levaram as mãos, com tanto trabaiho 
do corpo, e dos efpiritos , que já não po- 
diam comfigo ; e pela muita diligencia que 
o Capitão punha , ajudado de alguns Fi- 
dalgos , e Cavalleiros que hiam na náo , a 
foram fuftentando , e voltando pêra Mo- 
çambique ; e affirmáram que todos os dias 
deitavam ao mar novecentas pipas de agua 
pela conta dos barris que laboravam , e já 
não havia braços , nem forças pêra nada ; 
e tanto que houveram viftá do Galeão , que 
hia pêra Malaca , foram-fe a elle, e largan- 
do todos com alvoroço as bombas , come- 
çaram a capiar, cuidando que os foccorref- 
fem pêra fe falvarem nelle ; e vendo que 
fe lhe hia, tornaram ao trabalho, enaquel- 
le pequeno efpaço crefceo a agua na náo 
até vinte e dous palmos ; e vendo que lhe 
não ficava outro remédio mais que o de 
Deos , e dos braços , laboraram com os 
barris, e bombas, e com infinito trabalho 

fe 



Década X. Cap. VI. 305 

fe foram fuftentando fernpre nos vinte e 
dous palmos de agua mais de quarenta dias 
até noílb Senhor os levar a Moçambique, 
aonde já eítava o Galeão de Malaca havia 
dias , o qual tinha chegado aos 4. de Ju- 
nho. Entrada a náo dentro , defembarcáram 
todos em procifsão , e foram a N. Senhora 
do Baluarte tão fracos , e debilitados que 
não podiam comfigo. A náo foi logo def- 
pejada da pimenta de EIRey \ e da fazen- 
da que hia por baixo; e porque fenão fof- 
fe ao fundo no canal , porque impediria o 
furgidouro ás náos do Reyno , a foram 
encalhar da outra banda , aonde fe desfez. 
Chegado o Galeão de Malaca a Moçam- 
bique , deo Eítevão da Veiga a Carta de 
EIRey ao Alferes Mor, o qual logo man- 
dou comprar hum pangaio grande , por 
não haver no porto outra embarcação , e o 
mandou concertar 3 e nelle fe embarcou 
Eítevão da Veiga antes de Sant-Iago , dan- 
do-lhe o Alferes Mor por regimento que 
fe não pudeííe ferrar a barra de Goa por 
ainda ler lá o tempo groííb , que varaíle 
na terra mais perto que pudeíle , e que 
falvaíle fua peílba , e as cartas de EIRey, 
e que por terra fe foíle pêra Goa. Eíle 
pangaio achou os tempos tão fortes , que 
pelos não foífrer, arribou á Ilha de Pomba 
11a coíla de Melinde > onde achou hum Ga- 

leo- 



304 ÁSIA de Diogo de Couto 

leoto do Alferes Mor , que tinha vindo 
de Mafulepatao carregado de fazendas ; e 
reprefentando Eftevao da Veiga ao Capitão 
delle a importância do ferviço de EIRey 
a que hia á índia , e o muito que o Alfe- 
res Mór eílimaria dar-lhe aquelle navio, 
lho deo muito concertado , e nelle foi fa- 
zendo fua viagem com tempos bem rijos , 
e por fim de Agofto iurgio na barra de 
Goa , onde o Viíb-Rey D. Duarte mandou 
logo Pilotos que o metteíTem dentro, e EA 
tevao da Veiga deo as cartas ao Vifo- 
Rey , e o que nellas lhe mandava fe não 
foube ; e nas náos que eílavam pêra partir 
pêra Malaca mandou embarcar alguma gen- 
te, e munições. O Galeão de Malaca, que 
deixámos em Moçambique , partio dalli a 
6. de Agofto , e chegou áquella Fortaleza 
a i^. de Outubro , como adiante melhor 
diremos. 



CA- 



Década X* Cap. VIL 305* 

CAPITULO VIL 

Da Armada que o Vifo-Rey D. Duartô 
mandou a Surrate , de que foi por Capi* 
tão João- Barriga Simões : e do que lhe 
aconteceo com huma não de Meca , e 
com Caliche Mahamede Senhor de Sur* 
rate. 

POr cartas que o Vifo-Rey teve de Da* 
mão , foi avifado como o Caliche Ma- 
liarnede , Capitão de Surrate , efperava por 
huma náo de Meca , que no Abril paífado 
de jS^, tinha lançado fora fem cartaz; 
porque , como muitas vezes diífemos , as 
coufas que efte Mogor maisfentia, era pe- 
dillos pêra as fuás náos , pelas muitas ve- 
zes que tinha feito crer ao Hecbar que ha- 
viam fuás nuos de navegar fem elles a def- 
peito dos Portuguezes , por naturalmente 
ler homem foberbo , e o mais arrogante 
que havia entre os Mogores \ e porque ef- 
tava affrontado do que o Abril paliado lhe 
tinha acontecido comjoão Cayado de Gam- 
boa, tinha mandado que aquella náo 7 que 
era muito grande, deixafle toda a fazenda 
repartida pelas riáos de cartazes, e que lhe 
metteífe muita artilheria , e munições , e 
duzentos homens de peleja dos efcolhidos, 
€ foífe demandar Surrate ; e que achando 
Cmo.Tom.VLP.h. V a 



30 6 ÁSIA £>e Diogo de Couto 

a Armada Portugueza, peleijaífe com ella# 
O Viío-Rey tanto que íbube as novas , 
logo efcreveo por terra a João Barriga Si- 
mões , que eítava em Baçaim, que com a 
mor brevidade que pudeííe fe paíTaííe a 
Damão , e negociaífe dous navios, e com 
os de D. Gaíláo Coutinho, D. António Ma- 
noel , e Fernão Gonfalves daCamera, que 
eftavam em Dio , como atrás diílcmos ; e 
com a Armada , que de lá havia de vir 
ajuntar-fe com elle, fe fofíe pôr febre Sur- 
rate , e que tomaílem todas as náos que 
vieíTem de Meca fem cartaz , e pêra ifto 
paflbu Provisões , e cartas , affim pêra os 
OfEciaes de Damão , e Dio armarem os 
navios , como pêra os Capitães da compa- 
nhia de Ruy Gonfalves da Camera , que 
aílima nomeámos, fe irem ajuntar com João 
Barriga Simões em Surrate. Com eílas car- 
tas fe foi elle pêra Damão, e defpedio as 
outras pêra Dio, e elle ficou alli negocian- 
do as duas fuítas , que foram as mais pof* 
fantes que achou , e huma tomou pêra íi, 
e outra deo a João Homem , cafado na- 
quella Cidade, As cartas doVifo-Rey che- 
garam a Dio a tempo que já Luiz Falcão , 
filho de Ayres Falcão , Capitão daquella 
Fortaleza , era partido pêra Goga com fin- 
co navios , pêra dar guarda á cáfila de 
Cambaya : pelo que logo defpedio huma 

em- 



Década X, Cap. VIÍ. 307 

émbáfcação ligeira com cartas a feu filho 3 
em que lhe mandava fe paiTaífe logo a Da- 
mão , e fe ajuntafle a João Barriga Simões j 
e as cartas do Viíb-Rey deo áquelles Ca- 
pitães que alli invernáram , com as quaes 
deitaram os navios ao mar 5 e le negocia-* 
ram pêra fe partirem ; e porque naquelle 
tempo tinha chegado li um a naveta de Me-* 
ca , que dava novas que no eftreitò fe ne-* 
gociavam Galés , não quiz Ayres Falcão 
que fe partiílem áquelles Capitães até vi- 
rem as mais nács pêra fabei; a certeza > 
com o que fe deixaram ficar. João Barri* 
ga aos lo* de Setembro po2 os navios no 
mar , e aos 15. chegou a Armada de Dio , 
com a qual fe fahio pêra fora ; e porque 
o tempo era ainda verde , e as correntes 
mui grandes j deo o navio de Luiz Homem 
á cofta , pelo que lhe foi forçado deixallo, 
e com a mais Armada fe foi pôr fobre 
Surrate* Os navios que ficaram em Dio , 
chegando logo outras riáos , que affirmá-* 
ram não haver Galés , deram á vela pêra 
Surrate , e no meímo dia lhe deo hum 
tempo rijo , com o qual fe apartou o na- 
vio de D. António Manoel , que conendo 
largo , foi tomar Baçaim : os outros dous 
indo tanto avante , como Madre Faval-, 
houveram vífta de huma fermofa náo , que 
era a que o Caliche efperava , a qual hia 

V ii cora 



308 ÁSIA de Díogo de Couto 

com vento frefco fetn traquetes ; os navios 
chegaram a ella , e lhe perguntaram que 
náo era , e pêra onde hia ? Os de dentro 
lhes refpondêram que era de Dio de Nuco 
Demorgi , hum Mercador muito conheci- 
do naquella Cidade, que trazia duas , ou 
três náos na carreira de Meca : os dos 
navios lhes diíTeram que fe era de Dio , 
como levavam aquella derrota , que fe íi- 
zeífem na outra volta 3 que elles o acom- 
panhariam até Dio ; mas elles dando-lhe 
pouco daquillo , deixáram-fe ir feu cami- 
nho. Os Capitães dos navios tomando pa- 
recer íbbre o que fariam , aíTentáram que 
a feguiíTem até Surrate , onde já havia de 
eftar João Barriga ; e que poíto que não 
levaíTe Pilotos , que a mefma náo os guia- 
ria. E porque a náo largou todas as velas, 
o fizeram elles também , e a foram feguin- 
do ? hum por huma banda , e outro pela 
outra y esbombardeando-a muito tezamen- 
te , e affim a levaram até Surrate , onde a 
noíTa Armada eftava. João Barriga tanto 
que ouvio as bombardadas , poz os navios 
todos em armas , e logo houve viíta da 
náo, a qual fahio pêra a tomarem no mar 
largo ; e chegando a ella , a rodeou , e a 
começou a bater rijamente , do que ella 
fez pouco cafo , e fe deixou ir muito fe- 
gura , difparando também a fua artilheria 

por 



Década X. Cap. VIL 309 

por todas as partes ; e como os feus Pilo- 
tos labiam muito bem todos aquelles ca- 
naes, e furgidouros , defviando-fe de ordi- 
nário por onde a noíla Armada eítava , foi 
demandar hum canal da banda do Norte, 
mas eílreíto , e por elle foi até encalhar 
junto dá primeira ponta da barra , onde 
faz huma reílinga de lama , que lança hum 
bom efpaço ao mar ; e como deo nella , 
ficou logo envafada , e no mefmo inílante 
lhe cortaram osmaílos, porque não abrifle. 
João Barriga vendo a náo varada , chegou- 
fe com os navios o mais perto que pode, 
e começaram a batella por todas as partes ; 
mas como a náo era forte , e os falcões 
não bailavam pêra a desfazer , defpedio 
João Barriga hum navio daquelles a Damão 
a pedir mais três navios com dous Came- 
letes, eíles negociou D. Luiz de Menezes, 
Capitão daquella Fortaleza , e o defpedio 
logo : com eíles foram Jcão Homem , que 
já tinha concertado o feu navio , D. Antó- 
nio Manoel , que tinha vindo de Baçaim 
havia pouco , e do outro Capitão não fou- 
bemos o nome , os quaes ao outro dia 
chegaram á Armada , que nunca deixou a 
náo , antes foi continuando a bateria com 
muita importunação , e com a chegada dei- 
tes navios a apertou mais. Catrche Maha- 
mede como lhe importava muito aquillo, 

por 



3 io ÁSIA de Diogo de Couto 

por honra , e opinião mandou negociar 
quatorze navios pêra irem peleijar com a 
noífa Armada ; e em quanto fe iílo fazia , 
^cudio elie em peíToa á ponta da Barra 
com 500. de cavallo , e com algumas pef» 
fas de artilheria pêra favorecer a fua náo , 
e varejou de terra mui bem os navios ; mas 
riem com tudo defiítio Jcâo Barriga da bar 
teria , antes a foi amiudando mais. O Ca^ 
liche determinou de entreter os noíTcs com 
algum engano , em quanto os feus navios 
íe negociavam pêra lhes fahirem , e defpe- 
dio huma Almadia com hum Baneane , e 
dous Mogores , os quaes fazendo final 
com huma bandeira branca, foram chama- 
dos ao navio do Capitão Mor João Barri- 
ga Simões , que mandou ceifar a bateria. 
Chegada a Almadia abordo, diíle o Banca- 
pe ao Capitão Mor, que Caliche lhe man* 
dava dizer que aquella náo não tinha fa- 
zenda que deveífe nada ás Alfandegas de 
EIRey de Portugal , e que eftava alli en- 
calhada , e alagada , que parecia que não 
tinha que fazer com e]la , que lhe pedia a 
deixafíe , e não qnizeífe peja opinião de 
accrefcentar em feus ferviços mais huma 
certidão , que tomara huma náo de Meca , 
arrifcar as terras deDamaq, e todos os ren- 
dimentos de fuás aldeias, que importavam 
jriais que fçis náos daqueljas , além de 

jpui- 



Década X. Cap. VIL 311 

muitos vaflallos mortos , e cativos : que 
lhe fazia a faber que já tinha defpedido 
mil de cavallo pêra ellas , os quaes fe não 
haviam de recolher fem fe vingarem da- 
queíla teima. João Barriga ouvio mui bem 
o Baneane , e notou aos Mogores que af- 
íim nas peflbas, como em tudo o mais pa- 
reciam homens honrados, e que a conta de 
acompanharem o Baneane hiam a efpiar, e 
com muita fegurança lhe refpondeo que 
diffeíTe ao Caliche que por nenhum caio 
fe havia de apartar de fobre aquella náo, 
fem lhe moílrar fe tinha cartaz pêra nave- 
gar j e que tendo-o , elle trazia por regi- 
mento do Vifo-Rey , que onde encontraife 
náo do Hecbar , ou fua delle com cartaz , 
as revocaíTe , acompanhaífe, e favoreceíTe 
até furgir em feu porto , que alli eílava 
preíles pêra o fazer áquella , fe tinha car- 
taz , e que logo a tiraria dalli , rebocaria , 
e daria toas até a pôr debaixo de fua For- 
taleza ; mas fe o não tinha , que fe defen- 
ganaíle, porque fe não havia de afFaílar de 
alli hum palmo até a desfazer em pó , e 
cinza ; e que quanto a honra da certidão, 
ilfo era pêra os Fidalgos , e grandes Capi- 
tães , que elle não era mais que hum fol- 
dado ; e q ue a gente que tinha defpedido 
contra Damão, lá eílava D.Luiz de Mene- 
zes 3 que era Capitão daquella Cidade, 

que 



312 ÁSIA de Diogo de Couto 

que agazalharia a todos , como o coítuma- 
va fazer a todos os inimigos nas partes 
em que fe achara ; e que como elie con- 
cluiíle com aquella náo , iria ajudar a hof- 
pedar os feus que lá mandara , e com ifto 
os defpedio ; e indo fe o Baneane já em- 
barcando , appareceo a Armada do Cali- 
che, que era de quatorze navios, carrega- 
dos de armas, e gentes, que vinham com 
tenção de commetter a noífa Armada : o 
Baneane em os vendo, diífe a João Barri- 
ga : Já que affim queres , vigia-te âaquel- 
les navàas que lá vem\ e entendendo João 
Barriga que aquillo era com modo de ron-» 
ea , e que lho mandara dizer hum daquelles 
Mogores , lhe refpondeo , que fe os Ca- 
pitães da quelles navios eram como aquelle9 
feus companheiros , que niíTo havia pouco 
que fazer , porque no mar os Portuguezes 
çram huns fós , e que elles lá por terra 
em feus fendeiros feriam valentes com gen- 
te coutada, Defpedido o Baneane , poz 
João Barriga a fua Armada em ordem pe^ 
ra peleijar com a do inimigo ; a qual che-* 
gando a boca da barra na ponta , onde a 
fua artilheria eftava , furgio , porque era 
já tarde , e acertou de fer aquella noite 
quarteirão da Lua , e logo em anoitecen-» 
do começou a ventar Sul , que naquella 
çnfeada he muito perigofo, e pouco epou* 

co 



Década X. Cap. VII. 313 

co foi crefcendo de feição que não o pu- 
deram aguardar os noííos navios , e foi-lhes 
neceflario levarein-fe , e irem-fe furgir no 
poço , onde eftava a Armada inimiga , e 
alli fe deixaram eftar toda a noite com as 
armas na mão , e com grande vigia* O Ba- 
neane do recado chegou com a refpofta a 
Caliche ; e vendo elle a determinação de 
João Barriga , não quiz arrifear a fua Ar- 
mada , nem a gente da náo , pelo que lo- 
go em amanhecendo o tornou a enviar 
com cartaz , que João Caiado tinha paíTa- 
do a outra náo, que partio em Abril, que 
parece que lhe ficou em terra. João Barri- 
ga em o vendo > poz-lhe o paffe , e man- 
dou-fe offerecer ao Caliche pêra revocar 
a náo , e tiralla do baixo ; mas o tempo 
lho não deixou fazer , porque durou dous 
dias com tamanha braveza , que efpedaçou 
a náo em muitas partes , e a gente delia 
fe falvou nos navios. João Barriga tanto 
que o tempo lhe deo jazigo , deo á vela 
pêra Damão , e Luiz Falcão com os feus 
navios pêra Dio , e os da companhia de 
Ruy Goníálves da Camera pêra Goa , fi- 
cando o Caliche perdendo a náo , e a opi- 
nião cjue fentio fobre tudo. 



CA- 



314 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIII. 

Das Armadas que o Vtfo-Rey lançou fora : 
e do que fuccedeo ás nãos do Reyno até 
chegarem a Goa : e da mudança que Ek 
Rey mandou fazer nas coufas dejufliça , 
e ordenou Cafa da Relação em Goa. 

S Ao tantas as coufas que fuccedêram jun- 
tas , que não fe pode guardar a ordem 
dos tempos pelas não defmancharmos ? e 
aílim as iremos ordenando pelo melhor 
modo que pudermos por continuar todas , 
como faremos agora com as Armadas que 
o Vifo-Rey ordenou. Tanto que o inverno 
deo jazigo , a primeira foi huma de finco 
navios ligeiros , de que fez Capitão Mor 
Francifco Efcorcio , pêra fe ir lançar fobre 
a barra de Sanguicer, donde em todos os 
yeróes fahiam muitos ladroes formigueiros 
a roubar , os quaes por ferem muito fub- 
tís , e pequenos , fogem ás noífas Arma- 
das ; e de alguns annos a efta parte tem 
feito grandes eílragos pelo mar nos navios 
de Mercadores. Os Capitães que fe acha- 
ram nefta companhia , roram João Soares , 
Diogo Nunes de Sepúlveda , Sebaítião Bu- 
galho , e Ruy Gomes Arei Malavar , os 
quaes aos linco de Setembro fahíram pela 
barra fora , e foram furgir fobre aquelle 
í rio 3 



Década X. Ca?. VIII. 31? 

rio , conforme ao regimento que o Capitão 
Mor delles levava. 

A fegunda Armada que fe fez, foi de 
oito navios maiores , de que foi por Capi- 
tão Mor Gafpar Fagundes , foldado velho, 
que tinha vindo de Panane , e lhe deo o 
Vifo-Rey por regimento que fe foííe lan- 
çar fobre a barra de Cunhale pêra defen- 
der que não fahiíTem os navios , que naquel- 
íe tempo coítumavam ir carregar de arroz 
á coita de Canará , onde fe deixaria eftar 
até chegar a Armada , que havia de ir ao 
Malavar. Eítes navios deram á vela a io 9 
de Setembro, e os Capitães delles, a fora 
Gafpar Fagundes , foram D. Duarte Ma£ 
carenhas Arei de Tanor, Domingos Alva- 
res , Gonfaío Martins de Cáceres , Pedro 
Rodrigues Malavar 5 Jorge de Mello Perei- 
ra , Manoel Fernandes , e outro ; e porque 
á partida deites navios foi o Vifo-Rey avi- 
fado que o Çamorim , por alguns aggravos 
que teve do Cunhale, tinha mandado gen- 
te fobre elle pêra lhe porem cerco , deo 
por regimento a Gafpar Fagundes que fe 
efferecefle ao Çamorim , e o ferviífe na-» 
quella guerra , e em tudo o que elle man- 
daífe. Neítes navios mandou o Vifo-Rejr 
dinheiro , e provimentos pêra a Fortaleza 
de Panane; e indo feu caminho , lhe deo 
Jium temporal > com que fe apartaram os 

pa- 



316 A SI A de Diogo de Coxtto 

navios, edous delles foram tomar Cochim, 
e Gafpar Fagundes Panane , e entregou a 
Bernardim de Carvalho os provimentos que 
levava , porque Ruy Gomes da Grã havia 
pouco era parado pêra Goa ; e querendo 
Gafpar Fagundes voltar pêra o rio de Cu- 
nhale , foi Bernardim de Carvalho avifado 
que eftavam dentro algumas Galeotas de 
Malavares , as quaes á fama daquelles na- 
vios fe armaram muito apreífadamente pêra 
fahirem a peleijar com elles; e por não fe- 
rem os navios de Gafpar Fagundes baftan- 
tes pêra iífo , negociou a Galé , e a deo a 
Gafpar Fagundes pêra com ella , e os mais 
navios fe ir pôr íobre aquelle rio , como 
fez. Havendo poucos dias que alli eftavam, 
correo D. Duarte Arei huma Almadia , a 
qual era do Cunhale , e vinha de levar al- 
gum refrefco , e outras coufas a EIRey de 
Tanor , que lhe elle mandava pêra o ter 
da fua parte nas coufas do Çamorim ; e 
alcançando-a o Arei . fabendo dos Mouros 
que nella achou donde vinham , por corte- 
zia daquelle Rey lhe não quiz fazer mal, 
e lhos levou amarrados ; e entrando em 
Tanor com elles , fabendo os Mouros da- 
quella povoação o que paíTava , indignados 
contra o Areí , deram nelle , e o mataram , 
e ao Naire , que levava por fua jangada, 
coufa até então não acontecida na índia j 

c 






Década X. Cap. VIII. 317 

e tão inviolável, como já em outras partes 
diííemos , fobre o que fe fez tão pouco , 
que fe não fallou nifíb, nem da noífa par- 
te, nem da dosNaires, diílimulando-fe em 
huma coufa tanto pêra caítigar ; e porque 
ficava o feu navio vago, o deo Gaípar Fa- 
gundes a Jorge Dias Pinto; e ao mefmodia 
que iílo paífou , ao outro no quarto d'alva 
foram duas Galeotas de Malavares deman- 
dar aquella barra , as quaes tinham fahido 
ás prezas em principio do verão , e vinham 
abarrotadas de fazendas mui ricas, e ellas 
bem deícuidadas de poderem achar naquel- 
le tempo Armada Portugueza. Os noíTos 
como tinham grande vigia , havendo viíla 
delias, fahíram-lhes de íupito, embaraçan- 
do-os de feição 5 que não fizeram mais que 
virarem , e fugirem , fem tomarem as ar- 
mas , e aílim fe foram acolhendo com ta- 
manho medo dos noíTos navios que as fe- 
guiam , que huma delias de fe ver atrope- 
lada não pode mais fazer que varar na praia 
de Varejarem fobre huma pedra , onde fe 
fez em pedaços , e a gente fe ialvou em 
terra : outra foi correndo mais de largo ; 
mas o navio de Jorge Dias Pinto, que era 
muito ligeiro , chegou a ella , e poz-lhe a 
proa , deitando-lhe logo algumas panellas 
de pólvora : ehum foldado , por nome Luiz 
Pragofo , que hia no efporão ^ iançou-fe lo- 
go 



318 ÁSIA de Diogo dé Couto 

go dentro no navio dos Mouros com humá 
efpada , e rodella ; e como a pancada que 
o navio deo foi grande , torftou-fe logo a 
afFaítar a f uíta de Jorge Dias hum efpaço 
grande, ficando o Luiz Fragoíb fó dentro 
no outro ás cutiladas com òs Mouros , o 
que viíto pelos noílbs , lançaram-fe alguns 
foldados á Almadia que tinham tomado , 
que levavam por proa pêra o irem foccor- 
rer, o que não quiz aguardar hum chama- 
do Agoítinho Velho 3 e com aquelle furor de 
ver o companheiro naquelle rifco , lançou- 
fe ao mar com huma lança na boca , e a 
nado foi tomar o navio , e metteo-fe den- 
tro , e ajudou a defender o outro até che- 
gar a Almadia com os foldados de foccorro $ 
os quaes ás lançadas , e cutiladas fizeram 
lançar os Mouros ao mar; e quaíi ao mef- 
mo tempo chegou o navio de Gonfalo Men- 
des de Cáceres , que hia aviado do remo , 
e poz a proa em o navio , ainda que dizem 
os foldados que nelle citavam , que lhe 
gritaram que não chegaííe, que já não ha- 
via que fazer ; mas de huma maneira , ou 
da outra eile chegou , e ficou a Galeota axo- 
rada , e rendida cheia de fazendas , e os 
Mouros afíim na fufta , como no mar met- 
tidos a mor parte deli es á efpada ; e feito 
eíte negocio, tornáram-fe ao rio deCunha- 
le, aonde eftiveram até chegar Ruy Gomes 

da 



Década X. Cap. VIII. 319 

da Grã , como logo diremos. Poucos dias 
depois deita Armada fc partir de Goa, 
furgíram na barra quatro náos do Reyno 
das íinco que atrás difíemos tinham parti- 
do , e delias fó a náo S. Filippe faltou, 
com a qual depois continuaremos. Vinham 
todas eftas náos profperas 3 e ricas , nellas 
mandou EIRey prover em muitas coufas da 
juíliça que lhe pareceram neceífarias , e or- 
denando na Cidade de Goa Caía de Rela- 
ção, como a da Supplicaçao em Portugal, 
porque a malícia dos homens , e do tempo 
affim foram accrefcentando trapaças , e de- 
mandas (confusão de Reynos , e inquieta- 
ções de Impérios) que os negócios da ín- 
dia j a que tantos annos deo expediente hum 
fó Ouvidor Geral, não bailam hoje dezDef- 
embargadores , tantos Ouvidores , Juizes , 
e outros Miniftros de juíliça , que nos pa- 
rece que elles fós occupao a terça parte 
delia Republica Oriental ; e affim como 
com os peccados dos homens fe foram ac- 
crefcentando eftes males, e diminuindo no 
valor, e esforço , affim as coufas da milícia 
vieram tanto a menos , que quafi imos per- 
dendo a reputação com os vizinhos ; e tor- 
nando á noífa ordem , no novo regimento 
que EIRey mandou neílas náos fobfe as 
coufas da juíliça , que houveífe dez Defem- 
bargadores na Relação de Goa , féis Offi- 

cios 






320 A SI A de Diogo de Couto 

cios de propriedade , que são Chanceíler * 
Ouvidor Geral do Crime, curro do Civel , 
Juiz dos Feitos da Coroa , Procurador dei-» 
la , e Provedor Mor dos Defuntos , e os 
outros quatro Extravagantes ; e porque tam- 
bém foi EiRey informado por cartas das 
Cidades da índia das grandes deitruições y 
que havia nos Ouvidores das Fortalezas, 
que fempre eram idiotas havidos pelos va- 
lidos dos Vifo-Rcys ; e que além diflb os 
Capitães das Fortalezas , com quem elles 
defpachavam os feitos , lhes faziam fazer 
muitas injuítiças, e algumas vezes os afron- 
tavam, avexavam, aprendiam, no que da- 
vam aos Mouros , e Gentios grande efean- 
dalo pelo pouco refpeito que viam ter aos 
homens que adminiítravam juftiça. Proveo 
também efte anno que os taes cargos não 
andaffem fenão em Letrados , e logo neftas 
náos mandou alguns pêra todas as Forta- 
lezas com duzentos mil reis de ordenado, 
e com jurifdicção feparada dos Capitães , 
pêra que não entendeílem com elles , nem 
os acompanhaíTem ; no que também teve 
EIRey refpeito a ter fempre na Índia Le- 
trados pêra quando fe quizeíTe fervir delles 
na Relação da índia , eítarem já refolutos , 
e correntes em todos os negócios , em que 
fempre os novéis fe embaraçam ; mas co- 
mo eíles Bacharéis acham fempre em feus 

tex- 



Década X. Cat. VIIL 311 

textos mais ordens pêra o que lhes releva ^ 
que os idiotas pela grande jurifdicçao qua 
lhe deram , viveram alguns deites Ouvido- 
res tão eícándâíofámente , e enriqueceram 
tanto , e tão deprefla , que houveram os 
povos que pediram nelíes moícas ; e aílim 
depois reclamaram a EIRey íbbre iílb 3 e 
elle os proveo com mandar levar mão dei- 
te negocio de Ouvidores , corno eríi feu lu-> 
gar diremos ; e per evitar EIRey muitos 
efcandalos , e damnos nas Alfandegas da 
índia , que podiam proceder da communi- 
caçao , e commercio dos Hcfpanhoes das 
Fiíippinas pêra o Porto de Macao na Chi- 
na , os quaes pelo muito dinheiro que á* 
quellas feiras levavam, alteravam os preços 
das fazendas ^ com o que os mercadores 
da índia receberam grandes perdas j e não 
podiam comprar nada ; e ás fazendas que 
elies levavam -, arrancavam os direitos delias 
das Alfandegas de Cochim, e Goa : man- 
dou EIRey neftas náos huma Provisão , pe-» 
Ia qual defendeo fob graves penas que 
nenhum Caftelhano dalli em diante fofle 
mais ao porto de Cantão pelo perjuizo 
que havia em fuás Alfandegas , como em 
os vaíTallos moradores nas Cidades da In* 
dia , a qual Provisão também mandou 
EIRey por via da nova Hefpanha , por- 
que íe publicaííe nas Fiíippinas y como 
Outo. Tom. VL P. li. X iè " 



3^2 ÁSIA DÉ DíOGO DE COUTO 

fe fez lá ^ e cá , pêra que foíTe notória 
a todos. 

CA P ITULO IX. 

Das coufas , em que o Vifo-Rey mais pro* 
veo : e de como as nãos foram tomar a 
carga a Cochim , e o Arcebifpo D. Fr. 
Vicente fe embarcou pêra o Reyno : e de 
como fe perdeo a não Relíquias na bar- 
ra de Cochim , e o Draque tomou a nâo 
S. Filippe y indo pêra o Reyno. 

DEfpachadas pêra fora as Armadas que 
atrás diíTemos , defpachou logo o Vi-» 
fo-Rey huma Galeaça pêra Ceilão , na 
qual mandou embarcar oito mil pardaos 
cm dinheiro, quinhentos candís de arroz, 
centeio , trigo , pólvora, chumbo, mur- 
rões , e outras coufas neceííarias , e man- 
dou embarcar Thomé de Souia de Arron- 
ches, que o Abril paliado tinha vindo de 
Ceilão, pêra tornar afervir o cargo de Ca- 
pitão Mor daquella coita ; e todos eítes a- 
percebimentos mandou o Vi fo-Rey , por- 
que pelas cartas que teve de Ceilão em 
Agofío, em que o avifa.vam de tudo o que 
era paliado com o Rajú , e das tréguas 
que eftavam feitas , as quaes fe entendia 
que elle concedeo por diífimulaçao pêra fe 

a- 



Década X. Cap. IX, 323 

aperceber mui á íua vontade das cõufas 
que havia de miíter pêra o cereo que efpe- 
rava de pôr aquella Fortaleza , e que ag 
tréguas náo durariam mais que em quanto 
elle quizeíTe , pofto que por então ficava 
doente , e prefumia-fe que de peçonha que 
os feus lhe deram. Efte Galeão foi em bre- 
ves dias a Columbo , com o que aquella 
Fortaleza ficou defalivada , e provida. O 
Vifo-Rey ficou intendendo no defpacho 
das náos doReyno pêra irem tomar a car- 
ga a Cocliim , fem outras eoufas que ha- 
viam de ir pêra o Reyno ; e porque em 
Moçambique eftava a carga da náo S. Lou- 
renço , e era neceíTario mandar pôr cobro 
nella, porque fe não perdefle, compraram 
os Procuradores de Manoel Caldeira, Con- 
tratador das náos , huma muito formofa a 
hum Manoel Caiado , cafado em Goa > a 
qual fe fez emCoulão, e tinha já feito hu- 
ma viagem a Japão , e eftava concertada P 
e renovada pêra poder logo fazer viagem y 
a qual determinaram mandar entrada de 
Dezembro a Moçambique pêra tomar a pi* 
menta , e caixaria que ali! eftava, da nao 
S. Lourenço , e partir pêra o Reyao , tor- 
naram haver outro Corífeiho , porque falr 
tou por todo o Novembro a náo S. Filip- 
pe, que logo prefumíram que poderia eftaf 
em Moçambique > porqtíe, por chegar á- 
X ii <^uel- 



324 ÁSIA de Diogo de Couto 

quella Fortaleza tarde, aífentáram os Offi- 
x:iaes ficarem alli , e tomarem a carga da 
náo S. Lourenço , e partir-fe pêra o Rey- 
no , o que tudo íuccedeo , como adiante 
fe verá ; pelo que aíTentáram que folTe a 
náo noíTa Senhora da Conceição (que aflim 
fe chamava a que tinham comprado) car- 
regar a Cochim , e fez o Viíb-Rey mercê 
da fua Capitania a Fernão de Mendoça , I 
que eílava em Goa perdido , como diíTe- 
•mos , o qual a vendeo aD.Jeronymo Maf- 
trarenhas, que fe fazia preíles pêra o Rey- 
no , e por fer náo nova , e bem apparelha- 
-da, fe embarcaram nella as principaes pef- 
foas que aquelle anno fe hiam pêra o Rey- 
110 , entre as quaes foi também o Arcebifpo 
D. Fr. Vicente da Fonfeca por alguns ar- 
rufos , e defgoftos que teve com o Vifo- 
Rey-fobre coufas das jurifdicções , fem o 
poderem remover de fua tenção muitos re- 
querimentos da Cidade , muitas admoefta- 
ções de Prelados, Religiofos graves, nem 
provarem-lhe que não podia deixar fuás ove- 
lhas fem licença do Summo Pontifice , nem 
outras muitas coufas que nefte negocio cor- 
reram ; e a razão que a todos dava , era 
<iizer que' a confciencia o remordia como ! 
Paftor nos exceífos , e defordens que na ín- 
dia havia, aílim no Eccleíiaftico , como fe- 
cular -j fem em tantos aunos fe pôr niífo 

emen- 



Década X, Cap. IX. 325* 

emenda : que queria ir dar conta deitas 
coufas ao Papa , e a EIRey , pêra que acu- 
diflem com o remédio, por fe não perder 
tudo , e tirou muitos inítrumentos , papeis y 
e certidões pêra aprefentar a EIRey ; e 
bem pode fer que aproveitara aquelle zela 
mifturado com huma pequena de teima, fe 
a morte o não atalhara no caminho* As 
mais peíToas que nefta náo fe embarcaram , 
foram Guterre de Monroi de Beja , João 
Furtado de Mendoca , e Mathias de Albu- 
querque , que acabara de fer Capitão de 
Ormuz , e levava comfigo hum filho , e fi- 
lha do Guazil de Ormuz, que elle naquela 
la Fortaleza fez Chriftaos , e ao macho poz 
nome D. Affonfo , em memoria de Aífonfo 
de Albuquerque, que ganhou aquella Cida- 
de, e á fêmea D. Filippa, por EIRey D* 
Filippe de Portugal , a qual o Vifc-Rey D* 
Duarte por fua ordem cafou com António 
de Azevedo , e lhe deo a Capitania de Or-* 
muz, que EIRey depois lhe confirmou , c 
por feus ferviços lhe mandou mais huma 
viagem de Japão , e o habito de Chrifto 
com boa tença, e trezentos mil reis de en- 
tretenimento, em quanto não entraífe nos 
feus defpachos. Muito trabalhou o Vifo- 
Rey de eftrovar a ida de Mathias de Al- 
buquerque , porque parece fufpeitava que 
eftava na primeira fuccefsao da governan- 
ça 



3*6 ÁSIA de Diogo de Couto 

§a da índia , fe elle faleceíle ; mas mio 
pode. 

Defpachadas as náos pêra irem tomar 
a carga , cóm a qual correó Pedro Cochi- 
no , Veador da Fazenda *, e iendo tempo 
de as fazer á yéla , as foi defamarrar, co- 
mo fez \ e chegando a náo Relíquias , qqe 
eftava cercada de embarcações, e tão peja- 
da , que não era poíTivel poder-fe marcar, 
mandou cortar os cabos a todas as embar-? 
cações , e largar a amarra por mao , com 
lhe o Meílre , e Officiaes requererem que 
anão nãò eftava pêra navegar ; efazendo-lhe 
dar á vela, deo a náo hum, e outro balan- 
ço , e ao terceiro adornou , e foi-fe met- 
tertdo no fundo \ ê quiz Deos que eftivef- 
fem a bordo muitas embarcações , em que 
a gente fe falvou : alguns quizeram pôr 
culpa a António Caldeira , e diziam que 
tirara o lãftro , e mettêra canela, e todavia 
elle andou ômiziado muito tempo ; ao Pe- 
dro Cochino o mandou EIRey depois ir 
yera o Reyno desfavorecido , e eílas náos 
tiveram boa viagem , e o Arcebifpo D. Fr, 
Vicente morreo antes de chegar ao Reyno, 

Agora nos falta continuar com a náo 
S. Filippe deita Armada de D. Jcronymo 
Coutinho , a qual por chegar a Moçambi- 
que tarde, aífentóu-íe que ficafle alliá car- 
ga da náõ S. Lourenço, como fez , e em 

De- 



Década X. Cap. IX. 327 

Dezembro partio pêra o Reyno , e toda a 
viagem levou muito bom tempo ; e fendo 
na paragem das Ilhas dos Açores , encon- 
trou o Inglez Francifco Draque com nove 
navios , que o commettêram , e tiveram 
todos huma afpera batalha , que durou 
muitas horas , na qual feriram a mor parte 
dos noííos , e mataram o Meftre , que era 
mui grande oíEcial , com o que os marinhei- 
ros efeoroçoáram logo ; e porque a náo já 
eftava defapparelhada , e desfeita por íima , 
e fem haver quem a mandaífe , e os inimi- 
gos muitos , e mui grandes artilheiros , pe- 
lo que andava fem acudirem á mareagem, 
nem a nada. Vendo João Trigueiros , Ca- 
pitão da náo , aquelle deftroço , e que não 
podia deixar de fer mettido no fundo, hou- 
ve por menos mal render-fe , como fez, e 
o Draque entrou na náo , e fez muitos ga- 
zalhados aos Portuguezes , e lhes deo hu- 
ma Naveta com agua , e mantimentos , c 
algumas coufas que lhes deixou, na qual fe 
partiram pêra Lisboa, aonde chegaram rou- 
bados , e pobres. Francifco Draque levou 
a náo a Inglaterra com muita fazenda , e 
riquezas. 



CA-« 



328 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO X, 

De como o fitfa-Rey mandou huma Arma* 
da a Melinde , 'de. que foi Capitão Mar* 
thn Affonjo de Mello : e da Fortaleza 
que mandou fazer em Ma f cate : e de 
como Ruy Gonf alves da Gram foi por 
Capitão Mor de Malaca. 

ELRey de Melinde , que fe prezava de 
muito leal vaíTallo , e fervidor de E1-* 
Rey de Portugal , tanto que os Turcos fe 
recolheram pêra Meca, defpedio hum Pan-* 
gaio com hum Embaixador , chamado 
Chandepadeiro , pêra ir a índia a dar noi- 
vas ao Vifp-P^ey de tudo o fuçeedido na-j 
quella Coita , e do eftrago que os Turcos 
por ella andaram fazendo , e de como os 
mais daquelles Reys fe confederaram com 
os Turcos, e qqe o de Mombaça mandara 
oíferecer ao Turco Fortaleza naquella fua 
Ilha, o que feria total deílruiçao da índia, 
fe fe lhe não atalhaíTç , porque dalli fe ha* 
viam logo de fazer fenhores das Minas de 
Cuamá j e Sofala , e ainda da Fortaleza de 
Moçambique , onde podiam efperar as 
náos do Pveyno , e tomailas. Efte Embai- 
xador foi tomar Baçaim em Agofto , e dalli 
paliou a Goa , e deo relação ao Viib-Rey 
de tudo o que paliava y o <jue çlle fentiq 



Década -X. Gap. X, 329 

muito ; e pondo aquelías coufas em confe- 
lho, aflentou-fe que fe mandaffe huma boa 
Armada áquella Coita , affim pêra caítigar 
os revéis , e conjurados com os Turcos, 
como por evitar que eHçs não metteííem 
alli o pé. Com eíla refolução mandou o 
Vilb-Rey logo negociar a Armada, que lhe 
pareceo neceílaria , e nomeou por Capitão 
Mor daquella empreza a Martim Affoníb 
de Mello, filho do Abba.de de Pombeiro , 
que acabara de fèrvir a Capitania de Da- 
mão , ao qual deo todas as honras , e po- 
deres em tudo , e lhe nomeou dous Ga- 
leões , três Galés , e treze fuílas : os Capi-< 
taes que elegeo , foram Duarte de Mello , 
irmão do meímo Martim Aííoníb , na Ga- 
leaça Santa Catharina , e Gonfalo de Soufa 
no Galeão Santo Efpirito ; nas três Galés. 
o Capitão Mór em huma , Simão de Brito 
de Caftro , que hia por Almeirante , em 
outra , e D. Francifco Maícarenhas na ter- 
ceira : das fufías eram Capitães Francifco 
de Soufa Rolim, André de Soufa Maltez, 
Belchior Calaça , Pedro Vaz , D. António 
Manoel de Santarém , Fernão Gonfalves 
da Camera, Mattheus Mendes de Vafcon- 
cellos , João de Paiva , Sehaftião Bugalho , 
D.Jeronymo Velez , Julião Pereira , Ma- 
noel Pires , Francifco Vaz , que hia por 
Feitor da Armada, e o Embaixador de El- 

Rey 



33° ÁSIA de Diogo de Couto 

Rey de Melinde , a quem o Vifo-Rey fez 
muitas honras j e mercês ; e porque além 
do Vifo-Rey trazer por regimento que 
mandaííe fazer huma Fortaleza em Mafca- 
te , porque os Turcos não commetteífem 
fortificar-fe alli , porque impediriam todo 
aqueile eftreito , lho tornou EIRey a em- 
commendar eíle anno : e porque era affim 
neceífario , e fe entendia que os Turcos 
traziam o olho naquella povoação , orde- 
nou o Vifo-Rey que fe fizefie logo aquella 
Fortaleza , e contratou-fe com Belchior 
Calaça , que hia por Capitão em hum da- 
quelles navios , que como acabaífe a em- 
preza , paíTaííe a Ormuz , e que com o Ca- 
pitão daquella Fortaleza João Gomes da 
Silva negociaíle as coufas pêra ella , pêra 
o que lhe paflbu todas as Provisões que lhe 
pedio , e applicou o terço dos direitos que 
aqueile Xeque tem naquella povoação pêra 
aquellas obras pelos elle mandar oíFerecer 
pêra iífo de fua livre vontade , os quaes 
montaram feiscentos pardaos cada anno; 
e porque foi o Vifo-Rey avifado que haria 
muitos annos andavam fobnegados os di- 
reitos de todas as drogas de Malaca , que 
fe alli defembarcavam , as quaes perten- 
ciam á Alfandega de Ormuz por Certidões 
que nos Contos fe paffáram , os quaes o 
Xeque trazia ufurpados pêra li, paflbu Pro- 
vi- 



Década X, Cap. X. 331 

visão , pela qual mandava que dalli em 
diante fe arrecadalTem os taes direitos pêra 
as obras daquelia Fortaleza , em quanto 
ellas duraílem , e que dalli por diante fe 
carregaíTem pêra EIRey de Portugal , os 
quaes montavam cada anno mil e quatro- 
centos pardaos , que com os terços que o 
Xeque offereceo pêra aqueilas obras , vi- 
nha tudo a dizer dous mil pardaos. Sobre 
iflo efcreveo a EIRey de Ormuz , Guazil , 
e Capitão, e áquelle Xeque, pedindo-lhe > 
e mandando lhe íizeiTe dar aquillo á exe* 
cuçao, pois era pêra as obras daquelia Foi> 
taleza , que mandava fazer pêra fegurança 
de todos; e a traça da Fortaleza feita pelo 
Engenheiro Mor deo a Belchior Calaça , Ca-» 
pitão daquelia Fortaleza , que fizeííe por tem- 
po de três annos com fetecentos e trinta 
pardaos , de finco laris o pardao de orde- 
nado j o qual deo depois EIRey aos Capi- 
tães que apôs elle proveo ; e apparelhada 
a Armada de Melinde, deo á vela a 9. de 
Janeiro deite anno de 1587. em que com 
o favor Divino entramos , e deixalla-hemos 
agora por hum pouco , porque he neceíTa- 
rio continuarmos com outras coufas , que 
fuccedêram no mefmo tempo. Defpedida 
cfta Armada , tratou o Vifo-Rey logo da 
do Malavar, pêra a qual elegeo Ruy Go- 
mes da Grã com huma Galé 3 e vinte navios , 

e 



33^ ÁSIA de Diogo de Couto 

e lhedeo por regimento que fe foíle pôr em 
Panane , e que Bernardim de Carvalho fe 
tornaíTe pêra Goa, e que dalli repartiíTe a 
Armada pela cofia do Canara , e pêra o 
CaboComorim : huma parte pêra dar guar- 
da a cáfila dos mantimentos, que havia de 
ir pêra Goa ; e outra pêra ir recolher os 
navios de Bengala, S. Thomé, Negapatáo , 
e das mais partes daquella coita. Eíta Ar- 
mada partio de Goa a 7. de Fevereiro; os 
Capitães que foram em os navios, são os 
feguintes : D. Nuno Alvares Pereira, filho 
do Conde da Feira , Luiz da Silva , D. 
Gaftão Coutinho , Gafpar de Carvalho de 
Menezes , Manoel de Macedo , Pedro Ve- 
lofo , Manoel Cabral da Veiga , AíFonfo 
Pereira Coutinho , Francifco Pinto Teixei- 
ra, Duarte da Guerra , Belchior Barbofa, 
Belchior Ferreira, Pedro Fernandes Mori- 
cale , Manoel de Oliveira , Alberto Ho- 
mem da Coita, Chriítovão Rebello, e ou- 
tros. Eíta Armada foi fua derrota até o 
rio de Cunhale , aonde eítava Gafpar Fa- 
gundes , que tinha dentro encurralados os 
inimigos , fem oufarem a fahir pêra fóraj 
e tomando o Capitão Mor comfigo , o le- 
vou pêra Panane , onde fe mudou pêra a 
fua fuíta , e a Galé tomou-a a Bernardim 
de Carvalho , e nella fe partio pêra Goa, 
e em fua companhia mandou o Capitão 

Mor 



Década X. Cap. X. 333 

Mor alguns navios pêra ficarem na Coita 
Canará, e recolherem a cáfila , è irem-lhe 
dando guarda até Goa : os Capitães deites 
navios foram D. Gaítão Coutinho , D. Nu- 
no Alvares Pereira , Luiz da Silva, Manoel 
Cabral , Duarte da Guerra , e por Capitão 
Mor delles Amador Taborda , bom Caval- 
leiro , e pratico nas coufas do Malavar. 
Eítes navios andaram todo o verão dando 
guarda ás cáfilas , que hiam pêra Goa ; e 
porque lhes não fucccdeo couía notável, a- 
cabaremos aqui com elles. Ruy Gomes da 
Grã ficou em Panane com fua Galé , e os 
mais navios , e algumas vezes le embar- 
cou , e foi dar viíta por aquella coita, fem 
lhe acontecer coufa digna de memoria. 



CA- 



334 ÁSIA de Diogo de Côxrro 

CAPITULO XI. 

Da Armada que o Cunhale lançou fora : é 
dos navios que o Vifo-Rey mandou armar 
no Norte ? de que veio por Capitão Mor 
D. Ruy Gomes da Silva , dando guarda 
á cáfila : e dos navios que mandou o 
Vifo-Rey apôs húns pardos > que pajjã- 
ram por Goa com huma ndo tomada : e 
de alguns cafos graves que aconteceram 
a alguns cativos na Fortaleza de Cu- 
nhale. 

POr muito grande refguardo i e vigi* 
que houve na coita doMalavar nas riof* 
fas Armadas , nem por iflo deixaram de 
íahir de todos aquelles rios mais de vinte 
e finco navios de CoíTairos Armadores , que 
fe dividiram , e apartaram huns pêra a 
cofia do Norte , e enfeada de Cambaia , e 
outros pêra o Cabo Comorim. Difto foi o 
Vifo-Rey logo avifado , e mandou adver- 
tir as Fortalezas do Norte 5 porque efta- 
vam muitos navios de mercadores carre- 
gados de fazendas pêra Goa , e efcreveo 
aquelles Capitães que armaífem alguns na- 
vios pêra virem dando guarda aos merca- 
dores , e que foffe Capitão Mor D. Ruy 
Gomes da Silva , a quem efcreveo foíTe a 
Chaul ajuntar a cáfila. Com eítas cartas 

ar- 



Década X. Cai\ XI. 335* 

armaram os Vereadores de Baçaim dous 
navios, e os deChaul qijatro , pagando os 
Toldados , e fazendo todas as defpezas do 
hum por cento , os quaes navios fe foram 
ajuntar em Chaul , aonde a cáfila toda fe 
ordenou ; e fendo tudo preftes , deram á 
vela , indo D. Ruy Gomes com os finco 
navios , dando-lhe guarda ; e indo pêra Goa , 
encontraram dous Paráos , com os quaes 
D. Ruy Gomes peleijou , e tomou, metten- 
do todos os Mouros á efpada , e com eíla 
viftoria chegaram a Goa a falvamento , e 
o Vifo-Rey mandou a D. Ruy Gomes que 
fe fizeííe preftes pêra ir bufcar a cáfila á 
coita do Canará. Partido D, Ruy Gomes 
do Norte , ficando toda aquella parte fem 
guarda , ajuntáram-fe féis paráos pêra an- 
darem ás prezas ; e na paragem de Aga- 
çaim foi dar com elles huma naveta de hum 
Manoel Chriítovão , cafado em Goa, que 
tinha fahido de Baçaim carregada de ar- 
roz , e madeira pêra a Fortaleza de Maf- 
cate, que fe havia de começar no inverno : 
os paráos em havendo vifta delia , a foram 
commetter ; e pofto que nella não havia 
fenao finco , ou íeis Portuguezes [ defende- 
ram-fe tão valerofamente , que nunca os ini- 
migos os puderam entrar até não derruba- 
rem todos á efpingarda , ficando fó dous , 
e mal feridos, eaffim foi a naveta entrada, 

e 



336 ÁSIA de Diogo de Couto 

e entregue a dous navios pêra a levarem 
pêra o rio de Cuqhale , os mais navios fcw 
ramfeguindo fua fortuna, ajuntando-fe coin 
outros; e andando defronte do rio de Ca- 
rapatao vinte e quatro léguas de Goa, foi 
dar com elles huma náo de João Gomes 
da Silva , Capitão de Ormuz , a qual leva- 
va oitocentos candís de arroz , e havia 
mais de hum mez que partira de Baçaim 
pêra Ormuz ; e fendo já do eílreito pêra 
dentro tanto avante com Mafcate, lhe deo 
hum temporal por proa , com que lhe foi 
forçado voltar em poppa íinco , ou féis dias 
que lhe durou com grande braveza ; e foi 
tal o defacordo dos Officiaes , que vindo 
já fora do eílreito , não fouberam chegar-» 
fe ao cabo de Rofalgate , e furgir abriga- 
dos com elle , onde o tempo lhe não po- 
dia fazer nojo, mas deixáram-fe ir á von- 
tade dos ventos , que foram tão forçofos > 
que no cabo de féis dias foram haver viíta 
da coíla da índia na paragem de Carapatãa 
já com o tempo quebrado; e certo que pa-* 
receo que a fortuna dos que alli hiam os 
foi levando pêra o fim que alli fe lhes es- 
perava. Os CoíTairos em vendo a náo , a 
foram commetter por todas as partes ; e pof- 
to que os que nella hiam fe defenderam bem * 
foi entrada, e com ella fe foram recolhen- 
do pêra o Malavar , e foram paffando á 

vif- 



Década X. Gap* XL 337 

Viáa de Gòa. O Vifo-Rey foi logo avifado 
de eomo hiam com huma íiáo ; e indo-fe 
pôr no cães , mandou fazer preíles huma 
Galé, e tomar alguns navios de partes, que 
eftavam mais preltes , e mandou embarcar 
nelles alguns Capitães que primeiro che* 
giram , que foram Gafpar Fagundes , João 
da Fronteira , e Diogo de Miranda , filho 
de Manoel de Miranda , e Balthazar de Si* 
queira : a que deo a Capitania mor de to* 
dos , 6 da Galé , de que fez Capitão Ma* 
noel Rebello , e mandou a D. Ruy Gomes 
da Silva que £om os fetis navios fahiíTem 
também todos apôs aquelles navios , huns 
á terra , outros ao mar * porque lhe nãa 
pudeílem efcapar , e affim todos fahíram 
aquella noite pela barí*a fora ^ cheios os 
fcavios de muita , e muito luítrofa foldadeí- 
ca , que não fizeram mais que chegar ao 
cães , affim como andavaríi paíleando ; e 
mandando pelas armas 3 fe embarcaram com 
ás camizas nos corpos. O Vifo-Rey deo 
por regimento a D* Ruy Gomes que de 
toríia-viagem voltaíTe pelo Cafiará , e re- 
colheíle a cáfila que alli eílava carregando 
de mantimentos* Partidos eftes navios , che- 
garam até aos Uheòs de Bucanof , fem ha* 
Verem vifta da náo; e porque lhe começou 
á faltar o mantimento , porque não léfvárr.iri 
iiiais que o refrefco , começou a haver en* 
Cout9.TQm.Pl*P<Ih Y ire 



338 A S I À de Diogo de Couto 

tre os íoldádos alguma borborinha , por- 
que logo fe enfadaram ; e todavia perten- 
dendo os Capitães de paliar avante , deram 
com hum navio , que vinha de Cochim, 
que lhe affirmou que a náo era já recolhi- 
da no rio deCunhale, com o que voltaram 
todos pêra Goa , ficando D. Ruy Gomes 
no Canará recolhendo a cáfila , com a qual 
poucos dias depois chegou a Goa , fem lhe 
acontecer defaítre. Alguns dos paraos , que 
fe apartaram pêra o Cabo de Comorím, 
andando naquella paragem , fizeram muitas 
prezas com que fe recolheram carregados , 
deixando-fe lá ficar hum fó , que fe não 
houve por muito fatisfeito do que tinha 
roubado \ e andando por aquella coita , foi 
dar com elle huma fuíta , que vinha de Ne- 
gapatão carregada de roupas finas , da qual 
era Capitão hum Manoel de Oliveira, mo- 
rador de Chaul , e trazia comfigo trinta 
Portuguezes ; e conhecendo o paráo , puze- 
ram-fe em armas, e foram demandallo. Os 
Mouros vendo aquella determinação 5 não 
oufando a efperallos , largaram a vela , e 
foram fugindo , e o Manoel de Oliveira 
os foi também íeguindo á vela ; e como o 
feu navio era muito veleiro , alcançou o 
paráo ; e os noffos de acordados, porque 
lhes não efcapaíTe o ladrão, em quanto to- 
maíTe a vela , puzeram-lhe a proa , aííim 

com 



Década X. CÀ?, XL 339 

Corri ella em íima , e õ navio ficoti adorna* 
do. Os Malavaies como homens muito a^ 
cordados 5 veiído os noíTos tão embaraça* 
dos 5 viraram a elles; pondo-lhes a proa, 
deraiiv-lhes huma furriada de arcabuzaria 3 
e de panellas de pólvora , e apôs ella fb 
lançaram em o navio ; é tomando todos 
embaraçados com a vela , os mettêram á 
efpada , não efeapando mais que Manoel 
de Oliveira , e com eíía preza fe recolhe- 
ram pêra Cunhalè 5 e a fua mafmorra fé 
cncheo de cativos , que poucos e poucos 
foram refgatados por ordem da Mifericor- 
dia de Cananor ; e porque neíie cativeiro 
aconteceram cafos milagrofòs , não nos pa- 
feceo razão paílar por elles 1 porque nos 
ferviráó de dar graças a Decs 5 e contare- 
mos fò dous : o primeiro , eftando eíles 
cativos nefta mafmorra padecendo íieceífi- 
dades pela pequena ração que cada dia 
íhes davam 5 pelo que vieram a cahir em 
muita fraqueza 5 e como Deos não defam« 
para aos que fe lhe encommendam de co- 
ração $ como eftes triíles faziam todos os 
dias , ordenou elíe que hum rato os fuíten- 
taííe , em quanto alli eftiveram > por eíb 
maneira. Eíla caía i em que citavam prezòs , 
tinha a huma ilharga hum celleiro , a que 
elles chamam Pataia 5 que são como cafas 
de taboado, e vigas, que fe armam fobre 
X n c f- 



34o ÁSIA de Diogo de Couto 

cfteios por caufa dos ratos , e eftava arma- 
da de feição que entrava nefta cafa mais 
de ametade , e a ferventia lhe ficava pela 
outra parte de fora com portas fortes , e 
cadeados groffos. Eftava efta Pataia cheia 
de arroz ; e quando fe elle recolheo alli, 
devia de entrar dentro algum rato , que os 
haalli muito grandes , o qual parece que 
encaminhado por algum Anjo , fez hum 
buraco no taboado , que cahia pêra a ban- 
da da mafmorra , e todas as noites , fem 
faltar huma fó , abria ette rato os fardos 
<]ue eítavam encoftados pêra aquella parte, 
e com os pés lançava o arroz pêra trás j 
pêra onde eftava o buraco , o qual cahia 
em baixo , onde os cativos eftavam , e to- 
dos os dias em amanhecendo o achavam , 
e recolheram de redor de finco medidas 
delle , que mandavam cozinhar por huma 
peffoa que de fora os fervia, e com ifto fe 
íuftentáram a mor parte do tempo , que 
alli eftiveram. Outro cafo foi de mór con- 
fo'açao , e exemplo pêra os que forem per- 
feguidos nos trabalhos , e que os quizerein 
marty rizar pela Fé de Chrifto , morrerem 
com grande animo , e esforço ; e foi efte. 
Succedendo neftes dias huma fefta dos Mou- 
ros, a qual elles celebram com grandes ce- 
remonias , mandou o Cunhale levar os ca- 
tivos diante deli, e lhes perguntou fe havia 

en- 



Década X. Ca?. XI. 341 

entre elles algum , que fe quizeífe matar 
em campo com hum daquelles feus Mou- 
ros ; ao que acudio Manoel de Oliveira y 
que foi tomado no Cabo doComorirn, co- 
mo agora acabo de dizer, e diííe, que lhe 
mandaíle elle dar as fuás duas efpadas, 
que na fufta lhe tomaram (porque jogava 
bem delias) que elle fe mataria diante del- 
le com os mais esforçados dous Mouros 
que alli liouvefle ; e que fe os venceífe , 
lhe déíle liberdade , e que fe elles o ma- 
taílem , ficarião com a honra da viótoria. 
Iílo tomou o Cunhal e tão mal , que logo 
determinou de o matar, e affim dahi a al- 
guns dias o mandou levar diante de íi , e 
o perfuadio a que fe fizeíle Mouro , pro- 
mettendo-lhe muitas honras , e dinheiro; 
mas o bom Manoel de Oliveira com gran- 
de animo, econftancia lhe refpondeo, que 
não queria fuás honras , nem o feu ouro : 
que elle era Chriftão , e que a fua Lei era 
verdadeira , e a de Mafamede falia , tor- 
pe , e mentirofa. Affrontado o Cunhale 
daqueila oufadia , o mandou metter ao tor- 
mento , no qual elle fempre fe pegou com 
as Chagas de Chriíto , e com as melhores 
palavras que foube engrandeceo a verdade 
da Fé Catholica. Depois diíto foi outra 
vez tornado ao tyranno , que o quiz affa- 
gar com mimos, e promeíTas y pêra ver fe 

o 



34^ ÁSIA de Diogo de Couto 

o podia render; mas fempre o achou muL* 
to inteiro j e firme, e lhe diíie com muita 
fegu rança , que pêra que perdia tempo na^ 
quelle negocio , que elie eftava muito pref* 
tes pêra receber todos os tormentos 3 e 
morte que lhequizeífe dar, e que a todos 
o acharia fempre tão firme em ília Fé , co- 
mo então eftava. indignado o Cunhale da- 
quillo , o mandou recolher, e depois em 
hum dia daquelles folemnes o mandou ie^ 
var á praia acompanhado de grande con«? 
curfo do povo pêra facrificar a Mafamede 
por honra defua feita; efabendo elle quan- 
do o foram tirar o pêra que era , difpe^ 
dio-fe dos companheiros muito alegre , e 
com grande confiança çm Deos noífo Se^ 
íihor de lhe elle dar esforço pêra morrer 
por fua Fé , pedindo a todos o encommen- 
daífem a nafta Senhora. Na praia foi out 
ira vez tentado poraquelíe malyadp perfe-? 
guidor ; mas o esforçado foldado de ChnU 
ílo fempre refpondeo , que fizelfem o que 
queriam , que elie eftava muito contente , e 
muito alvoroçado pêra morrer pela verda- 
de de fua Lei : com ifto lhe cortou o Cu-? 
nhale com fua própria mão a cabeça , rece? 
bendo elle o golpe com o coração em Deos , 
€ os olhos no Ceo , chamando muitas ve- 
zes pelo nome de Jefus até fe defpeditf 
aquella ditofa alma , a qual efmaltada dq 
' fref- 



Década X. Cai\ XL 343 

frefco fangue , fe foi apreíentar diante da 
Divina Mageílade , por cuja honra recebeo 
com tanta conítancia tão glorioíb marty- 
rio; e do langue deite, e de outros Mar- 
tyres de Chriíto eftam aquellas praias do 
Malavar todas tintas , e molhadas , chaman- 
do a Deos por vingança , que não deve de 
tardar , porque permiuirá elle que por to- 
das aquellas partes fe vejam ainda fermofos 
Templos alevantados , nos quaes elle ieja 
fervido , e adorado , porque o fangue dos 
innocentes não ha elle de querer que feja 
por alli efparzido em vão. A relação deíles 
cafos nos deo Manoel Chriílovao , e alguns 
outros cativos que fe alli acharam , que de* 
pois foram refgatados. 

CAPITULO XII. 

Dos achaques que o Rajú tomou pêra que* 
brar as pazes : e de alguns Chingalas 
que fugiram pêra a nojfa Fortaleza : e 
das grandes cruezas que o Rajtí ufou 
com os f eus : e do modo que João Corrêa 
de Brito teve em fe fortificar. 

COm as tregoas que por diílimulaçao 
fez o Rajú com o Capitão de Colum- 
bo , fe foi elle apercebendo de muitas 
eoufas pêra o grande cerco que determina* 

va 



544 ÁSIA de Diogo de Couto 

va pôr á Fortaleza ; e como era tyranno , 
e tinha feito huma tamanha crueldade, co- 
mo a que ufou com o velho pai , nfio fe 
acabava defegurar dos Grandes doReyno: 
condição natural dos tyrannos dormirem fem- 
pre com fobre faltos ; e aíllm não fó por 
mexericos, mas ainda por fonhos , e ima- 
ginações mandava eíte tyranno matar todos 
os que fe lhe reprefentavam em que podia 
ter pejo , pelo que muitos fe lhe efpalhá- 
fam pela Ilha , rugindo á fua fúria. Entre 
eftes foram huns Fidalgos principaes , que 
fe acolheram á noffa Fortaleza , os quaes 
João Corrêa agazalhou , e feílejou muito : 
iíto foi fabido do Rajú ; e tomado diílb, 
os mandou pedir ao Capitão , ora com 
brandura , ora com ameaças , e roncas , fem 
João Corrêa de Brito lhe defirir a nada , 
do que fe elle houve por afFrontado , e foi 
dando mor preífa ás coufas pêra o cerco, 
de que tinha junto huma grande quantida- 
de, e eftava cada dia efperando por huma 
náo, que tinha mandado ao Achem a buf- 
car pólvora , oíHciaes , e bombardeiros , 
pêra o que mandou muito dinheiro. De 
todas as coufas que elle paífava, era logo 
João Corrêa avifado; e por haver por ave- 
riguado o cerco , fokfe repairando , e for- 
tificando o melhor que pode , porque o não 
tomaífe defeuidado, quando, fe aprefentak 



Década X. Ca?. XII. 34? 

fe com lua potencia derredor dos muros da- 
quella Fortaleza : e porque o Baluarte S, 
João não tinha fora dos alicerfes fobre a 
terra mais de huma braça , e delle até á 
praia diftancia de cento e vinte paíTos ef- 
tava tudo rafo , mandou logo tapar efta 
parte , que era mais arriícada de todas , e 
tal preíla fe deo , que em quinze dias pu- 
zerão o Baluarte em altura defenfivel, por- 
que chegou afinco braças 5 e correram com 
o muro até á praia , trabalhando nifto to- 
dos os da Fortaleza , fem os Religiofos de 
dia , e de noite tomarem repoulo. Toda 
efta fortificação das bombardeiras pêra fima 
fe fez de taipas mui groíTas com fuás a- 
meias , e muitas conteiras , e proveo de 
boa artilheria tudo , porque aquelle Baluar- 
te guarda por huma parte a bahia , e por 
outra defcobre muito o campo. Feito ifto , 
mandou o Capitão rodear o Baluarte de 
huma cava , que continuava com a antiga , 
que foi fechar no mar, e pelos vallos man- 
dou metter muitas vigas pregadas com ta- 
boóes , e atraveífadas de longo a longo 
com humas embarcações pequenas , a que 
chamam Padas , que ficavjam fervindo de 
parapeitos aos noífos , pêra dalli defenderem 
aos elefantes que não cheçaífem a lan cat- 
as trombas nos páos; c o Baluarte S. Tho- 
cie , que eftava muito damnifiçado 3 o re- 



34^ ÁSIA de Diogo de Couto 

formaram por dentro com huma taipa mui- 
to groíía , e na batente das ondas do mar 
fe fez huma guarita de madeira , pêra que á 
fombra do baluarte S. João defendefle a 
praia. O baluarte Santo Eltevão tinha João 
Corrêa de antes mui fortificado , porque 
era o mais importante de todos , e dellç 
fe defcobre o campo de S. Thomé , a 
Pedreira, a Chapada, a Ilha de António de 
Mendoça , e o Calapate, e por huma ban- 
da favorece dous baluartes , e por outra 
quatro : antes diíto tinha o Capitão feito 
huma cava com feus vallos , e cebes de 
páos groífos da ponta da alagôa , pelo pé 
do monte da Pedreira até o mar , com 
duas portas , huma pêra a Pedreira , e ban- 
da da Cota , a qual encarregou de guarda 
# D. António Modiliar, e repartio por ef- 
tes dous todos os Araches pêra vigiarem 
as tranqueiras de fora , e as de dentro en- 
carregou a Portuguezes , como em feu lu- 
gar diremos. 

O Rajú hia continuando aíTim nos a- 
percebimentos , como em fuás crueldades , 
porque não paliava dia que não mandado 
matar algum dos Grandes; e já tinha feito 
nelles tamanha carniçaria , que havia pou- 
cos de quem fe poder recear ; e aílim era 
tão odiado de todos , que lhe defejavam 
a morte ; e porque nem com peçonha, nem 

com 



Década X, Cap. XII. 347 

com armas lha podiam dar , pelo grande ref- 
guardo que fobre íi trazia , deitáram-lhe 
dentro em feus apofentos taes feitiços , e 
de tamanhas forças, que fe começou o ty- 
ranno a feccar , e a myrrar fem faber de 
que , e aííím veio a cahir de cama entreva- 
do. Os principaes defta conjuração foram 
dous parentes feus, Reigão Pandar, e Cu- 
rale Petra Pandar, -e o feu Sangatar maior, 
que he o facerdote fupremo , como entre 
nós o Arcebifpo ; mas o diabo que tecia 
todas eítas meadas , eííe mefmo as defcu- 
brio , pelo que os parentes foram logo 
mortos, e o Sacerdote apedrejado, e fei* 
to pedaços. Ifto o fez acabar de defconfiar 
de todos os Nobres , c os foi matando 
diíTimuladamente , quer tiveílem culpa , 
quer não, fem lhe ficar huma fó peífoa da 
carta dos antigos Chingalas nobres. Os fei- 
tiços não deixavam de obrar , antes hiam 
crefcendo cada dia mais, e chegou acoufa 
a elle fufpeitar o que era ; pelo que man- 
dou desfazer todos os feus apofentos na quel- 
la parte de que elle fe fervia, pêra ver fe 
achava os feitiços ; mas nada fe defcubrio 
por mais que fe bufcáram , e por muitos 
tormentos que deo a peílbas , pêra ver fe lhe 
diziam alguma coufa; e com eftar daquella 
maneira, não ceifava fua crueldade , por* 
que o 4emonio o atiçou de feição nella, 



34S ÁSIA de Diogo de Couto 

que dava a entender o tyranno a feus va£ 
faltos que tudo o que fazia era por ordem 
dos Deofes , e que feus Ídolos o admoef- 
tavam ; e para lho fazer crer, inventou ef- 
te modo. Tomava certas peíToas enfaiadas 
do que haviam de fazer, e em grande fe- 
gredo as mettia em huma cala, onde ti- 
nha os ídolos , e depois mandava chamar 
todos aquelles que defejava de matar, em 
prefença de outros, que queria ficaífem por 
teftemunhas pêra cobrar com todos autho- 
ridade , e depois fazia certas ceremonias aos 
pagodes , e lhes perguntava pelas peíToas 
que Mie tinham dado feitiços , e os que ti- 
nha dentro efeondidos refpondiam , como fe 
foram os idolos , Foão , Foão , Foão , e af- 
íira hia nomeando alguns dos que eftavam 
prefentes , aos quaes o Rajú logo alli man- 
dava efpedaçar, e entre eftes foram certos 
facerdotes , coufa muito abominável entre 
clles na fua lei ; outras vezes tomava al- 
guns moços de oito , e nove annos , .e os 
enfaiava muito bem, e fingia que as almas 
dos que mandara matar fe trafpafsáram nel- 
les , e que o avifavam de tudo , os quaes 
moços EIRey mandava chamar em públi- 
co , e elles em nome dos mortos diziáo : 
Senhor , Foão , e Foão te mandaram en- 
terrar feitiços em tal , e tal parte ; e co- 
mo fçmpre os que nomeava eftavam prefen- 
tes. 



Década X. Cap. XIL 349 

tes , eram logo alli mortos , e neftas cruel- 
dades gaitou rodo o verão; e porque fabia 
que João Corrêa fe fortificava , lhe mandou 
dizer por algumas vezes , que porque des- 
confiava de íua amizade, e gaftava naquel- 
las obras o dinheiro de EIRey , e o feu ? 
que não foíle com o trabalho por diante, 
porque elle era feu amigo ; e outras vezes 
lhe mandou commetter que mataífe EIRey 
D. João , que eítava na Fortaleza , e que 
lhe daria huma fomma de dinheiro. A ejF* 
tas coufas todas lhe refpondeo fempre João 
Corrêa em forma muito honradamente > 
ufando também de cautelas , e entreteni- 
mentos , como elle também fazia ; e porque 
era tempo de vir a náo que elle eíperava 
do Achem , mandou Thomé de Soufa de 
Arronches com os navios que havia na For- 
taleza , pêra que a foífe efperar , do que 
o Raju logo foi avifado, e lhe mandou pedir 
que não mandaíTe a Armada fora ; e por- 
que oentendeo, lhe refpondeo que a man- 
dava efperar alguns Malavares , que era 
avifado ferem paliados áquella cofta ; e pê- 
ra mor diflimulação lhe mandou pedir car- 
tas pêra em todos os feus portos darem 
agua , e lenha aos navios da Armada , os 
quaes lhe elle mandou com grandes ofere- 
cimentos, porque efperava pela náo. Tho- 
mé de Soufa andou por aquella coita efpe- 



35^ ASIÁ de Diogo de Couto 

rando por ella até chegarem algumas em^ 
bai'caçoes , que deram por novas que fe 
perdera na cofta do Achem , fem fe falvar 
nada delia , o que o Rajú fentio em ex- 
tremo ; mas fem embargo de lhe faltar tu- 
do o que com ella efperava , determinou 
de fe declarar na guerra , e quebrar as pa-< 
zes ; mas quiz primeiro ver fe podia tomar* 
os navios que andavam da Armada , pêra 
o que mandou recado a todos os portos 
por onde ella andava , que lhe não deflem 
agua , nem lenha , e que armaíTem alguns 
navios , pêra ver fe os podia tomar em al- 
gum rio defeuidados : o que Thomé de 
Soufa logo fentio , porque em alguns por- 
tos logo lhe começaram a negar o que 
pedia , e mandava fazer agua , e lenha por 
almadias por efeufar enfadamentos , porque 
entendia muito bem as manhas , e nature- 
za do Rajú; e elle querendo-fe declarar de 
todo , mandou alguns Lafcarins a modo de 
ladroes , pêra que foífern dar nos mefquw 
nhos , e gente do ferviço da Fortaleza, 
que andava no mato fazendo canella , o 
que João Corrêa entendeo ; mas diífimuloti 
pêra ver fe o Rajú o mandava -âvifar pri- 
meiro que quebraífe as tréguas , como en- 
tre elles eftava aíTentâdo.- Neíía própria 
confusão fugiram oito panicaes , homens 
Fidalgos , todos parentes > pêra a noífa 

For- 



Década X. Cap. XII. 35*1 

Fortaleza, porque os mandou o Rajú cha- 
mar a humas aldeias , aonde viviam ; e 
como já todos fe temiam deftes chamamen- 
tos , fugiram huma noite ; e como não po- 
diam paliar peia Columbo , fenão pela 
tranqueira grande , chegando a ella muito 
de noite , como gente de cafa , achando as 
guardas dormindo , mataram todos , e paf- 
íáram da outra banda. O Capitão da tran- 
queira acudindo á revolta ., e fabendo o 
que paliava, receando-feque o Rajú oman- 
daííe matar por aquelle defcuido , queren- 
do-fe fegurar , tomou a mulher, e filhos, 
fugio logo pêra a nofía Fortaleza com tan- 
ta preíTa , que com levar a mulher prenhe , 
e com dores de parto, chegou a ella jun- 
tamente com os oito Panicaes , os quaes 
João Corrêa recebeo com muita honra , e 
mandou que fe correíTe com feus provi* 
mentos cada mez. Chegadas eítas novas ao 
Rajú , quizera morrer de pezar , e metteo 
muito grande cabedal com todos os da 
Fortaleza pêra os haver ás mãos ; mas fi- 
cou com fua mágoa , e com fua tenção 
declarada , e com as tregoas rotas, João 
Corrêa avifou logo ao Vifo-Rey de tudo, 
€ lhe affirmou que o cerco não tardaria 
muito, pedindo-lhe o foccorreífe. 



CA- 



35*2 ÁSIA DE DíOGt) de Cgxjtcí 

CAPITULO XIII. 

Do que aconteceo a Diogo de Azambuja * 
depois de entregar a Fortaleza a Duar* 
te Pereira : e de como foi a Banda , t 
carregou pêra Malaca : e dos juncos* 
que o Rajale tomou : e da cruel fome na 
Cidade de Malaca. 

DEixamos Diogo de Azambuja partida 
de Malaca, depois de entregar a For- 
taleza a Duarte Pereira , fem fallarmos mais 
nelle , agora continuaremos com o que lhe 5 
fuccedeo. Partido dle de Maluco i deixou 
a derrota de Amboino , e tomou as das 
Ilhas de Banda ; e chegando áquelle porto i 
achou alguns juncos de Mercadores Por- 
tuguezes de Malaca, que eítavam carregan- 
do de noz, e maça ; e como elle levava o 
Galeão vafio , e hia pobre, tratou de ver 
fe podia levar dalii algum frete j e ajun- 
tando aquelles Mercadores , lhes pedio 
quizefTem embarcar fuás fazendas Ho feií 
Galeão , que lhas poria feguramente em 
Malaca, porque o Rajale andava fora com 
fua Armada , e que os juncos corriam rifc 
co de ferem tomados todos ; e poíto que 
todos lhe refertáram , e andaram defvian-* 
do, por lhe não darem nenhum frete, to- 
davia elle teye tal manha com elles , quer 

lhe 



Í)ecadà X. Cap. XITL 35^ 

lhe deram alguma fazenda dos Mercadores 
cílantes em Malaca > concertando-fe com 
elles a dezoito bares por cento de fretes ± 
deixando fuás fazendas pêra levarem em os 
juncos , por lhe ficar aííim mais barato» 
Diogo de Azambuja depois de carregar f@ 
fez á vela , efcrevendo aos Mercadores das 
fazendas que hiam no Galeão , como el* 
le lhes fizera força ; e que lhes levava fuás 
fazendas pelos fretes que elle mefmo lhes 
poz 5 que lá fe negociaffem cem elle. Dio* 
go de Azambuja foi feguindo fua viagem 
até paliar os Eftreitos , e dizem que tive-* 
ra vifta da Armada do Rajale > e foi furgir 
a Malaca > aonde houve nos Mercadores 
que alli levavam fazendas alguma altera* 
ção j por fer o frete mui deleompaflado ; 
mas logo ceílbu ifto , porque chegaram no* 
vas que os juncos > que ficaram em Ban- 
da , depois de Diogo de Azambuja parti* 
do, tomaram fua carga i e partiram pêra 
Malaca , e nos eftreitos foram todos toma* 
dos da Armada do Rajale : houve íielles 
mais de cem mil cruzados í pelo que á 
força que Diogo de Azambuja lhes fez > 
liouveram elles por dita fua os que lhes 
■Veio fazenda , ainda que pagaram mais fre- 
tes do que elle pedia : o Rajale tinha tão 
impedida á navegação v que não paliava 
coufa alp-uma pêra aquella Fortaleza P com 
C*ut:Tm.VÍ.P*Ué Z a 



35*4 ÁSIA de Diogo de Couto 

o que a fome hia creícendo de feição que 
morriam muitos pelas ruas ; porque ainda 
os moradores que podiam fupprir a falra 
deites pobres , fe não podiam valer a íi , 
porque fuás famílias já não tinham mais 
que hum pouco de arroz , de que faziam 
canjas, que são papas, de que davam hu- 
ma fó vez ao dia a cada peílba , e ainda 
difto pouca ; e até em cafa do Capitão to- 
das as pelToas da fua obrigação não co- 
miam mais , e algum arroz pouco : fe ha- 
via em alguma cala pêra vender, valia dous 
arráteis hum cruzado, huma gallinha finco, 
hum a mão de bifcouto quinze , hum coco 
hum toítao i e ainda iíto como era pouco , 
veio-fe a acabar, e faltar de todo , com 
o que não fó os pobres , mas ainda es ri- 
cos vieram a padecer neceílidades grandes ; 
e toda a outra gente mefquinha , que era 
huma grande copia , fuítentavam-fe de rai- 
zes de hervas do mato , gatos , cães , ra- 
tos , e outras coufas peçonhentas que os 
corrompiam , e morriam por effas ruas , e 
matos , como doentes de mal contagiofo m y 
e chegou acoufa a tanto , que acharam huns 
poucos deites comendo outros , que acaba- 
ram de efpirar alli a par delles também 
de fome ; e houve mulheres , que deita- 
vam feus filhos no rio por não ter leite 
que lhes dar , nem coufa alguma pêra co- 
me- 



Década X. Cap. XIIL 357 

íiíerem , e outras que os deixavam pelos 
matos , e pelas ruas ; por onde huns , é 
outros acabavam miferavelmente ; e foi a 
coufa em tamanho crefcimentõ , que hou- 
ve dia de cem pelicas morras , e ainda ef- 
tas das que fe alcançaram pelos roes das 
confifsóes que o Bifpo mandou examinar 
com muita diligencia: o Capitão, e o Bií- 
po acudiram a muitas neeeííidades deitas 
com o feu maníiiHento , e dinheiro com 
muita caridade , no qiie gaitaram muito; 
ÍSfeíte extremo grande eftava aqueíla miíe* 
ravel Cidade , quando por fim de Outubro 
chegou áquelle Porto o Galeão Reys Ma 1 * 
gos , que vinha do Kcyno 5 o qual ainda 
trazia vinhos , azeites, bifcoutos , ê alguma 
carne, ainda que pouco de tudo: e toda- 
via já foi algum foccorro , e confolação 3 
com que os moradores , que compraram 
deitas coufas a pezo de ouro i fe ficaram 
remediando ; eperaDeos os confolar mais, 
chegou logo huma fermofa náo de Coro* 
mandei, que era de hum António de Ma- 
galhães , e vinha a fazer nella aqudla via- 
gem hum Manoel Mendes Monteiro , na 
qual vinha huma boa quantidade de arroz 
com que fe remediaram mais as neceífida- 
des : e porque D, António de Noronha fè 
negociou pêra partir pêra Maluco peía via 
de Jaoa, por lhe fer paliada a monção de 

Z ii J3or- 



35'6 ÁSIA de Diogo de Couto 

Borneo , que havia de fer em Agoílo paf- 
fado , acudiram o Bifpo > e a Cidade ao 
Capitão João da Silva , e lhe requereram 
que o não deixaíTem partir daquella For- 
taleza pela neceffidade que delle havia pe- 
las novas que corriam de fe fazer preítes 
huma groíTa Armada pêra fe ajuntar com 
o Rajale contra aquella Fortaleza. Com 
ifto requereo João da Silva a D. António 
que cumpria ao ferviço de EIRey deixar-fe 
ficar , e que mandaífe fazer a viagem por 
tjuem quizeíle , porque aquelle era o tem- 
po , cm que delle fe tinha neceflidade. Ven- 
do elle as obrigações em que o punham , 
diife que pêra o ferviço de EIRey eftava 
muito preítes , e que dalli defiftia da via- 
gem , eqne fe podia mandar fazer por con- 
ta de EIRey. Com ifto aífentou o Capitão 
com o Veador da Fazenda Jorge Felim de 
Almeida > que fe arrendaíle aquella viagem , 
o que fe fez a António de Magalhães pê- 
ra a ir fazer na fua náo , e nella deram a 
D. António de Noronha cento e tantos ba- 
res forros de terços ? e choças , que eram 
os mefmos que elle levava por Provisão 
do Vifo-Rey. Feito efte contrato , negociou 
António de Magalhães pêra fe partir , e 
João da Silva mandou embarcar na fua 
náo os provimentos de roupa, e mais cou- 
fas pêra a Fortaleza de Maluco > e em 

De- 



Década X. Cap. XIII. 35-7 

Dezembro fe fez á vela , ficando D. Anto-> 
nio correndo com as obrigações de Capi- 
tão Mor do mar , e ordenando a Armada 
que. havia. 

CAPITULO XIV. 

J)e como Diogo de Azambuja foi âar em 
huma povoação dos Manacambos , e a 
deflruio : e da grande Armada com que 
o Achem fe fazia preftes pêra ir contra 
Malaca , a qual não houve ejfeito pela 
matarem. 

NAo baftava ainda as perfeguiçoes , e 
neceílidades que os noflbs paliavam 
por caufa da guerra do Rajale, mas ainda 
fe levantou outro enfadamento , que não 
deixou de dar trabalho, e efte foi, alevan- 
tarem-fe os Manacambos , que eram amigos 
da Fortaleza, e virem pelo certão abaixo 
queimando , e deítruindo todas as hortas , 
pomares , e fazendas que havia de longo 
do rio de Malaca , o que fe fentio muito 
na Cidade , porque dalli vinham pelo rio 
abaixo alguns legumes , frutas , betere , co- 
cos , e outras coufas que no tempo de ta- 
manhas neceílidades eram muito eítimadas 
de todos , e começaram-fe a achar menos , 
porque fó ifto não podia o Rajale defen- 
der. 



gy* ÁSIA de Diogo de Couto 

der. Vendo João da Silva que até aquella 
pouquidade começava já a faltar , ajuntou 
o Bilpo , e Capitães a confelho ; e prati- 
cando fobre aquelle negocio , aíTentou-fe 
que era neceiTario ir caítigar aquclles ini- 
migos , que citavam em huma povoação 
chamada Nam , fete , ou oito léguas pelos 
matos dentro, poiij que nao deixaram de 
fe apontar grandes dificuldades por caufa 
do caminho que eia muito intratável. Diogo 
de Azambuja fe offereceo logo alli a João 
da Silva pêra aquella jornada , a qual lor 
go fe determinou de pôr por obra ; e por- 
que receou o Capitão que refufaíTem mui- 
tos a jornada por caufa do caminho, que 
era muito intratável , mandou ter preíles 
todos osbantins, e embarcações pequenas, 
e hum dia a íinco , ou féis de Novembro 
fe foi o Capitão ao campo de N. Senho- 
ra , e alli mandou ajuntar toda a gente 
que havia na Fortaleza , e dalli defpedio 
a Diogo de Azambuja, e com elle D. Ma- 
noel d 3 Almada com cemPortuguez.es, que 
pêra iíTo apartou , e derredor de feiscen- 
tos homens da terra, entre os quaes havia 
quatrocentas efpingardas , e deitando-Ihes 
grandes bênçãos , fe recolheo. Diogo d* 
Azambuja com toda aquella gente fe em- 
barcou nas embarcações , que alli já eíta- 
vamj e pelo rio aíllma foi algumas léguas 

até 



Década X. Ca?. XIV. 35*9 

até huma paragem, donde haviam de mar- 
char por terra , e alli fizeram os noflbs 
huma tranqueira , em que deixaram algu- 
ma gente de guarda com as embarcações , 
e elles foram marchando pela terra dentro 
por onde as efpias os encaminhavam , e 
íempre foram por matos afperiílímos , por 
ribeiras , e fapaes, em que fe viram mui- 
tas vezes perdidos, e embaraçados ; e dia 
de S. Martinho Papa , que lie a 12 do mez, 
chegaram á yiíta da Povoação , aonde os 
inimigos tinham hum Forte. Diogo de A- 
zambuja ordenou alli a íua gente , e deo 
a dianteira a D. Manoel d 5 Almada , e com 
elle Gonçalo Martins 5 morador de Malaca, 
Pedro da Cunha Carneiro, António d 3 An- 
dria , António de Paiva , António Maia , e 
outros, que feriam fincoenta , e duzentos 
Lafcarins , e com elles dous Padres da Com- 
panhia, o P.Diogo Pinto, e o Irmão Gon- 
çalo Teixeira, e Diogo de Azambuja ficou 
na reta-guarda com toda a mais gente. D. 
Manoel de Almada adiantou-fe com a fua 
companhia; e antes de chegar a povoação, 
achou os inimigos , que o efperavam em 
campo , os quaes ferião perto de dous mil ; 
e remettendo-fe a elles , travaram huma 
muito fermofa batalha , á qual chegou lo- 
go Diogo de Azambuja, que fez o officio 
de Capitão, e foldado. D. Manoel de Al- 
ma- 



360 ÁSIA de Diogo de Couto 

mada com a íua companhia peleijou na 
dianteira com muito valor , e esforço ; e 
tanto apertOL} com os inimigos, que os poa 
em desbarato porcaufa da arcabuzaria que 
lhe derrubou muitos, e afflm os foi feguin- 
do até o forte , o qual commetteo com 
grande determinação , e á força de braço 
ó entrou com grande eílrago dos inimi- 
gos , e fem da noíla parte fe perderem 
mais de três homens , e quatro feridos , em 
que entrou Pedro da Cunha Carneiro de 
huma zagunchada no braço direito. Diogo 
d 5 Azambuja vendo acabado aquelle feito 
com tão pouco perigo , mandou queimar» 
a povoação de Nam , e outras á roda , e 
cortar, e talhar todos os campos, fem lhe 
deixar nada em pé ; e fendo avifádo que 
cm outro lugar hum dia de caminho , que 
fe chamava Rombo , eftava hum Capitão 
do Rajale chamado o Nadoi , o qual tinha 
nelle hum forte de guarnição , determinou 
de ir dar nelle , e de o deftruir de todo. 
Eítando pêra caminhar , chegaram os mora- 
dores daquelle lugar , e lhe pediram lhes 
f>erdoaíle, e lhes fizeííe pazes, porque el- 
es não faziam guerra a Malaca ; e que o 
Capitão do Rajale que alli eílava , tanto 
mie foubera de fua . chegada , largara o 
forte , e fe recolhera pêra Muar. Diogo 
d 3 Azaaibuja Lhes perdoou 3 e concedeo as 



Década X. Cap. XIV. 361 

pazes, e fefoi recolhendo a feu falvo, tor- 
nando a atraveíTar aquelles matos aré on- 
de deixou as embarcações , e nellas fe re- 
colheo a Malaca, onde foi muito feftejado ; 
e porque era tempo de fe efperarem as 
náos da China, e oRajale andava no mar 
com a fua Armada , receando o Capitão 
que ihe aconteceíTe algum defaítre , man- 
dou negociar D. Jeronymo de Azevedo pê- 
ra fe ir pôr no eftreito , que havia pouco 
cra chegado de lá, pêra ir recolher aquel- 
las náos ; e pela falta que havia de man- 
timentos não fe pode prover mais que o 
feu Galeão, e huma Galeota , de que fez 
Capitão Pedro da Cunha Carneiro , e do- 
ze bantins , de que fez Capitão Mor Pe- 
dro Velho. Com efta Armada fe foi D. Je- 
ronymo por na ponta da Romania pêra ver 
fe podia fazer algumas prezas , em quanto 
nao fe fazia tempo das náos chegarem , e 
aqui o deixaremos , por contarmos o que 
neíte tempo aconteceo no Achem. 

As novas do grande aperto em que 
Malaca eílava de fome correram por todas 
aquellas partes; e chegando ao Achem, 
como elle era inimigo mortal dos Portu- 
guezes , e tinha ódio antigo áquella Forta- 
leza , e defejava de os lançar dalli , e fa- 
zer-fe fenhor de todos aquelles Reynos , 
vçzíq <jue o tempo Ihç abria tamanha oc» 



362 ÁSIA de Diogo de Couto 

caíião , determinou de ir em peflba con- 
quiítar aquella Fortaleza , e pêra iflb man- 
dou pôr no mar toda a lua Armada , que 
era de dez náos, íincoenta Galés, cento e 
ilncoenta fuftas , a fora muitas lancharas , e 
bantins , por tudo feriam trezentas velas , e 
fez chamamento de todos os Capitães , e 
gentes de feus Reynos , e mandou embar- 
car li um a fomma de mantimentos , muni- 
ções , e petrechos de guerra , e muita , c 
groífa artilhem pêra bater a Fortaleza ; e 
andando com eíta fede, e ajuntando efte po- 
der, e fabrica , a que Malaca não pudera 
efeapar , acudio a mão de Deos , e orde- 
nou que hum Capitão Geral do Achem, 
que já fora feu eferavo , e que elle fizera 
grande , chamado Mora Ratiíla , mataffe 
EIRey ás crizadas , porque havia dias que 
andava com aquelles propofitos pêra fe ale- 
vantar com o Reyno , porque era o mais 
poderofo d elle. Morto EIRey , metteo-fe 
o tyranno de poíTe dos Paços , e quiz ca- 
far-fe com a Rainha , o que eila não con- 
fentio , do que elle tomado a matou. Tam- 
bém alguns quizeram dizer, que a Rainha 
entrara também nefta conjuração , e que 
por fua ordem o matara aquelle tyranno ; 
e elle como eftava já preftes , e era pode- 
rofo , intitulou-fe logo por Rey do Achem, 
e começou a matar nos Capitães y de que 
* fe 



Década X. Ca?. XVL 363 

fe podia temer , fobre o que houve gran- 
de? alterações no Reyno , e fe efpalháram 
todos, fugindo delle, e por fim elle ficou 
Pvey , e por cita caufa fe desfez aquella po- 
tente Armada, que pudera aífombrar outra 
Foi taleza mais profpera , e muito mais pro- 
vida do que eftava Malaca , na qual não 
ceifava o ma! da fome , do que cada dia 
iiiam morrendo infinitos pobres , e mef- 
quiuhos. 

CAPITULO XV. 

De como o Rajale foi com huma poder ofã 
Armada contra Malaca : e dos recados 
que paffáram entre elle , e o Bifpo : e de 
como alguns Capitães pus def embarca* 
ram em terra : e da batalha que tive~ 
ram com os noffos , em que elles fica* 
ram desbaratados. 

NEfte mefino tempo , que era da en- 
trada de Janeiro defte anno de 1587. 
dia dosReys, appareceo á vifta de Malaca 
o Rajale com huma Armada de cento e 
vinte velas , em que trazia finco , ou féis 
mil homens com propoííto de defembarcar 
tem Malaca. O Capitão João da Silva ven- 
do aquella Armada , e que enchia todo 
^quelle mar, e conhecendo cuja era, acu- 

4ip 



364 ÁSIA de Díogo de Couto 

dio á praia acompanhado do Bifpo , Fi- 
dalgos ,- e Capitães , e mandou embarcar 
D. António de Noronha no feu Galeão, e 
lhe encarregou todas as nãos que eílavam 
no porto , e lhe difíe que mandaííe os ba- 
téis dos Galeões com alguns falcões pêra 
eftarem da banda de Malaca encoítados ao 
muro , pêra defenderem a dcfembarcaçao 
naquella parte , e dalli fe paíTou o Capitão 
a prover em outras coufas. D. António em- 
barcou-fe no feu Galeão , e Diogo Pereira 
Tibao em outro , e nos de Diogo de Azam- 
buja, e Fernão Ortiz de Távora puzeram 
-clles feus Capitães , e foldados , porque an- 
davam com o Capitão provendo na fortifi- 
cação da Cidade ; e na náo do Reyno fe 
embarcaram os officiaes , e marinheiros , e 
tudo negociou com D. António muito bem, 
e poz os Galeões nas paragens que lhe pa- 
receo. OCapitãoJoão da Silva poz na tran- 
queira dellher D.Manoel de Almada com 
alguns foldados , e toda a gente daquella 
parte , e da banda de Malaca poz D. Hen- 
rique Bandarra com muitos , e bons folda- 
dos , e alli acudiram , porque fe entendeo 
que fe EIRey quizeííe defembarcar, havia 
de fer alli , e mandou alguns foldados pêra 
fe irem metter na Ermida de N. Senhora 
do Monte, onde os Padres Capuchos refi- 
diam. O Ra i ale deixou-fe eftar á vifta da 

For- 



Década X. Caí>. XV. 3 tf? 

Fortaleza finco dias , e em todos tratou com 
o Capitão entretenimentos , e enganos , e 
no cabo delles mandou alguns Portuguezes 
que trazia cativos , e entre elles hum Fran- 
cifco Ramalho nafcido em Malaca , filho 
de hum Cidadão, Cavalleiro da Ordem de 
Sant-Iago, de preíente aoBifpo com huma 
carta, cuja fubílancia era , que dos traba- 
lhos que aquella Cidade tinha , de que o 
Capitão João da Silva havia de dar conta 
a Deos , e ao feu Rey , porque elle de to- 
dos tinha a culpa : que bem entendeo, 
quando logo chegou áquella Fortaleza, que 
fora com animo de quebrar com elle , não 
tendo dado elle da íua parte occafíao al- 
guma ; que elle eftava preftes pêra fazer 
pazes com elle Bifpo , fem o Capitão niflb 
intervir ; e que lhe relevava muito fallar 
com o Capitão do Reyno , porque fe que- 
ria mandar queixar por elle a EIRey de 
Portugal, de quem era irmão, e fervidor, 
das fem-razões que lhe tinha feitas , e que 
elle eftava preftes pêra mandar dar todos 
os mantimentos que lhe folTem neceífarios 
pêra a viagem. Eftes cumprimentos , e fa- 
tisfações quiz ter o Rajale com o Bifpo v 
porque como eftavam as náos pêra fe par- 
tirem pêra a índia , e fabia que haviam de 
mandar pedir foccorro , e Armada , que eí- 
creveíTeia que ficavam febre concerto de 



366 ÁSIA dê Diogo de Cotffò 

pazes pêra com ifio fe defcuidar o V\té4 
Rey de lhe mandar foccorro. Dada a carta 
ao Bifpo , foi-fe com ella a cafa do Capn 
tão; eprefente as peííoas principaes i aleo^ 
e aflentáram que lhe refpondeííe que ofeu 
officio não era tratar de pazes com Reys 
infiéis , que aquella Fortaleza tinha Capitão , 
Fidalgo muito honrado, que mandaíle tra- 
tar com elle aquelles negócios , que elle 
lhe refponderia. Com efta refpofta ficou o 
Rajale atalhado, porque por ella entendea 
que tinha alcançado fuás manhas , e artifí- 
cios ; e atiçado dos feus , determinou de 
defembarcar em terra, e provar a mão com 
os noífos ; e quando não fizeífe mais , já 
ficaria com aquella honra de pôr os pés na 
praia de Malaca com mão armada ; e divi- 
dindo o feu poder em duas partes , deo 
■huma delias a Ginga Raxa , e lhe mandou 
foíTe defembarcar da banda de Malaca, e 
queimaífe toda a povoação > e elle com a 
outra foi demandar a banda de llhez com 
tenção de defembarcar nella : e encarregou 
a Raja Macotta que com duzentos Ma- 
laios foffe atraveflando o campo de S.João, 
e fe embrenhaífe de noite ; e que quando 
ao outro dia vieííe commetter a terra , déífe 
elle em cafa dos Padres, e lhos levafle to^ 
dos vivos. Ginga Raxa foi commetter adefc 
embarcação na parte que lhe alfaiaram f 

e 



Década X. Cap. XV- 367 

c ás onze horas do dia com a maré toda 
a gente pouíou em terra com luas embar- 
cações , e lançou nella toda a gente , ef- 
bombardeando íempre as Galés pêra apar- 
tarem os nolíos da praia. D. Henrique Ban- 
darra vendo defembarcar os inimigos , fe- 
chou as portas da tranqueira , pêra que os 
noíTos não fahiffem fora , porque logo qui- 
zeram travar com clles , e lhes dilíe que 
fe quietaíTem , que os deixaíTem cevar até 
a maré vafar ; que tanto que foíTe efpraian- 
do , elle lhes fahiria , e lhes promettia de 
nenhum efeapar, porque então já eftariam 
os inimigos caníados, e longe das embar- 
cações por efpraiar alli a maré muito , e 
que forçado fe haviam de perder. A efte 
tempo chegou o P. Diogo Pinto da Com- 
panhia acompanhado de Bartholomeu Fer- 
nandes Mulato, Meílre dehuma náo , e de 
outro ; e vendo que não fahiam os noílos 
aos inimigos , quaíi menencorio , lançou a 
mão ao ferrolho, e abrio a porta, e fahio 
por ella acompanhado de muitos, e omef- 
mo fez D. Henrique Bandarra > e dando 
nos inimigos com aquelle impeto , os fo- 
ram levando , e matando nelles com gran- 
de furor. O Capitão da Cidade teve reba- 
te da defembarcaçao dos Mouros , e man- 
dou Diogo de Azambuja com huma com- 
panhia de foldados, pêra que lhe elle foc* 

cor- 



568 ÁSIA bk Droõo ee Couto 

correfie, o que ellc fez mui aprefíadamèn* 
te, e achou os noííos em hurna afpcra ba~ 
talha com os inimigos ; e dando de pçfreft 
co nelles, os foi levando de vencida , fa- 
zendo nelles grandes deftruições. SingaRa- 
ja , e hum filho feu , e hum Embaixador 
deElRey de Paó , que peleijavam na dian- 
teira , fizeram mui grandes cavallarias , c 
tiveram muito efpaço o pezo dos noííos j 
mas como elles hiam com aquelle furor, 
miíluraram-fe com elles , e os mataram de 
feras cutiladas ; e dizem que Diogo de 
Azambuja matou SingaRaxa, ou ao filho, 
e lhe tomou hum criz com huma bainha ; 
douro , e algumas pedras de valia , que le- 
vou pêra o Reyno. Morreram neíla dian- 
teira muitos Ulobadócs , que hc huma cafta 
daquellas gentes grandes cavalleiros i e ou- 
tros Malaios , que não quizeram deixar o 
feu Capitão. Desbaratada a batalha, foram 
os noflbs no alcance dos inimigos ás em- 
barcações , matando nelles até dentro na 
agua , onde morreram também muitos affo- 
gados : o Capitão eílava na porta da For- 
taleza com o Bifpo , e os Fidalgos , e Ca- 
valleiros que eílavam de fora , e dalli man- 
dava , e provia em tudo com muito cuida- 
do , e começaram a ir a clle muiros folda- 
dos com cabeças de inimigos que na praia 
dataram i e aííim como chegavam, menu 

mão 



' Década X, Capí XV. 369 

ínao na bolía , e lhes dava a dez , e a vin« 
te cruzados : as peííbas principaes que fe 
ailiaaláram nefte feiro , foram D, Henrique 
Bandarra , D. Pedro feu filho , Diogo de 
Azambuja , Belchior Pinheiro Peixoto , An* 
tonio de Paiva , Manoel da Rocha, Antó- 
nio Rodrigues de Abreu j António de Le-* 
mos , e Jorge de Figueiredo : eíles dous 
caiados naquella Cidade, que a cavallo fi* 
zeram grandes damnos no? inimigos ; Bar- 
tholomeu Fernandes , o Mulato Lourenço 
Froes , Manoel Ferreira de Villas-boas , e 
outros cavalleiros. O Rajale foi paíTando 
com a fua Armada pêra a banda de Ma- 
laca , hum pouco aífaftado das náos , das 
quaes o falváram , e hum pelouro da nád 
de Diogo de Azambuja deo em huma Ga- 
lé, que a defnroçou j e defapparelhou de to-? 
do , e do Galeão de Diogo Pereira Tibao 
deram oatro na Galé doRajaitão$ filho da 
Rajale, que lha metteo no fundo, e agea- 
te toda fe falvou nas embarcações pequei 
nas* O Capitão vendo que a Armada do 
Rajale voltava pêra a banda de Malaca ^ 
mandou gente de foccorro a D. Manoel de 
Almada , e ficou efperando pêra ver o que. 
o Rajale determinava ; mas, elle teve por 
agouro mettereovlhe a Galé do filho no 
fundo, edeixou^fe ficar de longo da terra ^ 
fem bolir comfigo ; e.a.omefmo tempo qye 
Couto. Tom. VL P. h. Aa í£ 



37° A S I A de Diogo de Couto 

Mio fuccedeo , acabavam os Padres Capu- 
chos na Madre de Deos de jantar , e ti- 
nham-fe fubido á torre a ver a briga ; e 
quiz Deos que o Padre Fr. Marcos , que 
em foldado fe chamou Marco António, 
levou huma efpingarda ; e eftando embebi- 
dos em ver a briga , íahíram os da com- 
panhia do Raja Macota, que eítavam em* 
ferenhados , e deram de fupito em o Mof- 
teiro , e o entraram , enchendo-fe logo a 
Igreja , e o Clauftro dclles com grandes 
eltrondos , e motinadas , ás quaes acudiram 
os Padres aporta da torre , que fe fervia por 
huma efcada levadiça , e a recolheram affi- 
ma , e viram os inimigos andarem pela 
Igreja de huma pêra outra parte. O Padre 
Fr. Marcos , que tinha a efpingarda ceva- 
da , a difparou nelles, e derrubou hum: os 
mais vendo os Padres em íima da porta , 
ficaram como pafmados de verem aquelles 
homens veílidos naquelles trajos que nunca 
viram , e como allienados ficaram hum bom 
efpaço olhando pêra íima ; mas o que fe 

Çrefumio foi , que viram o Bemaventurado 
adre S. Francifco que os ameaçava; e pal- 
iado aquelle termo , foram fugindo como 
defatinados; e depois delles recolhidos fe 
foube de hum cozinheiro, que feefcondeo 
detrás do Altar, que eftando a Igreja cheia 
de inimigos 3 faltara de íima do Coro hum 



Década X. Cãv. XW 371 

Padre íbbre elles com grande eílrondo , é. 
que logo defapparetêra. O Rajale vendo 
o desbarato dos feus, ajuntou a fua Arma* 
da j e fbi-fe recolhendo pêra Jor, esbrabe- 
jando contra os que aconfelháram que fi* 
£eííe aqueUa jornada* 

CAPITULO XVL 

Dú qtie aconteceu a D. Jeronymb de Aze* 
"vedo no ejlreito : e de como faleceo Jóãó 
Gago , e Diogo de Azambuja foi perd 
Capitão da não do Reyno : e do que lhe 
acontece o na viagem : e do grande foc cor* 
ro que a Cidade de Cochim mandou a 
Malaca*. 

DJeronymò de Azevedo <, que deixámos 
• na ponta da Romahca ^ fez alli mun 
ias pregas ; porque como todas as embar- 
cações que vinham da outra côíla deman- 
dar aquelle cabo $ virando de eftoutra ban- 
da, davam com a fua Armada, fahiam-lhe 
os bantiíis 5 e tomavam todas ^ fem lhe éf* 
capar nenhuma ; fó huma , em que vinha^ 
hum filho deElRey de Paó perafe ir met* 
ter em Jor , lhe fugio , e varou em terra , 
onde fe falvou. Neftas embarcações que fe 
aqui tomaram, fe cativou muita gente, que 
por não haver com que a fuítentar., deran* 
A a ii fun* 



37* A ST A de Diogo de Couto 

fundo a mais de oitenta peííoas ; e fazen- 
do-fe tempo de ir efperar a náo da China, 
foi-fe pôr no eftreito de Sabão , por onde 
haviam de paliar, e as primeiras que che- 
garam , foram a náo de Francilco Paes, e 
hum junco de hum Jeronymo Rodrigues 
Monteiro , e aíTnn apôs ellas outras , as 
quaes encaminhou pêra Malaca , è fez Ca- 
pitão Mór de todas a Francifco Paes, pe- 
fâ que foífe dando guarda , e no caminho 
encontraram a Armada do Rajale , que fe 
hia recolhendo desbaratada , e em tal efta- 
do , que não quiz entender com elles , e 
D. Jeronymo ficou efperando por duas náos 
que lhe faltavam. 

João da Silva tornou a aviíar aoVifo- 
Rey deitas coufas todas, e o mefmo fez o 
Bifpo , e a Cidade , affirmando-lhe todos 
que ficava no derradeiro eítado. Eftas car- 
tas levou hum Jeronymo Rebello , cafado 
cm Malaca, homem nobre, bom cavallei- 
ro , e que faberia bem reprefentar ao Vifo- 
Rey as miferias daquella Cidade , ooual fe 
embarcou nas primeiras náos que partiram; 
e porque era tempo da náo dcPrteyno fa- 
zer viagem , e por ter falecido João Gago 
de Andrade , deo João da Silva a Capita- 
nia delia a Diogo de Azambuja , o qual o 
melhor que pode , pofto que com trabalho , 
proveo a náo de algum pouco de arroz , e 

> de 



Década X. Ca?. XVI. 373 

de hum junco , que veio naquelles dias de 
Jaoa, de peixe, manteiga, e de outras cou- 
fas. Eíta náo por achar tempos contrários, 
por partir tarde , arribou a Moçambique, 
donde partio em Novembro , e fe foi per- 
der em Angola por ir aberta , e com mui- 
tas aguas , e aili tomaram algumas cara- 
vellas , em que pairaram as fazendas , e 
foi Diogo de Azambuja pêra o Reyno, 
onde foi prezo , por íe ir fem refídencia, 
até fe lhe mandar tomar , e depois fe li- 
vrou , e fe fervio EIRey delle em coufas 
muito honradas. 

E tornando-fe ás coufas de Malaca , 
D. Jeronymo de Azevedo , depois que re- 
colheo as náos que faltavam , foi-fe com 
ellas pêra Malaca , onde já eílava determi- 
nado que D. António de Noronha ficalle 
por Capitão Mor daquelle mar, conforme 
a feu regimento, do que tomado D. Jero- 
nymo , e por outras coufas de entre elle, 
e o Capitão , fe embarcou nas mefmas fláos 
pêra a índia. 

Os primeiros recados que João da Sil- 
va mandou ao Vifo-Rey , chegaram a Co- 
chim em breves dias. Sabendo aqueila Ci- 
dade o extremo em que aquella Fortaleza 
ficava , trataram os Vereadores de a foccor- 
rer , com confenti mento de todos os mo- 
radores , do dinheiro do hum por cento i 

que 



374 ÁSIA de Diogo de Couto 

que elles pagam pêra as obras da fortifica- 
ção d^queila Cidade , o que cila , e todas 
às mais da índia fempre fizeram , quando 
fe oíFereceo o ferviço de EIRey , não pou- 
pando pêra ellas fuás peífoas , e fazendas , 
como leaes vaífallos : pelo que tomando 
muito dinheiro y compraram huma grande 
cópia de arroz , trigo , munições , e outras 
çoufas neceífarias , o que tudo embarcaram 
em huma náo de Luiz Martins Pereira, no 
que gaitaram vinte mil pardaos , e a des- 
pediram pêra Malaca com muita preíla , 
indo o mefmo dono por Capitão delia ; e 
favorecendo Deos noííb Senhor eíta lealda- 
de, e bom zelo, deo tão bom tempo a ef- 
ta náo, que dentro no mez de Janeiro che? 
gou áquella Cidade , com o que ella pare- 
ce que refufcitou , e aííim foi fua chegada 
tão feílejada, como aquella que lhe trazia 
o remédio pêra todos : tudo o que nella 
vinha fe recolheo em armazéns , e fe repar* 
tio por todos com muita ordem , porque 
lhe baítaífe até vir o provimento da índia ; 
e allim neíte tempo âdoeceo João da Silva 
de hum^s melenconias , de que veio a en- 
doudecer de todo ; pelo que o Bifpo go* 
vernava tudo , por elle não eílar pêra iífo ; 
e porque era neceífario fazer vir a Malaca 
ps juncos , começou a negociar; e por fal- 
tar dinheiro , o empreitou o Bifpo do feu , 

e de 



Década X. Cap. XVI. 37? 

e de outros que tomou fobre íi , e com 
muito trabalho poz a Armada no mar, c 
defpedio nella D. António de Noronha 9 
que fe fez á vela pêra Jor ; e os Capitães y 
e velas que levava , são os feguintes . elle 
em hum Galeão , D. Manoel de Almada 
em outro , e Luiz Martins Pereira na fua 
náo ; duas fuftas , de que eram Capitães 
Jorge de Figuçiredo , e outro , e alguns 
bantins mais. Com efta Armada fe foi pôr 
fobre Jor , com o que logo começaram a 
correr alguns juncos da Jaoa , e do Pegu 
carregados de mantimentos , com o que 
aquella Cidade começou a tornar em íu 

CAPITULO XVII. 

De como chegaram a Goa as novas de Ma- 
laca : e do foccorro que o Vifo-Rey nt- 1 
gociou : e da grande Armada com 
que D. Paulo de Lima partio 
pêra aquella Fortaleza. 

AS náos que partiram de Malaca che- 
garam a Goa em fim de Março ; e 
Jeronymo Rebello , que levava as Cartas 
do Capitão , Bifpo , e Cidade pêra o Vifo- 
Rey , lhas deo , e reprefentou a miferia 
daquelia Cidade, e o grande rifco em que 
ficava , affirmando-lhe que fe lhe não foo 

co- 



ty6 A ST A de Díogo de Couto 

coria de prefía , e com muito cabedal £ 
que punha aquella Fortaleza a perigo de 
^e perder; porque fe o Rajale fe confede* 
raíle com o Achem , fó a mão de Deos 
lhe poderia valer, Ifto deo tanto em que 
cuidar ao Vifo-Rey, que fem fazer deten- 
ça , mandou logo chamar os Fidalgos , e 
Capitães a Conielho , e nelle moftrau as 
Cartas todas , e lhes deo relação do que 
paliava , pedindo-lhes que fe votafle no 
que convinha pêra bem , e defensão daquela 
laFortaleza, e mais ainda pêra lançar aquela 
le inimigo daqueile rio dejor, porque em 
quanto ai li eftiveíle , havia de ler moledo 
aquella Cidade ; e que o cabedal que fe 
havia de metter por pedaços todos os ân- 
uos , fe metteíTe logo junto pêra de huma 
-vez fe acabar defegurar aquella Fortaleza, 
que era a principal da índia , e a chave 
daquellas partes, donde vinha o principal 
rendimento, de que o citado fe fuftentava. 
Aífentado ifto , começou o Vifo-Rey apor 
em ordem a jornada , e mandou negociar 
os navios pêra ella , recolher mantimentos , 
ordenar munições , e ajuntar todos os mais 
petrechos neceflarios pêra aquella jornada ; 
e porque oEftado eftava pobre de dinhei- 
ro , e de quafi todas as coufas neceífarias , 
principalmente de navios, e foldados , quiz 
•valer-ffe de todas as partes pelo myito que 

im- 



Década X. C\p. XVTT. . 377 

•importava foccorrer-fe aquella Fortaleza, 
porque não fe perdeíTe á mingua : e defr 
pedio Manoel Rebello feu Capitão da guar- 
da , e com elle Jeronymo de Lima com 
Cartas pêra as Cidades de Baçaim , e 
Chaul , e pêra Balthazar de Siqueira , que 
andava por Veador da Fazenda naquellas 
partes , e pêra peífoas particulares , nas 
quaes lhes reprefentava as neceflldades do 
eítado , e o trabalho , e rifeo , em que a 
Fortaleza de Malaca eílava , pedindo-lhes 
o foccorreíTem com dez, ou doze mil par- 
daos de empreítimo , dos quaes fe paga- 
riam em li próprios dos foros de fuás al- 
deias , pêra o que elle mandou logo pro- 
visões muito largas , e affim fe valeo da 
Cidade de Goa , que fernpre elteve ofrere- 
cida a eítes fucceílbs do ferviço de EIRey 
em fatisfaçao, dos quaes lhe não guardam 
quaíi todos os Vifo^Reys fuás liberdades, 
que muitas vezes tem nas eleições , que 
são tão livres, que fe não faz fenão o que 
elles querem , e deitam de íi as culpas aos 
Defembargadores , fobre o que fe tem cla- 
mado muitas vezes a EIRey , e mandado 
a Portugal Procuradores 5 fem terem mais 
refpoíla que tornarem a metter nas mãos 
•dos mefmos Vifo-Reys o jogo , os quaes 
nunca hão de largar a mão da jurifdicção 
que íobre a Cidade tem tomado ) e deixan- 
do 



378 ÁSIA be Diogo de Couto 

do efta matéria, o Vifo-Rey mandou cha^ 
mar os Vereadores , e lhes reprefentou com 
muitas palavras a grande neceffidade em 
que a Fortaleza de Malaca eftava, e quão 
importante era fer foccorrida de preífa, 

Êorque nella eftava o remédio de todo o 
ftado; e que fe por defcuido lhe aconte- 
ceife hum defaftre , perder-fe-hia o com- 
mercio da China , Japão , Maluco , e todas 
aquellas partes de que o Eftado , e todos 
os moradores da índia fe fuftentavam ; e 
que pois por então não havia com que lhe 
foccorrer pelas neceííidades em que o Ef- 
tado eftava pelas muitas guerras que fe lhe 
abriam em outras partes , que quizeífem 
elles acudir a tamanha obrigação com aquel*- 
le feu tão antigo zelo, e lealdade, porque 
feria dcshumanidade verem perder A min- 
gua huma tamanha Cidade , tão importan- 
te , em a qual todos tinham parentes , 
amigos , naturaes , e fobre tudo tantos Tem- 
plos de Religiofos , e innocentes : que lhes 
pedia em nome de EIRey , a quem elle 
reprefentaria aquelle tamanho ferviço , pê- 
ra que lho fatisfizeífe com honras , e mer- 
cês , que lhe empreftaífem vinte mil pardaos 
pêra com elles , e com os mais que pudef- 
fe ajuntar fupprir a coufa tão urgente , e 
neceífaria , e que deiles fe pagariam logo 
nas rendas de Salfete , as quaes logo dal- 

lí 



Década X. Cap. XVII. 379 

li por diante conílgnava em feu poder*, 
até ferem pagos comeffeito daquella quan- 
tia, e que fobre iíío lhes daria todas as fe* 
guranças que mais quizeffem. Os Vereado* 
res , que eram Franciíco Peixoto , Chrifto- 
vao daCofta, e FranciftoN^e Andrade , lhe 
diíTeram. que muito bem viam o eftado das 
coufas , e a neçeífidade de Malaca , que far 
riam chamamento do povo , e o perfuadi* 
riam tudo o que pudeíTem a* que empfefc 
taíTem o que elle lhes pedia , e que ao ou* 
tro dia lhe dariam a refpofta ; e ajuntando- 
fe logo em Camera , chamaram os cafa- 
dos , e lhes reprefentáram os trabalhos em 
que Malaca eílava , e a obrigação que to- 
dos tinham de a foccorrer 9 e a falta que 
110 Eftado havia pêra iífo : que naquillo ha- 
viam de moftrar a grande lealdade Portu- 
gueza, empreitando aElRey vinte mil par- 
Haos pêra remediar coufa tão neceífaria , e 
importante ; e depois de muitos debates, 
vendo as feguranças que o Vifo-Rey lhes 
fazia, concederam no empreftimo , e logo 
fe fez rol , e fe lançou aquella quantia pe- 
lo povo , conforme ao que cada hum ti- 
nha de feu : ao outro dia foram os Verea- 
dores ao Vifo-Rey , e lhe diíferam que os 
moradores daquella Cidade tinham fervi- 
do a EIRey naquelle negocio , como fem- 
mç o íizeram 3 e fariam em as coufas da* 

quel* 



3S0 ÁSIA de Diogo de Couto 

quella qualidade : que elles , e todo o po- 
vo faziam com muito goito o empreftimo 
que lhe pedira , e que lhe pezava a todos 
de não citarem em eítado pêra o fervirem 
com mais ; e que da parte de todos lhe 
pediam huma m^rcê , a qual era , que pê- 
ra aquella jornada elegeííe D.Paulo de Li- 
ma , porque tinham confiança de feu esfor- 
ço , e boa ventura , e que daria muito bom 
fim áquelle negocio, e a tantos trabalhos, 
quantos Malaca cada dia paífava com tão 
ruins vizinhos. O Vifo-Rey ficou fobrefal- 
tado naquelle negocio , porque fegundo fe 
prefumia , tinha em feu peito feita a eleição 
em feu Tio Ruy Gonfalves da Camera , 
affim por fer hum Fidalgo velho , como 
por lhe pertencer aquella jornada por Capi- 
tão Mor, e conquiltador do Achem, cujos 
ordenados elle comia ; mas vendo o que a 
Cidade lhe pedia , e que a Malaca , Bifpo , 
e Capitão lhe apontavam dous homens , ou 
ao mefmo D. Paulo de Lima, ou Mathias 
de Albuquerque , pareceo-lhe que viria 
aquillo por Deos ; e fem fazer outro dif- 
curfo , diífe que pois a Cidade lhe parecia 
bem aquella eleição , que era muito con- 
tente de niífo lhe fazer a vontade, porque 
D. Paulo de Lima era Fidalgo muito pêra 
tudo , e no qual concorriam as partes , e 
qualidades pêra huma empreza de tanta 

im- 



Década X. Cap. XVII. 381 

importância : e com iílo fe começou a ti- 
rar pela Cidade o empreftimo pelo rol que 
fe entregou aos Officiaes , no que elles ex- 
cederam q modo ; porque alguns que logo 
não contribuífâín com o que lhes coube , e 
pela ventura que o não tinham a mão, fo- 
ram prezos, e executados; e ainda iílo fe 
fofFrêra bem , fe fe pagara aos homens o 
que empreitam , como fizeram em outras 
jornadas , e neceflidades paliadas , e que 
ficaram por pagar com lhes empenharem 
as rendas de Saífete , as quaes fe lançou 
outra vez a mão delias , de que ainda ho- 
je ha muito dinheiro por pagar , porque 
nenhum Vifo-Rey paga as dividas do ou- 
tro , pofto que foífem pêra coufas tão ne- 
ceífarias como eftas : por onde fe fe os ho- 
mens fecharem , não devem de lheá pôr 
culpa fenão aos Vifo-Reys , que pêra paga- 
rem eftas dividas lhes falta dinheiro ; e 
pêra mercês a quem querem , lhe fobeja ; 
e fe eíle Vifb-Rey deixou de pagar todo 
efte dinheiro , feria por falecer , porque 
era Fidalgo , Chriftao , e pontual. Com ef- 
te empreftimo , e com dez , ou doze mil 
pardaos , que as Cidades de Baçaim , e 
Chaul empreitaram com muito gofto , fi- 
cou o Vifo-Rey pondo as mãos na Ar- 
mada, e mandou chamar D. Paulo de. Li- 
ma ? e com palavras muito honradas lhe. 

com- 



3?2 ASÍ A DE DíOGO t)fc GotíTO 

commetteo aquella jornada , dizendò-lhé 
que fizeífe rol > e apontamento da Armada, 
e mais coufas que lhe parecefíem neceíla- 
rias , nomeando-lhe logo fetecentos ho* 
mens , com os quaes , e com feu esforço , 
e boa fortuna efperava em Deos defapref- 
far-fe aquella Fortaleza , e que tiraffe de 
tão perto delia tão ruim vizinho. D* Paulo 
acceitou a empreza , por lhe parecer que 
quem tanto tinha fervido, não era bem e£ 
cufar-fe no de tanta importância , e fez 
feus apontamentos , nos quaes pedio três 
Galeões , duas Galés , quatro Galeotas , e 
fete fuílas com munições , e coufas necef- 
farias pêra tão comprida viagem , e outras 
coufas que deixamos por não fer proluxo* 
Declarada a viagem pela Cidade, acudiram 
muitos Fidalgos a fe oíferecerem ao Vifo- 
Rey, e os primeiros dizem que foram Ma- 
noel de Soufa Coutinho , D. João Pereira , 
herdeiro da Cafa da Feira , Francifco da 
Silva de Menezes , e outros , que logo no- 
mearemos , o que o Vifo-Rey eftimou mui-* 
to , e acceitou os oíFerecimentos ; íó a Ma- 
noel de Souía efcufou , dizendo-lhe que o 
tinha guardado pêra outra coufa grande, 
como fe o coração lhe adivinhara que mui- 
to fedo lhe havia de fucceder naquelle lu- 
gar: e tal he o mundo, que elle íuccedeo- 
lhe y eD, Paulo morreo de fede nos bai- 
xos 



Década X. Cap. XVII. 385 

xos da Judia com tão grandes ferviços fei- 
tos , e tanto á cufta de feu fangue, como 
adiante fe verá. Elle foi dando prefla á 
Armada ; e como o Vifo-Rcy nomeou os 
Capitães que havia de levar, e porque faU 
tava gente em Goa, e não acudiam Tolda- 
dos apaga, efcreveo oVifo-Rey com mui- 
ta prefla a Ruy Gomes da Grã , Capitão 
de Panane, que lhe mandaíTe quatrocentos 
foldados dos que tinha comíigo , porque 
não tinha donde fe valer naquella necefíi- 
dade , fenão delle ; porque fegundo as cou- 
fas da parte do Çamorim eftavam quietas , 
bailavam outros tantos que lhe poderiam 
ficar, e mais fendo elle Capitão ; porque 
por Malaca , que era a chave da índia , 
fe havia de deixar tudo , e aflim lhe pedio 
alguns navios com fuás chufmas , os quaes 
logo lhe apromptou , porque pela preíTa 
não havia tempo pêra fazer outros. Ruy 
Gomes com eítas Cartas defpedio o que 
lhe o Vifo-Rey mandou pedir , que che- 
gou a muito bom tempo , e porque todo 
aquelle verão faltou , que até lanças pêra 
a jornada de Malaca faltavam, nem havia 
no armazém o que fe coftumava mandar 
todos os annos em abaftança : e até difto 
fe valeo o Vifo-Rey da Cidade , e anda- 
ram os Vereadores pelas cafas tomando- 
Ihas dos feus cabides , a quem duas , a 

quem 



3&f ASIÀ ~DE DíOGO DE COX/TO 

quem três , com o que fe ajuntou hufflâ 
cópia arrazoada , que não podia fer mais 
miferavel eftado que efte, eítando com ta-' 
manhas duas obrigações , como de Mala-» 
ca , e Ceilão , que neftcs meímcs dias ti- 
nham chegado as Cartas de João Corrêa 
de Brito , em que pedia ao Viíb-Rey foc-* 
corro de gente, dinheiro, e mantimentos, 
porque fem dúvida teria no inverno hum 
apertado cerco , o que deo bem que en-* 
tender ao Vifo-Rey ; mas como era degran-» 
de animo , e coração , e não fe acanhava 
a nada, antes com muita brevidade á vol- 
ta da preíTa em que eílava com as coufas 
de Malaca negociou huma náo , que man- 
dou carregar de mantimentos , munições * 
e dinheiro que pode : e efcreveo ao Capi-* 
tão que fe remediaífe , porque por então 
não podia mais , que como defpediíle á 
Armada de Malaca, o proveria melhor; e 
afftrn deo tanta preíTa ás coufas de Mala-» 
ca , que aos 28. de Abril a fez fazer á vé4| 
la , e a defpedio com grandes bênçãos de 
todo o povo , por ir naquella Armada o 
remédio da índia. Os Capitães? que neíla 
jornada acompanharam a D. Paulo de Li-* 
ma , são os feguintes : D. João Pereira , e 
Francifco da Silva, cada hum em feu Ga^ 
leão; D.Bernardo de Menezes , e Mathias 
Pereira de Sampaio em Galés : nas quatro 

Ga- 



Década X. Caí». XVÍL 385? 

Gcileòtás Francifco de Soufa Pereira , Dio* 
go Soares de Mello , António Coelho , e 
Balthazar Froes : dos Capitães das fete 
fuftas D. Pedro de Lima , irmão de D. Pau- 
lo , D. Nuno Alvares Pereira 5 Simão de 
Abreu de Mello , Fernão Pegado 5 Gafpar 
de Valladares ^ Gafpar Dias , e butro era 
hum cafado de Chaul , a que não foubemoS 
o nome , que foi armado á fua cuíla. D, 
Paulo de Lima ao íallir da barra fez alar- 
do dá geíite ; e cuidando que levava fete- 
centos homens que lhe tinham promettido^ 
àchou-fe com quinhentos , dó que não ficou 
fatisfeito , por fe ter penhorado com o Vi- 
fo-Rey , e com òs Vereadores na deílruição 
de Jor ^ e efcreveo-lhe dalli cartas , nas 
quaes lhe moítrava alguma defconfiança da 
jornada pelo pouco cabedal que levava. 
Dada á vela , foi feguindo fua jornada ^ a 
que depois tornaremos. 

Neíle Abril foi também D* João da Ga- 
ma , que eftavá em Cochim ] fazer á via* 
gem de Japão de feu irmão D. Miguel da 
Gama em huma náo fua* 



Couto. Tom. VI. P. h. Bb D E~ 



3 86 

DÉCADA DECIMA 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO IX. 

CAPITULO I. 

Do que aconteceo a Martim Affonfo de 

Mello na viagem de Melinde: e de 

como dtjlruio as Cidades de Am- 

paza , e Mombaça. 

PArtido Martim Affonfo de Mello com 
roda a fua Armada junta pêra Melin- 
de, foi feguindo fua jornada cem os 
levantes em poppa, e em menos de vinte 
dias foi haver vifta do deferto de quatro 
pêra finco gráos do Norte; e correndo pe- 
la cofia abaixo -> foi tomar falia na primei- 
ra terra que achou povoada, pêra faber fe 
havia Galés , e lhe affirmáram não ferem 
pa(Tadas pêra a Coita de Melinde , pelo 
que fe deo a mor preífa que pode pêra 
chegar a Ampaza , primeiro que aquelle 
Rey tiveííe novas delle , porque eíle era 
o primeiro que levava por apontamento 
que caíligaífe , por mais comprehendidoi 
no negocio dos Turcos , e defejava de o 

to- 



Década X. Cap I. 387 

tomar de íbbrefalto pêra o colher ás mãos 5 
O que não pode fer , porque primeiro che- 
garam lá as novas que elle , alguns dias } 
nos quaes aquelle Rey 5 como fe temia, fe 
começou a fortificar , e a ajuntar gente lua* 
€ dos vizinhos, emetteo dentro na fua Ci- 
dade quatro mil homens de armas , e fez 
fuás cercas , cavas > e tapou todas as ruas 
com tranqueiras fortes , com o que ficou 
tão foberbo , que lhenaò deo nada da Ar- 
mada , quando a vio furta diante da fua 
Cidade; porque depois de Martim AíFon- 
fo furgir á viíta delia , deixou-fe eftar três 
dias fem em todos elles aquelle Rey lhe 
mandar hunia vifitaçao , fatisfaçao , nenl 
defculpa das coufas paliadas , como homem 
que com elle não queria nenhum concerto , 
e que eílava confiado no feu poder: toda- 
via o Martim Afforfo nos três dias não 
efteve ociofo , porque nelles andou notando 
o fitio da Cidade, e pela parte por que fe 
poderia commetter , e em faber a difpoíl- 
ção em que aquelle Rey eftava > e que po- 
der tinha , e de tudo fe informou muito á 
fua vontade. Paliados aquelies dias , cha- 
mou os Capitães a Confelhõ , e lhes repre- 
fentou o eftado dá Cidade ^ e as culpas 
daquelle Rey i e o regimento que levava > 
peo que lhe mandava o Vifo-Rey que o 
caltigaíTe , e que fobre tudo iíto dh efta- 
Bb ii vs 



388 ÁSIA de Diogo de Couto 

va tal , que nenhum cafo tinha até então 
feito daquella Armada ; e debatido entre í 
todos aqueile negocio , refumíram-fe em j 
que cumpria ao credito do Eftado quebrar j 
a íbberba áquelle Rey ; porque fe diílimu- i 
laíTe com elle, todos os mais fe haviam de í 
alterar , e feria perda notável , porque lo- [ 
go haviam de metter Turcos naquella cof- 
ta. Aífentado iílo , fizeram-fe todos preíles, | 
e o Capitão Mór fez de toda a gente dous ! 
efquadróes : hum delles deo a Simão de j 
Brito pêra ir pelo eítreito , que corta a j 
praia até á face da Cidade , onde eftava 
hum cães 5 e a outra tomou pêra 11 pêra ! 
deíembarcar em outra parte, e ir cominei- 
ter a Cidade pela banda do certao : e hum 
dia pela manha , que foi aos quatro que j 
alli chegaram , commettêram a defembar- 
caçao. Simão de Brito foi em todas as em- 
barcações pequenas fubindo pelo eítreito 
aííima até ao cães , onde defembarcou , fazen- 
do franca a paífagem com a arcabuzaria, que 
foi laborando de huma , e outra parte: na 
ponte acháramElRey , que fe chamava Ef- 
tombei, com quafi todo o poder, e come- 
çaram huma muito fcrmofa batalha , em 
que começou a haver damno ; mas os nof- 
fos como hiam com aquella fúria , foram 
arrancando os inimigos daquella parte , e 
mettendo-os pela Cidade dentro, e de en* 

vol- 



Década X. Cap. I. 389 

volta com elles , entraram pelos vallos , e 
tranqueiras, fazendo nelles grande deftrui- 
çao. EIRey , e hum fobrinho feu herdeiro 
do Reyno , acompanhados dos mais prin- 
cipaes dos feus , foram fempre tendo o en- 
contro aos noíTos , fazendo muito grandes 
cavallarias; e como EIRey era conhecido, 

Í>erfeguíram-no muitos ; mas como elle pe- 
eijava em defenfa da fua Cidade, não re- 
ceando golpes , metteo-íe tanto pelos nof- 
fos que veio a braços com hum António Ma- 
chado , cafado em Goa , e alli foi morto : 
dos que acudiram , D. Duarte de Mello , 
que fempre foi dos dianteiros , fez nos 
Mouros mui grande eítrago , e com aquel- 
le furor , como o defejo da honra o leva- 
va , fe foi metter entre os inimigos , onde 
fez temeridades até o matarem ás cutiladas , 
porque o cercaram muitos Mouros, Fran- 
cifco de Soufa Rolim , que também foi 
dos dianteiros , não fez menos que elle , 
porque fempre paliou á vante , pelcijando 
com os Mouros denodadamente , até que 
lhe deceparam huma mão , e foi recolhido 
de alguns dos noíTos , e mandado aos na- 
\ rios , onde depois morreo. Vafco de Fi- 
I gueiró , que fempre foi dos primeiros , met- 
| teo-fe fó em meio dos inimigos , peleijan- 
do com muito valor ; e quando algum dos 
noíTos chegaram a elle , tinha a feus pés 

mor- 



3<P ÁSIA de Diogo de Couto. 

jnortos féis , ou fete Mouros , andando elíe 
pom huma frechada pelos peitos , de que 
também morreo : em fim outros Fidalgos y 
e Cayalleiros , que fempre foram os dian* 
teiros , fizeram tanto , que acabaram de pôp 
os inimigos em desbarato , andando elles 
com a morte de feuRey quafi perdidos j 
e depois que mataram o Principe , que ffl 
cou ío , fuftentando o pezo da batalha , fe 
acabou de perder tudo y e os noífos os le- 
varam até o meio da Cidade. A eíle tem-» 
po vinha entrando o Capitão Mor pela' 
banda do certao y fem achar com quem pe^ 
leijar , porque eftava todo o poder delia 
parte ; e achando os Mouros \ que hiam 
Fugindo de Simão de Brito , os fizeram 
voltar com grande ímpeto ; mais de mii 
tornaram a dar nos que hiam viftoriofos 
com tão grande fúria , que puzeram os nofe 
fos quaíi em desbarato , e fe começaram 
aefpaihar, e a recolher de má feição. Ven-» 
do Simão de Brito tão fupita , e deforde-? 
nada mudança nos feus 5 tirou o murrião 
da cabeça , e como doudo de ver aquelle 
defmancho , começou a gritar ; Ah Senho* 
res Fidalgos , e Cavalleiros , como affint 
quereis perder huma honra 3 que tendes ga~ 
phado d força de vo/fos braços ? como af* 
fim quereis def amparar ejias cans ? E com 
Jiuma defefperada determinação fe arreme* 



Década X, Ca?. I. 391 

çou entre os Mouros , e fez entre elles taes 
maravilhas que foi efpanto ; e voltando 
muitos ao ajudar , o acharam ferido eia 
meio dos inimigos , fazendo tamanho eí- 
trago , como hum leão magoado ; e dan- 
do de refrefco nos Mouros , os puzeram 
em desbarato. O Capitão Mor chegou a 
Simão de Brito , que hia entrando após 
os inimigos , que íe recolheram pelas ca- 
fas , apôs os quaes entraram os noííos , e 
mettêram á cfpada mulheres, e meninos, e 
toda a coufa viva que acharam : alguns fe 
recolheram em humas cafas de terrado,, a~ 
pôs os quaes foi hum foldado ; e chegan- 
do á porta , metteo a cabeça de dcnrro, 
e hum delles lhe deo com hum traçado ta- 
manha cutilada pelo roílo de meio a meio , 
que lhe deitou os queixos em baixo , ao 
que elle acudio com as mãos aos ajuntar, 
e fe foi recolhendo pêra Simão de Brico , 
que em extremo fentio vello daquella ma- 
neira , porque vinha muito disforme ; e fa*- 
bendo delle onde lhe fizeram aquillo, acu- 
dio lá com hum golpe defoldados, e com- 
mettêram as cafas , trabalhando pelas en- 
trar; mas os Mouros lhas defenderam com 
grande valor, e esforço. Vendo Simão de 
Brito aquillo , mandou trazer efcadas , que 
fe encoftáram aos terrados ; e fubindo em 
íima alguns dos noífos com picões 3 fizeram 

bu- 



39^ ÁSIA de Diogq de Couto 

buracos pêra baixo , por pnde lhe lançaram 
tantas pandas de pólvora , que abrazáram 
todos o Mouros , fem efcapar hum fó ; e 
porque não houveíTe outro defaftre , como 
o daquelle foldado , porque havia mqitos 
Mouros mettidos pelas cafas , mandou q 
Capitão Mor dar fogo á Cidade , o qual 
fe ateou tão bravamente , que arderam a 
mor parte das cafas com toda a gente , e 
fazendas que nellas havia. Os foldados zor 
meçáraji) a faquear , depois do fogo acaba- 
do , e ainda acharam algumas coufas de 
fubftancia com que fe recolheram ; a Cida^? 
de ficou toda deferta , e íibrazada , e fe 
affirmou que morreram dentro nella duas 
mil peífoas , a fora muitas que fe cativar? 
ram : o Capitão Mor defcançou aquçlle 
dia , e ao outro tornou a defembarcar, e 
mandou talhar os palmares , e fazendas que 
havia de redor da Cidade , que era couf$ 
grande , porque durou ifto por efpaço de 
dez dias contínuos , nos quaes fizeram os 
noífos grandes eftragos , e fó de palmeiras 
talharam dez mil j ç além diíto mandou 
queimar huma náo , e quinze , ou vinte 
embarcações 5 que eftavam no porto ; edei«? 
xando tudo feito em pó, e cinza, embar-? 
çáram-fe todos , fem fe perderem na jor-? 
nada mais de quatro homens , ainda quei 
houve derredor de oitenta feridos que não 



Década X. Ca*. % 393 

perigaram. Dalli fe paíTou toda a Armada 
iá Cidade de Patê, onde furgio; e aquellç 
Rey mandou logo vifitar o Capitão Mor 
com grandes defculpas , e fatisfações , di- 
zendo que nunca fe apartara do ferviço de 
Elíley de Portugal , cujo vaííallo era ; e 
oue fe algum trato tivera com os Turcos, 
rora por remir fua avexação. O Capitão 
recebeo as defculpas , e lhe concedeo per- 
dão , e pazes , e o fez vaííallo com cem 
cruzados de páreas cada anno , e elle paf- 
fou diílb Carta, IDalli fe foi a Cidade de 
Lamo , cujo Rey era mais culpado, por- 
que foi q que entregou Roque de Brito, 
p qual por ter já fabido do çaíligo de Am- 
paza, tinha defpejada a Cidade , e eílava 
recolhido no certão , porque não quiz ef- 
perar a fúria dos Portuguezes. Tinha efte 
tyranno tomado aquelle Reyno a huma 
Senhora , que fora mulher do Rey palia- 
do , e ficara por morte do marido de pof- 
fe do Reyno , e vivia privadamente em hu- 
jna aldeia apartada, a qual fabendo avinda 
do Capitão Mor , o mandou vifitar , e dar- 
Jhe conta de fuás coufas , e a pedir-lhe que 
a ouviíle de fua juftiça , e lha fizeíTe , pois 
era mulher, e fempre em quanto governa- 
ra fora fervidora de EIRey de Portugual , 
e muito grande amiga dos Portuguezes. O 
Capitão a piandou cpnfolar , e lhe deo fe- 

gtt* 



394 ÁSIA de Diogo de Couto. 

guro pêra fe ir ver com elle , affirmando- 
lhe que lhe faria juftiça , e aílim efperou 
na Ilha de Lamo , com toda a gente da 
Armada poíta em armas ; e quando ella 
paíTou o rio da outra banda , a foi receber 
á borda d?lle, e lhe fez muitas honras, e 
a levou pêra humas cafas , que pêra iíTo 
tinha concertadas : alli prefentes todos os 
Capitães a ouvio, e ella lhe deo conta de 
fuás coufas muito particularmente , e de- 
pois lhe pedio que a reftituiíle a feu efta- 
do , pois o tyranno que lho tomara , fora 
traidor ao ferviço de EIRey de Portugal , 
e ella fempre fe moftrára muito leal em 
todas as coufas : o Capitão a confolou , e 
a deixou alli apofentada naquellas cafas; e 
tomando informação do cafo por peííoas 
que alli acudiram á obediência , foube que 
ella fallava verdade , e que tinha juftiça; 
e mandando feguro aos Regedores , e prin- 
cipaes da Cidade , prefentes elles , e a 
feu aprazimento , a tornou a metter de 
poíle do Reyno , e deo fentença contra o 
alevantado , em que o declarou por traidor 
contra a Coroa de Portugal , cujo vaífallo 
era , e que perdeífe todos os feus bens. 
Diíto fe fizeram autos, e papeis, e a Rai- 
nha jurou de fer fempre fiel vaíTalla de 
EIRey de Portugal por íi , e por todos os 
Regedores , e Grandes do Reyno , e lhe 

poz 



Década X. Ca*p. L 395* 

poz de páreas cem cruzados cada armo. 
Feitas eítas coufas , deípedio-fe da Rainha , 
e fokfe pêra Melinde , onde fe vio com 
aquelle Rey , que lhe fez grandes recebi- 
mentos , e elle lhe deo da parte de ElRey 
os agradecimentos de fua muita lealdade > 
e lhe aprefentou as cartas que o Viíb-Rey 
lhe mandava cheias de honras , e algumas 
peças , e brincos curiofos. Aqui neíla Ci- 
dade fe deteve alguns dias , nos quaes foi 
fempre muito bem fervido daquelle Rey, 
que fabendo que havia de paliar a Mom- 
baça , fe lhe offereceo pêra o acompanhar , 
o que lhe o Capitão Mor acceitou pela 
vontade que lhe fentio , e porque com el- 
le faria todas as coufas melhor ; e pêra 
fua paflagem lhe deo huma fuíla muito 
bem concertada 5 e elle mandou negociar 
alguns pangaios pêra a fua gente. Aqui 
chegou huma fuíla , de que era Capitão 
Miguel Coelho , que o Vifo-Rey mandou 
com cartas a Martim Aífonfo , nas quaes? 
lhe mandou que como acabaífe o negocio 
da corta , foífe invernar a Ormuz , pêra fa- 
vorecer as coufas de EIRey da Perfía con- 
tra o Turco , porque poderia fer que ven- 
do elles lá nquella Armada , acudiííem a 
Baçorá , edeixaííem a empreza daPerlia, o 
que Martim Aífonfo eftimou muito , e deo 
jpreífa á fua partida pêra Mombaça j e de- 
pois 



396 ÁSIA de Díogo de Couto 

pois de preftes , e negociado tudo , deram 
á vela pela cofta abaixo até chegarem a 
Mombaça , onde furgíram da banda de to- 
ra, pêra o Capitão Mor tomar falia da ter- 
ra, e faber o modo de como a Cidade ef- 
tava fortificada. EIRey de Mombaça efta- 
vaíbbre avifo , porque tinha novas do 
caftigo de Arnpaza ; e temerofo de outro 
tal , fortificou muito bem a fua Cidade , e 
fe proveo de todas as coufas neceífarias , 
e dentro na Cidade tinha perto de fere mil 
homens com muitas efpingardas , e armas, 
com o que eftava tão confiado, que lhe não 
deo da Armada. O Capitão Mor defcan- 
çou aquelle dia, e ao outro tomou parecer 
com EIRey de Melinde , e com os Mou- 
ros principaes de fua cafa , e com os Capi- 
tães da Armada o modo que teria na def- 
embarcação , e commettimento da Cidade; 
e depois de praticado tudo muito bem, 
vieram a refumir-fe , que fe aquelle Rey 
déíTe de li grandes fatisfações , fe lhe ac- 
ceitaífem ; e que quando não , fe commet- 
teífe a Cidade com todo o poder junto, 
e que fe deftruiífe de todo. Com iílo man- 
dou o Capitão Mor fazer preítes as coufas 
neceífarias , e deo a ordem aos Capitães 
do que haviam de fazer , e ao outro dia 
foi entrando a barra com toda a Armada; 
c paífando por dous baluartes pequenos , 

que 



Década X. Cap. I. ^y 

que tinha logo á entrada , indo pegado com 
a terra nas tuftas de Sebaftião Bugalho , e 
de feu Irmão , vendo que delles lhe atira- 
vam algumas bombardadas , faltaram em 
terra , e 1 emettêram com os baluartes , os 
quaes logo entraram , fem acharem dentro 
alguma peífoa ; porque os Mouros tanto 
que difparáram as bombardadas, e que vi- 
ram faltar os noílbs em terra , logo os lar- 
garam , e fe acolheram pêra a Cidade ; c 
não achando quem lho impedifle , embar- 
caram os dons irmãos as bombardinhas dos 
baluartes, e fe foram pêra o Capitão Mor, 
que furgio com toda a Armada defronte 
da Cidade, onde logo foi viíitado da par- 
te de EIRey , e lhe mandou pedir licença 
pêra fe ir ver com elle, e dar-lhe fuás fa- 
tisfaçoes. O Capitão Mor lha concedeo 9 
e ficou efperando por elle aquelle dia , e 
o outro , fem elle vir , mais que querer de 
recado em* recado ir entretendo o Capitão 
Mor , em quanto defpejava a Ilha , e fe 
paífou a terra firme ; porque tanto que vio 
a Armada, mudou confelho , eaííentou de 
não efperar os noííos , nem quiz ficar á 
cortezia do Capitão Mor pela culpa que 
cm íi fentio. Martim Affonfo foi logo avi- 
fado do defpejo da Cidade , e fem aguar- 
dar mais, defembarcou com toda a gente, 
c commetteo a Cidade ; a qual entrou fem 

achar 



398 ÁSIA de Diogo de Couto 

achar refííiencia, e mandou que fe lhe pu* 
7eíTe fogo por algumas partes , o qual fe 
ateou com grande braveza ; 'mas nem por 
iífo deixaram es foldados de dar bufea ás 
cafas, onde ainda acharam algumas coufas , 
como roupas , marfim, e outras fazendas, 
de que alguns ficaram ricos : o Capitão 
Mor mandou derrubar os Paços deEIRey, 
e cortar todas as hortas , e fazendas que 
na Ilha havia , que eram muitas , e muito 
importantes. 

CAPITULO II. 

Do foccorro que o Alferes Mor mandou á 
cojla de Melinde : e do que mais aconte* 
ceo a Martim Affonfo em Mombaça : e 
de como foi alli dar a não Salvador def 
troçada , e perdida : e de como Martim 
Affonfo a levou a Ormuz , e elle foi com 
a Armada ao EJireito de BaÇord , e fa« 
leceo de doença : e de como fe começou d 
Fortaleza de Mafcate. 

AS novas da chegada da Armada aMe<- 
linde correram logo a Moçambique, 
onde eítava o Alferes Mor D. Jorge de 
Menezes por Capitão , o qual como zelofo 
do fervi ço de EIRey , mandou negociar 
dous pangaios ^ em que mandou embarcar 

a 



Década X. Cap. II. 399 

a mor parte dos foldados que alli ficaram 
da náo S. Filippe , que era gente muito 
limpa , aos quaes deo feus mantimentos > 
como fez todo o inverno. Eftes pangaios 
foram ter a Mombaça ? e Martim Affonfo 
de Mello repartio aquelles foldados pelas 
fuílas , e galés , que foi huma muito boa 
companhia , e no mefmo tempo deípedio 
p Alferes Mór hum Galeoto feu , de que 
fez Capitão hum Jorge Corrêa , pêra levar 
á índia o Padre Nuno Rodrigues da Com- 
panhia , e os Japões que foram a Roma , 
. e eícreveo ao Vifo-Rey todas as novas da 
Coita , e o que por ella tinha feito Mar- 
tim Aífonfo. Eíte navio partio a 10. de 
Março ; e por achar grandes calmarias , 
poz oitenta dias no caminho até á barra 
de Goa, aonde chegaram por fim de Maio. 
Martim Affonfo, depois de deílruir a Ci- 
dade de Mombaça, deixou-fe ficar alli vin- 
te dias pêra prover em muitas coufas da- 
quella Ilha , eílando EIRey fempre da ou- 
tra banda da terra firme vendo o incêndio , 
e deílruiçao de fua Cidade ; e depois que 
vio aquellas lavaredas, fe arrependeo bem 
do erro que tinha commettido contra o fer- 
viço de EIRey de Portugal , debaixo de 
cujo amparo , e favor aquella cofia eíleve 
tantos annos , fe-m ninguém avexar aquel- 
les Reys, e Senhores , como os Turcos fi- 

ze- 



400 A S í Â ôê Diogo dè Couto 

zeram de huma fó vez qtie alíi tocaram j 
e cahindo na conta ? mandou com grande 
humildade pedir ao Capitão Mor que lhe 
perdoafle a culpa que tinha commettido* 
da qual eílava mui bem eaíligado , e que 1 
houvefle por bem de o totnar a receber á 
graça , e vaíTallagem de EIRey de Portu- 
gal , como de antes 3 porque efíava muitd 
preftes pêra obedecer , e feryir em tudo? 
o que lhe mandaffem ; e que fe houveíTe 
por fatisfeito de tantos damnos , dos quaes 
muitos annos ficariam os finaes naquellà 
Ilha , e tomou por terceiro a EIRey de 
Melinde 5 a quem efcreveo huma carta 
muito piedofa. O Capitão Mór poz aqueí* 
las coufas em Confelho; e aíTentou-fe que 
pois elle moílrava tamanho arrependimen- 
to , é promettia tamanhas fatisfaçoes 5 e 
fobre tudo eílava baítantemente caftigado , 
que lhe acceitaíle fua razão 5 porque era 
melhor fazer do ladrão fiel , que deixallò 
aflim efcandalizado , pêra fe os Turcos tor* 
naflem áquella cofta , recolhellos com me- 
lhor vontade , e cumprir com elíes ó que 
lhe tinha promettido , que era dar-lheFôr- 
taleza naquella Ilha , que o bem era tor-* 
naílo a receber á graça 3 e fazello de no- 
vo vaíTallo com o tributo que foíTe honef» 
to ; e porque EIRey de Melinde tratou 
tão bem aquelle negocio por parte daq'u el- 
le 



Década X. Ga?. IL 40 í 

lè Rey, líiadeo o Capitão Mór a entender 
que por lhe fazer ferviço o ouviria , per- 
doaria , e tornaria a receber na graça. So* 5 
bre iíto correram tantos recados , íem a- 
quelle Rey chegar á razão j que depois de 
haver vinte dias que alli eítavam > deííítio 
do negocio, e tratou de fe ir pêra Ormuz; 
e porque era neceflario avifar aoVifo-Rey 
de todas aquellas coufas , lhas eícreveo 
muito largo , e defpedio Miguel Coelho 
em o feu navio com as cartas * e lhe deo 
a cabeça de EIRey Eítombel de AmpaZa* 
que levou falgada pêra lha aprefentar* Par- 
tido eíte navio , logo o Capitão Mor fe 
embarcou; e citando pêra dar á vela, che- 
gou áquella bahia a náo Salvador da Ar- 
mada de D. jeronymo Coutinho 5 da qual 
era Capitão Miguel de Abreu, mui deítro- 
cada, desbaratada , e com muitas aguas i 
que fe lhe abriram com os tempos rijos i 
que achou antes de chegar aoCabo da Boa 
Êfperança , donde arribou ; e por não poder 
tomar Moçambique , foi paíTando de Jongo 
a bufcar alguma terra daquella coita, onde 
pudeílem fàlvap-fe , porque o feu intento 
era vararem nella ; porque com os traba- 
lhos , e infortúnios hiam taes os homens, 
que de não poderem já mais , determina- 
vam falvar as pefíbas , que da náo , nem 
das fazendas ninguém fazia conta 3 mas 
Couto. Tom. VL P. li. Ce quiz 



4<32 A S I À de Diogo de Couto 

áuiz Deòs noflb Senhor encaminhalla allí 
aquelle tempo , onde achaíle o remédio pê- 
ra fe não perder tudo ; o que fe tardara 
mais dous dias , não fó perderam náo, e fa- 
zendas , mas ainda as vidas; porque aquel- 
le Rey , que eftava efcandalizado , não ha- 
via de perdoar a nenhum. Martim AíFonfo 
de Mello em vendo a náo , foi-fe a ella , 
e achou os homens todos tão pafmados , e 
debilitados , que parecião já mortos. Sa- 
bendo do trabalho que pairaram , e do pro- 
poíito em que hiam de vararem em terra, 
os confolou , e quietou , e fez tornar de 
bom animo , offereeendo-fe pêra lhes falvar 
as peííoas , e náo, a qual fez logo furgir, 
e lhemetteo dentro muitos marinheiros da 
Armada pêra darem ás bombas ; e por mui- 
to que trabalharam , não puderam vencer 
a agua ; mas todavia foram íuílentando-a 
no eílado em que hia , que era mais de 
dez palmos de agua ; e entendendo Mar- 
tim Affonfo que fe deixaíTe aquella náo por 
aquella coita, forçado fe perderia, e ficava 
arrifcada toda aquella fazenda , gente , e 
artilheria a vir a poder de inimigos , e 
perder-fe tudo , houve que feria grande fer- 
viço de Deos , e de EIRey levar aquella 
náo a Ormuz , aonde íe poderia negociar , e 
concertar , pêra poder fazer fua viagem ; 
eque quando não eíliveífe pêra iífo ja , ao 

me- 



Década X* Cap. IL \ 403 

itienos fe não perderia de toda anáo huma 
fó taboa ; e praticando ifto com o Capi- 
tão 3 e officiaes , offereeeo-fe aos acom- 
panhar com toda aquella Armada , e que 
elle tomaria a náo á íua conta ; è fe foífe 
neceílario metter-fe eJIe em peííba dentro^ 
o faria , e que pêra as bombas revezaria os 
marinheiros de toda aquella Armada , e 
ainda os Capitães , e foldados aos dias até 
Ormuz , onde teriam o remédio mais cer- 
to , e fe lhe poria toda a diligencia no 
concerto da náo pêra poderem tornar á fua 
viagem , e quando não , que falvariam as 
fazendas, e as vidas , de que tão defconfia- 
dos eítavam ; e com eftes oíFerecimentos 
lhe mandou também fazer feus proteftos 5 
nos quaes dizia tudo o que fe tinha ofFe- 
recido , e que elles dariam conta a EIRey 
daquella náo > e ás partes de toda a fazen- 
da que nelía hia* Tanto trabalhou neíte 
negocio j que os rendeo , e tirou do pro* 
pofito em que hiam , ainda que contra von- 
tade dos mais j porque era o medo que 
-traziam tamanho , que defejavam de pôr 
os pés cm terra, e deixar a náo com todo 
o feu recheio. Tranítoríiados difto, chega-* 
ram a Melinde, aonde EIRey proveo toda 
a Armada de refrefco , e carnes em abaftan< 
ça ; e defpedidos delle, deram á vela pêra 
Ormuz 3 tomando o Capitão Mor tanto a 
Ce ii mg 



404 ÁSIA de Diogo de Couto 

náo á fua conta , que fe não affaftou nunca 
delia hum tiro de pedra , levando-a fem- j 
pre rodeada de todos os navios , por cujos ; 
Capitães repartio aos dias o trabalho das j 
bombas , os quaes quando lhe cabiam , fe | 
mettiam em a náo com a mor parte dos j 
marinheiros, foldados , e efcravos , e aílim i 
trabalharam , que foram fuítentando a náo j 
muito bem ; e chegando a Socotorá, fur- J 
giram com a náo em meio , e fizeram to- j 
dos aguada , e tomaram refrefco , e dalli J 
defpedio o Capitão Mor dous navios , de 
que eram Capitães Mattheus Mendes de 
Vafconcellos , e outro com as cartas pêra 
EIRey de Caxem de grandes offerechnen 
tos , por fer muito amigo do Eftado , pe 
dindo-lhe que lhe mandaíTe novas do ef- 
tréito , e fe fe negoceavam Galés nelle , e do 
que fe dizia pela terra; edeo por regimen- 
to áquelles Capitães que foíTemefperar a 
Ormuz. Eíles navios chegaram a Caxem 3 e 
os Capitães fe viram com aquelle Rey, e 
lhe deram as cartas 5 e perguntaram por 
novas , e delle fouberam fazer-fe preíles o 
Mira Alebec com quatro Galés , que cor- 
ria fama ferem pêra a coita de Melinde, 
e que fem dúvida no verão feguinte iriaj 
fazer Fortaleza em Mombaça, como eftavaj 
concertado com aquelle Rey ; e fabendo 
^elle as novas do queMartim Aífonfo tinha 

fe* 



Década X. Cap. II. 40J 

feito na cofta, e dos caftigos que dera aos 
Rebeis , eítimou-as muito , e lhe eícreveo o 
gofto que difto recebera , e o que corria 
pela terra , e a voltas diflb muitos cum- 
primentos , dizendo que era vafíalio , e fer- 
vidor de EIRey de Portugal, e que por tal 
merecia de feus Capitães todas as honras 
que lhefizeíTem, eque elle recebera aquel- 
la vifitação por huma das maiores da vida; 
e provendo-fe os navios de muitos refref- 
cos , que EIRey lhes mandou dar , fizeram 
vela pêra Ormuz , e na coita da Arábia en- 
contraram duas Gelvas do eftreito ? as quaes 
tomaram, e a gente delias mettida á efpa- 
da, e as fazendas recolhidas em os navios 
as deixaram, e fizeram fua derrota; e che- 
gando á aguada de Teive , acharam junta 
toda a Armada com a náo , a qual o Ca- 
pitão Mor viíitava todos os dias pêra ver 
o eítado em que eílava , e como todos tra- 
balhavam ; e dando cartas , e as novas ao 
Capitão Mor , fentio-as muito , porque en- 
tendeo que fe lhe não atalhavam , forçado 
metteriam o pé nac^uella cofta , e fariam 
Fortaleza em Mombaça , fegundo aquelle 
Rey ficava efcandalizado. Dalli pardo a 
Armada , e chegou a Ormuz , e a náo do 
Rey-no defcarregou fuás fazendas ; e por 
aíTentarem os officiaes que não eítava pê- 
ra poder fazer viagem, ordenou João Go- 
mes 



4o6 Ã S I A de Díogo de Couto 

mes da Silva , Capitão daquelía Fortaleza, 
de mandar huma náo por fua conta ao 
Reyno , e comprou huma muito fermofa, 
que aiii eftava , que era de hum António 
Ferreira de Baçaim , a qual fe chamava 
NoíTa Senhora do Rofario ., e fe negociou 
muito bem , e em Novembro feguinte fe 
fez á vela com a carga da náo Salvador, 
<e com os mefmos officiaes ; e por achar 
também contraftes no Cabo da Boa Efpe* 
rança , tornou a arribar a Moçambique , 
aonde eíleve o inverno de 15^88. e no mez 
de Dezembro feguinte partio pêra o Rey- 
no 5 aonde chegou , e foi tomar Peniche 
em Maio de 1589. e fabendo-fe as novas 
em Lisboa ? mandou o Cardeal Alberto as 
Galés , e muitas barcas pefeadeiras pêra o 
metterem dentro, como fizeran ; e não ha* 
vendo vinte e quatro horas que tinha en- 
trado , appareceo aquella grande Armada 
Ingleza, em que vinha o Prior do Crato, 
da qual Deos Noífo Senhor a livrou mila- 
grofamente ; e depois de furta defronte dos 
Paços, mandou o Cardeal metter nella An- 
tónio de Abreu e Soufa , que tinha anda- 
do alguns annos na índia pêra a defender, 
fe os Ingíezes entraíTem dentro, 

Martim AíFonfo de Mello , depois de 
defeançar alguns dias , proveo de novo a 
•fua Aunada 5 e com ella fe partio pêra o 

ef- 



Década X. Cap. II. 407 

eílreito > como lhe o Viíb-Rey mandou y 
pêra que foubeíTem os Turcos que andava 
elle por alli ; e eftando na Ilha de Quexu- 
me, adoeceo elle de humas febres , pelo 
que lhe foi forçado r.ecolher-fe a Ormuz , 
e deixou por Capitão Mor de todos os na- 
vios de remo a Diogo Nunes Pedrofo , que 
era Feitor da Armada. Em Ormuz crefcê- 
ram as febres a Martim Aífonfo de feição 
que em finco dias faleceo , e foi enterrado 
em NolTa Senhora da Efperança com mui- 
to fentimento de todos, por fer muito bom 
Fidalgo. Foi filho do Abbade de Pombei- 
ro , e cafado na índia com Dona Violante 
da Cofta , filha de Simão da Coíla , avalea- 
dor da Alfandega de Ormuz , que fervio 
muitos annos o cargo de Veador da Fa- 
zenda , homem muito honrado , e de boa 
peílba : teve de fua mulher hum filho , cha- 
mado Gafpar de Mello, a que EIRey deo 
pelos ferviços de leu Pai a Capitania de 
Chaul : teve mais duas filhas , huma cha- 
mada Dona Maria de Mello , cafada com 
D. Francifco Mafcarenhas, filho de D. Fer- 
nando Mafcarenhas de Santarém , a qual 
elle mandou pêra o Reyno em companhia 
de feu irmão D. Vafco Mafcarenhas , e no 
mar deiappareceo a náo-em que hia: a ou- 
tra filha fe chama Dona Branca , que eftá 
cafada em Baçaim com D. Francifco Tello , 

fi- 



4oS ÁSIA de Díogo de Couto 

filho de D. Roque Tello. A Armada de 
Martim Affoníb andou no eftreito até Se- 
tembro , porque fe aíTentou ler aííim ne* 
eelTario , tanto pêra favorecer os va (Tal los 
de ElRey da Períia , quanto por tirar os 
foldados de Ormuz , por não haver brigas , 
e defmanchos , e e n Setembro fe foi pêra 
Ormuz ; e Simão da Coita , fogro de Mar- 
tim Affbnfo , tomou entrega da Armada , 
e fe embarcou nella pêra Goa 3 aonde che- 
gou em Outubro, 

Belchior Calaça , tanto que chegou a 
Ormuz , começou a correr com as coufas 
pêra a Fortaleza de Mafcate , conforme ao 
regimento que levava ; e dando-lhe o Ca- 
pitão todo o aviamento , partio-fe pêra 
Mafcate , e começou a pôr as mãos na 
obra da Fortaleza no próprio lugar em que 
eíleve a antiga, e lhe poz o nome $. João y 
e a acabou em fua perfeição , e a proveo 
de artilheria , e fez ciílerna capaz de reco-* 
Iher agua pêra .toda a gente 5 e per$ mui* 
to tempo f 



CA. 



Década X. Ca?. III. 40^ 

CAPITULO III. 

Vô que efte anno aconteceo na Per/la : t 
de como Abax Mirza prendeo EIRey feu 
Pai , e os irmãos , e fe fez Rey : e de 
como os Husbeques entraram na Provín- 
cia de Çohoraçone. 

QUando o anno paíTado demos conta 
das coufas fuccedidas na Períia , e da 
morte do Príncipe Amirhazem , dei- 
xámos aquellas coufas em alguns Grandes 
do Reyno pertenderem fazer Rey a Tho- 
maz , filho mais moço de EIRey , que fe- 
ria de idade de oito annos , fazendo conta 
de Abax Mirza , que eftava no Cohoraço- 
ne , a quem o Reyno pertencia, porque o 
tinham por muito valerofo, e que lhe não 
havia de confentir terem tanta parte no 
governo daquelle Reyno , como elles per- 
tendiam ter 3 fendo Rey o Thamaz , que 
era menino , havendo Aligolicham , e I£ 
inaelchan , que eram as peífoas principaes 
entre todos , que depois da morte de EI- 
Rey , que era muito velho , lhe ficaria o 
moço debaixo da fua Tutoria , com cuja 
cor elles governariam abfoiutamente tudo. 
Deftas coufas foi logo avifado Abaz Mir- 
za no Cohoraçone por Cartas de outros, 
que defejavain dç elle fer Rey, o qual lo* 



4io ÁSIA de Diogo de Couto 

go fe carteou com Mahamede Chan, Go- 
vernador de Caxam , de quem quiz fiar 
aquelle negocio por obrigações que lhe ti- 
nha , e lhe defcubrio como pcrtcndia fa- 
zer-fe Rey da Períia , e prender a feu pai , 
rogando-lhe que eítiveíie preftes com amais 
gente que pudeíTe , e que tomaíTe logo ília 
voz 5 porque já hia pelo caminho ; e pro- 
vendo as Cidades de Heri , Maxat , e ou- 
tras de guarnições por califa dos Husbe- 
ques feus vizinhos , de quem fe receava, 
por haver por novas que eftavam cartea- 
dos com os Turcos pêra contra a Períia ; 
e ajuntando a mais gente que pode , foi 
caminhando com tenção de dar logo no 
pai , e o prender. Mahamede Chan > tanto 
que lhe deram as Cartas do Príncipe , logo 
tomou voz por elle , e o appelíidou Rey 
da Períia , e fe fortificou na Cidade de 
Caxam , que era muito forte. Iílo chegou 
logo a ElRey , que o fentio muito; e jun- 
tando fuás gentes , fahio em peífoa de Caf- 
bi , e foi cercar Mahamede , e lhe deo 
muito afperos combates , dos quaes fe elle 
defendeo com muito valor , confiado em 
não tardar nada o Príncipe , o qual tanto 
que entrou pela Períia , e que foube eílar 
ElRey fobre Caxam , deo volta , e foi-fe 
metter em Casbi , e fe apoderou dos pa- 
ços , e thefouros do pai, e logo lhe acu* 

dí- 



Década X. Cap. III. 411 

díram muitos de fua valia , com quem já 
eftava carteado , e ajuntou hum arrazoado 
exercito pêra ir íbecorrer Caxam. Eftas no- 
vas correram logo a EIRey, com as quaes 
os Grandes , que tinham outra pertençao , 
ficaram atalhados , e perfuadíram a EIRey 
que caftigaííe a^uillo, e acudiíTe logo com 
todo o poder ; e tanto íizerão neíle nego- 
cio , que o fizeram alevantar de fobre Ca- 
xam ; e chegando á Cidade de Cucí fete 
dias de caminho de Casbi , deixou-fe alli 
ficar , e deípedio o exercito com todos os 
Capitães , pêra que lhe foffem trazer o fi- 
lho. Chegados todos a Casbi, aííentáráo o 
feu exercito fora ; e fabendo do modo de 
como o Príncipe eftava fortificado , e pro- 
vido de gente , determinaram de o haver 
ás mãos por manha , e aífim lhe manda- 
ram recado como eram alli chegados pêra 
lhe darem obediência, e o alevantarem por 
Rey, por feu pai aífim o mandar, porque 
por velho , cego , e enfermo não eftava já 
pêra tamanha carga , como o governo da- 
queiles Reynos , e mais em tempo que era 
neceiTario hum Rey moço de animo , como 
elle tinha , pêra fe oppôr ao Turco , que 
tamanha fede moftrava daquelle Império : 
que fe foííe pêra elles pêra o levarem 
diante de feu pai , e lhe fazerem as cere- 
jnonias acoftumadas na Períía, porque feus 

va£ 



412 A ST A de Diogo de Couto 

vaíTallos com mór gofto o' recebeíTem , e 
ferviflem , fabendo que feu pai renuncia- 
va neile os Eftados , e diíto grandes pro- 
metimentos pêra o acolherem ás mãos, e 
matarem-no logo , fem o pai faber, pêra 
aífim ficar fua ryrannia mais livre. Não fal- 
tou quem avifaife o Príncipe de todas a- 
quellas coufas ; porque fe iílb não fora , o 
ardil dos Capitães era diabólico , e de que 
o Principe não pudera fugir j e vendo as 
invenções que com elle queriam ufar , quiz 
também por outros havellos ás mãos ; e 
pêra vir ao eífeito do que logo imaginou, 
mandou dizer áquelles Capitães , que elle 
não queria o nome de Rey , em quanto 
feu pai foíTe vivo ; mas pois queria defcar- 
regar fobre elle o pezo do Império , que 
elle o acceitaria com nome de Governador 
pêra com elle juntamente governar, e aju- 
dar a defender aquelle Reyno ; mas que 
por ííma diíto como a elles Sultões pare- 
cia bem que elle acceitaíle o que o pai 
lhe offerecia , que foíTe hum dclles ver-fe 
com elle pêra affentarem o modo que nif- 
fo havia de ter , e que depois de pratica- 
do fe metteriam em fuás mãos , pêra que 
fizeffem o que feu pai ordenava. Dada ef- 
ta refpoíla aos Sultões , houveram o feu 
negocio por acabado ; e pêra fegurarem 
mais o Principe, foram a elle Aligelichan , 

e 



Década X. Cap. III. 415 

€ Ifmaelchan , que eram os principaes da 
conjuração , pêra que vendo elles aquella 
facilidade > fe fiar depois delles ; e entran- 
do em Casbi, foram aos paços, e fe apre- 
fentáram diante do Principe ; e como elle 
tinha já imaginado o que havia de fazer, 
os recolheo em huma camera , e lhes fez 
efcrever cartas a outros dous Sultões mais 
principaes , nas quaes lhes diziam que ti- 
nham feito o negocio que defejavam , que 
relevava muito irem lá pêra o acabarem 
de arrematar. Os Sultões em lhes dando 
as cartas > logo fe foram a Casbi : o Prin- 
cipe os recolheo em outra cafa , e fez ef- 
crever affím a eíles , como aos outros ou- 
tras cartas aos outros dous , em que os 
mandavam chamar , e por efta maneira a- 
carretou dezoito Sultões , em que eftava 
a força do exercito do pai , e a todos 
mandou coitar a cabeça , e os corpos man- 
dou metter em faccos cozidos , e os fez 
Jevar ao arraial de prefente aos mais Sul- 
tões , e com elles foram alguns pregoeiros , 
que por todo o arraial andaram apregoan- 
do Abaz Mirza por Rey , e que todo o 
que por iíTo o não conheceíle , feria logo 
morto 3 e efpedaçado com fua mulher , e 
filhos, e fuás fazendas perdidas. Tanto que 
no exercito fe viram aquelles corpos , e 
ouviram a graveza dos pregões , ajuntando- 

fe 



414 A SI A de Diogo de Couto 

fe todos os Sultões, houveram entre íi con* 
felho ? e aííentáram obedecer ao Príncipe, 
porque por derradeiro havia de herdar a~ 
quelle Reyno 5 e depois fe poderia fatisfa- 
zer de todos. Reíblutos nifto , lhe manda- 
ram a obediência pelos principaes , e o 
alevantáram por Rey com as ceremonias 
acoftumadas naquelle Reyno , e elle tomou 
poíTe logo do Exercito. Tanto que iíto 
chegou a EIRey na Cidade de Cuba 5 aon- 
de eftava , xeceando-fe que o filho o qui- 
zeífe matar , largou tudo , e foi-fe a Cas- 
bi com dous filhos que tinha o Thamaz 
Mirza , que os outros queriam alevantar 
por Rey , e Abel Falop Mirza , que eram 
meninos ; e entrando pelos Paços , apreíen- 
tou-fe ao filho com os outros pela mão, 
e huma efpada pendurada ao pefcoço de 
huma touca ? e lhe diíTe , que alli fe lhe 
offerecia , que fe o quizeíTe matar, que al- 
li trazia pêra iíTo aquella efpada; mas que 
lhe alembrava que era feu pai , velho , e 
doente , e que não tinha de que fe temer 
deile , nem daquelles irmãos meninos , que 
eram innocentes em tudo , os quaes elle 
lhe encommendava muito. Abaz Mirza 
vendo o velho pai daquella maneira, dei^ 
tou-fe pelo chão , e o alevantou com mui- 
ta humildade, dizendo-lhe que elle era feu 
pai , e feu fenhor , que nunca Deos qui- 

zef* 



Década X. Cap. III. 415: 

zeífe que em quanto foííe vivo , elle fe ap- 
pellidaíTe Rey ; mas que por fer velho , e 
canfado , e íern difpofição pêra es traba- 
lhos daquelle Império , acudiria a lho aju- 
dar a governar , e atalhar a tyrannia que os 
Sultões mortos lhe queriam ordenar ; que 
elle dalli por diante tomava fobre li a de- 
fensão daquelle Reyno 3 que defeançafle 
elle , e fe foífe pêra a Cidade de Cacala 
( que era muito frefea , e féis dias de ca- 
minho de Casbi) e que alli eíliveífe com 
o titulo de Rey , e como tal governaífe, 
e mandafle tudo , e creaífe feus filhos ? e 
que elle como feu Capitão Geral correria 
com as coufas da guerra , e acudiria aos 
eílragos que os Turcos tinham feito naquel- 
le Império. EIRey eííimou muito aquillo 5 
que o filho ordenou , e fe recolheo a Ca- 
cala , onde viveo fempre obedecido por 
Rey , e o Príncipe Abax Mirza ficou go- 
vernando as coufas da guerra , e fempre 
deitara os Turcos fora da Períia , fe lhe 
não fora neceiíario acudir á Provinda de - 
Cohoraçone , por lhe virem novas que o 
Príncipe Amonechan , filho d 5 Abdulachan 
Rey dos Husbeques , e Senhor do Impé- 
rio de Camurcant , lhe entrava com grof- 
fos exércitos por a^uella Provincia Coho- 
raçone pêra divertir o Abax Mirza , e elle 
ter tempo mais folgado pêra mandar por 

lá 



4i6 AS IA de Diogo de Cotrro 

lá fazer todos os fortes que quizeíTe nas 
Províncias da Perfia ; e affim entrou eíte 
Príncipe Husbeque pelo Cohoraçone com 
poderofos exércitos > e ganhou por força 
de armas as Cidades de Heri , e Maxat, 
que são as principaes daquella Provinda, 
algumas ficaram muitos annos em feu po^ 
der. Abax Mirza tanto que foube as no^ 
vas , defpedio alguns Sultões com exerci-» 
tos a proverem, e fortificarem as mais Ci- 
dades até elle em peílba lhe poder acudir , 
e nefte eftado deixaremos as coufas daPer- 
íia até tornar a ellas. 

CAPITULO IV. 

Das grandes apercebimentos que o Rajií 
fez pêra contra Columbo : e de co- 
rno o Capitão João Corrêa 
Je fortificou. 

DEclarado o Rajú na guerra ? e tendo 
já juntas as achegas neceflarias , fez 
chamamento de todas fuás gentes y e na 
Cidade de Biagão poz toda a maça da 
exercito pêra fe pôr logo a caminho. Dif- 
to teve João Corrêa avifo ; e porque tar- 
dava o recado de Goa , e receava achar-fe 
em huma grande neceíTicLnde , defpedio dous 
homens com cartas de credito , hum pêra 

ir 



Década X. Caí*. IV. 41? 

ir a Manar levar todo o arroz que pudefc 
fe ; e o outro , que era o Modeliar Diogo 
da Silva, pêra Negapatao. Eíles homens íe 
deram tanta preíla , que quando chegou a 
naveta de Domingos de Aguiar $ que o Vi- 
fo-Rey mandou com provimentos (como 
atrás fica dito) já na Fortaleza havia tan- 
to , que todo o Inverno valeo á fete xara- 
íins o candil , valendo em Coehitti a doze* 
e em Coulao a quatorze ; e com o dinhei^ 
ro que oVifo-Rey mandou na ttáò, pagou 
hum quartel geral, com o que ficou a For- 
taleza muito bem provida , tirando dè gen* 
te que tinha pouco ; e com todos eíles tra- 
balhos não fe defcuidou o Capitão de fc 
ir fortificando por onde lhe parecia maia 
neceffario ; e porque a fortificação que dif- 
femos que tinha feita do Baluarte S. João 
até á praia lhe pareceo fraca , mandou fa- 
zer huma taipa groíTa de duas braças de 
altura da banda de dentro com huma cou- 
raça de madeira na praia, e entre ella, e 
o Baluarte fez huma guarita com feus an- 
daimes pêra os que peleijáíTem delia , e 
nefía obra trabalharam até os Religiofos 
de S* Francifco , que fempre em todas as 
necelTidades foram os primeiros. 

O Rajú logo fe poz em campo > e fez 
alardo de toda a gente , e da fabrica i e 
petrechos de guerra, e achou as coufas fe- 
Couto. Tom. VL P. Iu Dd guin* 



4i 8 ÁSIA de Diogo de Couto 

guintes : gente de peleija ííncoenta mil ho- 
mens ; de gaftadores , e fervidores feíTenta 
mil ; e de elefantes, aílim de peleija, co- 
mo de ferviço , dous mil e duzentos , de 
Í>eças de artilheria de bronze , entre grof- 
às , e miúdas , cento e ílncoenta ; de bois 
de carga quarenta mil ; de machados dez 
mil , de alavancas três mil ; de fouces vin- 
te mil ; de picões ( a que na índia chamam 
Codelís ) dous mil ; de enxadas féis mil , 
muitas armas de fobrecellente de todas as 
fortes ; quatrocentos ferreiros pêra faze- 
rem ferros de frechas , e outras ferramen- 
tas , mil carpinteiros , quatrocentos bom- 
bardeiros Jaós , Cafres , e de outras Na- 
ções , que a mor parte foram de Portugue- 
zes , muita madeira grafia , e miúda , de 
que fez dous carros a modo de Caftellos 
íobre nove rodas cada hum , e ellas da al- 
tura de hum homem , canas pêra eíteiras 
infinitas , grande quantidade de enxofre , 
falitre , e pólvora , muito chumbo > e pe- 
louros de toda a forte , e em certos portos 
da Ilha mandou feíTenta e íinco fuftas , e 
çatures , e quatrocentas embarcações peque- 
nas de ferviço , e todas as mais coufas que 
lhe pareceram neceíTarias pêra o cerco que 
efperava pôr 5 do qual tinha determinado 
não levar mão até tomar a Fortaleza ; e 
primeiro que fe abalaíle com toda eíla po- 

ten~ 



Década X. Cap. XV, 419 

teílcia , quiz fazer alguns facrificios a feuâ 
Ídolos , e applacallos , pêra que lhe deffem 
viíloria dos Portuguezes ; e pêra iflb fe 
foi a hum pagode 3 e lhe deo dadivas , e 
offereceo offeftas groflas , e os mandou 
confultar por feus Sacerdotes , e feiticeiros 3 
pêra faber delles fe havia de alcançar vi- 
cloria naquella jornada ; e corno a coufa 
de que o demónio tem mais fede he de 
fangue humano , refpondeõ que fe queriam 
entrar em Columbo , e haver vi&oria doâ 
brancos , que lhe haviam de dar fatigue de 
innocentes pêra beber , e fe banhar nelle. 
Com eíla refpoíta mandou ajuntar quinhen- 
tos meninos machos , e fêmeas até á ida- 
de de dez annos , e diante dos idolos os 
mandou degollar, e recolheo o fangue em 
grandes caldeiras , e lhas aprefentou , e 
feus Sacerdotes os borrifavam todos com 
aquelle fangue. Fôi eíle efpedlaculo o mais 
inhumano , e cruel que nunca fe vio , por- 
que fe fez diante dos olhos dos pais , e 
das mais daquelles innocentes , ou marty* 
tes do demónio 5 cujas lagrimas mifturadas 
com o quente fangue dos filhos também 
foram facrificadas. Feita eíla abominável 
fuperftição, querendo animai* todos os feus 
pêra eíla jornada , lhes metteo em cabeça 
que os idolos lhe tinhao promeitído qtie 
lhes lançaria agua nas bombardas dos Por- 

Dd ii tu- 



4^0 ÁSIA de Diogo de Coutg 

tuguezes , pêra que não tomaíTem fogo; 
nem lhes fizeíTem damno , e que lhes ti- 
nhao fegurado tomar daquella feita a Ci- 
dade de Columbo , e de lhe entregar nas 
mãos EIRey D. João , que nella eílava ; e 
com iíto mandou lançar pregões por todo 
o Exercito , que elle dava aquella Cidade 
a faço a todos os foldados , e que delia 
não queria mais que a prata das Igrejas, 
e artilheria ; e pêra que foíTe tido dos feus 
por fanto , e lhe crerem tudo o que dizia , 
fingia invenções diabólicas , e efcondia pef- 
foas detrás dos idolos , que davam as re- 
fpoftas que elle queria , e de que os tinha 
enfaiados ; e com iíto , que aquelles rudes 
não entendiam, o tinham por fanto , e o 
adoravam ; e chegou o feu defatino a tan- 
to , que mandou fazer muitas figuras de 
ouro em feu nome , e as mandou repartir 
por todos os Reynos , e pollos entre os 
idolos pêra lhe fazerem também adoração, 
como a elles. Feito iíto , começou a pôr 
a fua gente em ordem , e repartio a feu 
modo , dando a dianteira a Vijacom Mu- ] 
delca , e a Gafanaita Arache, e começou, 
logo a caminhar , e aquelle dia fe foi alo-» j 
jar em Maleriava ; e ao fegundo chegou a! 
Calane,onde fe deteve dous dias, e dalli | 
fe foi apofentar na vargea de Matugare,! 
onde eíteve féis dias, nos quaes fez huma 

pon- 



Década X. Cap. IV. 421 

ponte fobre hum eíleiro de Nacolagão , pe- 
la qual paliou todo o exercito , e paliou 
até á viíta da Fortaleza aos 4. de Junho , 
e aíTentou o arraial na parte que efcolheo > 
e da Fortaleza o falváram algumas peílas 
de artilheria, com que lhe derrubaram al- 
guma gente, o que elleteve por ruim agou- 
ro , e o demónio lhe moítrou que era men- 
tirofo , e que não podia cumprir nada do 
que lhe tinha promettido , que a artilheria 
não tomaria fogo. AlTentado o arraial , ro- 
deou-fe logo de huma fermofa cava, epor 
dentro fe fortificou de tranqueiras *de duas 
faces forradas de efteiras , o que tudo fe 
fez com muita preíTa pela grande fabrica 
que trazia ; e porque no cerco de Manoel 
de Soufa lhe fizeram muito damno pela 
parte da alagòa por caufa dos caílellos , e 
fuílas que nella trouxe , determinou de a 
cfgotar , aífim por lhe não fazerem delia 
outro damno , como por commetter por 
aquella parte a entrada da Fortaleza , por 
ferem por alli os muros mais fracos , e 
pêra a poder bater toda á roda , porque 
eíla alagôa cerca mais de meia Cidade, o 
que a fazia fer mais forte , e nefta obra: 
poz logo as mãos primeiro que tudo. João 
Corrêa eílava já tão fortificado , e prepa- 
rado , que lhe não deo do poder que na- 
via , e tinha já desfeitas todas as hortas 

que 



4^2 A S I À de Diogo de Couto 

que da banda de fora eítavam, e a madei* 
ra que era muita , recolhida dentro , com o 
que ficava o campo mais deícuberto ; e 
porque a Ilha de António de Mendoça , 
que eílá dos muros pêra fora , e que no 
cerco de Manoel de Soufa deo muito tra* 
balho em a fuílentar pela gente que nella 
tinha occupada, e pelo rifco em que fem* 
pre eíteve por efcufar os damnos que alli 
tinham recebido , e pêra não ter gente fó-> 
ra da Fortaleza , com o parecer de todos 
a largou , e mandou cortar todas as pai- 
meiras que feriam feiscentas , e as reco- 
Iheo dentro pêra os andaimes das cer- 
cas, e as folhas pêra cuberturas das guari-» 
tas, e eílancias : tinha a Cidade pela parte 
do Certao cento noventa e duas braças de 
circuito com muitos baluartes, e guaritas, 
e não havia mais que trezentos Português 
zes velhos , e moços , em que entravam 
mais de cento inúteis, eLafcarins da terra 
com moços de Portuguezes havia de redor 
de fetecentos , gente muito pouca pêra de-? I 
fensao de tamanha cerca, e com ella fere-? 
mediou o Capitão o melhor que pode , e 
repartio , e proveo as eíhncias por efta ma-» 
neira: no Baluarte S.João, que era ornais 
importante , poz Thomé de Soiifa de Ar- 
ronches ; e na Couraça defobre o mar Dio- 
go Goníaives > hum homem velho ; e cur* 

ia* 



Década X. Ca?. IV, 423 

fado na guerra ; na guarita do meio Diogo 
da Silva Modeliar , e havia também de 
guardar a taipa nova ; João Garcia no Ba- 
luarte S. Thomé ; Eftevao Gomes no de 
Santo Eftevao ; no lanço do muro deíle 
Baluarte até á guarita Santa Anna poz Mi- 
guel Vaz com hum Port^guez , e os oito 
Chingalas , que fe vieram do Rajú pêra a 
Fortaleza ; no Baluarte S. Sebaftião ficou 
Luiz Corrêa da Silva; e no lanço do mu- 
ro , que corre delle até Santo António , a 
D. João de Auftria , Modeliar de Cândia , 
que depois fe levantou com aquelle Rey- 
no , como em feu lugar diremos. No Ba- 
luarte Santo António ficou Luiz da Coita, 
e no da Madre de Deos Eftevao Corrêa , 
ambos cafados na terra : no lanço do mu- 
ro , que corre até S. Gonçalo , fe poz Ta- 
vira Arache , e Mattheus Gonfalves Mo- 
cheria com feus Lafcarins : a Profpero Tof- 
eano lhe coube o Baluarte S. Gonçalo , e 
a China Puli , e a Sebaftião Bayão o lanço 
do muro , que vai delle até S. Miguel > 
e nefte Baluarte ficou Domingos Marques ; 
e no lanço que vai delle até o Baluarte 
Conceição , poz o Capitão alguns Dorias 
com feus Pachas , que he gente baixa emi 
fangue , mas esforçada na guerra: no Ba- 
luarte N. Senhora da Conceição poz An- 
tónio Pereira , e outro cafado na terra ; e 

Pe- 



4^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

Pedro Affbnfo Arache no lanço que deU 
le corre até á guarita S. Paulo , e até aos 
canos ; e Gurapu Arache no lanço que dal- 
li vai até o Baluarte S. Paulo, e neíte Ba- 
Juarte ficou Thomé Pires. Dalli até o Ba- 
luarte S. JeronytriQ ficou Sinia Arache com 
ieus Pachas; e no Baluarte Eítevão Dias, 
e delle até á guarita Santa Catharina Ge- 
ria Arache, e na guarita António Tinoco, 
e na de S. Martinho Affonfo da Silva , e 
dalli até á guarita do canto Salvador Mar- 
tins , e na Guarita Silveítre Manco com 
alguma gente da terra ; no Baluarte Sant- 
iago, que guarda a porta , e o campo de 
Mapano, ficou António Guerreiro; e delle 
até ao mar , que contém três cortinas de 
taipa CQm duas guaritas , Manoel Pereira 
Arache , tudo o mais da Fortaleza ficava 
fobre a coita brava até á ponta de S. Lou-> 
renço , aonde a braveza das ondas naquella 
parte, que tudo eram rochas , faziam gran- 
des terremotos , com o que tudo por alli 
ficava mais forte que todas as mais ; da 
ponta de S. Lourenço até á ponta do Tron- 
co, que he a bahia , onde fe recolhem os 
navios , ficou Manoel Gomes Rapoufo 3 e 
do Tronco até a Couraça velha , que he 
do Baluartç Sant-Iago , e delle até á gua-; 
ri ta nova, que tudo era defendido das on- 
das, encarregou a Diogo Gqnfalves, Aífim 

fi- 



Década X. Cap. IV* 425- 

ficou com a pouquidade da gente que havia 
provida toda a Cidade á roda , o melhor 
que pode fer , ficando o Capitão de fora com 
íincoenta foldados de fua obrigação pêra 
acudir a todas as neceífidades ; e pêra re- 
médio delias , ordenou três fobre-roldas 
pêra de contínuo roldarem a Cidade , e o 
avifarem de tudo o que fuccedia , e o que 
fe havia de mifter ; e porque a alagôa era a 
coufa mais importante á defensão da Cida- 
de que todas , e delia íe podia fazer maior 
damno aos inimigos , mandou o Capitão 
metier nella huma Galeota , de que fez Ca- 
pitão Manoel Pinto 3 homem mui nobre , e 
bom Cavaileiro , com alguns companheiros , 
e humaFufta mais, de que era Capitão An- 
tónio Quarefma , e hum Balão , em que poz 
António Mialheiro : eltes navios com feus 
falcões , e berços fizeram na guerra de Ma- 
noel de Soufa tantos damnos aos inimigos , 
que de efcandalizado o Rajú , determinou 
de efgotar a alagôa ; e porque não fícaííe 
alguma coufa por fazer, defpedio Belchior 
Nogueira, e Gonçalo Fernandes , cada hum 
emfeuTone, hum pêra ir a Goa pedir foc- 
corro , e outro pêra ir dando avifo de Ma- 
nar até Cochim. do aperto em que ficava 
aquella Fortaleza , pêra que a foccorreífem r 
os quaes partiram a 12. de Julho; e o dia 
q\ie fehíram de Columbo lhe correram ai- 



426 ÁSIA de Diogo de Couto 

gumas embarcações do Rajú até féis léguas 
ao mar que os deixaram , e em dous dias 
paliaram á outra cofta , e o Nogueira to- 
mou o caminho por terra pêra Goa ; e o 
outro foi dando recado pêra todos aquel- 
les portos do aperto em que Columbo fi- 
cava , com o que fe começaram algumas 
peílbas a negociar pêra o foccorrerem. 

CAPITULO V. 

De como o Rajú fe fortificou , e começou 

a. efgotar a alagôa : e de alguns aJfaU 

tos que os noffos lhe deram 5 em que 

fempre lhe fizeram damno. 

POÍlo que o Rajú eílava já a tiro de 
camello da noíla Fortaleza , entenden- 
do que pêra o negocio da alagôa, que era 
o primeiro que queria começar , lhe era 
neceíTario eftar mais perto pêra feguramen- 
te o poder fazer , mandou abrir por baixo 
da terra caminhos muito largos com feus 
repairos por onde os feus pudeífem chegar 
á obra com menos rifco , e com iílb man- 
dou cortar os matos que hiam da cava até 
o lugar dos Pachas fobre a Ilha que fe 
largou (e ha-fe de entender que todas as 
vezes que fe nomear a Ilha, he efta de An- 
tónio de Mendoça) e por detrás do Mon- 
te 



Década X. Cap. V* 427 

te da Pedreira fe fizeram algumas tranquei- 
ras pêra Nacalogoão , as quaes foram cor- 
rendo a Leite pelo valle abaixo , e fe fahio 
pela outra banda defronte do Baluarte 
Santo Eitevão , onde fe fez hum famofo 
Baluarte pêra mor fortaleza , com o qual 
íicou fechada toda aquella parte , e pela 
mefma ordem correram com outra tranquei- 
ra naquella parte do padrafto , que defce fo- 
bre o que divide a Ilha da terra firme , e 
ainda defcêram com ella mais abaixo , e 
a tornaram a fechar com a de Uma j e por- 
que efta tranqueira ficava muito perto da 
Fortaleza, em quanto fe nella trabalhava, 
mandou o Capitão dar nella por alguns 
Lafcarins , os quaes a entraram , e com 
muitas panellas de pólvora abrazáram a to- 
dos os que nella andavam, e á efpada ma- 
taram muitos , e tomaram hum vivo com 
que fe recolheram com muita madeira que 
eílava pçra a tranqueira , e os mais dos 
dias lhe davam eítes aífaltos , dos quaes os 
Lafcarins fempre vinham com as efpadas 
tintas, e com alguns cativos. 

O Rajú tanto que eíleve fortificado 
em baixo junto da Ilha, tratou logo de ef- 
gotar a alagôa pela cava que no outro cer- 
co tinha feita , a qual mandou acabar de 
abrir até entrar na alagôa , e nefta obra 
metteo todos os officiaes que trazia \ e an- 
tes 



4^8 ÁSIA de Diogo de Couto 

tes de chegarem á agua , deram com hti- 
iria pedreira tão dura , que não havia pi- 
cões que por ella pudeíTem entrar ; o que 
viíto pelo Rajú , mandou trazer muito lei- 
te azedo, a que chamam Dain, e muito vi- 
nagre, etudo lhe lançaram em fima, e lhe 
mandou depois pôr o fogo , com o qual 
fe desfez a pedreira de feição , que muito 
facilmente fe foi abrindo , e cortando ; pe- 
lo que fe pode ver quão grande Capitão 
era o Rajú , poiá lhe não faltou aquelle 
grande ardil , que em Anibal fe nota de 
abrir os caminhos pelos Alpes , quando 
paliou á Itália com vinagre , e fogo : nefta 
obra foram os inimigos continuando com 
tanta prefla , que em menos de vinte dias 
chegaram com a cava á alagôa , pela qual 
começaram a efgotar , largando-a pelas 
varfeas ; e foi iíto de feição, que logo as 
fuftas o fentíram , porque lhes começou a 
faltar a agua ordinária , pelo quç fe reco- 
lheram a fombra dos Baluartes S. Gonca- 
lo , e S. Miguel , onde a agua era mais ; 
e tanta preífa deo o inimigo a efta obra 
que totalmente faltou fundo á Galeota ; pe- 
lo que o Capitão a mandou varar á fom- 
bra daquelles Baluartes, e o Capitão delia 
com feus foldados fe poz nos canos pêra' 
guarda daquelle paíío , que era muito im- 
portante , ficando na alagôa a fufta , e o 

Ba- 



Década X, Cap. V. 429 

Balão , que ainda tinham agua pêra palia- 
rem abaixo da Ilha , e aííim andaram até 
de todo íe efgotar a agua. Em todo eíle 
tempo , que ieria hum mez , não deixou 
de haver grandes , e efpantofos jogos de 
bombardadas , e muitos aíTaltos , dos quaes 
os inimigos fempre ficaram efcalavrados , 
principalmente huma noite, que Diogo da 
Silva o Modeliar com os léus Laícarins 
foi dar em huma tranqueira , que eftava 
fronteira á alagôa, a qual entrou valerofa- 
mente, e matou amor parte dos inimigos, 
pondo os mais em fugida , com que teve 
tempo pêra lhe pôr fogo , em que tcda fe 
confumio. O Rajú andava já aflbmbrado 
com aquelles aíTaltos ; porque quando on- 
de menos o efperava , achava os noílbs com 
huma determinação efpantofa em íeus vai- 
los , e tranqueiras, cortando, derrubando, 
queimando , e aflblando tudo ; e o que 
peior era , fazendo os oráculos dos feus Ído- 
los mentirofos , porque nunca tão bem to- 
maram fogo as bombardas da Fortaleza , 
nem tamanho damno fizeram no exercito 
como então. Com a perda deita tranquei- 
ra, que Diogo da Silva queimou, ficou o 
Rajú enfadado ; mas logo mandou correr 
com outra muito forte adiante de todas 
as que tinha feiras , com a qual chegou 
até á banda do eíleiro que cerca a Ilha, e 

a 



43© ÁSIA de Diogo de Couto 

a ccmeçou a mandar entulhar pêra entra- 
rem nella , e em ambas as partes do eftei- 
ro mandou o Rajú fazer duas tranqueiras 
pêra defenderem as fahidas que os noflbs 
fizeíTem pelas portas dos Baluartes S. Se- 
baftiao , e Santo António , e nefta obm 
também deram os noííos , e lhes mataram 
muita gente ; e pofto que dilfemos que o 
Capitão largou a Ilha, todavia não foi tan- 
to de todo , que nao deixaíTe ficar -nella 
alguns Lafcarins pêra fua guarda , que tan- 
to que os inimigos paííáram o eíteiro , lo- 
go íe recolheram á Fortaleza , e o Capi- 
tão mandou tapar de pedra , e cal aquel- 
las duas partes , por não ter nellas os olhos, 
e por nao occupar em fua guarda gente 
que não tinha, e deixou fó as portas de S. 
Sebaftião , e S. João , ea de Mapano ; e 
porque o inimigo não tinha dado moftra 
de todo o feu poder , a quiz dar hum dia , 
que foi a 19. de Julho, efahio pelo campo 
de Mapano com todos os elefantes eften- 
didos diante , e a gente nefta ordem : na 
dianteira o feu Atapato , que he Capitão das 
guardas, com féis mil homens efcolhídos, 
três mil efpingardeiros , mil rodeleiros , e 
dous mil lanceiros , que são da guarda de 
fua Peílba , como os Janizaros do Turco , 
e a huma parte de campo Canahara , que 
he Capitão Geral com finco mil homens , 

e 



Década X. Cap. V. 431 

e a peffoa doRajú com o reftante do exer- 
cito eítendido por íima da pedreira , de 
forte que quanto os olhos alcançavam pê- 
ra todas as partes eram campos , e montes 
cubertos de gente de armas , que reluziam, 
de elefantes, e de outras muitas coufas que 
ameaçavam a morte a quem a não receava 
tão pouco , como os Portuguezes que aquil- 
lo viam , não fendo duzentos os que fe ha- 
viam de defender daquella potencia infer- 
nal , que com tantas carrancas fe queria fa- 
zer temer. 

E pêra lhe darem a entender quão 
pouco o eftimavam , lhe fahíram alguns Ca- 
pitães de eftancias , que foram António 
Pereira , e António Guerreiro com os feus 
foldados , e com elles os outros Chingalas 
Fidalgos, de que atrás falíamos, os quaes 
defejavam de moílrar aos Portuguezes fua 
fé , e amor , empregando-fe nas occafiões 
de feu ferviço , por lhe pagarem em par- 
te as honras que em feu recolhimento fize- 
ram : eíles todos deram na dianteira do 
Rajú , e travaram hum a arrazoada briga , 
em que os noíTos os cortaram mui bem, 
e os oito Chingalas fe miíturáram tanto 
com os inimigos com o defejo que tinham 
de fe vingarem do Rajú , que cuidaram 
os noíTos que aquillo era traição , e que 
fe tornavam pêra os feus ; mas elles cor* 

tan- 



43^ ÁSIA de Diogo de Couto 

tando nos outros, foram derrubando mui*' 
tos ; e aííim ajudados dos noíTos apertaram 
tanto com a dianteira, que os fizeram reco- 
Jher ao corpo do Atabata , que vinha atrás* 
O Capitão João Corrêa eftava fora pêra acu- 
dir aos feus , fe lhe foííe neceíTario , o qual 
vendo aquelle começo da vistoria , fez íi- 
nal a recolher , o que fizeram a feu falvo ; 
e nefta envolta teve lugar de fugir pêra os 
noíTos hum Portuguez , que lá andava cati- 
vo havia onze annos , o qual o Capitão 
feftejou muito, porque o avifou de muitas 
couías mui importantes. Não ficou o Raju 
muito fatisfeito defta moílra que deo, por- 
que lhe cuílou muito caro , e mandou con- 
tinuar com a obra da fortificação , e cor- 
reram com huma tranqueira pelo meio da 
Ilha ; e pela outra parte , que vai ter ao 
baluarte S. Sebaftião , foi-fe eftendendo com 
outra muito forte. Já nefte tempo eftava a 
alagôa efgotada , e asfuftas varadas delon- 
go dos baluartes, as quaes o Rajú defejou 
de mandar tomar , e deitou pêra iíTo hum 
corpo de gente no quarto de prima ; e pêra 
não ferem fentidos , lançaram diante "al- 
gumas bufaras ( porque coftumavam ellas 
andarem de contínuo na alagôa) e de en- 
volta com ellas chegaram elles , e lançaram 
alguns arpeos que levavam comgroífos vi- 
radores na fufta do Quarefma , que eftava 

en- 



Década X. Cap. W 433 

ertcoftada ao baluarte S. Miguel , e come* 
çáram a puchar por ella em tanto íilencio, 
que alguns ibldadòs , qt*e vigiavam na 
mefma fufta, o não fentíram , fenão a alguns 
falavancos que a fuíla deo; e vendo ferem 
inimigos , largaram as camas , e fe recolhe^ 
ram ao longo do muro; Os do baluarte 
fentindo o rumor , paffaram palavra , á 
qual acudio o Capitão com a gente que 
trazia ; e perguntando ò qiie era , lhe re- 
fpondêráiií que os bufaros , que andavam 
na agua 5 e mandando-lhes que vigiaíTem i 
acabaram de enxergar á fufta , que já hia 
mais perto da Ilha que do baluarte j onde 
eftava*; e dizendo-fe a certeza ao Capitão ^ 
mandou elle abrir humá porta falfa que 
alli havia j e lançou alguma gente fora pe^ 
la banda de Colapate ; e lançando-fe eftes 
á agua , remettêram com os inimigos , que 
eftavam aíFerrados na fufta , e tiveram com 
elles huma muito crefpa briga i em que 
por fim lhes fizeram largar a fufta com 
morte de muitos , e os levaram até ás tran* 
queiras da Ilha com muito valor, e honra» 
Os que fe finaláram nefte feito , foram 
António Colaço , Fernão Alvares , Diogo 
Galvão , António Dias $ filho de Ceilão, 
Jorge Rodrigues o Amouco , e outros , t 
com o anodamento de irem matando nos 
inimigos , não tiveram tempo de cortar oà 
Couto* tom. VI. P. li. Ee vi* 



434 ÁSIA de Diogo de Couto 

viradores , e recolheram- fe , deixando-os 
guarnecidos na fufta. Os inimigos tiveram 
rebate, e recearam todos os da guarda do 
Rajú , e ao recolher acharam-fe cercados 

Í)ela banda deColapate; e vendo-fe naquel- 
e perigo , arremettêram a hum efquadrão 
dos inimigos que acharam mais perto , e 
deram nelles com tamanha fúria , que foi 
efpanto , travando-fe entre todos huma 
muito afpera batalha. Aqui acudio o Pa- 
dre Pedro Dias , Clérigo , bom Letrado , com 
alguns companheiros que trazia , o qual fe 
metteo em hum balão com algumas lanças 
de fogo , e féis efpingardas , e chegaram 
á fufta , que os inimigos hiam levando , 
dando nelles de forte que os abrazou , e 
queimou á fua vontade, e lhes fizeram lar- 
gar a fufta ; mas porque acudiram muitos 
cm feu favor, tornou-fe a recolher, deixan- 
do feito hum grande eftrago nos inimigos; 
c como os viradores da Fufta eftavam da 
outra banda guarnecidos dos cabreftantes, 
e com muitos elefantes ? que puchavam por 
outros cabos, foi ella levada por força, e 
a fizeram cavalgar pêra íima de huma co- 
roa de arêa , e da outra banda deo em fun- 
do , em que nadou , e aíTim ficou em feu 
poder com hum falcão, e com hum berço > 
c as armas dos foldados que nella vigiavam, 
António Colaço y que eftava da parte do 

Ca- 



Década X. Ckf. V. 435: 

Calapate cercado da guarda do Rajií, pé* 
leijou com feus foldados i como leões fa* 
mintos 5 fazendo tal eítrago nos inimigos , 
que com morre de muitos fe defavio dei- 
les , e fe recolheo com todos os feus feri-* 
dos. O Capitão João Corrêa , que eftava 
pêra acudir aonde foífe neceífario , vendo 
que por aquella parte eftava á mor força 
do exercito occupado > lançou com muita 
preíla os Lafcarins , e Pachás fora , e lhes 
mandou que por outra parte deílem no 
arraial , os quaes o fizeram de feição quê 
mataram muitos , e tomaram hum elefan-* 
te , com que fe recolheram pefa a Forta- 
leza 5 e com algumas cabeças nas mãos $ 
com o que 5 poftõ que os inimigos levaram 
a fufta , e o Capitão o houve por defgra^ 
ca , ficou por então huma coufa pela outraé 
Nefte eíhdo ficaram as coufas alguns dias, 
nos quaes fempre houve aífaltos , de que 
os noíTos fe recolheram a feu falvo, e com 
as efpadas tintas em fangue. 



Ee ii CA- 



436 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VI. 

Do que aconteceo á Armada de D. Paulo 
de Lima na jornada : e de como fizeram 
aguada na terra do Achem : e de alguns 
navios que tomaram no mar , com hum 
embaixador que o Rajale mandava ao 
Achem. 

POfto que as coufas de Ceilão , e Malaca 
fuccedêram juntas, e são muitas , infial- 
las-hemos o melhor que pudermos por não 
deixarmos humas por outras. Partido D. Pau- 
lo de Lima de Goa, como diíTemos , foife-' 
guindo íua derrota , e a 27. de Maio chegou a 
aver viíla da terra do Achem , a qual foram 
cofteando aquella noite , na qual fe aparta- 
ram os navios de Pedro Alvares de Abreu, 
e do Froes , e Coelho , que perderam o 
farol. D. Paulo foi com a mais Armada de 
longo da coita , fem a largar , com tanta 
falta de agua , que na Galé de D. Bernardo 
havia dous dias que não faziam de comer, 
e pêra beber lhe tinha foccorrido Diogo 
Soares de Mello com a que pode; e foi a 
neceffidade tamanha , que ordenou D. Paulo 
fazer aguada na mefma coita , onde melhor 
pudeíTe , poíto que fe entendeo que havia 
de cuítar fangue, mas não havia outro re- 
médio y e affim defpedio os navios de re- 
mo, 



Década X. Cap. VI. 437 

mo , nomeando em fegredo por huma car- 
ta a Simão de Abreu por Capitão Mor de 
todos, porfer hum Fidalgo velho, e muito 
bom Cavalleiro , por efeufar entre os mais 
Fidalgos pontos de opinião , arrufos , e 
defmanchos , que a inveja foe caufar ; e in- 
do eíles navios buícar a terra , houveram 
viíta de huma embarcação pequena, a qual 
íeguio D.Nuno Alvares Pereira , e já perto 
da terra a tomou fem gente , porque toda 
fe lançou a ella a nado. Ao outro dia, que 
foram 8. de Junho , indo correndo a ribei- 
ra , deram com hum riacho pequeno , que 
vinha por huma praia muito chã a esbo- 
çar no mar por entre duas pontas baixas 
cheias de arvoredo ; e por lhe parecer fe- 
ria agua doce , ordenaram marinheiros com 
vaíilhas pêra as irem encher , e foram4he 
de guarda Diogo Soares de Mello , eMat- 
theus Pereira nas bateiras das Galés cora 
vinte foldados de efpingardas cada hum , 
e chegando-fe todos os navios da Armada 
o mais perto que puderam pêra o favore- 
cer ; e indo aífirrt bufear terra , viram já 
nella alguma gente , e elefantes que acu- 
diam , receando-fe que os noflbs defembar- 
caflem em alguma parte ; e todavia os nof- 
fos faltaram em terra na boca do rio com 
agua pela cinta , deixando cada hum feu 
foldado na fua bateira pêra lhas terem no 

ro- 



438 A SI A de Diogo de Couto 

rolodo mar, fe fe offerecefie huma neçef-* 
íídade , e em terra fe puzeram os noíTos 
dous Capitães , cada hum com os íçus fol~ 
dados defcuidados pouco , e com as coitas 
hum no outro pêra aífim fe favorecerem 
melhor, e já a efte tempo começava a cho- 
ver fobre elles muitas , e mui aprefladas 
efpingardadas da outra banda do rio, que- 
era perto , onde eílava hum corpo de gen- 
te com os elefantes. Os Marinheiros que 
hiam com as vafílhas , foram pelo rio afíi- 
ma com agua pelos peitos a buícar bem 
aílima a doce, porque toda slíi era faíga- 
da , por caufa da enchente da maré , e os 
noífos com a arcabuzaria os foram fempre 
favorecendo , e esforcando-os com tama- 
nho animo , que lhes não lembrava eftarem 
na terra do Achem, com as armas nas mãos 
tão poucos , onde fe não podia defembar* 
çar lem grande poder , e mais vendo vir 
engroflando cada vez mais o fio da gente 
que acudia , e recrefcerem mais os elefan-» 
tes. Os marinheiros por muito que entrá^ 
ram pelo rio, não puderam achar agua do- 
ce , porque a maré tinha entrado muito 
por ella ; eachando-a falobra de feição que 
ierviria pêra huma grande neceífidade, en- 
cheram as vafilhas , e viraram , recolhendo-* 
fe fempre favorecidos da nofla arcabuza-» 
Tia \ e chegados á boca do rio , foram-fe 



Década X. Ca?. VI. 439 

a nado com os barris pêra as fuftas que eA 
tavam perto , e os que eftavam em terra 
fe recolheram nas bateiras féis e íeis , fi- 
cando fempre os Capitães em terra , que 
foram os derradeiros. Nefta mefma ribeira 
mandou AíFonfo de Albuquerque , indo pê- 
ra Malaca, fazer agua por D. João de Li- 
ma , António de Abreu , e Nuno Vaz de 
Caftello-branco em feus batéis ; e indo os 
dous com o primeiro caminho da agua , 
ficou fó Nuno Vaz com a fua gente , que 
eram oito foldados , ao qual fahio hum 
grande corpo de Mouros , e elle fez huma 
tranqueira de pipas valias , quealli ficaram, 
e amparados com ellas fe defendeo até 
chegarem os outros Capitães , que os reco- 
lheram já feridos os mais delles ; e tor- 
nando ao noífo fio , com huma pouca , e 
não boa agua fe remediaram os noífos , e 
foram feu caminho , porque os Galeões lo- 
go fe fizeram na volta da outra cofta. In- 
do aílim feu caminho á viíta da terra, vi- 
ram duas embarcações, huma de dous maf- 
tros , e outra mais pequena , ás quaes Dio- 
go Soares foi dando caça , e a grande de 
apertada varou em terra, aonde logo acu- 
dio muita gente , e com alguns elefantes, 
os quaes Diogo Soares esbombardeou mui- 
to á íua vontade , e deitou ao mar alguns 
marinheiros com cabos pêra os irem amar- 
rar 



44$ ÁSIA de Diogo de Couto 

rar no navio , e tirallo pêra fora , e com 
elles fe lançou hum foldado chamado Dio^ 
go cia Silva, Francez de nação, mas érea- 
do no Reyno , que os foi animando , e os 
fez chegar fem os eílorvarem muitas efpin- 
gardadas que lhe atiravam ; e deitando os 
cabos ao navio, o tiraram pêra o mar, o 
que Diogo Soares quiz fazer , poílo que 
era velha , e eítava vaíia , fó por quebran-? 
tar os inimigos , e lhes moítrar que po-r 
diam os Portuguezes acabar tudo o que 
commetteíTem ; e pçra mais os magoar, 
mandou pôr fogo ao navio ; e como iílo 
era de noite , e efcuro , pareceo aos da 
terra que fe queimavam mais embarcações. 
Toda aquella noite foram os noílos navios 
navegando ; e tanto que amanheceo , fc 
chegaram bem a terra pêra verem , e nota-, 
rem alguma parte , em que pudeííem fa^ 
zer aguada , porque a neceíftdade da fede 
que os apertava , era tal , e o perigo da fal- 
ta delia tamanho , que o haviam por ma- 
ior que as efpingardadas, e frechadas que 
em terra pudeífem achar. Indo muito per-? 
to delia , viram huma ponta , que lhe pa- 
receo Ilha, e aflim o era, porque hum pe-? 
queno efteiro a apartava da terra ; e che-> 
gando a ella , mandaram ver fe tinha agua ; 
e achando-a deferta , a necellidade lhes en-r 
ÍInou a cavar na praia m pé de algumas 

8T* 



Década X. Cap« VI. 441 

arvores , e a poucos palmos deram com 
£gua excellentilííma ; e notou-fe aqui huma 
coula maravilhofa , que em duas poças jun- 
tas acharam huma delias doce , e a outra 
muito falgada. Aqui fez toda a Armada 
íua aguada , e todos fe lavaram , recrea- 
ram , e refrefcáram , e puzeram fogo a hum 
junco que acharam no efteiro vafio , pofto 
que da terra acudio muita gente pelo de- 
fender, Neíla Ilheta acharam humas arvo- 
res çom huma fruta quaíí como amexas 
brancas , e os pés compridos como peras 3 
da qual comeram alguns , e fupitamente 
lhes deo grandes dyfenterias com acciden- 
tes morta es , e neftes entrou D. Bernardo 
de Menezes , em quem obrou mais aquella 
peçonha , ou por ter a natureza mais mi- 
mofa , ou porque comeria mais ; mas tor- 
nou depois a íi com muitas triagas , como 
os mais , fem perigar nenhum. Sahidos dei- 
ta Ilha fartos de agua , e fora dos trabalhos 
em que hiam, foram feu caminho, largan- 
do logo a terra , e no mefmo dia viram 
hum navio, ao qual D. Nuno Alvares deo 
caça ; e por fer tarde , e fe armar hum bul- 
cão grande , o marcaram pela agulha , e 
fem o verem pelo rumo , foram dar com 
elle , e pondo-lhe a proa , o entraram , e 
exoraram os que dentro hiam , fó vivos 
tomár^ni quatro, ficando dos noílos outros 

qua- 



44 2 ÁSIA de Diogo de Couto 

quatro feridos de crizadas , porque eram 
todos Jaós , gente bellicofa , e esforçada , 
e com eítes cativos fe foi D. Nuno Alva- 
res pêra a Armada , e dos Jaós fouberam 
que Malaca citava quieta , e D. António 
de Noronha com huma Armada em Jor, 
c que 'nenhuma Armada do Achem era lá- 
hida fora , com o que todos os noífos fe 
alegraram. 

Ao outro dia pela manha houveram 
yiíta de três lancharas tão compridas , co- 
mo Galés j duas ao mar , e huma á terra ; 
indo-as feguindo , foram ellas feu caminho 
muito feguras , por cuidarem que os noíTos 
eram Achens ; e já quando os conheceram 
foi a tempo que Simão de Abreu, e D. Nu- 
no Alvares eram com huma das duas que 
ficou atrás , porque as outras foram aper- 
tando o remo : os noíTos em chegando a 
efta , lhe deram com huma fomma de pa- 
nellas de pólvora , das quaes ficou abraza- 
da ; e porque as de diante fe hiam efeoan- 
do , e as mais fuítas vinham perto , deixa- 
ram aquella , e foram feguindo as mais. 
D. Pedro de Lima chegou a eíla lanchara , 
e a acabou de a abrazar , e com a força 
do fogo fe lançaram todos ao mar , fican- 
do dentro hum fó , que com hum criz fe 
defendeo de todos , depois que defpendeo 
o feu armazém de frechas , de que tinha 

fe- 









Década X. Cap. VI. 443 

feridos quafi todos. Os que andavam a na- 
do , que eram mais de fetenta 5 vendo 
•quão pouca gente tinha o navio de D. Pe- 
dro , o foram demandar com os crizes nas 
bocas , e lhe pegaram nos remos , traba- 
lhando pelo entrar ; e ferapre o fizeram, 
fenão chegara a Galé de Mattheus Pereira, 
e a fuíta de Diogo Soares , que ás efpin- 
gardadas os fizeram outra vez lançar ao 
mar , e na agua foram mortos muitos , e 
outros cativos, e fó Mattheus Pereira com 
a fua bateira tomou vinte e quatro , em 
que entrava o Capitão Mor de certas ve- 
las , que o Rajale mandava ao Achem a 
perfuadillo que o ajudaíTe na empreza de 
Malaca , o qual era hum homem de tanta 
authoridade entre elles , que já havia fido 
Embaixador na Corte do Turco : e aíTim 
fe tomaram na lanchara três moças , em 
que hia huma muito nobre a vifitar a mu- 
lher do Achem da parte do Rajale , com 
quem elía fe creou ; os outros navios fo- 
ram em feguimento das duas lancharas , 
que fe foram dividindo , e de apertados 
foram varar em terra , porque ao tempo 
que houveram vifta das lancharas , levava 
D. Nuno Alvares por poppa a embarcação 
que tinha tomada ; e querendo feguir as 
lancharas, alargou com alguns moços den- 
tro 3 e lhe mandou que furgiíTe até tornar 

por 



-444 A SI A de Diogo de Couto 

por elles , porque não queria levar aquelle 
impedimento; e poriílo fer perto da terra, 
c os Mouros delia eílarem vendo a caça 
que os noííbs davam ás lancharas , vendo 
ficar aquella embarcação fó , e furta , met- 
tèram-le hum mangote deli es em huma em- 
barcação , e indireitáram pêra tomarem a 
outra; mas foi a tempo aue Diogo Soares 
apparecia ; e vendo vir aquella embarcação 
da terra , mandou apertar o remo pêra che- 
gar a ver o que aquillo era ; e porque via 
já chegar perto da embarcação que eftava 
furta , lhe foi atirando algumas falcoadas 
pêra os embaraçar, como fez; porque os 
que vinham da terra vendo aquella fufta , 
não fe quizeram penhorar com aquella em- 
barcação , e voltaram pêra a praia, e Dio- 
go Soares chegou á embarcação, e lhedeo 
toa , e a levou até a entregar a D. Nuno 
Alvares. Simão de Abreu tanto que vio as 
duas lancharas varadas , foi feu caminho , 
c mandou levar perante íl o Embaixador 
que hia ao Achem , e delle foube ao que 
hia, e de como oRajale ficava preftes com 
grande poder pêra cercar Malaca , e lhe 
entregou huma Carta , que levava pêra o 
Achem, a qual mandou abrir, e fe achou 
fer eferita em Arábio , e tudo o que nella 
dizia era por metáforas , como todos eítes 
Reys do Oriente coílumam a eferever por 

ef- 



Década X. Ca?. VL 44? 

cfta maneira: Malaca he como huma femtn* 
teira\Je lhe falta agua y fécca-fe , pêra (fi- 
JoJaze~le prejles , e vem-te que eu com mi- 
nha Armada te acompanharei pêra a to- 
marmos. Dizer elle que Malaca era como 
fementeira, íe lhefaltafle a agua , feccaria , 
entendia pelos lòccorros da Índia, o qual 
elle havia que lhe não podiam ir aquelle 
anno , e que faltando-lhe , não poderia dei- 
xar de íe perder pela grande neceífidade 
em que a tinha poíta. 

Daqui foi a Armada caminhando de 
longo da Cofta do Achem , pela qual fo- 
ram vendo muita gente de pé > e de ca- 
vallo , que hia foccorrer a Fortaleza de 
Pace , que a tinha hum vizinho de cerco , 
da qual elles também houveram vifta ; por- 
que paliando pela boca de hum rio , fobre 
a qual ella eítá fundada , a foram notando 
de vagar , e Francifco de Soufa chegou 
mais a terra pêra ver fe podia tomar hu- 
ma lanchara , que hia perto delia , a qual 
lhe varou na praia , e ao fom de hum tam- 
bor acudio logo muita gente a ella em feu 
favor , a qual elle fervio de falcoadas á 
fua vontade ; e indo affim fua derrota , aos 
14. dias de Junho encontraram féis lancha- 
ras grandes pêra a banda da terra , e ou- 
tra bem ao mar , as quaes eram da com- 
panhia da Armada , que levava Embaixa- 
dor 



446 ÁSIA dé Diogo í5e Cotrro 

dor de Jor ; e poíto que Simão de AlbiH 
querque quizerà não íe embaraçar eom el- 
la, porque relevava chegar a Malaca, foi* 
lhe forçado commettellas , porque lhe fica-* 
va atrás o navio de Fernão Pegado 3 e re-* 
ceou que deíícm com eíle i e aífim as foi 
feguindo , até que appareceo o navio que 
ficava atrás que recolheo , e foi fua derro- 
ta ; e paliando pela Ilha Polvoreira , na 
qual fizeram aguada , e daquella parte em 
que houveram viíta da primeira terra do 
Achem até alli havia quarenta léguas , nas 
quaes a noíTa Armada íempre foi á viíla 
delia , e foram achando fundo pêra navios 
de alto bordo poderem furgir hum tiro de 
berço da terra , e tudo muito limpo, fent 
baixo , nem reítinga alguma : dalli atravef- 
fáram á outra Coita , porque por aquellá 
corriam muito as aguas , e ao outro dia 
foram dar em humas Ilhas pegadas a outra 
terra , as quaes eram nove , e por entre 
ellas entrou toda a Armada á fua vontade , 
e de longo da Coita foram até Malaca , 
aonde chegaram a 5*. de Julho, ejá lá acha- 
ram os navios de Pedro Alvares de Abreu , 
e os de Froes e Coelho , que fe tinham 
apartado o primeiro dia que viram a Coita 
do Achem, enao acharam novas de D. Pau- 
lo , do qual logo daremos razão* 

CA- 



Década X, Cap. VIL 447 

CAPITULO VII. 

Do que nejle tempo aconteceo em Malaca • 
e de como os navios da companhia de D« 
T atilo fe joram a Jor : e de como D. 
António de Noronha defembarcou em ter- 
ra , e ganhou a Fortaleza da praia. 

A Trás deixámos D. António de Noro- 
nha com a lua Armada partido pêra 
Jor ; e por elle não fer baftante pêra de- 
fender aqueila barra , que era muito larga, 
foi-fe pôr na ponta da Romania , aonde fe 
deixou eítar, porque todas as embarcações 
que vam demandar Jor, alli haviam de ir 
demandar , e forçado lhe haviam de cahir 
nas mãos. ORajale vendo o eftado em que 
a Fortaleza eílava , parecendo-lhe que da ín- 
dia não lhe podia ir fenão o foccorro or- 
dinário , o qual lhe não podia eílorvar ef- 
feituar íua tenção , que era pôr-lhe hum 
grande cerco , e não fe alevantar de fobre 
ella fem a tomar , ou por armas , ou por 
fome, pêra o que fe começou a aperceber, 
e lançou fora íua Armada pêra fazer arri- 
bar todas as embarcações a feu porto , a 
qual chegou a vifta de D. António de No- 
ronha , que lhe não pode fazer nojo , por 
ter Galeões , e avifou logo ao Capitão de 
Malaca , pedindo-lhe Armada de remo, 

por- 



44^ ASIÁ de Diogo de Couto 

porque fem ella não fe podia defender â 
ferventia do Rio Jcr , nem aos inimigos 
deixarem de levar a feu pofto todos os 
juncos dejaoa. Efte recado quando chegou 
a Malaca , achou João da Silva muito en- 
fermo de hum as melenconias 3 que o tinham 
alienado , e o Bifpo com os Vereadores 
governavam tudo ; e vendo elles as cartas 
de D. António , e quanto importava acu- 
dir-fe áquelle negocio , ordenaram buiria 
Armada de dezoito bantitfs * pêra cujas deP 
pezas o Bifpo empreitou dinheiro * pelo* 
não haver deElRey, e elegeram por Capi- 
tão Mor António de Andria , e poílo que 
a Fortaleza eftava falta de tudo, proveram-* 
fe eftes navios o melhor que pode fen O 
Rajale hia fazendo fuás preparações , econ-* 
vacando os vizinhos pêra fe acharem com 
elle naquella jornada , entre os quaes en j 
trava o Achem , o qual mandava aquelle 
Embaixador que os navios da Armada de 
D, Paulo tomaram ; e fegundo o grande ca- 5 
bedal que todos tinham pêra efte negocio > 
e aquella Fortaleza eftava neeeífitado de tu- 
do ,- parecia que fe ameaçava a fua ruina^ 
fe Deos não acudira com aquella Armada } 
porque na prefteza , com que o Vifo-Rey 
D. Duarte a negociou , eftando todo o e£ 
tado apertado por todas as partes , clara-* 
mente fe vio que Deos noíTo Senhor tinha 

feus 



Decíada X. Cap. VII. 349 

feu§ olhos nelles , e nao queria que feug 
fagrados Templos foííem profanados , nem 
tantas donzellas violadas , e tanto innocen- 
te maltratado , encaminhando aquella Ar* 
jnada de D* Paulo por todo aquelle cami- 
nho íem coiitraíle 5 deparando-lhe por el- 
le tantas vistorias i como atrás contámos * 
porque ailim troca Deos os penfamentos 
vãos ) que fez fen tir ao Rajale febre fua 
Cidade o que elle cuidava que faria fentif 
a Malaca, eque as armas que ajuntava pê- 
ra fua rairia* lhe foliem depois neceíTarias 
pêra fua defensão* 

Preftes os bahtins ^ partiram-fe pêra 
Jor } e por acharem o tempo contrario* 
tornaram a arribar , e acharam já a Armada 
de Simão de Abreu, como atrás diflemos j 
e vendo o Bifpo i e Vereadores que tarda-» 
va D. Paulo $ pediram áquelles Capitães 
que foííem a D; António , que eftava fobre 
Jor> efizeíle arribar todos os juncos a Ma- 
laca j e fariam recolher a Armada do ini- 
migo 5 que andava mui folta , porque não 
tinha D* António navios ligeiros com que 
os affrontaííe • e parecendo bem a todos > 
na mefma ordem em que hiam , deram á 
vela pêra Jor , levando em fua companhia 
a Armada dos bantins que tinha arriba- 
do ; e aquellá rioite lhes deo hum tempo- 
ral que apertou a Armada j-e os bantins f© 
CoutQ.TonnVL2.iu Ff rc- 



45o ÁSIA de Diogo de Couto 

recolheram ao rio de Muar , e os outros 
navios foram correndo com os traquetes 
em poppa ; e indo a fufta de Diogo Soa- 
res de Mello , fe ouviram pelo mar gran- 
des , e piedofos brados ; e governando ao 
tom delles , acharam huma embarcação pe- 
quena , a que chamam baga, quafi alaga- 
da ,. e dentro nella hum homem, que foi 
tomado na fufta, e diíTe que era Chriftão, 
e que havia muito tempo que eíhiva cati- 
vo em Padao; e que vendo a Armada, an- 
tes que anoiteceííe , tivera modo pêra fu- 
gir, e fe mettêra naquella embarcação pê- 
ra a vir bufcar , e aífim efcapou eíle pobre 
de dous perigos grandes , cativeiro , e 
morte, que fe lhe não efcufava, fenao fora 
ouvido. 

PaíTado o tempo , ajuntou-fe a Arma- 
da, e foram paíTando o eftreito de Sinca- 
pura ; e pofto que eftava entupido com as- 
pataias , todavia eftavam de feição que bem 
podiam por elle paliar as náos , fenão fof- 
fem muito carregadas \ e por todo efte ef- 
treito foram achando muitas embarcações 
de pefcadores , a que chamam celetes , aos 
quaes compraram peixe em abaftança. Che- 
gada toda efta Armada ao rio de Jor , fo- 
ram-fe todos aquelles Capitães ao Galeão 
de D. António a fe lhe oflrerecer , e Simão 
de Abreu defiftio do cargo de Capitão Mor 

da- 



Década X. Câp. VIL 45-» 

daquelles navios, e deo a obediência a D* 
António, fobre o que houve muitos cumpri* 
mentos de parte a parte* Ao outro dia de* 
ram as fuíias toas aos Galeões , e foram 
entrando pelo rio dentro ^ porque já os 
noílos fe não contentaram de lhes ter toma- 
do a barra , fenao de lhes ir fazer guerra 
á fua Cidade. O Rajale tanto que teve 
avifo que a Armada hia entrando , mandou- 
Ihe fahir huma Galé , e vinte navios cheios 
de muita , e boa gente pêra a irem com- 
metter , o que fizeram com grande deter* 
minaçao ; e chegando já perto do Galeão^ 
que hia diante ^ o qual Fernão Pegado le* 
Vavá á toa > largou elle o cabo , e endirei- 
tou com a Galé que vinha diante ^ 4 e lhe 
deo huma falva com a artilheria , e arcabu- 
zaria , de que lhe matou alguma gente ; é 
querendo inveftir, foi-lhe ella fugindo, ô 
O mefmo fez toda a mais Armada, porque 
os noílos navios de remo tinham largas as 
toas , e hiam diante pefa peleijarem. Os 
Galeões tanto que lhe largaram as toas, 
(urgiram 5 e deixáram-fe ficar vendo a es- 
caramuça dos noíTòs que hiam apôs òs ini- 
migos , aos quaes perfeguíram tanto $ quês 
já muito perto da Cidade os alcançaram 
os navios de D. Nuno Alvares Pereira , e 
Pedro Alvares de Abreu ) os quaes lhe puze* 
ram as proas cada hum em feu navio , e 

Ff ii os 



45?* ÁSIA de Diogo de Couto 

os axoráram em breve efpaço , lançando-f<? 
toda a gente delles ao mar , ficandolhe os 
navios nas mãos. Fernão Pegado foi fe- 
guindo a Galé até íe metter debaixo de 
humas oafas grandes , que eftavam armadas 
ibbre o mar } a que chamam Pangoes , e 
da terra lhe atiraram muitas bombardadas , 
de que lhe fizeram algum damno. 

D. António de Noronha tanto que íur- 
gio , e que vio ir a Armada apôs a dos ini- 
migos , metteo-fe em hum bantim ligeiro , 
e foi recolhellos , e os achou ás bombar- 
dadas com os da terra , e com hum Forte 
que tinham na praia , que lhe chamam Cor- 
ritão , que tinha trinta peíTas de artilhe- 
ria , ao qual os falcões dos noflbs navios 
derrubaram alguns páos (porque era de 
madeira) e lhe mataram tantos, e fizeram 
tal deftruiçao , que o largaram os que den- 
tro eífcavam , que feriam duzentos homens , 
e fe acolheram pêra hum palmar que alli 
havia perto. Ifto foi villo por António de 
Andria, Capitão Mor dos bantins de Ma- 
laca; efallando com os feus , fem dar con- 
ta a D. António de nada , defembarcou 
em terra, e entrou no forte de Corritao, 
e mandou pelos marinheiros embarcar a 
artilheria ; e depois que recolheo o que 
nelle achou 5 lhe mandou pôr fogo , que 
confamio muita parte delie*. Feito ifto , 

em- 



Década X. Cap. VII. 45^3 

Tembarcou-fe , e foi de longo da praia , quan- 
to diz a face da Cidade , ou do feu arrabal- 
de , dando fogo a tudo , aílím ás embarca- 
ções commuas , que eram muitas , como ás 
cafas , nas quaes , por ferem de palha , e 
de madeira, fe ateou foberbiíHmamente de 
huma em outra ate darem em humas tere- 
cenas muito grandes , cheias de drogas , e 
outras fazendas > nas quaes elle tomou tan- 
ta poífe , e fez tamanho damno , que pa- 
recia arder o mundo. Fernão Pegado , D. 
Nuno Alvares , Simão de Abreu , Pedro 
Alvares de Abreu , e outros mettêram-fe 
debaixo deílas calas armadas fobre o mar, 
e lhe deram fogo por muitas partes , com 
que fe confumíram muitas , e faltou no ar- 
rabalde , onde fez outro femelhante eítra- 
go» Em todo efte tempo , aífim da terra , 
como do mar , era tudo huma confusão do 
eílrondo da artilheria , cuja fumaça cubria 
o Sol , e cujo terremoto enfurdecia a to- 
dos ; e com efta confusão tiveram tempo 
alguns Portuguezes , que eftavam prezos no 
Tronco do arrabalde , de fe foltar, e fu- 
giram pêra os noífos , fem os inimigos da- 
rem fé diífo , porque andavam oceupados em 
acudirem ás fuás fazendas. 

Feito eíle damno , recolhêram-fe os 
noífos com efta primeira vido ria , com a 
qual não fó deixaram feito nos inimigos 

gran- 






4?4 ÁSIA de Diogo de Couto 

grande eílrago , mas ainda ficaram tão ame- 
drontados , que andavam como palmados ; 
porque o primeiro dia que fen riram o fer- 
ro dos noííbs , affim lhes foi cruel , e e& 
pantofo , que íç commettèram a Cidade y 
iem dúvida lha ganharam. Aqui aconteceo 
hum cafo que fe teve por milagrofo , e foi ^ 
que eftando o arrahalde ardendo na mor 
força do fogo , fe armou hum chuveiro 
(como foe acontecer os mais dos dias na-, 
quella terra , por eftar tão chegada á Bquinoc- 
cia}) o qual fe desfez em hum diluvio de 
agua, que fe alagavam os navios, e o mef* 
mo aconteceo dentro na Cidade ; mas no 
arrabalde , que ficava em meio ardendo era 
fogo , não cahio huma fó gota de agua, 
com o que queria Deos moftrar aos inimi-? 
gos que favorecia aos feus fieis. 

Os que andavam em terra recolheram* 
fe carregados dedefpojos, e cativos; e foi 
tal , que não deixou de caufar inveja nos 
que ficaram de fora, porque os peitos Por* 
tuguezes o que menos foffrem he verem 
outros mettidos em perigos , em que elles 
não fejam companheiros, fenão quanto lhes 
ifto entra mais nos feitos que obram , não 
fomente feus naturaes , mas ainda feus pronj 
prios pais , e irmãos , o que não he tanto 
pom os eftranhos , e Nações differentes ; por-? 
que affim como Deos; noílq Senhor lhes deq 



Década X- Cap. VIL 45*5' 

hum valor tão conhecido no Mundo, tam- 
bém lhes deo confiança pêra prefumirem 
que nenhuma outra Nação pode commetter 
feito tão arrifcado , que a elles lhes não foí- 
fe muito fácil de acabar : e não nos enver- 
gonha dizer ifto dos noflbs naturaes , por- 
que he verdade mui fabida , que pelos es- 
tranhos lha não poderem negar , lha diífí- 
mulam , e encobrem em muitas coufas , co- 
mo fe calar louvor alheio não foíTe hum 
furto manifeíto. 

Recolhidos os noflbs , ao outro dia 
chegou-fe a Armada mais perto da Cidade 
pêra abater com mor furor. Aconteceo eí- 
te fucceíTo aos 21. de Julho a hum Domin- 
go , e eítimou-fe a perda das fazendas , e 
embarcações em mais dedu2entos mil cru- 
zados , com o que o Rajale ficou muito 
quebrado, e quebrantado , porque nunca lhe 

fmreceo que os noflbs commettefíem aquel- 
a defembarcação tão apreflada , e affim o 
cafo foi accelerado , e fem confelho algum. 



CA- 



4?6 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIIL 

J)e como D. António de Noronha tratou de 
commetter a Cidade , e foi contrariada 
dos Capitães da Armada de i). Paulo : 
e de como contra parecer de todos dejem* 
harcou ; e (Ias çoufas que lhe acçntççê** 
ram, 

HP Oda aquella noite pairaram os da An 
Jl mada em grande rigozijo ; e porque o 
feito foi dos homens de Malaca , ficaram 
eiles tão gulofos , que aconfelháratn a D* 
António, que pois lhe Deos dera tamanho 
principio da vitoria , feguiíle fua fortuna , 
e commetteíTe a Cidade ; porque fegundo 
os inimigos ficaram atemorizados , fer-lhe 
hia muito fácil entralla ; e pois que a occa-r 
fião, e a ventura lhe oíFerecia huma tama^ 
nha vitoria , não quizeííe guardalla pêra 
D.Paulo. D, António coíno era ambiciofo de 
Jjonra, e bom Cavalleiro , foi-lhe fácil de 
fe perfuadir daquelle negocio , e determinou 
de o tentar, poíto que o feito era arrifca-* 
dô ; mas como os fins de tamanha gloria 
riao fe podem pertender fem rifcos degran^ 
de ventura, quiz ver aonde a fua chegava \ 
porque fe pêra elle eílava guardado hum 
íiegocio tão importante , vindo a ter fim 
por fuás mãos 7 n^o lhe ficava mais que 

4ç* 



Década X. Cap. VIII. 45-7 

defejar. Com efta refolução mandou cha- 
mar todos os Capitães a confclho , e lhes 
propoz aquelle negocio , e os períuadio a 
que feguiífem fua fortuna , pois ella lhes 
começara a dar íinacs- certos de vitoria, 
porque os inimigos eftavam medrofos , e 
quebrantados da perda paíTada , e elles 
com as armas ainda tintas no frefeo fan- 
gue , e com o furor , e animo alvoroçado , 
e quente: que lhe parecia bem não deixar 
arrefecer aquelle brio , e commetterem a 
Cidade, a qual efperava emDeos que mui- 
to facilmente havia de fer entrada , e deC- 
truida de todo ; porque fe a tamanho da- 
mno , como elles receberam o dia de an- 
tes , fora fó pelas mãos de quatro bantinei- 
ros de Malaca ■, que fe efperava, quando 
tantos , e tão esforçados Capitães , e vale- 
rofos foldados , como alli eftavam , puzef- 
fem os pés na terra, e os hombros áquel- 
les muros de maneira , que por fem dúvi- 
da tinha que tudo fe lhes renderia. Os Ca- 
pitães da Armada de D. Paulo , que já 
hiam refolutos no que haviam de dizer , 
porque fabiam o pêra que os chamavam , 
votaram todos conformes , que não era bem 
que fe arrifcaífe aquella gente daquella Ar- 
mada em coufa defígual , como eram me- 
nos de trezentos homens , que alli poderia 
haver , commetterem huma Cidade cheia 

de 



45*8 ÁSIA de DroGo de Couto 

de muitos , e fortes baluartes, e provida 
de muita , e muito baila artiiheria , e com 
dez , ou doze mil homens de armas muito 
determinados a defenderem fua Cidade , 
luas cafas , fuás fazendas , e fobre tudo 
fuás mulheres , e filhos ; porque fe aconte- 
ceííe algum defaítre , ficava D. Paulo fem 
Armada , e fejn Capitães , e fem foldados 
pêra o effeito , pêra que o Vifo-Rey o 
mandava ; e o que peior feria , que tendo 
o inimigo (o que Deos não permittiria) 
vitoria delles , eftava muito certo morre- 
rem no feito todos os Portuguezes de hon- 
ra , e que ficaria o inimigo tão fobcrbo > 
que tomando aquella Armada , iria com el- 
h pôr cerco a Malaca ; e que fegundo 
aquella Cidade eftava piedofa , fó Deos lhe 
poderia valer \ e que dado que Deos lhe 
déíle a elles vitoria , teriam que dar conta 
a Deos , a EIRey , e a D.Paulo (de quem 
todos eram foldados ) da honra que lhe 
furtaram, que o negocio eftava em termos 
que fe não perdia a occaílao , nem havia 
perigo na tardança , porque o inimigo já 
não podia fer íoccorrido de fora : e que 
fe efperaíTe por D. Paulo , e entre tanto 
batefle:n a Cidade, e que fe quebrantaífem 
os inimigos com aííaltos ; e que depois 
vindo D. Paulo , e fazendo-lhe Deos mer- 
cê de lhe dar aquella Cidade , a honra era 

de 



Década X. Caf. VIII. 45^9 

de todos , e a elle D. António não pode- 
riam negar a mór parte delia : ío D. Ber- 
nardo de Menezes , que era parente de D. 
António , foi de parecer que fe commettef- 
fe a Cidade logo ; porque , fegundo a fra- 
queza que os inimigos moítráram na defen- 
são do feu arrabalde , e no Forte de Cor- 
ri tão , elles eftavam tão medro fos , que 
fem duvida a tomariam ; e quando a vito- 
ria eítava então certa , que dilatalla pêra 
depois , não era bom confelho , e o mef- 
mo votaram os Capitães das fuílas , e ban- 
tins de Malaca ; mas como os Capitães da 
Armada de D. Paulo eram mais , ficaram 
os outros votos vencidos , e aíTentáram que 
fe bateííe a Cidade até vir D. Paulo , e 
com iíto fe recolheram. Ao outro dia, que 
foram 23. de Julho , paliou D. António em 
hum bantim por todas as fuílas , e deo re- 
cado aos Capitães que fe chegaífem a ter- 
ra , e comine tteíTem a bateria , o que 
elles fizeram, e os Galeões, e toda amais 
Armada começaram adifparar aquella tem- 
peítade de efperas , camellos , e de outras 
peífas groífas com tanta fúria , e terremo- 
to, que parecia fundir-fe o mundo ; a Ci- 
dade também fez leu officio , moílrando que 
por toda ella em roda não havia palmo de 
muro que não tiveíle fua peífa de artilheria 
pera fe defender ^ c affim com o eílrondo 



460 ÁSIA de Diogo de Coura 

de huma , e outra parte pareceo o dia to- 
do huma carranca infernal , por fe não vei- 
em todo elle outra coufa que fumo , e fo- 
go , e não fe ouvir mais que trovões , c 
terremotos. D. António de Noronha an- 
dava no bantim acompanhado de toda a 
Armada de remo de Malaca , muito perto 
da terra : oii foffe que o furor o levaíTe, 
ou foíTe fobre determinação que depois do 
confelho geral tomaria com os feus , poz 
os efporoes cm terra , e faltou nella com 
huma bandeira , em que trazia pintada N. 
Senhora do Rofario , de quem era muito 
devoto , e com elle D. Manoel de Alma- 
da , e toda a mais gente da fua Armada , 
e começou logo a marchar , e tomar hum 
caminho, que hia por huma fubida Íngre- 
me dar em huma porta , que a Cidade ti- 
nha pêra aquella face; e hia tão foffrego, 
e ciofo daquella honra de commetter a Ci- 
dade , que não fez cafo dos Capitães da 
companhia de D. Paulo, os quaes vendo-o 
em terra tocados da defconfiança , indirei- 
táram com a praia , e faltaram nella , e os 
primeiros foram D. Nuno Alvares Pereira , 
Simão de Abreu de Mello , e Pedro Alva- 
res de Abreu , porque os feus navios eram 
mais maneiros , e todos juntos foram mar- 
chando pêra onde D. António hia ; e che- 
gando a elle já no caminho íngreme , lhe 

per- 



Década X. Cap. VIII. 461 

perguntaram que lhe mandava que fizefíem. 
D. António fem lhe refponder a propoíito , 
lhe perguntou fe viram Pedro Velho , que 
era hum homem da terra Bantineiro , ha- 
vido por Cavalleiro , o qual parece tinha 
com elle praticado aquella defembarcação , 
e o levava por guia, por faber muito bem 
as entradas daquella Cidade , do qual lhe 
elles não fouberam dar razão , porque de- 
via elle de ter tomado outro acordo pelos 
muitos pelouros que foram zunindo pelas 
orelhas de todos : e lhe tornaram a pergun- 
tar o que fariam ; e nem aífim lhes refpon- 
deo mais que tornar-lhes a perguntar por 
Pedro Velho , do que elles defeonfiados 
foram- fe adiantando , e tomaram o cami- 
nho da Cidade com fetenta , ou oitenta 
foldados que os feguiam , e foram pelo te- 
20 afíima jogando as eípingardadas com 
hum magote de inimigos , que tinha fahi- 
do da Cidade , pêra lhes defenderem a def- 
embarcaçao : os mais Capitães da compa- 
nhia de D. Paulo foram defembarcando em 
terra como melhor puderam , e ináireitá- 
ram pêra onde viram ir D. António , o 
qual já não apparecia ; e o Froes , e Coe- 
lho , Capitães de dous navios , tanto que 
defembarcáram , vendo que os inimigos 
recrefeiam , mettéram -fe no Forte de Cor- 
jitao ^ que ainda eftava a mor parte ern 



462 ÁSIA de Diogo de Couto 

pé l pêra defenderem ^d^tír^que não arre** 
bentaffem os inimigos pela praia , porque 
feria total perdição dos noífos. Mattheus 
Pereira de Sampaio, e Francifco de Soufa 
Pereira foram tomando o caminho do pai-* 
mar, a tempo que da banda do Forte da 
Corritão fe levantou huma voz de Mou- 
ros na praia com que tornaram a voltar 
peraella, porque felhesnãó foílem apode- 
rar das embarcações que ficavam íos. Os 
três Capitães D. Nuno Alvares Pereira , Si- 
mão de Abreu , Pedro Alvares de Abreu, 
e António de Figueiredo , Capitão de hu- 
ma das fuftas , e D. António foram pelo 
tezo aílima , aonde os deixámos , cami- 
nhando pêra a Cidade, e chegaram a dei- 
cubrir aporta, e a tiro de efpingarda dei-* 
la a viram abrir pêra recolherem hum ef 5 
quadrao de inimigos que hiam fugindo , 
que parecia hiam daquella parte por onde 
D. António peleijava ; e em fe a porta abrin- 
do , gritou hum Frade de S. Francifco Lei-* 
go , homem virtuofo , que levava hum cru* 
cifixo arvorado em huma aftea , que deílertx 
Sant-Iago , e que accommetteífem aqnellã 
porta pêra entrarem de envolta com os ini- 
migos , o que os Capitães não quizeram 
fazer , antes pararam , por lhes parecer te-* 
meridade commetterem aquelle negocio fós; 
mas o Figueiredo da companhia de D. An* 

to- 



Década X. Ca?. VIII. 463 

tonio cm o Frade bradando , appellidou 
elle Sant-Iago , e foi arremettendo adiante , 
do que os três Capitães defconfiados foram 
endireitando com a porta , rompendo por 
tantas nuvens de pelouros que choviam fo- 
bre elles , que os fizeram parar , porque 
viam defmandar alguns de feus foldados , 
e aífim a pé quedo travaram huma fermo- 
fa batalha com os inimigos , da qual hou- 
ve alguns efcalavrados , e Pedro Alvares de 
Abreu de huma efpingardada , que lhe paf- 
fou hum braço , de que muito tempo foi 
aleijado \ e foi a coufa de feição por re- 
creícerem muitos dos inimigos , que foi fpr- 
çado aos noííos recolherem-fe , e já o fize- 
ram com muito trabalho , porque carrega* 
ram os Mouros muito fobre elles. D. An- 
tónio de Noronha foi por outro caminho 
com tenção de commetter a Cidade pela 
mefma porta; mas achou hum groilb efqua- 
drão de Mouros , que acudiram áquella 
parte, por verem alli a bandeira, e o com- 
mettêram com grande determinação, e en- 
tre todos fe travou huma afpera batalha, 
em que houve bem damno de ambas as 
partes ; mas como os Mouros erão muitos , 
apertaram tanto com os noíTos , que fe co- 
meçaram adefmanchar, e muitos a fe reco- 
lherem pêra a praia, ficando D. António, 
e D.Manoel de Almada com alguns Fidal- 
gos, 



464 ÁSIA de Diogo r>E Couto 

gos , e Cavalleiros de honra , que todos e£ 
te dia a ganharam bem grande; e todavia 
vendo-fe D. António tão apertado i e com 
tão pouca gente , foi-fe recolhendo pêra 
a banda da praia , íuftentando o pezo dosí 
inimigos , que carregavam fobre elles até 
chegarem a huma tranqueira de páos tof- 
cos , que eílava da banda do arrabalde ; e 
por ir já muito apertado , poz as cofias 
nella , e alli fe defendeo com muito valor , 
vendo-fe muitas vezes perdido. Diogo Soa- 
res de Mello 5 Francifco de Soufa Pereira, 
Fernão Pegado , e outros Capitães foram 
feguindo feu caminho , e mettendo-fe por 
hum palmar 5 por não faberem por onde 
hia D. António, nem o que lhe tinha acon- 
tecido , e foram encontrando alçuns folda- 
dos, que vinham donde elles eftavam i huns 
efcalavrados > e outros sãos ? que todos dei 
envolta fe hiam recolhendo pêra o navio , 
e todos tão medrofos , que perguntando- 
lhes Diogo Soares pelo Capitão Mor, lhe 
refpondeo hum, que ficava desbaratado, e 
toda a fua gente morta ; e entendendo elle 
fer aquillo medo , bradou com elle muito 
afpero , e lhe diíte que voltaífem com el- 
le , e lhe foífem moftrar onde ficava , o 
que alguns fizeram , ainda que contra fua 
vontade. Indo aíTím eíles Capitães reco* 
lhendo alguns defmandados > acharam hum, 

que 



Década X* Ca?. VIII. 465* 

que lhe diffe , que acudiflem a D. Anto* 
nio , que eftava muito apertado ; e toman» 
do efte comíigo , foram-íe encaminhando 
pêra onde os guiou até os por á vifta dos 
inimigos 5 que tinhão D, António encurra* 
lado na tranqueira , aonde por entre os 
páos íe defendia com muito valor , e es* 
forço , e já não era mais que elie , e D. 
Manoel de Almada , e dez, ou doze fol- 
dados , que efte dia fizeram mui grandes 
cavalíarias , e derredor da tranqueira eíta^ 
vam já mortos alguns íinco , ou féis com- 
panheiros. Vendo elles o Capitão Mor na- 
quelle perigo, determinaram-fe a morrer > 
ou ao livrarem j e arrancando todos em 
hum corpo com grande eftrepito * e bra- 
dos > chamando por Sant-Iago , deram em 
os Mouros , e da primeira íiirriada de ar- 
cabuzaria derrubaram alguns , e pjuzerarri 
todos os mais em desbarato ; e chegando 
a D, António y o recolheram comíigo , e 
a todos os companheiros que com elles e& 
tavam, todos bem feridos, e èfealavrados » 
e affim o foram levando diante , ficando 
Diogo Soares na retaguarda tendo o encon- 
tro aos Mouros , que hiam ladrando apôs 
elles , até que chegaram ás embarcações ; e 
pofto que vinham com eíte trabalho , não 
íe defcuidáram de pôr o fogo a quatro 
Galés novas, que cftavam no eílaleirõ, as 
Çquío. Tom. VL P* !/♦ Gg quaes 



466 ÁSIA de Diogo de Couto 

quaes arderam todas. Chegados aos na- 
vios , fe embarcaram todos , e tornaram a 
continuar na bateria, mandando D. Antó- 
nio dar alguns aílaltos nas povoaçcfes dos 
Mouros pelo rio aífima , em que lhe fize- 
ram muito damno. 

CAPITULO IX, 

De como chegou D. Paulo de Lima : e do 

confelho que tomou fobre a def embarca- 

ção : e do fitio da fortificação da 

Cidade de Jor. 

D Paulo de Lima, depois que fe apar- 
• tou na terra do Achem da Armada de 
remo , foi feguindo fua derrota com tem- 
pos tão contrários , que quando chegou a 
Malaca , era já em Julho ; e furgindo na 
Ilha das Náos , foi viíitado do Bifpo , e 
Cidade, que lhe deram informação do ef» 
tado em que as coufas eftavam , e do fuc- 
ceífo da fua Armada, e de como eftava em 
Jor a companhia de D. António ; pelo que 
logo determinou de fe partir , e mandou 
dar preífa á aguada, e ás coufas que mais 
eram neceífarias , as quaes o Bifpo nego- 
ciou com dinheiro feu , e de parentes , que 
pêra iíTo tomou empreitado ; poílo que João 
da Silva, ainda que aífim doente, e enfer- 
mo > 



Década X. Cap. IX 467 

mo , empreitou a mor parte delle : e neftas 
coufas gaitou D. Paulo todo o mez de Ju- 
lho , e na entrada de Agcíto fe fez á vela 
pêra Jor 5 aonde chegou a féis de Agofto^ 
e ás toas foi levado pelos navios da fua 
Armada até furglr defronte da Cidade no 
poufo em que eítavam os outros Galeões , 
e dalli fe poz a notar o fitio da Cidade* 
que fe defcubria muito bem , por eftar no 
alto ; e poílo que não vio grande magefta- 
de de edifícios de pedraria , muros , torres , 
coruchéos , nem outra alguma fermofura 
das Cidades da Europa ^ vio todavia huma 
muito fermofa Cidade , eftendida de longo 
daquella ribeira 5 ainda que os muros eram 
de madeira , e as cafas cubertas de folha 
de palma : também vio outras torre? > ou- 
tros baluartes > e outras arquitedluras de 
mais fermofura , e fortaleza , que era grof- 
fo povo , e gente muito luftrofa^ que en- 
chia os lugares altos , e baixos , e tanta, 
etão baíta artilheria, que até por íima das 
arvores fe moílrava > e por todos os baluar- 
tes , guaritas , e eílancias muitas 5 e differen* 
tes bandeiras de cores de fedas defprega- 
das ao vento , e com divifas das tenções 
conforme aos feus Capitães* Tudo iík> no- 
tou D* Paulo de vagar i e mandou a toda 
a Armada que falvaífe a Cidade com ar- 
tilheria fem pelouros , aíTim por bizarria % 
Cg ií co- 



468 ÁSIA de Diogo de Couto 

tomo pêra moftrar aos inimigos o alvoro- 
ço com que os hia buícar , o que fe fez 
com tanto terror , e efpanto , que parecia 
reprefentar o final juizo., afuzilando-fogo, 
vaporando fumo , atroando os ares , e ef- 
curecendo o dia de forte , que tudo era 
huma confusão áviíla da Cidade, que bem 
fabiam que toda a fúria daquella Armada 
havia de ir quebrar em fuás tranqueiras. O 
Rajale, pofto que aquillo fez em feu peito 
hum grande abalo , todavia não fe lhe 
entendeo , antes muito inteiro , e feguro 
mandou que fe falvaííe também a Armada 
fem pelouros , pêra moftrar que não eftava 
com menos brio do com que os noílos vi- 
nham ; e elle em peífoa andou correndo 
as eftancias , e provendo nas coufas que 
lhe pareciam neceflarias ; e porque não te- 
mos dado relação do fitio defta Cidade de 
Jor, fera razão fazermo-lo aqui pêra fe ver 
fua fortificação , e pêra que fè eftime em 
mais a vitoria que os noííos alcançaram. 

Eíla Cidade eftá na ponta daquella lín- 
gua da terra de Malaca fora de todos os 
baixos em altura de gráo c meio de Norte, 
duas léguas por hum rio dentro, muito lar- 
go na boca, e muito eftrei.ro dentro, e to- 
do tão limpo , c de tão bom fundo , que 
hum pouco affaftado da praia podem fur- 
gir grandes náos, e por toda ella põem os 

na- 



Década X. Cap. IX. 469 

navios de remo os efporões em terra : ef- 
tende-fe a Cidade febre hum alto de lon- 
go da praia hum tiro de falcão de diítan- 
cia , cercada de muros de madeira mui 
groffos de duas faces com outros atraveíía- 
dos , e rodeados de andaimes pêra a gen- 
te de peleija j e no meio deita face da Ci- 
dade , que fica fronteira ao íurgidouro, fe 
fazia hum baluarte com o cavalleiro mui- 
to alto , que jogava huma ferpe , e hum 
camello j e logo abaixo delle , onde eítava 
huma arvore , tinha hum leão mourifeo; 
e por fima da arvore , que era grande , e 
frondofa , havia muitos chicorros , peças 
que são abaixo de meios berços: deite for- 
te affima pêra a banda do mar eítá outro, 
a que chamavam Cotobato , que he o mef- 
mo que fortaleza de terra, por fer de tai- 
pas mui groífas , foalhado de vigas mui 
grandes , por lhe ficar debaixo hum arma- 
zém , e por íima jogava hum camello , dous 
camelletes , e hum falcão : e porque nelte 
Forte eítava a força da Cidade , eítava mui 
fortificado , e repairado ; e pêra mais for- 
taleza fazia a primeira banda de fora hu- 
ma couraça , que o cingia todo das mes- 
mas taipas 5 e dentro ficava huma praça 
com terecenas á roda pêra gazalhado dos 
foldados da fua guarda , e pela parte de 
dentro da Cidade rodeava eíte Cotobato 

hu- 



470 ÁSIA de Diogo de Couto 

huma tranqueira de páos mui groífos com 
huma efcada , e porta pêra fua ferventia , 
que hia fahir á rua , que vai dar nas cafas 
de EIRey : da parede , que eílá pêra a ban- 
da do primeiro baluarte, fe enfiava outra 
com feus travézes da mefma taipa, a qual 
hia dar em huma guarita do revéz , antes 
da qual havia huma grande , que era a 
principal da Cidade , que hia também dar 
nos paços 3 a qual atraveííava toda a com- 
pridão da Cidade , a qual fera de hum ti-* 
ro emeio de falcão; e por lima deíla pare- 
de de taipa havia huma tranqueira de páos 
mui groífos com feus travefsoes pregados : 
daqui avante pêra a mão direita corria Iiih 
ma tranqueira de maftros , e páos groíTos 
mettidos em valios de terra altos , e gran-^ 
des , e pela parte doCertão não tinha mais 
que huma tranqueira íimples fem torre , 
jiem baluarte algum , porque daquella parte 
fe não temiam ; e pela face da Cidade da 
banda do mar era toda cercada de huma 
boa cava , toda cheia de agudos , e peri-. 
gofos eílrepes ; e o que fazia a Cidade mui^ 
to mais forte era ficar como Ilha , porque 
de ambas as partes era rodeada de efteiros 
que o rio alli fazia , e a Cidade por ãciu 
tro tinha as ruas tapadas nas entradas com 
tranqueiras de madeira grofia , e de longo 
do mar corria o arrabalde A que era aquela 

le 



Década X. Cap. IX. 471 

le que D. António queimou : em fim a Ci* 
dade toda, vifta de fora, eftava a mais íb- 
bcrba coufa que podia fer , porque por 
todas as partes por onde fe via , fe lhe enxer- 
gava muita artilheria ; e o que era mais pêra 
temer, muita, e fermofa guarnição de foi* 
dados Malaios , Manancabos , Jaós , e ou- 
tras nações fortes , e bellicofas , de que o 
Rajale fe foi apercebendo de vagar , e 
convocando ajudas dos vizinhos , e amigos 
que dentro tinha ; porque parece que o 
coração lhe adivinhava os males que fo- 
bre li vio, e que havia de mifter ajuda de 
todos , e ainda de outros Reys de mais 
longe, fe os pudera acarretar: aíiim fendo 
elle dantes o que fem ajuda , nem favor 
delles por algumas vezes aíFrontou Mala- 
ca , e fe aprefentou com groífas Armadas 
á fua vifta , e com groífos exércitos ao re- 
dor de feus muros , agora parece que en- 
tendeo que não fó havia de refiftir a huma 
groífa Armada guarnecida da melhor Fi- 
dalguia , e foldadefca da índia , mas que 
tinha contra íi hum Capitão muito ventu- 
rofo nas coufas da guerra , porque a boa 
fortuna he começo da vitoria ; pelo que fe 
quiz valer de tudo , e tinha mettido na Ci- 
dade doze mil homens efcolhidos com al- 
guns Reys amigos, como o de Tringal , de 
Dranguir P de Campar , a fora outros fe-i 

nho- 



47^ ASIÁ de DfoGo' de Couto 

nhores amigos , e vaíTallos , com que lhe 
pareceo eílava feguro. 

D. Paulo ao outro dia, depois que al- 
li chegou, chamou a confelho todos os Ca- 
pitães , e tratou íobre o modo da delern- 
barcação , porque determinava de pôr lo- 
go as mãos áquella obra , porque fe lha 
os inimigos vifTem dilatar , cobrariam ani- 
mo , cuidando que os receava ; e depois 
de debatido aquelle negocio , aflentáram que 
fe commetteíle a Cidade pelo canto que vai 
defronte doCorritão direito aílima , porque 
por alli fó não tinha cava. Refolutos niílo , 
mandou o Capitão Mor que fe chegaííem os 
Galeões a terra tudo o que pudeííem , e 
que bateíTem a Cidade pêra terem quebran- 
tados os inimigos ; e indo-fe continuando 
a bateria, o primeiro dia fahíram do rio, 
que corre pela ilharga da Cidade huma có- 
pia de navios cheios de gente luílrofa , e 
foram commetter as noíTas faltas fó por 
divertirem a bateria , e metterem a Arma- 
da em revolta ; mas os nofTos em vendo 
aquella Armada , remettêram a ella , mas el- 
la lhe foi fugindo pêra a terra , a fim de irem 
metter os navios nas bocas das bombardas 
que tinham pêra aquella parte ; ao mefmo 
tempo appareceo huma Armada de quaren- 
ta velas com osmefmos intentos de inquie- 
tarem os noflos 7 qs quaes lhe fahíram , e 

os 



Década X. Cap. IX. 473 

os fizeram voltar. O Capitão Mor entendeo 
íeus defenhos , mandou que fe continuaífe 
a bateria , e que não íahiffem mais os feus 
navios aos inimigos , fe appareceíTem. 

CAPITULO X. 

De como os nojfos defemb arcaram na Cida- 
de de Jor , e de como a entraram : e da 
efpantofa , e duvidofa batalha que 
dentro nella tiveram com os ini- 
migos : e dos caí os que nel- 
la fuecedêram* 

ERa D. Paulo de Lima muito devoto 
da AfTumpçâo de N. Senhora , que ca- 
he a 1$. de Agoíío , e tinha determinado 
de commetter a Cidade em feu dia : foi 
dilatando a bateria , e dando ordem ás 
coufas , defembarcáram , e informando-fe 
da terra , e do modo da Fortaleza , e aos 
13. dias do mez mandou armar da outra 
banda de Jor hum altar , e defembarcou 
com toda a gente, e fe lhe diífe huma de- 
vota Miífa , na qual tomaram a mor parte 
dos da Armada o Diviniílimo Sacramen- 
to, porque fe tinham já confeífado , fendo 
os primeiros os Capitães , porque quiz 
D.Paulo regiftar primeiro com Deos aquel- 
Jas coufas ; por quanto elle quer que fe 

en- 



474 ÁSIA de Diqgo de Couto 

entenda que todo o bem vem delle, e que 
nos homens não ha poder pêra nada ; e a 
gente que faltou por confeífar , e comtnun- 
gar , o fez ao outro dia , que era vefpera 
de N. Senhora , e aífím fe gaitaram eíles 
dous dias neftes exercícios chriftãos , nos 
quaes todos moftráram bem grandes exte- 
riores de arrependimento , e ao outro dia. 
no quarto d 5 alva começou toda a Armada 
a difparar aquella tempeítade de artilheria , 
e de bater a Cidade com grande terror , e 
efpanto , e o Capitão Mor fe mudou aos 
navios de remo com toda a gente da Ar- 
mada , deixando encarregada toda a frota 
a Luiz Martins Pereira , que fe paíTou a 
huma Galé , e com todo o poder coramet- 
têram os noífos a terra , e ao fom de mui- 
tas trombetas , tambores , e pifanos , le- 
vando o Capitão Mor ordenado de toda 
a gente três batalhas , que nunca quiz fa- 
zer delia alardo, por fe não faber o pouca 
poder que tinham , e todavia paífavam de 
íeiscentos Portuguezes : a primeira batalha 
encommendou a D. António de Noronha , 
e a D. João Pereira , que haviam de fer 
a dianteira , e com elles feu irmão D. Nu- 
no Alvares , D. Manoel de Almada , D. Fer- 
nando Lobo , Sebaílião de Soufa , Martim 
Affonfo de Mello, e outros muitos Fidal- 
gos 3 mancebos aventureiros > que defeja- 

vam 






Década X. Cap. X. 475* 

vam de ganhar honra , e toda a gente de 
Malaca: a fegunda batalha deo aMattheus 
Pereira de Sampaio , e com elle D. Ber- 
nardo de Menezes , Sebaítião de Miranda , 
e outros Fidalgos , e Cavalleiros , e a gen- 
te dos bantins de Malaca ; e a terceira ba- 
talha tomou o Capitão Mor pêra 11 , e com 
elle ficaram Franciíco da Silva de Mene- 
zes, D. Pedro de Lima, Diogo Soares de 
Mello, Francifco de Soufa Pereira, Pedro 
Alvares de Abreu , e os dous Capitães 
Froes , e Coelho ; e commettendo a terra , 
o primeiro que nella poz os pés foi D. 

João Pereira com a fua bandeira , e logo 
D. António de Noronha com a de N. Se- 
nhora doRofario, e em terra acharam hum 
efquadrão de inimigos , de que era Capi- 
tão Raja Macota , que o Rajale mandou 
defender a defembarçaçao , com o qual D. 
João Pereira travou logo com grande de- 
terminação , e o levou de. arrancada hum 
bom efpaço até além do^Forte do Corri- 
tao; mas chegou logo outro grande efqua- 

' drão de inimigos de frefco , e ajuntando- 
fe todos, tornaram a voltar íòbre D.João; 
e como o poder era grande , foi-lhe ten- 
do o encontro até fe recolher no Forte do 
Corri tão até chegar D. António de Noro- 
nha com toda a dianteira ; e ajuntando-fe 
todos , deram em os inimigos , e os fize- 
ram 



476 ÁSIA de Diogo de Couto 

ram recolher pêra hum palmar, que fe fa- 
zia da banda do mar , e antes delle fica- 
ram os noííbs efperando pelo Capitão Mor , 
que hia defembarcando de vagar. Tudo o 
que neíte tempo fe ouvio eram corifcos y 
e trovões , aíTmi da Armada , como da Ci- 
dade , que cite dia difparou com todas as 
fuás carrancas ; porque como fe guardava 
pêra então , que havia de fer o ultimo dos 
feus trabalhos , toda a força , e refiílencia 

Í)era a fua defensão , e nos noiTos todo o va- 
or , e esforço , que era neceíTario pêra 
commetter huma Cidade tão forte, e bem 
provida , affim fe desfazia tudo em tro- 
vões , e terremotos , que não havia quem 
fe pudeífe entender. Já neíle tempo era 
manhã clara , e a gente não acabava de 
defembarcar pelo impedimento das eftaca- 
das , em que alguns dos navios fe emba- 
raçaram ; e muitos foldados delles vendo 
o feu Capitão Mor em terra, fe lançaram 
á agua, por lhe não poderem chegar. O Ca- 
pitão Mor depois de poíto em terra , man- 
dou a Diogo Soares que lhe fofle recolher 
alguns foldados, que vio andar defmancha- 
dos , o que elie não pode fazer fó , e/o 
foi ajudar Francifco de Soufa Pereira , os 
quaes recolheram com trabalho , por anda- 
rem jã travados com os Mouros , e alguns 
já bem.efcalavradosj e porque oRaja Ma- 
ço- 



Década X. Cap. X. 477 

cota fe tinha recolhido ao palmar , e af- 
frontava dalli os noífos com fua arcabuza- 
ria ; mandou D. Paulo metter hum daquel- 
les Capitães no Forte doCorritao pêra dal- 
li fazer affaílar os inimigos , o que elle 
fez com morte de alguns. Defembarcada 
toda a gente em terra , poz-fe o Capitão 
no campo com hum fermofo efquadrao ; e 
fobre aparte, por onde fe havia de accom- 
metter a Cidade, tornou a haver diíferen- 
tes pareceres ; porque os bantineiros de 
Malaca que aquillo fabiam bem , andavam 
já alguns como arcados, de que o Capitão 
Mor fe enfadou tanto , que mandou que 
marchaífe a dianteira , e que foíle commet- 
ter a Cidade ; e algumas peças de artilhe- 
ria de campo , que eítavam encommenda- 
das a Fernão Pegado , não quiz que fe le- 
vaíTem , e as houve por efcufadas por al- 
guns inconvenientes que fe oíFerecêram. Os 
da dianteira foram caminhando , e logo 
apôs eiles D. Paulo com todo o poder , e 
foram tomando o caminho , onde o Raja 
Macota eífava recolhido , e todos com hu- 
ma determinação , e furor Portuguez, que 
fe não contenta de menos feitos , que daquel- 
les que na imaginação dos homens são ha- 
vidos por impoffiveis , eaílim foram pairan- 
do avante , fem temerem os eftrondos^ in- 
fernaes de tantos pelouros P quantos lhes zu^ 

niam 



478 AS IA de Diogo de Couto 

niam pelas orelhas , como fe todos eltes 
foram nafcidos debaixo de alguma conílel- 
lação , que lhe não pudefíem impecer : os 
da dianteira foram tomando o caminho 
que diíTemos , e D. João Pereira com feu 
irmão, e toda a fua companhia apartaram- 
fe logo com o feu guião , e todos aíTun 
huns com outros foram peleijando com o 
Raja Macota , o qual apertou tanto com 
os da dianteira , que duas vezes os fez tor- 
nar até o Forte de Corritão ; mas como 
elles não puderam confentir encurralarem- 
nos , tornaram fobre elles com grande fu- 
ror y e deram em os inimigos com tanta 
braveza , que com morte de muitos os fo- 
ram levando até ao palmar. D. Paulo de 
Lima acudio áquella parte, onde já os nof- 
fos andavam travados com os inimigos em 
huma afpera batalha de efpingardaria } e 
foram os pelouros tantos , e tão baftos, 
que affirmáram alguns que fe encontraram 
em o ar huns com os outros 5 e aííim fo- 
ram em huma contínua efcaramuça , levan- 
do fempre os inimigos diante de fi até os 
deitarem fora do palmar ; e ficando já hum 
pouco folgados , foram os da dianteira to- 
mando hum tezo affima , por onde fazia 
hum caminho , que hia dar ao canto da 
Fortaleza naquella parte que ficava fem ca- 
va y por onde eftava aífentado que fe. com- 
ine t- 



Década X. Cap. X. 479 

mettefle a Cidade , e por elle foram até 
chegarem aos muros , indo fempre na dian- 
teira D. João Pereira com a íua bandei- 
ra ; e chegando todos á tranqueira, abar- 
cou-fe D, António de Noronha com hum 
daquelles páos , como quem o faudava, 
ou tomava poíle delle , e começaram logo 
todos a abalar a tranqueira , gritando por 
machados que fe não acharam ; não porque 
a D. Paulo faltaffe a lembrança pêra os 
mandar repartir pelas bandeiras , fenao 
porque os que os levavam a cargo , não eram 
ainda chegados ; e eftando os noflbs com 
as mãos trabalhando pêra affaftar algum 
páo , não lhe íbffreo o coração a hum Ma- 
noel Peftana , foldado de D. João Pereira , 
aquelle vagar , fubio por hum daquelles 
páos afllma , e com aquelle furor felançotí 
embaixo fobre os inimigos, onde logo foi 
efpedaçado , e lhe cortaram a cabeça. A 
efte tempo com a força que os noíTos pu- 
zeram quebrou hum daquelles páos , por 
cuja abertura fe metteo Francifco de Sá, 
foldado conhecido, ealli entalado foi traf- 
paífado de muitas lançadas , de que cahio 
pêra fora , e foi levado á fua fuíta , onde 
logo morreo , e ficou D. António trabalhan- 
do tudo o que podia pêra arrancar mais al- 
guns páos pêra fe pôr de dentro com todo 
o feu poder. D. João vendo os noííbs alli 

em- 



40O ÀS IA de Diogo de Couto 

embaraçados [ foi-fe affaílando pêra a mão 
direita por buícar outro algum lugar por 
onde pudeíTe entrar, e poz todo o feu po- 
der por derrubar hum daquelles páos , por- 
que defejava de fer o primeiro que femet- 
teííe na Cidade , a qual aífifli naquella par- 
te , como na em que D. António eftava j foi 
tão bem defendida dos inimigos 1 como 
quem nella tinham fuás mulheres , feus fi- 
lhos , e fuás fazendas , obrando maravilhas 
efpantofas \ mas nada lhes bailou pêra os 
noífos não infiftirem na entrada , antes fo- 
bre èlía obraram altiíTimas cavallarias , des- 
prezando todo o género de morte que os 
ameaçava, fem terem dever com a grande 
multidão de lanças , e por entre os páos 
lho defendiam 5 offendendo elíes os inimi- 
gos de feição , que tinham ao pé da tran- 
queira da banda de dentro feito hum gran- 
de entulho de mortos , porque aíTim fe of- 
fereciam elles a ella tão determinadamente, 
que no lugar em que fe hum punha , alli 
lhe tirava a vida o pelouro que o traípaf- 
fava , e a lança que o traveííava , fem fa- 
zer pé atrás , e neíte trabalho os deixare- 
mos , porque he neceílario continuarmos 
com D. Paulo de Lima. Apartada a dian- 
teira, foi elle caminhando pelo palmar den- 
tro guiado de hum daquelles cativos que 
fugiram , quando os noífos queimaram o 

ar- 



Década X. Cap. X. 481 

arrabalde , o qual fabia muito bem aquellâ 
terra \ e por ir o Capitão Mór muito can- 
fado do trabalho , e do pezo das armas , 
fe aíTentou hum pouco fobre huma pedra í 
e perguntou fe fabia alguém novas de D» 
António de Noronha , porque o não vio, 
quando fe apartou delle 3 as quaes lhe deo 
Diogo Soares de Mello > que áquella hora 
chegava onde elle eíhva , e lhe diííe que 
ficava pegado na tranqueira da Cidade em 
batalha com os inimigos; porque tanto que 
vio ir D; António por aquelle tezo alTima , 
os foi feguindo com muito trabalho , por 
ir fempre ás efpingardadas com os Mou- 
ros , até chegar a defcubrir os noífos na 
tranqueira ; e voltando coiíi muita prefla, 
deo aquellas novas ao Capitão Mor, com 
as quaes elle folgou muito , porque recea- 
va que lhe tivefle acontecido algum defaf- 
tre. Com iítò fe levantou o Capitão Mór^ 
e. começou a marchar pêra onde Diogo 
Soares os guiou , e no caminho acharam 
hum Capitão Malaio com mil e quinhen- 
tos efcòlhidos , que vinham em foccorro de 
Raja Macota , e vinham já juntos ambos, 
e commettèram os noífos com tamanha de- 
terminação , quS como homens oíferecidos 
a morrer , fe mettiam pelas lanças 5 e che- 
gavam á efpada $ e ainda muitos de punha- 
das , travando-fe a pé quedo j e de rofto a 
Coute. Tom. VI. P* Zr* Hh ref* 



4$2 ÁSIA de Diogo de Couto 

r.ofto huma muito cruel , e arrifcada bata- 
lha ; mas como os inimigos eram tantos , 
começaram-fe a defordenar alguns dos nof- 
fos , que peleijavam na dianteira. O Capi- 
tão Mór vendo aquillo , entendendo que 
não eílava em mais perder-fe que em fe 
começar a defconcertar , arrancando de hu- 
ma formofa eípada , paflbu-fe adiante 5 e 
lançou-fe em meio dos inimigos com ella 
levantada em alto , dizendo: Aqui , Cavai- 
leiros de Cbrifto : ah Cavalleiros esforça- 
dos , fegui-me , porque aqui ejid o negocio 
da viãoria ; e corn aquelle furor deo em 
os inimigos , a quem fez bem fentir os fios 
da fua eípada. Vendo os Capitães , e todos 
os mais o ieu Capitão Mór naquelle rifco , 
rompendo como leões por tudo , foram-fe- 
lhe pôr diante , e alli obraram tão altas 
cavallarias , fazendo nos Mouros tal eftra- 
go , que de o não poderem foffrer , fe fo- 
ram recolhendo pêra o palmar, indo já o 
Raja Macota ferido , e o outro Capitão > 
que lhe veio de foccorro ficar eílirado no 
campo morto com muitos dos feus. Os nof- 
fos os foram feguindo \ e como logo adian- 
te havia hum mato 3 receando D. Paulo 
que nelle eftiveíTe armada alguma cilada, 
tocou a recolher , e elle fe aflentou hum 
pouco, de muito canfado ; e depois de ajun- 
tar os feus 5 tomou o caminho pelo tezo 

af- 



Década, X. Cap. X. 483 

afíima ; e com fer muito íngreme , foi por 
elie tão apreflado , e animofo , como fe não 
tivera paflado trabalho algum , dando a 
alegria de feu roílo (que era muito gentil) 
huma muito certa efperança da viâoria; 6 
aííim chegou a D. António a tempo que 
tinha tirados dous páos , e feito camiíiho 
pêra entrarem S efta chegada foi hum ef- 
pantofo efpeftaculo , e que pudera metter 
medo a muitos ■ porque acharam aquellè 
campo cheio de mortos , e feridos , e os 
Padres confeíTando os que podiam , e no* 
meando o nome dejefus ao outro que eíta-* 
va alli perto já efpirando ; huns gemendo, 
outros bradando por panellas de pólvora, 
por lanças de fogo , por machados , por 
enchadas , e pelo Capitão Mor, de forte 
que tudo era huma confusão, e labyrintho* 
Os inimigos eftavam da banda de dentro 
defendendo fua Cidade também com fuás 
gritas, e clamores, chamando pòr feus Ca- 
pitães , e pedindo também o que lhes era 
íiecelfario : em fim efte foi o dia dos mais 
aíTinalados , e em que os Portuguezes mais 
írtoftráram os quilates de todo o feu esfor- 
ço, e valentia. Chegado D. Paulo áquella 
parte , a tempo que dous páos fé acabaram 
de arrancar, começou a favorecer a todos, 
e appellidar Sant-Iago \ e o primeiro que 
fepoz da banda de dentro, foi Sebaftião de 
Hh ii Mi- 



484 A 51 A de Diogo de Couto 

Miranda , e logo hum Foao Froes , e ou- 
tros , e apôs eltes o Alferes de D. Antó- 
nio , que era hum valente cavalleiro , com 
a bandeira de N. Senhora do Rofario , e 
logo com elle entrou D. António de Noro- 
nha , D. Manoel d 5 Almada , e todos os 
mais Fidalgos , e companheiros de honra , 
recebendo todos muitos golpes , e feridas 
mortaes , e perigofas , de que alguns cahí- 
ram. D. Paulo chegou-fe aos que hiam en- 
trando, e os animou , e louvou com pala- 
vras muito honradas , as quaes dando-lhes 
nas orelhas , aílim íe animaram , que íe 
mettêram pelas lanças dos inimigos , ma- 
tando , e derrubando nelles tantos , que de 
os outros não poderem aturar aquelle eftra- 
go , defamparáram tudo , e foram-fe reco- 
lhendo. O Capitão Mor entrou da banda 
de dentro com o reílo do poder, efez aos 
feus huma breve exhortação , em que lhes 
lembrava a obrigação de Chriftãos , e Ca- 
valleiros , e que já eílavam em parte que 
ou todos haviam de acabar alli efpedaça- 
dos , ou haviam de ganhar aquelía Cida- 
de, que era o fim de todos os feus traba- 
lhos : e aílim encommendando-fe a Deos r 
foi entrando por ella. D. João Pereira , que 
deixámos rodeando o muro pêra bufcar 
outra entrada , chegando a huma parte que 
lhe pareceo mais fraca, mandando-lhe pôr 

os 



Década X. Cat». X. 48? 

os peitos , o que os mais dos feus fizeram , 
ainda que da banda de dentro eítava hum 
grande cardume de inimigos , que trabalha- 
ram por lha defender; e tanto trabalharam 
todos , que derrubaram alguns madeiros , e 
fizeram a poder de lançadas hum arrazoado 
caminho por onde foram entrando, e dos 
primeiros D. João , e feu irmão D. Nuno 
Alvares , e alguns Fidalgos , e Cavalleiros 
que os feguiam , rompendo todos por gran- 
des baftidas de lanças , e por outros inftru- 
mentos mortaes , com que os inimigos tra- 
tavam de defender a fua Cidade ; e eftando 
os noííos já da banda de dentro , chegou 
hum daquelles Reys de foccorro em íima 
de hum elefante com hum grande tropel de 
Mouros , que parece vinha fugindo daquel- 
la parte , por onde o Capitão Mor vinha 
entrando ; e vendo aos da companhia de D. 
João dentro na Cidade , por aquella parte 
remetteo com os feus pêra os lançar fora ; 
mas D. Nuno Alvares Pereira fe atraveífou 
diante do elefante , e lhe difparou no rof- 
to a efpingarda com que hia peleijando, 
c quiz a fua ventura que o tomaíTe aífima 
da tromba, e que o efcandalizaíTe de feição 
que o fez voltar pêra trás , dando grandes 
urros ; e todavia os Mouros apertaram 
tanto com os noíTos , que não podendo el- 
les foíFrer tamanho pezo > tornaram a re- 
cuar 



4%6 ÁSIA de Diogo de Couto 

çuar ate á tranqueira , fahindo-fe alguns 
delia pêra fora , ficando D. João , e feu 
irmão , e outros Çavalleiros , e Fidalgos 
yalerofos com as coitas nos páos , fuílen- 
tando aquelle impeto com muito grande 
valor , e rifco , fazendo todos obras de 
immortal memoria, Nefte tranfe o Alferes 
da bandeira de D. João foi derrubado de 
hum golpe ; mas hum foldado , de alcunha 
o Troviícada , levantou logo a bandeira 
no ar , e com grande animo fe poz com 
elia arvorada diante de todos , appellidando 
Sant-lago. Aqui fez D. João Pereira não 
fó o offiçio de muito bom Capitão , mas 
ainda de valerofo foldado , ficando fempre 
encoílado á tranqueira, pofto que vio que 
alguns o deixavam , e com os poucos que 
lhe ficaram, defendeo mui bem aquella par- 
te com grande damno , e eílrago dos inif 
migos , fem perder nada delia, peleijando 
cada vez mais arrifcadamente , fem efpe-> 
rança de foccorro , e fem faber o que era 
feito do Capitão Mor, 



CA* 



Década X, Cap. XI. 487 

CAPITULO XI. 

De como a Cidade de Jor foi entrada : e 
do grande , e perigo] o conflito em que os 
nojfos fe viram \ e dos cafos que pa/fdram 
até os inimigos ferem de todo vencidos , 
e defpejarem a Cidade. 

TAnto que D. Paulo de Lima entrou a 
Cidade , como diííemos , foi pela rua 
adiante por onde D. António de Noronha 
hia peleijando com os Mouros ; e apôs el- 
]e a fegunda batalha , de que era Capitão 
Mattheus Pereira , e com elle D. Bernardo 
de Menezes , Francifco de Soufa Pereira, 
Sebaftiao de Miranda , e outros Fidalgos , 
e Cavalleiros , que todos hiam por aquel- 
la rua , que era eftreita , e cheia de lama, 
levando os inimigos fempre diante , cem 
os-quaes foram peleijando muito valerofa- 
mente , fendo os noíTos bem perfeguidos 
de fíma. das janellas , e guaritas de infini- 
tos dardos de arremedo, de frechas de pe- 
çonha , e de outros muitos inílrumentos 
mortaes , que todos fe empregavam , por 
irem os noíTos muito apinhoados pela ef- 
treiteza do lugar, dos quaes alguns cahíratn 
mortos , e feridos. Vendo Mattheus Perei- 
ra que; aquella rua hia maíílça com os da 
dianteira , e que aífím de fíma das janel- 
las j 



4^8 ÁSIA de Díogo de Couto 

las , como das bocas das traveíTas , que 
hiam fahir áquella rua , eram todos muito 
maltratados, e que ainda que fe quizeííem 
defender, não podiam , achando hum camn 
nho , que hia por íima do muro , foram fu- 
bindo por elle até fe porem em fima dos 
andaimes , donde hiam peleijando com os 
inimigos mais á fua vontade, emais defaf- 
fogados. D, António de Noronha foi palian- 
do avante, e rompendo por todos aquelles 
perigos mortaes , que fòbre todos cabiam, 
paíTando por íima de corpos dos inimigos, 
que tinham derrubados, o que também lhe 
pão foi pequeno impedimento, e fe viram 
muitas vezes perdidos; mas á força de bra* 
ço paliaram por tudo , fazendo todos tão 
altas cavallarias , que fe não podem parti- 
cularizar. Indo affim nefte trabalho , e to-> 
davia levando fempre os inimigos diante, 
chegando ao cabo daquella rua , a qual 
hia dar em outra muito grande , que era 
a de EíRey , foram os. inimigos recmfceá* 
do , por eftar alli todo o poder , e a peífoa 
de EIRey ; e apertaram tanto com os nofr 
fos , que efteve a coufa muito arrifcada a 
fe perder tudo.; mas todavia o esforço de 
D- António, e de D. Manoel de Almada, 
c de todos os mais Capitães , Fidalgos , c 
çavalleiros de honra, que fempre foram na 
dianteira fuftentaado. aqueile pe^o á cufta 

de 



Década X. Cap. XI. 4S9 

de muitas feridas , e das vidas de muitos , 
o que foi muito pêra fentir 5 que também 
entrou aqui D. Bernardo de Menezes , a 
quem deram huma efpingardada^ pelo pef- 
coço , de que logo cahio morto , indo arma« 
do* de armas 5 que os pelouros não podiam 
■offender por todas as mais partes do feu 
corpo , tendo elle primeiro moílrado o va- 
lor, e esforço que fempre nelle fe achou: 
efta morte parece que o coração lha tinha 
antes adivinhado; porque eítando-fe arman- 
do pêra defembarcar, diffe a hum feu ami- 
go , que já tomara fahir daquelle negocio 
com huma perna menos , e ao defembarcar 
lhe deram logo com hum pelouro de mof- 
quete na rodella, que o derrubou ao mar; 
e depois em pondo os pés em terra , o vi- 
ram os inimigos tão trifte , e malenconi- 
zado , que elie mefmo fentio em íi outros 
differentes affedtos dos dias paliados , que 
parece que já fe lhe reprefentava a triíle 
morte que lhe haviam de dar , a qual foi 
muito fentida de todos pela perda que na- 
quelle tempo fazia fua peífoa , por fer mui- 
to bom Cavalleiro ; e em todas as coufas 
em que na índia fe achou , que foram mui- 
tas , fempre deo muito grandes moftras do 
feu esforço ; e porque nos pareceo que não 
çra bem paífar por hum cafo efpantofo que 
aqui lhe aconteçeo , o contaremos , porque 

fer- 



49^ ÁSIA de Diogo de Couto 

fervirá de exemplo pêra os mancebos nos 
perigos , como eíle , fazerem conta com 
Deos , pois arrifcão tanto as vidas pelas 
coufas delia ; e o cafo foi eíle. Era eíle 
Fidalgo nafcido , e creado x na índia , e dado 
ás delicias , e lafcivias delia, como man- 
cebo, poíto que já o não era. Parece que 
fabia outro Fidalgo feu amigo , que anda- 
va por confeíTar • e como os que tem eíle 
nome, e fangue o hão de moítrar mais nas 
coufas que pertencem á alma , que não nas 
do corpo , o perfuadio o outro a fe con- 
feíTar , e ainda o levou comíigo a huma 
fufta, onde hia hum Religiofo , e o deixou 
a feus pés. Succedeo na mefma noite, ef- 
tando na camera da fua Galé , querer fazer 
feu teítamento ; e eítandoo começando , 
paífou-lhe hum rato por íima do papel por 
íinco , ou féis vezes , que tantas começou a 
querello continuar ; e tantas coufas fez o 
rato, e arranhou, e tanto o amofinou, que 
deixou o teítamento , e fe deitou a dor- 
mir ; e em tomando o fomno , lhe roeo o 
mefmo rato hum pé , pelo que mais pare- 
ceo aquillo tentador que rato. 

E tornando ao noílb fio , D. António 
eíleve no cabo daquella rua perdido de to- 
do , e diante delle lhe mataram muitos dos 
feus , e a elle lhe deram huma efpingarda- 
da pela fralda do capacete , fem receber 

da- 



Década X. Ca?. XI. 491 

damno algum; mas não ficou fem elle de 
huma frechada de peçonha que lhe deo em 
huma maça do rofto , da qual fe lavou to- 
do emfanguei mas todavia femprefoi pa£ 
fando á vante , epeleijando com muito va- 
lor. O Capitão Mor depois que Mattheus 
Pereira tomou por íima dos andaimes , fi- 
cou na retaguarda de D. António , e íem- 
pre foi cevando com gente de refrefco , e 
notando tudo o que fuccedia pêra prover, 
e acudir ao que fofle neceífario : em fim 
tanto trabalharam os da dianteira, que fa- 
híram á rua grande deElRey, onde eílava 
todo o poder com a peifoa do Rajale , e 
os Reys da Liga com toda a frol dos íeus 
Cavalleiros, os quaes arremettêram com os 
noiTos , por fe moílrarem diante dos feus 
Reys ; e com tamanho impeto deram na 
dianteira , que fizeram parar todos , derru- 
bando alli alguns , e ferindo muitos. Aqui 
foi o mor perigo em que fe os noííos vi- 
ram , no qual eílava o fim daquelle nego- 
cio, e em que não havia mais que vence- 
rem , ou morrerem todos , porque não ha- 
via donde os foccorreíTem , nem outro fa- 
vor mais que o de Deos , e o de feus bra- 
ços , a que elles fe encommendáram , ale- 
vantando os olhos ao Crucifixo , que hia 
em meio delles arvorado , e na figura da 
Virgem N. Senhora, que fe via na bandei- 
ra 



492, ÁSIA de Díogo de Gquto 

ra de D. António de Noronha , encommen- 
dando-fe-lhe de todo o coração, e menean- 
do as mãos em fua defensão ; mas como 
alli acudio o poder todo , e os Reys en- 
traram também na batalha 5 animando aos 
feus a defenderem fua Cidade, ficou acou- 
ía tão íufpenfa , e arrilcada , que de ver D. 
Paulo quaíi perdido tudo , mandou alguns 
Fidalgos da fua companhia que foliem íoc- 
correr D. António , que eílava diante com 
D. Manoel de Almada , fazendo todos tão 
altas cavallarias que era efpanto ; e apre- 
fentando-fe os de refrefco diante , fuflentá- 
ram aquelle impeto dos Mouros hum pou- 
co , e todavia pararam, porque elles eram 
muitos , e de todas as partes cahiam fobre 
os noíTos corifcos , e todos os mais inílru- 
mentos , que pêra noífa ofFenfa lhes enfinou 
feu engenho, D. Paulo de Lima vendo o 
feito tão arrifeado , receando que alguns 
dos de diante fe defmandaíTem no que fó 
eílava fua perdição , paliou por todos com 
a efpada na mão , e aprefentou-fe diante 
aos inimigos, accl amando Sant-Iago , e di- 
zendo aos feus : Eia , Cavalleiros de Chri- 
jio , avante \ e dando em os inimigos , co- 
meçou a cortar por elles com tamanho ani- 
mo , e fegurança , que nunca o furor da 
batalha lhe fez perder a obrigação de Ca- 
pitão j porque meneando as mãos em damno 

dos 



Década X. Cap. XI. 493 

dos Mouros, mandava, e governava tudo. 
Os Fidalgos, e Cavalleiros da fua compa- 
nhia vendo o feu Capitão Mor mettido no 
maior perigo, paííáram-fe-lhe porem dian- 
te, fazendo todos obras memoráveis , e af- 
finalando-fe diante de todos Diogo Soares 
de Mello , que ganhou aqui muitas honras. 
Mattheus Pereira , que hia pelos andaimes, 
foi porelles peleijando com todos os Mou- 
ros do Cotobato , e das guaritas que fahí- 
ram ao receber , nos quaes achou tamanhas 
refiftencias , que como homens determina- 
dos a mcrrer, fe mettiam pelas armas dos 
noííos fem temor da morte , ferindo , e der- 
rubando alguns de muitos , e perigofos ti- 
res que choviam fobre elles ; mas paílando 
íempre por tudo , foram avante ferindo , e 
matando em os inimigos , que não deixa- 
vam o lugar fenão com a vida. Mattheus 
Pereira foi fempre diante de todos fuften- 
tando o impeto dos Mouros , fazendo-fe 
temer a todos £>do eítrago que lhe viram 
ir fazendo, porque era hum homem muito 
grande, membrudo, e fobre tudo de gran- 
de animo , e forças , e como leão feroz foi 
fempre pondo o peito a todos os perigos , 
bradando pelos ieus que o feguiffem , e 
que ganhaítem o Cotobato , que niílb eíla- 
va o remate de toda a viítoria , indo nefte 
tranfe emparelhando com a rua de EIRey , 

on- 



494 A S I A de Diogo de Cout o 

onde os noffos eítavam naquella perigofá 
batalha em que os deixámos , fem fe de- 
clinar a vidtoria a nenhuma parte ; e como 
hiam por íima dos andaimes , defeubriam 
toda a rua , e viram muito bem o rifco 
em que o Capitão Mor eftava , c a con- 
fusão em que todos fe viam ; e levado 
Francifco de Soufa Pereira de hum hon- 
rofo furor , vendo a efcada que defcia do 
muro áquella rua , defceo-fe por ella com 
alguns dos feus foldados 5 e foi-fe metter 
naquelle perigo ; e paflando-fe diante del- 
le , chamando Sant-lago , começou a fa- 
zer brabofidades em companhia daquelles 
Fidalgos , e Cavalleiros , que fuftentáram 
todo aquelle pezo. D. Paulo de Lima mof- 
trou nefte dia o remate de feu valor , e 
prudência , porque também aquelle foi o 
mor perigo em que fe nunca vio , em que' 
todos fe acharam em tanto aperto , e rif- 
co que teve muitas vezes a coufa por du- 
vidofa ; e D. Manoel de Almada , que hia 
na dianteira fazendo façanhas 5 e dando-fe 
a conhecer aos inimigos ? que hia afliiialan-- 
do com os fios da fua efpada , depois de 
ter feito tudo o que fe podia efperar de 
hum efpiritò defejofo de honra , lhe de* 
rao com dous zargunchos de arremeífo , 
hum delles que o tomou por baixo da bar- 
riga > do qual logo cahio mortal x mas co- 
mo 



Década X. Ca?. XI. 495* 

mo o animo eílava ainda prompto , traba- 
lhou por fe levantar , e fatisfazer-fe da- 
quella injúria , o que não pode fazer, por- 
que a ferida era mortal , e tornou a cahir 
íem fallar ; mas D. António de Noronha, 
que eílava junto delle , fe lhe atraveílbu 
diante , pêra que tiveííe tempo de fe ale- 
vantar , cuidando não feria a ferida tão 
perigofa ; mas vendo que era acabado , foi 
fazendo feu officio , peleijando, e animan- 
do os feus com muita fegurança , e gran- 
de mágoa , e dor da morte daquelle Fidal- 
go , o que em todos aquelles trabalhos lhe 
fora fempre companheiro , e no qual fe 
perdeo muito pelas efperanças que tinha 
dado pêra coufas muito grandes. D. Paulo 
de Lima efteve muitas horas fuítentando 
aquelle ímpeto, porque os inimigos acudi- 
ram alli todos , e como huma arrebatada 
torrente , vinham arrebentar em os noiTos , 
como foe a força da agua fazello em al- 
guma dura rocha, fe fe lhe atraveíía dian- 
te. Eíles encontros efperavam os noííos 
tão firmes, e feguros , que não havia cou- 
fa que os abalafíe , fendo o partido tão 
differentej porque além do numero fer tão 
defigual , que havia vinte pêra cada hum , 
andavam os noílbs canfados , carregados 
de armas , affogados de calma , maltrata- 
dos das feridas , e fem efperanca de mais 

foc- 



49^ ÁSIA dê Diogo de Couro 

fcccorro , o que tudo tinham os inimigoá 
tanto de vantagem , porque andavam fol- 
gados , e em fuás caías diante dos olhos 
dos feus Reys , e em defensão de fua Ci- 
dade , de fuás mulheres , filhos , e fazen- 
das > o que tudo ifto os obrigava a faze- 
rem maravilhas > e a defprezarem a morte* 
A efpingardaria dos Mouros era tanta ^ que 
fe os mais que andavam na dianteira op- 
poftos á fua fúria , não trouxeram armas 
fortes , fem dúvida tudo fe desbaratara , 
porque ficaram poucos que não recebeífem 
efpingardadas\ fenão quando D. Francifco 
Lobo , que peleijava nos mais dianteiros , 
e tinha dado grande prova de fua peííba i 
recebeo quatro juntas , e huma delias lhe 
foi rompendo a ponta da orelha ^ de que 
andava todo banhado de fangue ; e como 
era mancebo fem barba 5 e muito gentil , 
aquillo o fazia parecer tanto mais 7 que 
bem puderam todos os derredor ter-lhe in- 
veja , fe elles também não andaram pêra 
ferem invejados de todo o mundo. Aqui 
deram também humazargunchada em Fran- 
cifco da Silva de Menezes (que todo aquel- 
le dia trabalhou por igualar a todos os que 
mais fe affinaláram) da qual cahio 3 mas 
tornou-fe a levantar com grande animo* 
Nefte paffo houve alguns que bradaram quê 
deílem fogo á Cidade ? o que o Capitão 

Mójt 



Década X. Cap. XL 497 

Mor ouvio , e bradou alto : Avante i CavaU 
leiros y ganhemos ejla vi6íoria por nojfos 
braços : não queiramos que a gloria delia, 
tios leve o fogo ; e com ifto foi dando ai* 
guns paflbs adiante , e ferindo nos inimi- 
gos , aos quaes não havia força humana 
que fizeíle mover , porque eftava a rua maf- 
fifía, e fó aquellcs faltavam contra os nof- 
fos , os quaes eiles derrubaram, e com os 
pés em íima deiles peleijavam com os ini- 
migos , porque não havia lugar pêra mais* 
Neíle grande confliclo em que a coufa ef- 
tava íufpenfa, e fem fe declarar, fe abrio 
huma porta, que hia por huma ilharga do 
Cotobato fahir á praia , pela qual fe fo- 
ram recolhendo alguns dos noflbs , por ha-- 
verem tudo por acabado 5 e perdido; mas 
quiz Deos que os que eftavam fervorofos na 
batalha não attentaíTem niíTo 5 porque co- 
mo os mais eílavam canfados , e defconfia- 
dos , pudera tudo correr rifco , e pôr-fe 
em desbarato. Mattheus Pereira foi por íi- 
ma dos andaimos levando os Mouros até 
os recolher no Cotobato , e de fora ficou 
peleijando com elles valerofamente ; e pon- 
do os olhos na rua em que o Capitão Mor 
eítava , vendo aquella confusão , e poder 
dos inimigos , revê aquelle negocio por 
muito duvidofo , pelo que determinou de 
morrer , ou entrar o Cotobato P porque 
Couto.Tom.FLP.il. li met- 



49S ÁSIA de Diogo de Couto 

mettendo-fe nelle, que era o principal for- 
te da Cidade , poder-fe-hiam recolher to-, 
dos dentro, e de alli fe remediarem ., o que 
foi coníideração de Capitão muito exper- 
to , e a principal occafião da vistoria ; e 
com eíte difcurfo , como fe fora hum leão 
bravo , arremetteo com o Cotobato acom- 
panhado de alguns esforçados foldados , e 
Cavalleiros , que nunca o deixaram ; e pon- 
do-lhe os peitos, trabalharam pelo entrar, 
fazendo alli todos coufas efpantoias aos 
inimigos 5 as quaes elles fentíram bem em 
fuás carnes. Aqui aconteceo outro cafo , 
que também houvera de fòr perdição de 
todos , e foi , que vendo alguns dos íeus 
aberta aquella porta que diíTemos , e ven- 
do fahir pêra fora alguns foldados da com- 
panhia do Capitão Mor , havendo tudo por 
acabado , foram-fe efcoando pêra baixo , e 
fahíram-fe também pêra a praia; e outros, 
a que o medo não deo tanto vagar, fe lan- 
çaram dos andaimos abaixo pêra a banda 
de fora ? e cahíram dentro na cava , onde 
fe encravaram nos eftrepes de que toda ef- 
tava cheia ; e chegou o negocio a tanto, 
que não ficaram com Mattheus Pereira mais 
de quinze pefioas , tendo elle entrado pe- 
los andaimos com mais de cento e fincoen- 
ta , em que entravam algumas cem efpin- 
gardas } e vendo^b elle tão fó, houve-fe 

por 



Década X. Ca Po XL 49$» 

por perdido ; e encommendando-fe a Deos 
com grande confiança neile , arremetteo 
com o Cotobato com os que com elle fi- 
caram pêra morrer dentro nelle; mas achoii 
tal defensão, que muitas vezes o rebateram 

Íera fora. Nefte pado tão arrifcado bradou 
um foldado da companhia por MattheuS 
Pereira ; e pondo os olhos em lima , não 
vio nada > e todavia com grande confiança 
arremetteo com o Cotobato , bradando pe* 
ia Senhora que lhe valeíTe ; e rompendo 
pelas armas dos inimigos , dizendo : Ah 
companheiros , fegut-me ' 5 arremeçou-fe den- 
tro com alguns que o íeguíram , e o pri- 
meiro que dentro poz os pés foi humRuy 
Martins > natural de Monte Mói* o Novo , a 
que ficou fempre o fobre alcunha o Cotobato* 
Os inimigos vendo os noflbs dentro , lar- 
garam o Forte , e íe recolheram pêra outro , 
que eftava diante ; e vendo-fe Mattheus Pe- 
reira defaffògado , deo graças a Deos poí 
tamanha mercê; e de já íe não poder íiií* 
ter nas pernas de canfado do trabalho , e 
do efpirito, aflentou-fe pêra cobrar algum 
alento* 

O Capitão Mor , que deixamos na- 
quelle conflito, fez tão altas cavallarias, e 
D. António de Noronha , com todos os 
que peleijavam na dianteira , que a poder 
de muitas mortes dos inimigos os arranca* 
li ii ram 



5*00 ÁSIA de Diogo de Couto 

ram da rua hum efpaço. Vendo D. Paulo a* 
quelle termo, teve-o poríinai de vi&oria ; e 
não fe efquecendo de fua obrigação , cha- 
mou Francifco de Soufa Pereira , e lhe dií- 
ío , que fe foííe pêra Mattheus Pereira , de 
que ainda não fabia novas ; o que elle fez, 
e já o tomou dentro no Cotobato aífenta- 
do fem fe poder bollir ; e perguntando-Ihe 
o que faria , lhe diífe , que viraíle algumas 
peças de artilheria pêra o outro Baluarte 
pêra onde os inimigos fe recolheram , e 
outros pêra a rua. direita , por onde o Ca- 
pitão Mor hia , aflim pêra fe fegurar alli , 
onde eítavam os Mouros do outro baluar- 
te, fe os tornaffem a accommetter, como 
pêra favorecerem os noífos que peleijavam 
na rua. Francifco de Soufa com os compa- 
nheiros que com elle foram fez logo aquel- 
la obra , mandou difparar algumas bom- 
bardadas no Baluarte , com que os inimi- 
gos o defamparáram de todo , e fugiram pê- 
ra a rua grande, onde o Capitão Mor pe- 
leijava, e as outras peças que apontou pê- 
ra aquella parte , alevantando-lhes o pon- 
to , porque fobrelevaíTe os noíTos , foram 
dar em os inimigos , que eftavam lá pela 
porta do Paço , e pelos que eftavam no ca* 
bo da rua, nos quaes fizeram grande eftra* 
go ; e com iílo, e com verem que o Co- 
tobato era tomado, foram deixando a rua 

aos 



Década X. Cap. XI. 5-01 

aos noflbs , que já hiam levando os Mouros 
de arrancada mais defaffbgadamente. 

As novas da tomada do Cotobato che- 
garam ao Capitão Mor, as quaes affim pê- 
ra elíe , como pêra todos foram de muito 
grande alegria , porque niílb fe acabava de 
arrematar a viétoria. 

Em todo efte tempo não deixou a Ar- 
mada de bater a Cidade, fem faber o que 
nella hia, ouvindo hum grande efpaço cei- 
far os tambores 3 e o Cotobato , em que 
todos tinham os olhos , fempre com as 
bandeiras inimigas arvoradas nelle, com o 
que eftavam em grande confusão , até que 
Mattheus Pereira, depois de cobrar algum 
alento, as mandou tirar, e alevantar afua: 
o que da Armada fe feftejou com grandes 
gritos, e alvoroços, elogo deixaram aba- 
teria; ehavendo-fe* aquelles Reys por per- 
didos , puzeram-fe ern elefantes com fuás 
mulheres, e coufas mais eftimadas , que de 
paífagem puderam tomar , foram-fe reco- 
lhendo porhuma porta do Certão , pôr cnde 
fe começaram todos a vaiar. Os noífos com 
o alvoroço da viíloria puzeram por algu- 
mas partes fogo á Cidade, o qual fe ateou 
com tanta braveza , por ferem as cafas de. 
madeira , que não foi poífivel aguardarem 
os noífos dentro, pelo que o Capitão Mor 
tocou a recolher y e foi-fe fahindo pêra fo- 
ra 



çoz ÁSIA de Diogo de Couto 

ra das tranqueiras até lhe tornar o fogo & 
dar lugar pêra a poderem os foldados fa~ 
quear , fe IheficafTe alguma couíá por quei- 
mar ; mas elle como andava braviífimo , e 
achou matéria difpofta , pegou até nos páos 
da tranqueira , os quaes arderam duas bra- 
ças debaixo do chão , ainda os mefmos 
vallos em que elles citavam mettidos ; era 
ifto já a horas do meio dia, quando fe fa- 
hiram pêra fora. 

D. João Pereira , que deixámos pela 
outra parte , foi também ganhando a rua 
aos inimigos, fazendo elJe, e feu Irmão, e 
os mais Fidalgos , eCavalleiros de ília com- 
panhia coufas muito dignas de maior efcri- 
tura, deltruindo, matando , e ataííalhando 
em os inimigos, e fazendo nelles tal eftra-» 
go que foi elpanto , ifto durou até que a. 
Cidade tomou fogo , o "qual o obrigou a 
fahirpera fora fcm faber o que dentro hia, 
nem o que tinha fuccedido ao Capitão Mor y 
e de longo do muro foi bufcar a porta 
por onde D. António entrou , onde achou 
o Capitão Mor com todo o poder , o qual 
o recebeo com grandes honras , e palavras 
de louvores feus , e de todos, Alíi chegou 
hum recado de Mattheus Pereira , em que 
mandou a pedir gente, por eílar com pou- 
cos foldados ; porque fe fe ajuntaflem os ini- 
migos ^ correria rifco ; e vendo o Capitão 



Década Xf Cap. XI. 5*03 

Mor fer aquillo o mais importante de tu- 
do , tornou a entrar a Cidade com to- 
do o exercito, e recolheo-fe no Cotobato, 
que por fer de taipas não lhe tocou o fo- 
go , e deixou na porta alguns Capitães de 
guarda delia : o fogo foi tomando tamanha 
poíTe da Cidade , e com tanta braveza , que 
parecia hum diluvio delle , por eítar toda 
recheada de fazendas 'de muito valor, que 
todas fe confumíram , e dentro nas cafas 
muitas mulheres , e meninos , que não pu- 
deram fugir, do que pezou muito ao Ca- 
pitão Mor, porque defejou de ganhar aquel- 
la Cidade pelos fios da efpada pêra dar 
nella hum rico faço a feus íbldados ; por- 
que já que elles por feus braços, e valen- 
tes corações diante delle fizeram tão altas 
cavalíarias , quizera vellos cevar nas coufas 
que elles tanto á cuíla de feu fangue com- 
praram. 



CA- 



■y©4 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XII. 

De como fe arrematou a viãoria , e fe def- 
truio , e ajfolou a Li da de toda : e dos 
defpojos que nella tomaram : e dos mor- 
tos , e cativos que houve de ambas as 
partes : e de como D. Paulo foi recebido 
em Malaca. 

POfto D. Paulo no Cotobato , deitou lo- 
go efpias fobre os inimigos pêra faber 
delles , e foi avifado ferem mettidos por 
eíTe certao ; pelo que em o fogo abrandan- 
do , mandou pôr guardas nas portas todas , 
e ao outro dia pela manha largou a Cida- 
de aos foldados , pêra que a faqueafíem , 
deixando-fe elle ficar no Cotobato , e man- 
dou embarcar a artilheria que era muita ; e 
porque não paliemos pelos favores , e mer- 
cês de Deos , e da puriffima Virgem fua 
Mai pêra edificação dos que peleijarem por 
fua Fé, e pêra commettercm todas as cou- 
fas com grande confiança nelle , fe ha de 
faber , que tanto que Mattheus Pereira en- 
trou no Cotobato , quedefcançou hum pou- 
co, perguntou pelo foldado que vira a Vir- 
gem N. Senhora , que lhe bradou que en- 
traííe no Cotobato, que ella os chamava; 
e entre todos os que fe com elle acharam 
mo houve quem tal viífe, nem depois que 

o 



Década X. Cap. XII. 5*05* 

o contou a D. Paulo , que mandando por 
todas as bandeiras inquirir delle , não fe 
achou tal foldado , por onde fe prefumio 
que aquillo fora algum Anjo, que da par- 
te da Senhora o viera esforçar pêra entrar 
naquelle forte, em que eíiava o ganhar-fe 
a Cidade; mas achou-fe hum foldado, que 
trouxe ao Capitão Mór hum retrato de N. 
Senhora, do tamanho de quarto de papel, 
de óleos muito bem obrado , e muito for- 
mofo em fua guarnição, e pintura, e diífe 
que o achara no palmar em baixo , quando 
andaram ás mãos com os inimigos , fem fa- 
ber donde viera. D, Paulo o tomou nas 
mãos com muita veneração; e poílo de joe- 
lhos , o adorou, e mandou logo armar hum 
pequeno altar, em que poz a Senhora pêra 
ler adorada de todos ; e querendo faber do 
retábulo , não achou em todo o exercito 
cujofoíle, antes houve algumas peífoas que 
affirmáram que da parte dos inimigos fe 
atirara com elle aos noífos : e quanto a nós T 
devia de fer de algum dos companheiros , 
que em baixo mataram, que o traria com- 
figo, por fer muito feu devoto, a que ella 
não podia deixar de valer á hora da fua 
morte pelo efpecial cuidado que tem de 
feus fervos. Efte retábulo levou depois. D. 
Paulo pêra o Reyno , aonde não chegou , 
que fò iífo guardou pêra íi dos defpojos 

da- 



5o6 ÁSIA de Diogo de Couto 

daquella Cidade, cujo faço durou féis dias 
contínuos , e fe acharam muitas minas de 
fazendas , ouro, prata, cobre, calai, dro- 
gas de todas as fortes , em que os folda- 
os fe cevaram bem á lua vontade, e mui- 
tos ficaram ricos. Acháram-fe em hum tron- 
co alguns Portuguezes ferrolhados , todos 
queimados , mas ainda inteiros , e fem ne- 
nhum delles ter máo cheiro : e não conten- 
tes do que acharam na Cidade , fahíram 
delia alguns defmandados , e mettêram-fe 
pelos matos a bufear os embrenhados com 
bem rifeo de fuás peíToas , e trouxeram hu- 
ma grande cópia de gente , fem acharem 
quem os fobrefaltaíle , donde fe inferio que 
foram os inimigos tão desbaratados, eme- 
drofos , que não pararam fenão dalli duas 
léguas; e foube-fe em certo que depois do 
Rajale ir desbaratado, deram os Jaós nel- 
le , e lhe roubaram tudo o que acharam , 
ainda mataram pêra iífo todas as peííoas , 
e mulheres que hiam com feus fatos á ca- 
beça ; e fe affirma que affim por fua mão , 
como affegados no rio , morreram três mil 
na batalha grande , e nos outros recontros 
morreram a ferro portuguez perto de qua- 
tro mil ; e as peííoas conhecidas, e. Capi- 
tães principaes que lhe mataram, são os fe- 
guintes : Sirinará , Serimadaraja , Serian- 
dra , Serimará , Jadella, Giailate, Seribi- 

dra- 



Década X. Cap. XII. 5*07 

draja , Chengala , Mimalate , Serimamba- 
ca , Ária 5 Draja, Capitão de Sabão, Bo- 
zedera , todos eftcs Capitães daquelles 
Reys , a fora outros muitos , a que não 
foubemos os nomes. Da nofla parte em 
toda a jornada morreram oitenta homens, 
em que entraram D. Manoel de Almada , 
D. Bernardo de Menezes , e feridos algum 
cento. Os defpojos que fe tomaram, foram 
mais de mil peças de bronze , em que en- 
trava hum baiiliíco mourifco , huma ferpe de 
vinte e três palmos de comprido , hum 
leão , e hum camello de marca maior , to- 
das as mais cameletes , falcões; edahi abai- 
xo até chicorros , a fora muitas peíTas, 
que fe derreteram com o fogo , tomáram- 
fe mais de mil e quinhentas efpingardas , a 
mor parte fem coronhas por fe queima* 
rem , e outras muitas armas : embarcações 
entre grandes, e pequenas, queimadas, e 
tornadas , foram derredor de duas mil , em 
que entravam galeões , galés , galeotas , 
lancharas , bantins , balões , fomas , e jun- 
cos. Concluídas as coufas de Jor, mandou 
D. Paulo as novas á Cidade de Malaca em 
huma embarcação com todos os feridos pê- 
ra os curarem ; e depois da Cidade aíTola- 
da , e deftruida , feita em pó, e cinza, em- 
barcou-fe o Capitão Mor , e furgio com 
toda a Armada no porto de Malaca , on- 
de 



5*08 ÁSIA de Diogo de Couto 

de logo foi viíitado do Bifpo , e Vereador 
res , que lhe deram os parabéns da vido- 
ria, e muitos, e públicos louvores, e lhe 
pediram fedetivefle alguns dias, em quan- 
to lhe preparavam coufas pêra feu recebi- 
mento , que eftava aífentado fazer-fe-lhe o 
melhor que pudefle fer , porque de tão prof- 
pera , e gloriofa vitoria aquella Cidade, 
que elle libertara , defejava de lhe fazer. D. 
Paulo não pode refufar aquellas honras , 
que lhe ofFereciam , attribuindo tudo a N* 
Senhora , que ella fora authora daquella 
viíloria , pois em feu dia lhe fez tão aífina- 
lada mercê ; e aífim aílentou que ao fab- 
bado feguinte , que eram finco de Setem- 
bro, por fer aquillo já em fim de Agofto , 
fe fizeífe a fua defembarcaçao ; e aílim foi 
á Cidade, ordenando feu recebimento, tra- 
tando fer o mais folemne que pudefle fer ; 
e D. António de Noronha , fendo avifado 
de como haviam de receber D. Paulo com 
Pállio , como elle tinha naquella viítoria ta- 
manho quinhão , mandou-lhe pedir que o 
quizeífe levar junto comfigo no triunfo, 
pois elle também o merecera , do que D. 
Paulo fe efcufou , refpondendo com aquel- 
las palavras de Chrifto : Gloriam meam aU 
teri non dabo\ e que não era ordem repar- 
tír-fe o triunfo que elle merecia por Geral 
daquella empreza , que em todas as mais 

cou- 



Década X. Ca?. XIL 509 

coufas confentiria de muito boa vontade. 
Difto ficou D. António muito tomado ; e 
fallando-fe com os Capitães da Armada de 
Malaca , pêra que convocaífem feus Tolda- 
dos , determinou de fazer pêra fi fua def- 
embarcação , e triunfo , já que lho nega- 
vam; e aíTim o dia de antes partio do feu 
Galeão em huma fufta , e todos os bantins , 
e embarcações dos amigos que tinha con- 
vocados derredor d elle, .embandeiradas to- 
das , tocando muitos inftrumentos , e dis- 
parando muita artilheria , e mofqueteria ; e 
endireitando com o cães que eítava feito 
pêra D. Paulo , defembarcou nelle 5 e em 
pondo os pés em terra , fe adiantaram mui- 
tos dos feus foldados ; e tirando as capas 
dos hombros , lhas eftendêram pelo chão 
pêra elle paífar por firaa , e aflim foi leva- 
do á Igreja com grandes regozijos , e lou- 
vores de todos aquelles. D.Paulo de Lima 
foi avifado daquillo, de que lhe deo pou- 
co ; e ao outro dia defembarcou com to- 
dos os feus Capitães , e foldados armados, 
aílim como entraram na batalha ; e pondo 
os pés em terra com a bandeira de Chri- 
ílo diante ^ e as dos inimigos arraíírando- 
fe a feus pés , difparando-fe naquelle tem- 
po , aíTim. da Armada , como da Cidade, 
aquella tempeíiade de artilheria, que pare- 
cia tremer o mar, e a terra. Poílo D. Pau- 
lo 



$io ÁSIA de Diogo de Cotrro 

lo no cães , deixou defembarcar todos ó§ 
feus Capitães , e mandou ordenar os ef* 
quadróes , aíTim como entraram em Jor* 
D. João Pereira na dianteira , e logo Mat- 
theus Pereira , e o Capitão Mor na reta- 
guarda ; e peito tudo em ordem , foi en- 
trando pelo cães , no qual eftavam todas 
as Religiões, eClerezias com fuás Cruzes, 
os quaes começaram a cantar Te Deumlau* 
damus j e á meia ponte eftava huma alca- 
tifa eítendida com numas fermofas almofa- 
das , em que eftava encoílado hum devoto 
Crucifixo , e a feus pés huma fermofa ca- 
pella de rofas , e boninas , e derredor o 
Bifpo , e Vereadores com todo o povo* 
Chegado aqui D. Paulo , proflrou-fe pelo 
chão , e adorou a figura do Senhor , e o 
Bifpo tomou logo a capella, e lha poz ná 
cabeça , e depois o abraçou , dizendo-lhe 
poucas , e breves palavras de louvores , e 
o mefmo fizeram os Vereadores ; e apôs if- 
fo lhe fizeram huma breve oração em lou- 
vor de tamanha viéloria ; e acabada , eílen- 
deram hum fermofo Pállio , e o levaram 
aífim á Igreja fempre com a coroa na ca- 
beça , a qual os Romanos chamavam Cívi- 
ca , ou Mural , que fe dava a qualquer Ca- 
pitão que livrava , ou defcercava alguma 
Cidade. Nefta ordem entrou D. Paulo na- 
Igreja maior, onde ouviram MifFa , e de- 
ram 



Década X. Cap. XII. ^n 

ram todos as graças ao Altiílimo Deos pe- 
las mercês que lhes fez, e depois fe reco- 
lheram a fuás cafas. 

CAPITULO XIII. 

Das coufas que fuccedêram em Maluco : e 
das tntelligenctas que Duarte Pereira 
teve com Cachiltulo pêra lhe en- 
tregar a Fortaleza de Ter- 
nate 5 e de outras coufas. 



JÁ que eílamos defta 1 banda de Malaca? 
não nos faiamos delia , fem continuar- 
mos com as de Maluco ? que o anno paf- 
lado deixámos com a morte do Príncipe 
Mandraxa , que feu fobrinho EIRey Babu 
lhe deo pelo modo que diílemos , da qual 
todos aquelles Príncipes fe efcandalizáram 
muito , principalmente EIRey Gapebaguma 
de Tidore , por lhe negar a irmã que lhe 
tinha promettido, o qual depois da morte 
daquelle Príncipe pêra defenganar o Rey 
de Tidore de lhe dar fua irmã , a cafou 
com o Rey de Geilalo , de que o Tidore 
fe houve por muito affrontado. Vendo Duar- 
te Pereira 3 Capitão daquella Fortaleza , as 
coufas travadas daquella maneira , e que 
por ellas eítava o tempo difpoílo pêra pal- 
par os Tios de EIRey de Ternate fobre a^ 

en- 



<Ti2 A SI A de Diogo de Couto 

entrega daquella Fortaleza, lançou peflba* 
de confiança a Cachiltulo , Regedor do Rey- 
no , pelas quaes lhe mandou dizer , que 
pois as couías eftavam daquella maneira , e 
feu fobrinho Boxai matara o Principe Man« 
draxa feu irmão , herdeiro verdadeiro dos 
Reynos de Maluco , por ficar fendo Rey y 
não lho pertencendo a elle , por fer bailar- 
do , que devia de fe aproveitar do tempo y 
pois todos os naturaes eftavam efcandaliza- 
dos da morte do feu Príncipe , e Tutor do 
Reyno , que lhe pertencia a elle por direi- 
to, e juftiça, pêra o que afíim elle, como 
EIRey de Tidore lhe dariam toda ajuda , 
c favor até o metter no Reyno que era 
feu. A ifto deo Cachiltulo orelhas , e con- 
tinuaram os recados de parte a parte com 
grande reíguardo até concluírem de fe ir 
ver a Tidore com elles , pêra de rofto a 
rofto communicarem aquellas coufas : pêra 
ifto bufeou elle tempo; ehuma noite, fem 
fe fiar de ninguém, foi a Tidore, e em cafa 
do Capitão , eílando prefente o Vigairo, 
e o Alcaide Mór , lhe fez o Capitão efta 
breve falia : « Tem poílo a cubica humana 
» nefta coufa de reinar hum não fei que, 
» que pêra o virem a goftar , chegaram 
» muitos a matar filhos , pais , e irmãos,, a 
» outros fobrinhos a tios , e ifto não fó 
> entre Mouros , e Gentios , mas ainda en- 

* tre 



Década X. Cap. XIII. £15 

a tre Chriftãos , a quem ifto houvera de fef 
» muito aborrecido ; e fe quizerdes exem* 
» pios , fenhor Cachiltulo , não temos ne- 
» ceflidade de revolver muitos livros , e 
» deícubrir muitos tigres , nem buícallos 
» muito longe, entre mãos os tendes , hon- 
» tem ouviftes a injuíla , e tyrannica morte 
» que EIRey voflb fobrinho deo a voíío 
» irmão Cachii Mandraxa , cujo efte Reyno 
» era de direito , por fer filho legitimo de 
» volío pai Gachil Ahiro , o qual por fer 
» ainda menino, por morte de voflb pai fi- 
» cou voflb irmão Babu governando oRey- 
)) no , como feu Tutor ; e goftando elíe do 
» mando , não fe contentou de lhe tomar 
» o Reyno em fua vida , mas ainda por 
» fua morte fe concertou com EIRey de 
» Tidore pêra inveíUr no Reyno a íeu fi- 
» lho Bonas , que hoje reina, o qual por- 
)) que lhe ficava fua tyrannia muito defcu- 
» berta com o tio vivo , lhe ordenou a 
» morte atraiçoadamente , como fabeis , a 
» qual aífim efcandalizou todos os Reys 
» deite Archipelago , que cuido não eítá , 
» em mais a vingança delia, que em haver- 
» hum que a folicite , porque todos a fa- 
» voreceráó. Ifto carrega mais $ fenhor , fo- 
» bre vós , pois aquelle Reyno já agora vos 
» pertence de direito por filho mais velho 
» de EIRey Ahiro , o qual não he razão < 
Couto* Tom. VL P. lu Kk » per- 



£14 ÁSIA de Diogo de Couro 

3> percais , antes he juílo foliciteis por to- 
» dos os meios ^ porque ainda que queirais 
» facudir de vós efta carga de reinar por 
» pezada , o não podeis fazer , por tirar- 
» des o Reyno a voílbs filhos, aquém por 
» vofla morte pertence , no que eu , e El- 
y> Rey de Tidore vos favoreceremos , pois 
» he tão jufto que fe vos dê ovoíTo; e pe- 
» ra iílo poder fer , he necelíario bufcar- 
» des meios pêra nos tornarmos a metter 
» de poííe da Fortaleza de Ternate , a que 
» vós eftais tao obrigado no auto que fez 
» da entrega daquella Fortaleza Nuno Pe- 
» reira de Lacerda , no qual elle , e vós 
» vos aífinaftes , e prometteítes com jura- 
» mento de a tornar a entregar aElRey de 
» Portugal , tanto que vos fizeflem juítiça 
-)) de quem matou voífo pai , do que já ef- 
-» tais bem fatisfeito , pois mandara o Go- 
y> vernador da índia o delinquente em fer- 
t» ros •, pêra em Ternate , onde fez o cri- 
» me , lhe cortarem a cabeça , o qual os 
» Jaós mataram no caminho , por onde pa- 
fc rece baftava mandar fazer cumprimento 
)> dejuíliça de quem matou vofíb pai, que 
» não chegarem a verem-no os Ternates 
y> com feus olhos , não tem o Governador 
d Culpa , porque o fim da vida como , on- 
!» de , € quando, eftá fó nas mãos deDeos> 
& baila que o aggreííbr também pague a 

» mal- 



Í>ECAt>À X. Cai>. XIIL ^í| 

» maldade quecommetteo : pelo que eítava 
» EIRey Babu obrigado a cumprir o jura- 
» menfo que tinha feito da entrega da For«& 
» taleza , e que já o tinha cumprido tão 
» mal: a vós, Senhor Cachiltulo , fica ago- 
» ra a obrigação de o cumprirdes por elle ^ 
» pois também o juraftes ; e já que o tem- 
» po vos offerece occafioes tamanhas , de- 
» veis de vos defobrigar, e trabalhar por-s 
» que aquella Fortaleza torne a EIRey de 
» Portugal, cuja lie : e eu me obrigo , tan* 
» to que tomar pojTe delia > a vos fazer 
>) jurar por Rey , e ehtregàr-vòs oReyno, 
» no qual EIRey de Portugal vos fuíten- 
» tara com muitas honras, juítiça , e ver^ 
» dadé. » 

Cachiltulo efteve muito attento a todas 
aquellas coiífas , e lhe refpondeo que berri 
via o quanto EIRey de Portugal tinha la- 
tisfeito da fua parte com fua obrigação , e 
a em que elle eftava j pelas razões que lhe 
dava : que lhe agradecia as lembranças , e 
cumprimentos que lhe fazia í e alli logo 
praticaram fobre o modo que teriam na 
entrega da Fortaleza, de que elle moftrou 
muita vontade , e aíleri taram que foíTe Duar- 
te Pereira com todo o poder que tiveíTe fo* 
bre Ternate, e eommetteíle a defembarca- 
cão; e que como EIRey andaíle occupado 
fora na defenfa da defembarcação^ elleCa-* 
Kk u diil- 



5ri6 ÁSIA de Diogo de Couto 

chiltulo com ííncoenta, ou felTenta homens 
de fua obrigação , de que fe mais íiaííe , fe 
metteria na Fortaleza, e fe fecharia nella, 
€ appellidaria a voz de Portugal ; e que 
como elle defembarcaíTe , e elle viíTe os 
Portuguezes ao pé da Fortaleza , elle lha 
abriria , e recolheria dentro ; e ifto com 
condição 5 que depois de elle eftar de pof- 
f e ^ o alevantaria por Rey de Ternate , af- 
íim como o fora feu Pai; e que EiRey de 
Portugal lhe confirmaria oReyno pêra feus 
filhos, e defcendentes 5 em quanto foífem 
leaes vaííallos feus ; e que ou foíle por ef- 
ta via , ou por qualquer outra 5 que a For- 
taleza foífe ás mãos dos Portuguezes , dan- 
do elle ajuda pêra iífo , lhe cumpririam as 
condições aífima. Difto fe fizeram autos af- 
linados por todos , de que hum traslado fe 
deo a Cachiltulo pêra lhe ficar por obri- 
gação do contraílo , e o próprio ficou no 
livro dos regiftos daquella Fortaleza; e ju- 
rou o Capiíão com todos os Oííiciaes de 
cumprir a Cachiltulo tudo o que fe nos 
autos continha , e o mefmo jurou elle no 
feu Mocafo , de que também fe fez auto 
aos 20. de Maio de 15*87. annos ; e o Ca- 
pitão , acabado ifto 5 lhe deo peflas , e brin- 
cos com que fe recolheo muito contente. 

Tudo ifto efereveo logo ao Governa- 
dor de Manilha , e lhe mandou o traslado 

de 



Década X, Cap. XIII. 5*17 

de todos os papeis pêra os mandar a El- 
Rey por via das Filippinas , e lhe pedio 
lhe mandaíTe alguns navios , e gente na pri- 
meira monção pêra fe acharem com elle 
naquelle negocio 3 o que tudo fe tratou em 
fegredo, que nunca EIRey deTernate fou- 
be* Neíte tempo começou a carregar o Ga- 
leão de Arthur de Brito pêra fe partir na 
monção , que era em Fevereiro, 




DE- 



$1% 

DÉCADA DECIMA 

Da Hiítoria da índia. 

LIVRO X. 



CAPITULO I. 

J)o que acontecea em Ceilão , depois da ala* 
gôa ejgotada : e do primeiro foccorro que 
de fora chegou : e de alguns ajf altos que 
os nojfios deram em os inimigos : e dos 
apercebimentos que fe fizeram pêra ej- 
perarem o primeiro combate que o Rajd 
determinau de dar á Fortaleza. 

DEixámos a Fortaleza de Columbo com 
a alagôa efgotada , que era o que o 
inimigo pertendia , pêra dar o affal- 
toáquella Fortaleza por todas as partes, pa-s 
recendo-lhe que não lhe poderia eícapar , por 
íer por aquelia parte que cingia a alagôa 
(que a fazia forte) muito fraca, e depois 
difíb ficaram continuando era alguns aíTal- 
tos leves de parte a parte , que por não 
ferem de fubílancia , deixamos, E porque 
tardava a refpoíla dos foccorros que tinham 
mandado pedir aífim ao Vifo-Rey , como 



Década X. Cap. I. yi? 

a Cochim , e o efgote da alogôa poz aquelt 
la Fortaleza em neceffidade de mais gentç 
pêra defensão daquelia parte , defpedio o 
Capitão Mor com muita preíía António 
Corrêa Travaços , Ouvidor daquelia Forta- 
leza , com cartas ao Vifo-Rey pêra lhe ir. 
reprefcntar as neceííklades em que ficavam , 
o qual fe paííou em hum tone á outra cof- 
ia , e tomou o caminho por terra ; e por 
Gonfalo Fernandes, e Belchior Nogueira > 
que tinham ido com o primeiro recado, o 
deram em Manar a João de Mello, Capi- 
tão daquelia Fortaleza , que armou logo 
huma Galeota , em que mandou embarcar 
feu fobrinho Fernão de Mello com quaren-t 
ta foldados , e muitas munições , o qual 
com muito trabalho ) e rilco chegou a Co-> 
lumbo vefpera do Apoftolo Sant-íago. Ef- 
te foccorro foi feftejado , como era razão, 
por fer o primeiro; e o Capitão pelo aga- 
zalhar bem, o poz em huma parte por on* 
de a alagôa eftava toda fecca , por fer a mais 
arrifcada , e perigofa , e por honra da fef- 
ta do Apoftolo Sant-íago , ou por feftejar 
os novos hofpedes ; e pêra moílrarem aos 
inimigos que os arreceavam pouco , man- 
dou ao outro dia , que era do Apoftolo , dar 
nas tranqueiras dos inimigos por Manoel 
Mexia, e Pedro Arache com alguns Lafca- 
rins y os quaes no quarto d'alva fe foram 

em- 



£$0 A S IA de Diogo de Couto 

embrenhar detrás de humas balças que efe 
tavam defronte da Ilha de António deMen^ 
doca , ficando o Capitão no Baluarte da 
Madre de Deos pêra acudir a tudo o que 
íuccedefle $ e fahindo eíles da Fortaleza 
ao romper da luz , deram com grande Ím- 
peto na tranqueira , que fica pêra aquella 
parte •, e a desfizeram toda em muito bre-. 
ve efpaço , porque levavam pêra iíTo mui- 
tos machados , e com a mor parte da ma^ 
deira fe recolheram muito a feu falvo. Dio-^ 
go da Silva Modeliar eftava lançado em 
cilada no monte da Pedreira com os feus 
Lafcarins , fem em todo eíte tempo bulir 
coinfígo, e á grita da tranqueira acudiram 
muitos inimigos de íbccorro , e chegaram 
já a tempo que os noflbs eram recolhidos , 
pelo que fe eftendêram pelo pé do monte 
da pedreira até fe virem metter nos nofíòs 
vallos, Diogo da Silva Modeliar, que fica-» 
va já nas coitas , fahindo da embufcada 
com grandes gritos , deo tão de fobrefalto 
nos inimigos , que primeiro o fentíram nas 
carnes que os viíTem , e mataram logo al^ 
guns, e cortaram as cabeças a quatro, ar- 4 
vorando huma em huma lança, porque era 
de hum Modeliar feu muito conhecido. Os 
inimigos com efte fupito aífalto fe puzeram 
em desbarato , e os noflbs fe recolheram a. 
feu falvoj e eílas duas coufas juntas ^can-?. 

te- 



Década X. Gap. I. 5^21 

teceram á \jfta do Rajú , que bramava de 
paixão , e difle aos feus , que lhe foliem 
trazer a cabeça daquelle Mouro , porque 
afTim chamava elle a Diogo da Silva , que 
foi logo conhecido, e era muito temido de 
todos. Os feus vendo-o tão agaftado , mais 
com vergonha que com vontade , defcêram 
hum cardume delles ao campo ás efpingar- 
dadas, e frechadas apôs os nofTos , que fc 
vinham recolhendo , e como ficavam em 
defcuberto , e o dia era já claro, fez a ar-* 
tilheria da Fortaleza nelles hum muito ar- 
razoado emprego , de que muitos ficaram 
por alli eítirados. João Corrêa pêra mais os 
deter , em quanto fe tornava a carregar a 
artilheria, mandou-lhes fahir pela porta de 
S. João huma companhia de íòldados pêra 
travarem com elles de longe , e os entrete- 
renv; e todavia o negocio chegou a virem ás 
mãos , e travou-fe huma batalha muito a& 
pêra, na qual os noífos fizeram em os ini^ 
migos grandes eítragos , e foi a coula de 
feição, que tocou o Rajú a recolher, epe- 
leijou com os feus , e os aífrontou , e en- 
vergonhou , dizendo-lhes que mais fazia fó 
o Mouro , que elles todos juntos; efoi fua 
paixão tamanha , que mandou lançar pre-r 
gões por todo o exercito , que á pefíba 
que lhe trouxeífe naquella guerra a cabeça 
ào Mouro Diogo da^ilva, lhe faria hen*j 

ras , 



£22 ÁSIA de Diogo de Couto 

ras, e mercês avantajadas de todos os que* 
naquella jornada fizeffem feitos famofos. E 
por fe fatisfazer daquella quebra, ordenou 
de dar muito cedo o primeiro combate com 
todo o poder , havendo que nelle averi- 
guaria aquelle negocio , e mandou preparar 
pêra iflb as coufas neceíTarias , e repartindo 
pelos feus Modeliares , e Araches as eítan- 
cias , e baluartes que cada hum havia de 
commetter, por fe não embaraçarem huns 
com os outros , com o que fe fizeram to-' 
dos preftes do que lhes pêra iffo pareceo 
necellario , e aílim fervia o exercito em pe- 
trechos de guerra , e em apercebimentos 
pêra o combate, O Capitão João Corrêa foi 
logo avifado por efpias de tudo o que fe 
ordenava , e de como determinavam de o 
commetter de noite : pelo que logo mandou 
negociar todas as coufas neceíTarias pêra 
fua defensão , e prover as eftancias , e ba- 
luartes de pólvora , e munições , e de ou- 
tros muitos petrechos militares i pêra que 
tudo tiveífem todos á mão naquelle tempo; 
c porque aquclla parte da alagôa que fe 
efgotou , em que poz Fernão de Mello, 
era fraca , repartio pelos lugares mais ne- 
ceífarios os foldados da obrigação dos fo- 
bre roídas , e fobre elles defearregou a 
guarda , e defensão daquella parte. Os Ca- 
pitães dos Baluartes mandaram fazer mui- 
tos 



Década X. Cap. I. 5^3 

tos eftrepes v e os efpalháram por derredor 
dos muros , e fe embandeiraram fermofa- 
meíite. Domingos Marques , Capitão do 
Baluarte S. Miguel , tanto que foi noite, 
poz por elle á roda muitos iogareos 5 e o 
mefmo fez Pedro Tofcano no feu Baluarte 
S. Gonfalo, o qual, porfer muito rafteiro, 
vigiava com todos os feus foldados da ban- 
da de fora , fahindo > e entrando pelas 
bombardeiras , pêra aílim defender quando 
foífe o combate, que lhe não chegaíTem a 
elle com as efcadas , e os mefmos appare- 
lhos fe fizeram por toda a Fortaleza á ro- 
da , negociando-fe todos dante mão do que 
tinham neceílidade, por o Rajú lhes jr e£* 
paçando o tempo pêra poderem fazer tudo 
mui bem feito ; e os melhores , e mais im- 
portantes apparelhos que o Capitão orde- 
nou pêra a defensão daquella Cidade , foram 
Miílas , Orações , Ladainhas , e outras prç- 
ces pêra terem propicio o Altiílimo Deos, 
ç a gloriofa Virgem fua Mãi. 



CA- 



524 ASIÀ de Diogo de Couto 

CAPITULO II. 

Do muito grande , e apertado combate que 

o Rajú deo á nojfa Fortaleza : e do 

que nella aconteceo. 

EScolheo o Rajú pêra dar o primeiro 
combate o dia mais próprio aos Portu- 
guezes que podia fer, que foi o de N. Se- 
nhora das Neves , que cahe a 4. deAgofto, 
na qual ella coítumava a encher o mundo 
todo de favores , e mercês fuás , e no qual 
todos os Chriftãos tem tamanha devoção ; 
e fendo paíTado o quarto dantealva, come- 
çou p Rajú a fahir das fuás eítancias na 
ordem feguinte. Diante lançou muitos ele- 
fantes de peleija repartidos em três partes , 
e entregues a três Modeliares , que haviam 
de commetter os Baluartes S. Miguel , S. 
Gonfalo , e S. Francifco , detrás dos ele- 
fantes os lanceiros , e logo os rodeleiros , 
e detrás deites os frecheiros , detrás de 
todos toda a efpingardaria ; e pela alagôa, 
por partes que tinham ainda agua , deitou 
muitos catapunes , que são embarcações pe- 
quenas amarradas humas ás outras , feita 
huma grande jangada carregada de gente. 
Nefta ordem começou a abalar o Rajú pe- 
la ponta da Ilha pêra a alagôa , deixando- 
fe elle ficar na ponta, e mandou os Capi- 
tães 



Década X. Cap. II. $2$ 

taes que fofiem commetter os baluartes que 
lhes citavam fimitados : o que cada hum fez 
em tanto íilencio , que fe os noílbs não ti- 
veram tamanha vigia 5 bem pode ferque os 
não fentíram , fenao em os baluartes , por 
fer a noite muito efcura ; porque os que 
vigiavam , viram huma maneira de bulcão , 
como nuvem muito efpeíTa ? que felhes pu- 
zera diante da vifta 5 e em meio delia prin- 
cipiaram a deícubrir os murroes em tanto 
numero , que parecia alguma grande arri- 
bada deites bichinhos que de noite luzem; 
e tocando á arma , puzeram-fe todos com 
as fuás nas mãos , e acudio João Corrêa de 
Brito , e foi correndo todos os baluartes , 
e eítancias 5 e achou já todos preftes , c 
muito animados pêra efperarem os inimi- 
gos. Chegados elles aos baluartes , arre- 
mettêram com aquella multidão confufa , fe- 
gundo o coftume de todos os Mouros , e 
Gentios deite Oriente, que não he peleija- 
rem em eíquadrões ordenados , e em filei- 
ras diftinótas , nem a fom de tambores, 
e pifanos concertados, fenão com aquella 
barbara multidão, a quem mais pode che- 
gar ao fom de humas confufas pancadas 
de huns malenconizados , e triítes atabales, 
de que usão : aíTim eftes com aquella bar- 
bara determinação chegaram aos três ba- 
luartes S. Miguel, S. Gonfalo, e S. Fran- 

ci£ 



5*16 AS IA de Diogo bé Couto 

cifco ) nos quaes logo encoftáram muitas 
efcadas 5 pelas quaes começaram aíubir, e 
por baixo mais de dous mil cabouqueiros i 
que pêra iíTo levavam , a picar , e a rom- 
per o muro com grande eftrondo. Os nof- 
fòs , tanto que fentíram os inimigos aos 

f)és dos baluartes, difparáram nelles aquel- 
a tormenta de artilheria , e arcabuzaria, 
de que muitos ficaram pelo campo fem par-* 
tes dos corpos , e outros voaram por effes 
ares feitos pedaços ; e aos que commettê- 
ram a fubida , moftráram logo nos façanho- 
fos golpes, que lhes deram, e nas coufas 
que fobre elles derrubaram que lhes não 
havia decuílar tão barato, como elles cui- 
davam , aquella Cidade. Pedro Tofcano, 
Capitão do Baluarte Sant-Iago i que coftu- 
mava a vigiar da banda de fora $ teve aquel- 
le bárbaro encontro com muito valor , e 
esforço, fazendo em os inimigos hum gran- 
de eftrago , porque hiam defcuidãdos de 
acharem da banda de fora algum impedi- 
mento , nem ainda dos que eftavam de den- 
tro poderem efperar fua fúria ; mas affiut 
como fe enganaram em fua opinião , aífím 
pagaram bem feu atrevimento , porque os 
mais foberbos que chegaram , fentíram Ioga 
em fuás carnes em quão diíferenté pro- 

Í)oííto os noífos eílavam. Travada a bata- 
ha , começou-fe logo pela Cidade hum 

grau* 



Década X. Cap. II. £27 

grande borborinho de mulheres , meninos , 
e outras peíTôas inúteis , que andavam pe- 
las ruas pedindo mifericordia : e affim tudo 
o que fe ouvia de dentro , e de fora eram 
gritos , vozerias , retinir de armas , com o 
que tudo era tornado huma confusão. O 
Capitão acompanhado dos Religiofos foi 
correr todos os baluartes , detendo-fe pou- 
co em cada hum, vendo, e provendo em 
tudo o neceííario , e animando a todos , e 
louvando-os com palavras de obrigação , o 
que pêra elles era pouco neceíTario , por- 
que todos podiam empreitar animo , e es- 
forço ; e chegando ao baluarte S. Gonfalo, 
mandou bradar a Pedro Tofcano , que pç- 
leijava de fora , que fe recolheífe , o que 
elle fez com muita ordem pelas bombardei- 
ras ; e entrando por ellas huns , e peleijan- 
do outros, fem fe recolherem, e nas bom- 
bardeiras , deixou dous valentes focados, 
cada hum com íua chuça , e outros com 
lanças de fogo, e algumas efpingardas , e 
elle com os mais foldados fe fubio ao ba- 
luarte , onde fe poz em defensão , peleijan- 
do com muito valor , porque foi commet- 
tido com o mor pezo da gente , e com a 
mor força dos elefantes , que chegados ao 
muro , trabalharam por alcançar com as 
trombas as bordas das taipas pêra as der- 
rubarem j mas os noífos os efcandalizáram 

de 



528 ÁSIA DE DlÓGO DE COUTO 

de feição que com grandes urros , e brá-* 
midcs os fizeram voltar pêra trás. Naquel- 
la parte , aonde os elefantes trabalharam 
por chegar , eftavam os Araches Manoel 
Gonfalves, eTanavira, que foífrêram mui- 
to grande trabalho , por fer alli o muro 
muito baixo , parte mui fabida dos inimi- 
gos , e que elles de propofito foram buf- 
car, eaífim apertaram por alli, que os Lafc 
carins de não poderem foffrer aquelle ím- 
peto , largaram tudo , e fugiram y ficando 
fó os dous Araches , que fizeram maravi- 3 - 
lhas nas armas. A efte tempo que os Lafc 
carins fugiram da eftancia , chegou a ella 
o P. Pedro Dias Clérigo; eachando-os com 
aquelle medo , os animou , e esforçou , e 
fez lubir aífima, dizendo que já o Capitão 
vinha de foccorro , e elle ficou com elles 
naquelía parte , aonde os Araches faziam 
mui grandes cavailarias , e elle os ajudou ,- 
e animou , fazendo peleijar os Lafcarins ^ 
e defpedio dalli recado ao Capitão do pe- 
rigo em que aquella parte eftava , o qual 
voltou peraejla ; e achando os Lafcarins tão 
defcorçoados , fe metteo entre elles, e co-> 
meçou a peleijar mui animofamente , esfor-^ 
çando a todos , e engrandecendo as obras 
dos dous Araches , que tinham feito mara* 
vilhofas coufas , com o que todos cobraram 
novo animo > e tornaram a renovar os gol^ 

pes. 



Década X. Cai». IL 529 

pes, arremeçando fobre os inimigos panei* 
las de pólvora com que abrazáram muitos $ 
c fizeram parar aos elefantes, Alli chegou 
a fama do perigo em que aquella parte e£ 
tava ; e Pedro Francifco, Capitão de huma 
das Roídas , fubindo-fe aos andaimos , efpa* 
lhou aos feus foldados , e Lafcarins pelas 
fetteiras do muro $ donde com fuás efpin-* 
gardas fizeram grande deftruiçao nos inirni* 
gos , com o que muitos foldados cobrando 
novo animo , já não fe contentaram de pe* 
leijar amparados j mas cavalgados em ííma 
do muro , lançaram fobre os inimigos mui- 
tos tiros mortaes , affim de ferro, como de 
fogo , com que abrazáram muita parte dos 
pedreiros que picavam a parede , e a pezar 
leu os fizeram affaftar pêra fora; mas como 
a multidão dos inimigos era tanta , e por 
muitos que lhes mataflem não fe enxergava 
nelles à perda , nem aos feus Capitães lhes 
dava nada diífo , antes acudiam áquella par* 
te, e dobravam affim os da peleija, como 
os que haviam de arruinar as paredes , o que 
elles tornaram a fazer , e os outros a fu- 
bir pêra cavalgarem o muro , fobre o que 
fe tornou a renovar o eílrago , e os gritos : 
e por fer já o Capitão recolhido, que acu- 
dio a ver as outras partes, fe houvera tudo 
de perder, poílo que os A raches , e o P» 
Pedro Dias, e outros foldados, eCavalIei- 
Couto. Tom. VL P* Ih LI ros 



530 A SI A de Diogo de Couto 

tos fizeram temeridades , fenão chegaram 
alguns de foccorro , que acudiram á voz 
que correo do aperto em que aquella parte 
eftava , e aprefentáram-fe á defensão delia 
com grande valor , e esforço , meneando 
todos tanto as armas 5 e as mãos em damno 
dos inimigos , que fubiam pelas eícadas , 
que nenhum perdeo o golpe , nem lançou 
-panella de pólvora em vão 5 e o Capitão 
João Corrêa tornou a acudir aquella parte, 
porque lhe deram rebate; e aprefentando- 
fe diante de todos , nomeando-fe a 11 pêra 
esforçar os noíTos , como pêra delanimar os 
inimigos , começou a peleijar mui denoda- 
damente , porque a cou£í eílava arrifcada , 
c os inimigos tinham lançado em íima do 
muro muito fogo pêra affaftar os noíTos ; 
mas como neftes perigos o que menos kn- 
tem os Portuguezes amigos de honra he o 
género de morte que for mais cruel, atra- 
veífaram-fe diante Fernão d 5 Alvares , Pe- 
dro Goníalves Cananor , e outros foldados 
valerofos , e em meio daquellas lavaredas 
com as armas nas mãos fizeram tudo quan- 
to fe podia imaginar por defenderem a en- 
trada aos inimigos , fobre a qual elles ti- 
nham mettido fua potencia» O Capitão fez 
aqui muito bem o leu officio , porque fem- 
pre peleijou , e fe aprefentou na maior for- 
ja dos perigos > e juntamente proveo nas 

çou- 



Década X. Cat. ít 5*31 

çòtifas cjue ^ ie pareceram neceíFariás. No 
Baluarte S. Gonfaio fe fentia a ínefma af* 
fronta , porque todo á roda foi cercado de 
efcadas entulhadas de inimigos , e as bom-» 
bardeiras por onde os daquelle terço fe fer- 
viam commcttidas com muita determinação; 
e fobre os que citavam em baixo em fua 
defensão carregou o pezo das affrontas * 
porque as frechas > e o fogo que por el- 
les entrava era pêra abrazar toda a Cida- 
de , e aílim fizeram recolher os noílos pe* 
ra dentro abrazados , e quaíi cegos do fu- 
mo , porque eíle foi o mpr perigo em que 
fe viram a efpeííura delle , pela qual os 
inimigos fe determinaram a entrar as bom* 
bardeiras ; mas os de dentro aílim com 
aquelles impedimentos lhas defenderam va* 
lerofamente-, e chegaram acoitarem as lan- 
ças aos noífos 3 que depois de muitas ve* 
zes as enfoparem no bruto fangue dos ini-» 
inigos 3 fe valeram das efpadas , em que 
fizeram outra nova deílruiçao , e prova- 
ram com ellas as forças de feus valentes 
braços , que depois fe vio nos façanhofos 
golpes dos que fe acharam , acabante o 
combate nos que ao pé das bombardei- 
ras ficaram eftirados. Os que fubiam pelas 
efcadas trabalharam tudo o que puderam 

Í)or fe porem em fima , fem íhes dar pe* 
os que da par delles cahiam feitos pe- 
hl ii da* 



t;^ ÁSIA de Diogo de Couto 

daços em baixo , antes engroíTando-fe o nu- 
mero dos que fubiam , deitaram em íima 
tanto fogo que ficou o baluarte feito hu- 
ma labareda; e osnoílos aífaftando-fe hum 
pouco pêra fora , hum lbldado por nome 
Gafpar Dias , que nefte dia tinha feito gran- 
des coufas , vendo o fogo , e que no Ba^- 
luarte eftava huma quantidade de pólvora, 
que alli tinham, pêra que fe foíTe neceffa- 
rio , vendo que fe lhe chegaíTe o fogo fe 
acabaria tudo , determinou-fe ou a mor- 
rer , ou a livrar a todos daquelle perigo , 
e aílim tomou huma cama , e humas eftei- 
ras 5 e com tudo fe lançou fobre a labare- 
da , em que a abafou, e matou, e com a 
mefma preíleza fearremeçou em huma jar- 
ra de agua que alli eftava, e a vafou toda 
fobre o fogo , e apagou de todo , com que 
os do baluarte ficaram mais defafrogados 
pêra fe defenderem, tornando-fe a feus lu- 
gares , nos quaes fizeram maravilhas. Va- 
leo , e ajudou muito aos noíTos os muitos 
fogareos que o Capitão daquelle baluarte 
mandou accender por todo elle , os quaes 
em quanto durou o combate , fempre ar^ 
deram , e os foldados viram muito bem 
aonde era neceífario acudirem ; e foi obra 
muito importante efta , porque de vergonha 
fe deixaram os Lafcarins eílar nos lados y 
onde peleijavam, o que pode fer não fize- 
ram 



Década X. Cap. II. 5^3 

ram fe fora efcuro, e elles fe puderam re- 
fundir fem os verem , pelo aperro grande 
em que muitas vezes fe viram. Os inimi- 
gos foram com fua porfia avante traba- 
lhando por entrarem aíTim por efte baluar- 
te, como pelos lados do muro, que hiam 
fechar nelle , em que eftavam os Araches 
Manoel Gonfalves , e Tanavira ; e com ve- 
rem quão bem fe defendiam os noífos , e 
o eftrago que era feito nos feus , não de- 
fiftiam daempreza, antes cada vez mais a- 
porfiavam , mettendo todo o cabedal pelo 
entrarem , fazendo chegar os elefantes até 
ás taipas a poder das pancadas com as 
trombas alevantadas pêra pegarem delias ; 
mas os noífos com muitas lanças de fogo 
os fizeram affaftar, difparando nelles muita 
fomma de arcabuzaria , e panellas de pól- 
vora , que foi o de que mais fe os noífos 
fervíram , com que abrazavam os pedreiros 
que fe chegavam a picar as paredes ; e co- 
mo os elefantes eram mui grandes , e fe 
enxergavam mui bem dos noífos com a 
claridade , não perdiam tiro nenhum , e af- 
fim os efcandalizáram que fe não íabiam 
determinar ; porque os feus cornaças , que 
são os que os governam, dando-lhes pan- 
cadas, e affrontando-os pela lingua de co- 
vardes , e os noífos efcandalizando-os , e 
maltratando-os, fe chegavam, davam tama- 
nhos 



5^34 ÁSIA de Diogo de Couto 

nlios urros , que com a Cidade toda em 
roda eítar occupada em fua defensão com 
gritos de todas as partes , e com o eftrepi- 
to , e eftrondo das armas 3 e das bombar» 
dadas que faziam tudo huma confusão , to- 
davia não deixavam de caufar em todos ef- 
Í)anto \ e no lanço do muro que vai do ba- 
uarte S, Gonfaio ao de S. Miguel peleis 
javam Chinapoli 3 e Sebaftião Bayão , Ca- 
pitães de certas companhias, os quaes ef* 
Forçadamente defenderam^ aquelle Terço , 
em cuja companhia peleijavam os Mouros 
naturaes deCeilam, que feriam alguns qua- 
renta cafaes , com tanto animo , e vontade , 
como os próprios Portuguezes , chamando 
aos inimigos que chegaíTem , que elles ]hes 
fariam eícadas com fuás lanças pêra fubi-» 
rem: eftes Mouros naturaes de Columbo 
são como miftiços de alguns, quealli acha* 
ram os noíTos , quando fe fundou aquella 
Fortaleza, os quaes fe deixáram^alli ficar, 
efervíram fempre com muita lealdade, da 
qual fe elles muito prezao , por ferem ek 
les fós os da índia, em que nunca achámos 
engano. 

Adiante pêra o baluarte S.Miguel pe- 
leijava António Dias da Lomba , e Anto-^ 
mo Lourenço , Capitães da Roída , com a 
gente de fuás obrigações , ambos Cavallei^ 
ros, exiique o Capitão tinha muita confian-* 



t 



Década X. Ca?. II. j^y 

ça. Fernão de Mello , que foi o primeiro 
que veio ao foccorro , deixando os Tolda- 
dos em feu terço com alguns que efco- 
lheo , foi correndo as partes aonde havia 
mor perigo , favorecendo-as , e ajudando- 
as em tudo ; e chegando ao baluarte S. Mi- 
guel, por lhe dizerem que eftava em aper- 
to , vendo o esforço com que Domingos 
Marques , que era leu Capitão, peleijava, 
perguntando-lhe fe tinha neceííidade de al- 
guma coufa , refpondeo-lhe que não : foi 
paliando pelo lanço do muro até o baluar- 
te Conceição, de que era Capitão António 
Pereira , o qual achou mui foberbamente 
petrechado , peleijando feus foldados por 
huma ordem maravilhofa com muito ani- 
mo, e esforço: havendo-o por feguro , foi 
adiante até o baluarte S. Pedro , de que 
Thomé Pires era Capitão , o qual achou 
muito fortificado , e elle com todos os com- 
panheiros mui animofos , peleijando mui es- 
forçadamente , fendo mui commettido dos 
inimigos , por fer menos de cem pálios á 
outra banda 3 e a alagôa eftar por alli toda 
fecca , pela qual parte foi commettido mui- 
to determinadamente , rebatendo muitas ve- 
zes os inimigos com muito damno feu : pe- 
lo que vendo que alli não tinha que fazer, 
foi correndo ás outras eílancias , nas quaes 
fempre fe offereceo 3 e aprefentou a todos 

os 



5^6 ÁSIA de Diogo de Couto 

os trabalhos que nellas achou. No Baluar* 
te da Madre de Deos, em que eftava Efte- 
vao Corrêa , receberam os inimigos mui 
grandiflimo damno ; porque citando fron- 
teiro á parte , por onde os inimigos ha-^ 
viam de fahir ao combate, tendo a artilhe-» 
ria aíTeftada nelle, em os fentindo , osfefc 
tejou de feição, que primeiro quefentiflem 
que os fentiam , fentiam a fúria dos feus 
pelouros , de que muitos ficaram efpedaça-» 
dos j e no commettimento que lhe fizeram , 
muito defenganados , porque aífim lhe de- 
fenderam a íubida á cufta de outros , que 
já a tratavam com mais defconfiança ; e 
poílo que em todas as partes era o aperto 
muito , todavia no Baluarte S. Miguel o 
havia mui grande , porque carregaram nel-^ 
le as forças principaes do inimigo com 
muitos elefantes , muitas panellas de pólvo- 
ra, e outros inftrumentos , trabalhando por 
calvagarem em fima ; mas defendendo-fe-» 
lhe com muito animo , o qual o Capitão 
Domingos Marques moftrou em todos ef- 
tes trabalhos , e perigos ajudado do Con- 

âeftavel Mor da Fortaleza , chamado Pedro 
•onfalves , homem afFamado em feu oiR* 
cio , do qual ufou mui defembaraçadamen- 
te , fazendo muitos , e mui acertados tiros , 
que fizeram em os inimigos grande carni-. 
pria j ena mor força do perigo , eítando 



Década X. Cap. II. 5*37 

os inimigos abordados , acudio ao muro , 
defendçndo-o valerofamente , lançando meio 
corpo oe fora pelas bombardeiras pêra fe- 
rir , e matar nos quefubiam, lançando-lhes 
muitas panellas de pólvora, o que fez por 
algumas vezes com tanta deftreza , que 
nunca o puderam os inimigos ferir , dele- 
jando vingar- fe delle da o.ffenla que rece- 
biam , e os elefantes trabalhavam por lan- 
çar as trombas ás peíTas de arcilheria pêra 
darem com ellas abaixo ; mas com lanças 
de fogo foram também rebatidos. António 
Dias da Lomba , que peleijava da ilharga 
deite Baluarte , que tinha a feu cargo a 
pólvora , e as panellas , vendo a affronta 
que fe paílava no Baluarte , e que os fol- 
dados depois de quebrarem nos peitos dos 
inimigos as lanças acudiram a bufcar pa- 
nellas de pólvora, deixando os lugares va- 
íios , com que o Baluarte corria rifco , acu- 
dio com muita prefteza , trazendo ceftos 
delias , fazendo-os pôr em feus lugares , e 
elle porfua mão não fazia outra coufa que 
correr a todos , e cevallos com elias , por- 
que não fiava iílo de outrem, por arrecear 
que com o medo lhe aconteceíTe algum 
defaftre, com que o Baluarte tomaíle fogo, 
o que feria a total perdição , e deíla ma- 
neira proveo a todos muito bem , e não 
faltavam munições aos que as pediam. Du- 
re u 



538 ÁSIA de Diogo de Couto 

rou efte aperto por todas as partes perto» 
dehuma hora, em que elles perderam mui- 
ta gente, e a confiança com que chegaram, 
porque cada vez achavam os noílbs mais 
encarniçados ; pelo que lhes foi forçado af- 
faftarem-fe - pêra fora alguns vinte paíTos ; 
e como eram muitos , e ficaram mais api- 
nhoados , a noífa arcabuzaria fez nelles tal 
cítrago , que era efpanto. O Ilajú que eftava 
na ponta da Ilha, dando-lhe recado que os 
léus fe aíFaíláram desbaratados, quando el- 
le efperava que lho deílem pêra ir entrar 
na Cidade , quizera morrer de paixão ; e 
pofto que lhe diílerao o grande eílrago que 
era feito na fua gente , mandou com mui- 
ta ira a feus Capitães que com todo o po- 
der tornaíTem a commetter as eftancias , 
fazendo final a todos com finco pancadas , 
que mandou dar nosatabales, quehe o que 
fe faz , quando fe ha de arrifear toda a po- 
tencia. Os Modeliares arrernettêram aos 
baluartes com tamanho eftrondo , fúria , e 
confusão , que pudera aquelle bárbaro ala- 
rido metter medo a quem não lho tivera 
já perdido , como os noílbs que eftava m 
em fuás eftancias tão promptos pêra lhas 
defender , como fe eftiveram muito folga- 
dos. Os da guarda de EIRey , e outros 
muitos aventureiros , que entraram de re- 
frefeo > chegando aos muros, e baluartes, 

en- 



Década X. Cai». II. 5-39 

cncoftáram grande numero de efcadas , pe- 
las quaes começaram a fubir , nomeando- 
fe, como fe os noííos os conheceram, não 
entendendo que quanto mais esforçados , e 
nomeados foliem , tanto com mais gofto , e 
vontade lhes haviam de defender fuás eftan- 
cias , e os haviam de offender a elles ; 
porque já o animo de qualquer delles fe 
não contentava fenao dos maiores perigos: 
onde elles mais carregaram , e onde com 
mais força porfiaram , foi no baluarte S. 
Gonfalo , fendo os primeiros que tentaram 
entrarem nelle , os da guarda de EIRey, 
que hiam armados de peitos, malhas, ca-* 
pacetes , e murrióes , e com muitos mon- 
tantes , com que cortaram muitas lanças 
aos do baluarte , os quaes primeiro com 
elles derrubaram muitos dos feus , paíTados 
de parte a parte. Os pedreiros tornaram 
á fua obra , e foram picando o muro , e 
os elefantes commettêram com as trombas* 
por fima das eftancias , trabalhando por 
chegarem á artilheria pêra darem com el- 
la abaixo ; mas como ella eftava carregada 
com feus cartuxos, difparando nelles , fize- 
ram huma grande deftruição , e os elefan- 
tes com a dor das feridas, e com os terre- 
motos da artilheria viraram por detrás , e tri- 
lharam grande copia dos feus , fobre os v 
quaes carregaram de todas as partes tan- 
tas 



5T4° ÁSIA de Diogo de Couto 

tas coufas dos noflbs pêra lhes empecerem^ 
que todo o campo por baixo ficou junca- 
do de corpos efpedaçados , os quaes fica- 
ram fendo grande impedimento pêra os 
vivos. Alguns Chingalas mais affamados , e 
que defejáram de ganhar grandes honras 
diante do Rajú, trabalharam muito por ar- 
vorarem algumas bandeiras , que traziam 
em íima do baluarte S. Gonfalo, o que lhe 
os noíTos defenderam tanto a fua cufta y 
que de envolta com ellas voltaram pêra 
baixo feitos pedaços ; mas como aqui efta- 
va o mor pezo do poder do Rajú , e os 
mais efcolhidos , e folgados , viram-fe os 
noííbs em muito grande aperto. A\]uelle 
tempo chegou o Capitão ; e vendo em ta- 
manho rifco aquelle baluarte , deixou-fe 
ficar nelle , e mandou chamar Thomé de 
Soufa de Arronches, que ainda que até ago- 
ra não fallaífemos nelle , não foi por eílar 
ocioíb , antes igualmente com o Capitão 
andou fempre provendo , e remediando as 
partes mais neceíTarias , eftando-Jhe encom- 
mendada toda aquella parte defde o feu 
baluarte até ao da Madre de Deos , por- 
que quiz o Capitão defcarregar fobre elle 
parte dos trabalhos , que elle tomou á fua 
conta ; e em quanto o combate durou , e^ 
ainda todo o cerco , não fó fez o oíiicio 
de Capitão , mas ainda de valente folda- 

do, 



Década X. Ca?. II. ^41 

do 5 e de muito experto bombardeiro , apon- 
tando elle as bombardas , e difparando-as , 
e ordenando muitas coufas importantes á 
defensão daquella Fortaleza ; e dando-lhe o 
recado do Capitão , encarregou o Baluarte 
ao ModeJiar Diogo da Silva , e tomando 
alguns companheiros comíigo , foi-fe met- 
ter no baluarte S. Gonfalo 5 onde a confu- 
são era muito grande , e alli poíto diante 
fez obras de grande merecimento , e de 
muito damno pêra os inimigos. O Capi- 
tão vendo-o alli , foi acudir a outras par- 
tes pêra ver tudo com o olho , e chegou 
ao baluarte S. Miguel , que também efta- 
va rodeado dos inimigos de refrefco , que 
com grande porfia trabalhavam fobre quem 
feria o primeiro que fe puzeíTe em íima. 
Efte commettimento foi muito rijo , e paf- 
fáram nelle muitas coufas , que não fe po- 
dem particularizar , porque de qualquer 
dos noffos fe podia fazer hum Capitulo 
particular ; porque o que menos fez , foi 
tudo o que fe podia efperar de hum ani- 
mo valerofo , e incanfavel : e aííim fizeram 
todos tanto, que com morte da mor parte 
dos inimigos os fizeram retirar , havendo 
já outro tanto efpaço que peleijavam, co- 
mo houve no primeiro commettimento. O 
Rajú ,• que tinha a cada momento rebate 
do que fe paíTaya , fabendo que os taes 

tor- 



5*4* ÁSIA de Diogo de Còúto 

tornaram a fer desbaratados com muitd 
maior damno que de primeiro , ficou co-* 
mo doudo, e mandou que fe perdefletn 
todos , ou lhe tomaííem Columbo , e tor- 
nou a fazer o final da batalha, ao qual tor- 
naram por todas as partes com tantos bra- 
dos , e alaridos , como homens que fehiam 
offerecer á morte , a qual acharam logo 
com tanto género de coufas, que antes de 
meia hora fe retiraram a hum final que o 
Raju mandou fazer , por lhe dizerem que 
fe acabava tudo. Já nefte tempo efclarecia 
a manhã , que foi pêra os noífos tamanha 
alegria , como acontece aos que em al- 
guma tormenta fe viram perdidos pela ef- 
curidade da noite , quando o dia lhes ama- 
nhece claro, e fereno. 

Recolhidos os inimigos , ainda foram 
apôs elles infinitos pelouros , que ao longo 
os efpedaçáram ; e aífim em todo o arraial 
do Rajú houve hum geral pranto por ta- 
manha perda , igualando com differente 
fentimento a dor , e a trifteza de huma 
parte com a alegria , e prazer da outra, 
porque na noíía Fortaleza houve todo eíle 
dia muito grandes feitas , as quaes fe íen- 
tiram no arraial , o que fazia fua dor ler 
maior , porque aífim correm as coufas do 
mundo , que as mefmas que dam prazer* 
a outros o fazem perder \ mas no que os 

nof- 



Década X. Cap. II. 5-43 

noííos moítráram mor alegria , e alvoroço 
da viítoria , foi nas muitas graças, e louvo- 
res que deram aoAlfiffimo Deos , e á Vir- 
gem das Neves fua Mãi , em cujo dia re- 
ceberam tão aííinalada mercê, offerecendo- 
lhe os que puderam dons , e romarias. O 
Capitão .acudio a ver os feridos, os quaes 
mandou curar com muita diligencia. 

CAPITULO III. 

Do âamno que houve da parte dos inimi- 
gos : e de alguns foccorros que de fora 
chegaram : e de como o Capitão re- 
formou os baluartes , e eflancias. 

MUito defejou o Capitão de faber o 
que pairava no arraial do Rajú de- 
pois deite combate , e do numero dos mor- 
tos , pêra o que lançou fuás efpias , as 
quaes lhe trouxeram a cabeça de hum Laf- 
carim , e hum cornaca vivo , que não foube 
dar razão de nada. Na mefma conjunção 
fugiram pêra a Fortaleza três homens Chi- 
nas , que eitavam cativos , que fe perderam 
em huma náo , em que também vinha o Pa- 
dre Pedro Dias , a qual deo á coita , e o 
Padre com alguns fe falváram no batel , e 
os mais foram cativos em terra. Eít es tam- 
bém não fouberam dar razão do que o Ca-* 

pi- 



^44 ÁSIA de Diogo de Couto 

pitão defejava ; mas depois vieram õutfa* 
efpias , que a íbuberam dar de tudo , e af* 
firmaram perder o Rajú perto de quatro- 
centos homens > os mais eícolhidos do exer* 
cito , em que entravam muitos Araches , e 
os Modeliares de Tanavaca , eo da Corna- 
ria do Gale ? e da vantagem de dous mil 
feridos 5 matafam-lhe mais dous elefantes > 
e feríram-lhe féis. O Rajú affrontado do 
fucceílb , determinou de pôr a Cidade em 
tanto aperto , e de cançar os noílos de fei- 
jão que os puzeífe em defefperação , e ló* 
go com muita prelTa mandou correr com 
as tranqueiras até muito perto dos muros 
da Cidade; e nas pontas delias fez alevan^ 
tar alguns baluartes de madeira tão altos i 
que chegavam á artilheria dos baluartes, 
que cahiam pêra aquella banda , e correo 
com alguns entulhos pelo lugar da ala* 
gôa , e mandou por toda a Ilha fazer cha- 
mamento de gentes , e trazer mais fabrica , 
porque determinava abarbar-fe com os mu* 
ros , pêra que de feus valos pudeífem paífar 
■a elles. O Capitão que fe não defcuidava 
das coufas da^fuãTobrigação , mandou re* 
formar os baluartes , e outras partes mais 
neceíTarias \ e no de S. Miguel , por fer 
mais rafteiro, e em que os inimigos tinham 
o olho , mandou fazer hum fobrado d© 
madeira com as traves de palmeiras grof* 

ias. 



Década X. Cap. III. £45* 

fâs , e mandou entulhar as bombardeiras ^ 
porque lheoccupavam os foldados , que el-* 
le havia demifter pêra íima ; e de redor do 
fobrado que alevantou , fczíeus andaimos, 
e parapeitos pêra os noílos peleijarem mais 
encubertos ; e no fobrado poz alguns fal«* 
coes, e berços pêra varejarem a Ilha que 
fe largou, na qual os inimigos fe andavam 
fortificando , porque lhes eftorvaífem a obra; 
e porque o Baluarte S. Gonfalo também 
era muito rafo , fubio com os parapeitos 
aílima , e o entulhou de maneira , que já 
ficava mais defenfavel \ e defde o Baluar- 
te Santo Eílevao até a guarita de Manoel 
Borges mandou pela banda de fora abrir 
huma cava de três palmos de largo i e de 
duas braças de altura pêra não poderem 
chegar os Elefantes ao muro , que era de 
taipa; e porque tardava recado dos foccor- 
ros que mandou pedir , tornou a defpedir 
hum Banholomeu Rodrigues com cartas 
pêra o Vifo-Rey , em que lhe dava novas 
do combate, e lho mandou debuxado com 
todo o exercito do inimigo , e do modo 
de fuás fortificações, pêra que poralli vi£ 
fe as neceífidades em que Columbo ficava» 
Eíle homem paííou a Manar em hum To- 
ne, e dalli á coita deNegapatao, e tomou 
o caminho por terra pêra Goa , e agora o 
deixaremos , por continuarmos com Gon* 
CvutQ.Tom.VhF.Ii* Mm fa* 



546 ÁSIA de Diogo de Couro 

falo Fernandes , que tinha partido diante 
delle. Eíte , depois que deo eirs Manar re- 
cado do cerco , e que deixou negociado 
Fernão de Mello pêra ir de foccorro, paf- 
fou-fe aNegapatao, aonde efpalhou as no- 
vas do aperto em que Columbo ficava , 
com as quaes hum Diogo Fernandes PeíToa , 
homem nobre, e bom Cavalleiro, comprou 
huma Galeota , e pagou a vinte e quatro 
foldados ; e enchendo o navio de manti- 
mentos , e munições 5 tudo de leu dinhei- 
ro, parti o-fe logo de foccorro ; e invejofo 
de aquillo hum António de Aguiar deVaf- 
concellos , porque as coufas deita qualida- 
de efpertão muito aos amigos de honra , 
tomou logo hum calemute , e negociou 
quinze foldados , com que fe partio logo 
após o outro , e o foi ainda alcançar na 
coíla da Pefcaria ; e engolfandc-fe ambos 
pêra atraveííarem a Columbo , lhes deo 
hum temporal tão rijo, que eftiveram per- 
didos, com o qual António Fernandes PeC- 
íòa arribou a Manar, por ter o navio mais 
pezado ; mas o calemute de Aguiar foipaf- 
íando por diante ; e requerendo-lhe os fol- 
dados por muitas vezes que arribaffe , o 
que elle não quiz fazer, dizendo-lhes que 
elle não partira de foccorro á Fortaleza de 
EIRey pêra deixar de chegar a ella por 
nenhum inconveniente : que ou havia de 

che- 



Década X, Cap. ilí. 5*47 

chegar lá , ou morrer na demanda , e que 
nao quizeílem elles mais gloriofa morte $ 
nem mais honrada vida j e affim foi paf- 
fando por aquella tempeftade alagado , e 
íubmergido muitas vezes , fem lhe metter 
medo o perigo em que tantas vezes íevio: 
e favorecendo Deos tão honrados penfamen^ 
tos , chegou a Columbo o próprio dia que 
partio Bartholomeu Rodrigues , que foi a 
i^. de Agofto , dia da gloriofa Aííumpçao 
da Virgem N. Senhora. O Capitão , e to- 
do ò povo acudiram á praia a feftejar eíte 
íbccorro ; porque he muito natural em to-* 
dos os cercados parecer-lhes que em todas 
as coufas que de fora lhes chegam , lhes 
vem feu rerrfedio > e defembarcando Antó- 
nio de Aguiar , o levou o Capitão , e o 
apofentou em hum lanço de muro ? que 
entefta.com o Baluarte S. Sebaftiãò , por fer 
lugar muito perigofo , e arrifcado , o qual 
elle começou a governar, e a guarnecer y e 
fortificar muito bem. 

Deite íbccorro , e da partida de Bar- 
tholomeu Rodrigues foi logo avifado o 
Rajú ; e porque os noffos fe defcuidaíTem 
por entre tanto, determinou de entretellos 
com fingimentos , e moftrar de nao profe- 
guir mais no cerco , e mandou bradar aos 
do Baluarte S. Sebaíliao , que diífeííem ao 
Capitão da parte do Rajú que lhemandaíTe 
Mm ii lá 



548 ÁSIA de Diogo de Couto 

lá Jeronymo Bayão , ou outra peíToa de 
refpeito , porque tinha que praticar com 
elle coufas que importavam a elle Capitão. 
Dado o recado , e entendendo elle logo 
os feus defenhos , mandou aos do Baluarte 
que lhe diíTeffem , que fizeíle ao que vinha , 
€ foíle com fuás obras por diante , e que 
fe pêra ellas havia de miíter ajuda , lha 
daria j e que bom feria fortificar-fe bem , 
porque muito cedo havia lá de fer com 
elle, e aflím ficou acoufa, fem mais fallar 
nada. Foi iílo o mefmo dia em que chegou 
o Aguiar , e ao outro mandou o Rajú fa- 
hir fuás gentes ao campo, e da noífa For- 
taleza lhe fahíram alguns que travaram com 
elles \ e poílo que tiveram huma efcaramu- 
ça , que durou hum bom efpaço , todavia 
não foi fangrenta , e deita maneira havia 
quafi todos os dias outras. O Rajú foi cor- 
rendo com fuás tranqueiras até fepôr trin- 
ta paílbs do Baluarte S. Sebaítião , mandan- 
do correr ainda mais adiante com as obras, 
ao que lhe mandou fahir o Capitão o Mo- 
deliar de Cândia D.João deAuítria, Capi- 
tão da gente da terra , e o Arache Pedro 
AfFonfo com feus Lafcarins , e alguns Por- 
tuguezes com elles , pêra que foffe defman- 
char aquella obra , porque não paífaíTe com 
ella avante. Efta companhia fahio da For- 
taleza no quarto d'alva , e deram na obra 

com 



Década X. Gap. III. 5*49 

com muito iilencio , indo os Portuguezes 
diante , os quaes commettêram as tranquei- 
ras; e lançando-lhe dentro muitas panellas 
de pólvora , entraram apôs ellas , e tiveram 
com os que aguardavam , que eram muitos 
efcolhidos , huma grande batalha ; e em 
quanto ella durou , os Lafcarins occuparam- 
le em desfazerem por força a tranqueira , 
como lhes era mandado , e outros em re- 
colher a madeira pêra a Fortaleza , fuíten- 
tando os Portuguezes dentro no Baluarte a 
batalha, e aílim apertaram que com morte 
de muitos lançaram todos fora ; e desfazen- 
do-fe a tranqueira de todo , recolhêram-fe 
os noffos muito a feu falvo , perdendo hum 
fó , pofto que alguns vieram feridos , mas 
todos os mais carregados de armas , e des- 
pojos dos inimigos , de que morreram trin- 
ta. Àflinalou-fe nefte aíTalto hum foldado , 
por nome Jofé Fernandes , o qual com Iuh 
ma lança de fogo foi o dianteiro que en- 
trou a tranqueira , e fez caminho aos mais j 
e depois da lança gaitada, arremettia abra- 
ços com os inimigos , porque era muito 
forçofo ; e como alcançava hum, o lançava 
pêra trás aos companheiros , que o mata- 
vam, e afíim o fez a muitos, e fobre iflb 
recebeo oito feridas, ehuma delias mortal ; 
e recolhendo-fe por feu pé , depois de fer 
fora, achou menos o chapeo, e hum lenço. 

com 



f$o ÁSIA de Diogo de Couto 

com nove bazarucos amarrados nelle, que 
parece era todo o feu cabedal, que lhe fi- 
cou na tranqueira, e quizera voltar a buf? 
callo ; mas não pode, porque fevafava to- 
do em fangue. Feito foi efte pêra lhe da- 
rem por cada bazaruco muitos cruzados ; 
mas elle ficou fem elles , e fem os bazaru- 
cos y e fe viveo depois (que não o foube- 
mos) pela ventura que morreria de fome, 
€ nunca lhe faberiam o nome ; mas tello-ha 
jaefta efcrkura , e affim rodos os mais deita 
qualidade , poílo que os favores do tempo 
lhe negafíem o galardão de feus mereci- 
mentos; e pela ventura que por defcuidos 
de alguns, que fehum pequeno feiro d elle 
fora obrado. por qualquer parente, ou che- 
gado , lho houvera de engrandecer com 
mercês aífinaladas , que por derradeiro tem 
limite eterno com a vida; mas eftes efque? 
eidos, e defprezados do mundo, em quem 
feitos tão famofos ficaram apagados pela 
falta de favores , eftes o não ferão nunca na 
minha eferitura , fem lhes dar o galardão li- 
mitado ; mas huma fama fem termo , e que 
dure , em quanto o Mundo for, 

E tornando á noífa ordem, o Rajú fi? 
çou afFrontadiílímo deite fucceíío , e não 
deixava de bufear todos os meios , e ardis 
pêra fe fatisfazer, e ver fe podia haver ás 
mãos a Fortaleza > e mandou logo abrir 

hvh 



Década X. Cap. ITT. 571 

huma mina da fua tranqueira até o Baluar- 
te S. Sebaftião , e de altura de braça ; e 
continuando-fe , foram dar em dous tan- 
ques de agua , que eftavam em ambos os 
lados , pelo que fahio com ella affima da 
terra vinte paffos do Baluarte , onde fabri- 
cou outra tranqueira de madeira muito for- 
te , e entulhada , cuja fabrica vinha por 
baixo das minas , por caufa da artilheria , 
que por fua fortaleza nenhum damno lhe 
fazia. 

CAPITULO IV. 

De como a Cidade ãe Cochim mandou de 

foc corro a Ceilão huma Armada : e de 

como o Rajtí tratou de commetter a 

Fortaleza por mar , e por terra : 

e do que mais fuccedeo. 

TÀnta preíTa fe deo Belchior Nogueira % 
que partio pêra Goa com recado do 
cerco, que em poucos dias chegou á Cida- 
de de Cochim, e deo as cartas que levava 
de João Corrêa a D. Elcevão de Menezes , 
Capitão daquella Fortaleza , e outras aos 
Vereadores, nas quaes lhe pedia o foccorref- 
fem , porque ficavam no derradeiro extre- 
mo , e que foíTe o mais apreííadamente 
que pudeílem , porque o inimigo tinha vin- 
do 



ff% ÁSIA de Diogo de Couto 

do com toda a potencia da Ilha de Ceilão 
contra aquella Fortaleza , na qual nao lia^ 
via trezentos homens. Vendo elle efta ne-. 
ceílidade, ajuntou-fe o Capitão em Camera 
com os Vereadores , e moradores princi- 
paes , e praticaram fobre aquella matéria; 
e como aquella Cidade coltumava acudir 
com grande zelo de ferviço do feu Rey a 
femelnantes necefíidades , fem perdoarem 
a gaftos j nem a rifcos de fuás pelToas , af- 
ícntou-fe que logo fe negoceaflem féis na-? 
vios cheios de gente , e munições , cujas 
defpezas haviam de fe fazer do dinheiro do 
hum por cento , que eftava applicado pêra 
as obras , e fortificação daquella Cidade, 
porque em nenhuma coufa fe podia elle 
defpender melhor, nem de mais importân- 
cia: elogo começaram a pôr os navios no 
piar, e a pagar os foldados; e porque era 
chegado naquelles dias áquelle porto Nu- 
no Alvares de Atouguia em huma Galeota 
que vinha de Couláo , onde invernou por 
mandado do Vifo-Rey , lhe commettêram 
efta jornada, a qual elle acceitou com mui- 
to gofto , e logo fe começou a embarcar , 
e em finco dias fahio pela barra fora com 
féis navios, em que levava cento e oitenta 
foldados pagos , e os navios armados por 
três mezes com muitas munições : os mais 
Capitães , 3 fora Nuno Alvares de Atou* 

RUÍ», 



Década X. Cap. IV. 573 

guia , foram Adrião Nanes de Mane elos, 
Domingos Alvares , Simão Leitão , Pedro 
Rodrigues, e António Coelho, que acaba- 
ra de íer Capitão de Coulão ; e correndo 
a coita, dobraram o Cabo Comorim , e fo- 
ram demandar Tutocori pêra atraveíTsirem 
# Columbo ; e allim o deixaremos até tor- 
nar a elíes. 

O Raju vendo o verão entrado , que 
.era tempo de começarem a vir os foccor- 
ros de fora , quiz , antes que lhe vieiTem , 
tornar aprovar a mão , e commerter a For- 
taleza por mar, e por terra, porque aquel- 
le pouco poder que tinha, fedivkiiífe, e fi- 
caííem as partes , e baluartes mais fracos , 
e para iífo mandou negociar a fua Arma* 
jda , elançalla no mar, e mandou embarcar 
nella alguns Modeliares com muita gente , 
e lhes deo ordem do que haviam de fazer. 
Preftes tudo , e o exercito a ponto , aos 20. 
de Agoíto fobre a tarde desfraldaram na 
eftancia do Rajú duas bandeiras , huma 
branca, e outra vermelha, e logo começa- 
ram a tocar confufamente todos os ataba- 
les , e trombetas ; e todos eftes fmaes , e 
cada hum per íi íignificáram fer a noite 
que vinha trifte , e perigofa pêra os cerca- 
dos , e que fe havia de metter pêra elles 
todo o refto da potencia. O Capitão gaitou 
aquella tarde em correr todos os Baluartes , 



574 ÁSIA de Diogo de Couto 

c eftancias , e em provellas de muitas muni* 
coes , e armas , lembrando a todos os Capi- 
tães fuás obrigações , pondo-lhes diante o 
eítrago que havia tão pouco fizeram na- 
quelles inimigos , e que nefta vez eftava 
fazellos defefperar de todo daquelle cerco ; 
e fendo avifado da Armada que fe fazia , 
eque determinava o Rajú commettello por 
mar , mandou embarcar Domingos de A- 
guiar na fua naveta com alguns foldados, 
c o mefmo fez a Diogo de Mello da Cu- 
nha , e João Fernandes o desbarbado em 
duas fuílas , que eftava na barra com a 
gente que lhe parecia neceffario , e mari- 
nheiros baftantes , provendo-as de munições, 
de maneira que não lhe ficou nada por fa- 
zer, achando-fe em todas eftas coufas com 
elle os Religiofos todos da Cidade , que , 
como diífemos , orando , e peleijando fe 
achavam nos perigos , e neceííidades maio- 
res , tomando os Grelados efta noite as ef- 
tancias á fua conta. O Padre Fr. Duarte 
Chanoca , CommiíTario dos Menores daquel- 
las partes , tomou a leu cargo da banda de 
Mapano com hum companheiro leigo, va- 
lente homem , e alguns familiares da cafa 
com fuás efpingardas , e armas : o Padre 
Fr. Luiz da Conceição, Guardião, e o Pa- 
dre Fr. Manoel dejeíus ficaram foltos pêra 
acudirem a todas as partes ás neceffidades 

ef- 



Década X. Ca?. IV. 575* 

efpirituaes , e corporaes. Na porta de S. 
Lourenço eítava o Padre Franciíco Vieira , 
Vigário da terra , com trinta e duas efpin- 
gardas, que ajuntou de amigos, e achega-, 
dos : do Baluarte S. Miguel até o de S< 
João , que era a parte mais perigofa , an- 
dava o Padre Pedro Dias com alguns com- 
panheiros, eefcravos. Provido tudo , deixai 
ram-fe eílar em tanto íílencio , que por toda 
a Cidade fe não ouvia mais que o fino das vi-» 
gias ; e no quarto d 5 ante alva , fahindo a Lua , 
ouviram grande rumor nas eítancias inimin 
gas , e logo darem-fe as finco pancadas nos 
atabales , final de commetterem , com o 
que fe levantaram por todo o exercito gran- 
des alaridos, e gritos, a que elles chamam 
Coquiados , porque a mor parte dos gen- 
tios da índia peleijam tanto com a lingua, 
como com as mãos. A armada do inimi- 
go , que eílava a ponto , ouvindo o final , 
começou a fahir do rio , e pelo Matual , 
Pedieira , Mapano , e Capelete fe fentio 
muita gente , e a Armada veio com mui- 
to filencio commetter huma calheta que 
ha na coita brava por detrás de S. Fran- 
ciíco , onde efiam os armazéns das muni- 
ções; porque, como diílemos , por alli não 
havia muro mais que os rochedos bravos, 
e as ondas que nelles quebram , porque 
lua tenção era ver fe podiam defembarcar 

por 



5 $ 6 ÁSIA de Diogo de Couto 

porííma dos penedos pêra darem fogo aos 
armazéns. Não foi ifto feito em tanto filen- 
cio , que não fofle fentido das mulheres , 
. que vigiavam das janellas , que cahiam pê- 
ra aquella parte , as quaes deram tamanhas 
gritas , que foram fentidas dos inimigos; 
com o que fe deixaram ir efcorrendo a pon- 
ta de S. Lourenço , atirando muitas bom- 
bardadas , que eram íinal que haviam de 
fazer ao chegar áquella parte , pêra os do 
exercito com todo o cabedal commetterem 
as eftancias pêra fe defcuidarem daquella 
parte. Ouvido o final , difparou-fe toda a 
artilheria das eftancias , que eílavam mais 
abarbadas com as noílas , apôs a qual ac- 
commettêram todos a Fortaleza com mui- 
tas gritas , arvorando nellas muitas efcadas , 
peias quaes fubindo com grande determi-* 
nação , chegaram a pôr as mãos nas a- 
meias do Baluarte ; mas como os nolTos ef- 
tavám alerta pêra fe vingarem daquella 
aífronta , que os mais dos que lha fizeram 
pagaram com as vidas , cahindo abrazados , 
e feitos pedaços fobre outros que commet- 
tiam a fubida , que levavam comíigo, com 
que ao pé dos Baluartes , e eftancias havia 
huma fellada de vivos , e mortos ? e feri- 
dos , huns fobre outros , que fe não enten- 
diam , porque fobre todos cahiam tantas 
panellas dç pólvora 3 e tantos artifícios de 

fo~ 



Década X. Cap. IV. 5*57 

fogo , que parecia hum efpedtaculo infer- 
nal : a Armada vinha já entrando a barra , 
e as fuftas , que eftavam preíles , foram-fe 
chegando ao focairo da náo pêra fe favore- 
cerem huns aos outros ; e recolheram os 
inimigos com huma falva de artilheria tão 
bem empregada , que lhes fizeram perder 
o orgulho com que vinham, deftroçando-os 
com morte de muitos: e todavia comohiam 
de arrancada i foram paliando adiante pela 
parte de S. Lourenço , onde eftava o Vi- 
gário da terra , que com a fua arcabuzaria 
os fuftigou, e efcalavrou mui bem ; e co- 
mo os inimigos eftavam já do banco pêra 
dentro , e tão perto que todos os empre- 
gos , affim da náo , e fuftas , como da ter- 
ra fe faziam nelles a muito cufto feu , de- 
tiveram-fe elles , e puzeram-fe ásfalcoadas, 
e ás efpingardadas pêra a terra , de forte 
que era huma batalha poríl muito travada , 
e pelas eílancias todas , em que os noflbs 
peleijavam com muito esforço, e fe ouvia 
a batalha do mar, fem faberem o que era. 
O Capirao tinha provido a tudo com mui- 
ta ordem ; e pofto que havia a parte da 
bahia por fegura , todavia tinha enviados 
apreífados , que amiudadamente lhe tra- 
ziam recado do que lá paílava ; os inimi- 
gos por íima dos mortos , e feridos paf- 
favam a commetter os baluartes > e eftan T 

cias , 



$5% ÁSIA de Diogo de Cotffò 

cias 5 'porfiando fubirem a ellas , e choven^ 
do de todas as partes fobre os noflbs di- 
lúvios de pelouros, e fettas , que fob rele- 
vavam fempre pornáo damnarem aosfeus, 
que commettiam a entrada dos muros , e 
baluartes , que não eftavam ociofos ; por* 
■que com a fua artilheria , que nunca d.eí- 
cançou, tinham feito buma grande deftrup 
çao no exercito. Fez nefte dia mui bem o 
leu officio o Condeílavel Mór Pedro Gon-* 
falves , que não parando em nenhuma par- 
te , corria todas as eítancias , e borneava* 
e apontava as peças mais neceflarias , e ef- 
pertava os bombardeiros; e eftando no ba- 
luarte S. Sebaftiao apontando huma peíla , 
deo-lhe hum pelouro por hum braço que 
lho fez em pedaços , o que foi grande per- 
da pela falta que ficou fazendo. A Lua af- 
fim como lua fubindo , aflim hia dando mor 
claridade, com que os noflbs já defcubriam 
o campo todo , e peleijavam mais á fuá 
vontade , e com menos receio , porque viam 
os inimigos mui bem, os quaes com todo 
o feu poder , e animo trabalhavam por en- 
trar os baluartes , nos quaes era a confia 
são tamanha , que cuidava o Rajú que já 
os feus eftavam de pofle delles. A fua Ar- 
mada, que peleijava nabahia com anoífa, 
aílim osfuíligou a artilheria , que de já nao 
poderem aturar y vendo-fe deliro jados v . e 

com 



Década X. Cap. IV. 579 

com tantos mortos que já a claridade da 
Lua os defcubria de todo, pêra os noííos 
poderem empregar melhor íeus tiros , fa- 
zendo final a recolher, o fizeram bem cor- 
tados , e efcalavrados. Os que commettiam 
as eftancias em ouvindo o final da Arma- 
da a recolher, o fizeram também, por lhes 
íer aífim mandado , e deixando os pés das 
eftancias , e dos baluartes coalhados de cor- 
pos mortos , que eiles não puderam levar 
com a preíla. Dos noííos houve alguns fe- 
ridos , mas não perigofos , fomente o Con- 
deftavel , que faleceo da bombardada. O 
Rajú ficou esbravejando contra os feus, 
porque havia que por aquella maneira lhe 
não podia efcapar a Cidade , pondo a cul- 
pa a Armada por fahir mais tarde do que 
elle tinha ordenado, e mandou correr com 
a fortificação pêra chegar , e fe abarbar 
com os noííos muros. 

Paliado efte commettimento , logo a 
23. de Agoílo chegou a Armada de Nuno 
Alvares de Atouguia 5 que atraveííou aquel- 
le golfo com muito trabalho , e rifco de 
íua peflba , fomente o navio de Adrião 
Nunes, que de não poder foífrer os mares 
arribou a Manar. Foi efte foccorro fefteja- 
do de todos, por fer já de maior cabedal, 
e chegar a tão bom tempo. O Capitão deo 
a Nuno Alvares d 5 Atouguia o lugar em que 

el- 



5r6o AS IA de Diogo de Couto 

elle efiàva , que era o terço de S. Gonfa^ 
lo, e a Pedro Rodrigues com a ília gente 
poz no baluarte Santo Eílevao, e Antónia 
Coelho no de S.João, em que eícavaTho- 
mé de Soufa d 5 Arronches , Capitão Mor do 
mar de Ceilão , ao qual mandou o Capitão 
lançaífe a Galé ao mar , e proveíTe a íua 
Armada pêra andar nelle , porque com o 
foccorro de Cochim ficava a Cidade fegu- 
ra : o que elle fez , provendo os navios de 
Capitães , que eftavam nas fuílas da bahia * 
e le paliou pêra a eítancia do Alcaide Mor , 
que era o terço de Mapano ; e o Alçai-* 
de Mor fe paUou pêra a Feitoria , tendo 
huma Galeota negociada com gente fua pe- 
ra fe embarcar nella , quando foíTe necef* 
fario. 

CAPITULO V. 

De alguns foc corvos que mais vieram defó* 
ra d Fortaleza de Columbo : e dos ajjal~ 
tos que os nojfos deram nas tranqueiras 
dos inimigos : e de como a nojfa Armada 
peleijou com a do Rajú. 

AS novas do cerco de Columbo fe e£ 
tenderam por toda a coita de Nega- 
patão até chegarem á Cidade de S. Tho- , 
mé, com a qual fe alvoroçaram muitos ho- 
mens amigos de honra pêra lha irem foc* 

cor- 






Década X. Cap. W ç6t 

torrèr ; e os que primeiro fe negociaram 
•cm navios feus , foram Fernão de Lima* 
Cavalleiro da Ordem de Chrifto , muito bom 
foldado , e amigo de João Corrêa de Bri- 
to , Manoel de Amaral , que alli chegou 
por Capitão de huma Galeota de Bengala ^ 
Rodrigo Alvares meio irmão deThomé de 
Soufa de Arronches com os mais , e me- 
lhores foldados que puderam achar; edan- 
do-lhes bom tempo , em breves dias chega* 
ram a Columbo já na entrada de Setembro» 
O Capitão os recebeo com muita honra, 
agazalhando a Fernão de Lima no Cavai* 
leiro do baluarte S. Sebaítião , e Manoel 
de Amaral em outra parte neceíTaria , eRo* 
drigo Alvares fe foi pêra a eílancia , que 
fora de feu irmão. Qyaíí neíle tempo, ou 
pouco antes que elles chegaíTem , feoffere* 
cêram alguns aventureiros ao Rajú pêra 
queimarem as guaritas que hiam entre o 
baluarte Madre de Deos , e S. Gonfalo* 
por lerem mais rafteiras que todas, que era 
o lanço que guardava Manoel Mexia , o 
qual como era prático na terra , e trazia 
também fuás efpias , foube da determinação 
dos inimigos ; e tomando alguns foldados 
que pêra o negocio efcolheo , e com feus 
Laícarins , dando conta ao Capitão do que 
paífava , e determinava fazer , fahio-fe pe- 
jas bombardeiras , e deitou-fe em cilada 
Lauto. Tom. VL P. li. Nn pe-< 



562 ÁSIA de Diogo de Couto 

pêra ver fe podia fazer algum bom feito. 
Era iílo de madrugada , quando os inimi- 
gos vinham em muito íilencio pêra com-» 
-meíter aquella parte, ficando todo o exer- 
cito em armas pêra acudir, fazendo-lhes el- 
les final que >eftavam em fima das guari- 
tas ; e vendo diante hum Arache muito va- 
lente homem , que na guerra paliada de 
Manoel de Soufa Coutinho tinha levado 
vinte e nove cabeças de Lafcarins de Co- 
Jumbo ao Rajú , homem mui conhecido , 
e mui temido , e odiado de todos j e dan- 
do na filada do Mexia, lhe íahio com hu- 
ina lança nas mãos , e arremetteo com elle 
com tanta prefla , que não fentio fenão 
quando fe vio atraveíTado de pai;te a par- 
te; e ao mefmo tempo que nelle ençopou a 
■lança 3 aterrou com elle, e o levou nos bra- 
ços , e chegou á bombardeira que eílava 
perto, e o entregou por ella aos Lafcarins 
que dentro eftavam , os quaes vendo-o, e 
conhecendo-o hum delles chamado Maro- 
to , a quem devia de ter bem efcandaliza- 
do, lhedeohuma cutilada fobre o coração, 
que o abrio todo, e por três vezes lhe to- 
mou o fangue com as mãos , e bebeo por 
fartar a fede do ódio que lhe tinha ; e os 
jiofíbs quehiam também em companhia do 
Mexia, ferrando também com os que com 
elle vinham , derrubaram alguns ? e a artilhe- 

ria 



Década X. Ca?. V5 £§£ 

fia das. guaritas ao final defcarregou nel« 
les , e fez grande deítruição : em fim ês 
mais fe foram recolhendo bem envergonha- 
dos , e efcalavrados , e os noíTos viiflorio-* 
fos , e contentes. Deitas coufas andava o 
Rajú tão aífrontado , que fe não fabia dar 
a confelho , bufcando todos os meios de 
empecer aos noílos até mandar lançar pe- 
çonha no poço de Mapano , de que todos 
os noílos bebiam , em que fe tinha muita 
vigia ; e tanta , que fendo fentidos os que 
a iílo vinham , efeozendo-os mui bem , lar- 
garam apeçonha, e fe arrecolhêram; e por 
quebrantar os noífos , dava todas as noites 
fina es de aííaltos , com que os fazia eílar 
todas ellas com as armas nas mãos , man- 
dando algumas vezes alguns aventureiros 
em Tones, em muito filencio , pêra corta- 
rem as amarras á náo, e a lançar fogo nas 
embarcações ; mas em tudo eílava tão pro- 
vido , que todos os feus defenhos ficaram 
baldados, efempre fe recolhiam aífinalados 
das mãos dos noíTos ; e ofFerecendo-fe^lhe 
alguns dos feus pêra irem peleijar com a 
noífa Armada , mandou negociar a fua , que 
eram dez navios mui cheios de gente efeo- 
Ihida ; e vindo pela banda do Mutual na 
força do meio dia , encoftando-fe a terra, 
fizeram querença dedefembarcar nella com 
fuás bandeiras , que traziam defenroladasw 
Nn ii Tho- 



364 A SI A de Diogo de Couto 

Thomé de Soufa de Arronches , Capitão 
Mor daquella coita , que eítava na fua Ga- 
lé, mandou levar a amarra, e os foi com- 
metter , indo já com elle em huma Fuíla 
Francifco da Silva, Alcaide Mor, e Simão 
Botelho em outra, acudindo á praia os Ca- 
pitães dos navios da companhia de Nuno 
Alvares de Atouguia com a fua gente pêra 
fe embarcarem nos feus. Thomé de Soufa, 
que fahio aos inimigos, difparou nelles hu- 
ma peça de coxia , e tomou huma pela 
rabada , que lha desfez toda com o leme > 
e lhe matou alguns marinheiros das vogas : 
o Capitão Mor dos inimigos inveítio com 
a Galé , e lhe poz a proa de meio a meio , 
e commetteo lançar-lhe gente dentro , fo- 
bre o que fe travou huma afpera briga; e 
todavia aífim o efcandalizáram os noííos , 
que houveram elles por feu partido defaf- 
ferrarem-fe , e irem-fe acolhendo. Thomé 
de Soufa por algumas reftingas que tinha 
por diante, deo fundo, e as fuftas o foram 
feguindo ; e tomando-lhe a dianteira , fe lhe 
ati-avefsáram no canal , por onde haviam 
de paliar , porque já trás elles vinham os 
navios dePedro Rodrigues, Domingos Al- 
vares , e Simão Leitão , que os hiam alcan- 
çando grandemente , e pondo-os em necef- 
íidade de commetterem a reílinga , que ti- 
nha pouca agua j e roçando por lima dek 

la, 



Década X. Ca?. V. $6$ 

Ia, foram á outra banda, porque todos os 
feus navios são de Patana , e demandam 
pouco fundo: alguns dos noífos prefurníram 
ler aquillo ardil do mefmo Rajú , porque 
entendia do animo dos noííbs que indo trás 
os feus , não foffreriam fugirem-lhe, e af- 
lim fem recearem a reftinga , os feguiriarrn 
•poríima delia , em que eftava certo per- 
der-fe algum navio , que elle eftimára mui- 
to, poílo que fe perdeífe toda a fua Arma- 
da ; mas os noííbs antes quizeram vellos 
recolher envergonhados, e fugirem nas bar- 
bas do Rajú , que os eílava vendo , que 
tomar-lhe alguns navios. João Corrêa de 
Brito , pêra que não ficaífe aquella oufadia 
fem paga , em quanto andavam embaraça- 
dos no mar , lançou-lhe o Arache Pedro 
Affonfo com feus Lafcarins pêra irem deP- 
manchar huma ponte , que o Rajú tinha 
feita no caminho da Cota pêra oCalapate, 
o que elle com muita brevidade fez , re- 
colhendo-fe com alguma madeira. Todas ef- 
tas coufas o Rajú fentia muito, e o magoa- 
vam bem; porque quando veio fobre aquel- 
la Fortaleza , não lhe pareceo tiveífem os 
noífos oufadia deapparecerem fora de feus 
muros , quanto mais dar-lhes tantas vezes 
aífaltos em fuás próprias tranqueiras com 
tanto damno dos feus. 

Paífado iíto aos fete defle mez de Sc- 

tem- 



$66 ÁSIA de Diogo de Couto 

lembro, mandou oRaju lançar alguns Ara- 
ches com mil homens no Mapano em fila- 
da pêra faltearem os noífos Mainatos, que 
são os que lavam a roupa pêra fazerem a 
preza nelles; e em amanhecendo, fahíratn 
os noífos , como fempre coftumavam , a def- 
cubrir campo; e indo perto dos vallos qua- 
íi mettidos na filada, efpantou-fe huma va- 
ca, que andava no campo, e veio fugindo 
pêra os noífos ; coufa ordinária nellas , tan- 
to que fentem gente no campo , fugirem 
pêra a Fortaleza ; e os noífos entendendo 
que fentíra a vaca gente, detiveram-fe. Gs 
da filada cuidando ferem fentidos , vendo 
es noífos perto, lhes fahíram com grande 
fúria : os de diante em os vendo fe vieram 
recolhendo á bandeira do Arache Manoel 
Pereira , que era o defcubridor do campo 
aquelie dia, o qual eftava com alguns Laf- 
carins alguns duzentos paífos do baluarte ; 
e vendo elle vir os inimigos efpalhados , 
arremetteo , appellidando Sant-Iago , e tra- 
vou comelles huma briga mui teza. Do ba- 
luarte foi viíta efta efcaramuça por Antó- 
nio Guerreiro , Capitão delle , o qual lhe fa- 
liio com a fua gente , e junto a Manoel 
Pereira tiveram com os inimigos hum arrif- 
cado jogo de lançadas, no qual foram tam- 
bém foccorridos de Thomé Pires , Capitão 
do baluarte S. Pedro , que pelas bombardei- 
ras 



Década X. Cap. V. $5? 

ras fe lançou fora aos ajudar , e chegou à 
tempo que os noíTos eltavam em grande a-' 
perto pela gente que dos inimigos recref- 
cia ; e dando com muito animo , fizeram 
hum -grande ettrago ; e arrancandc-os do 
campo , foram matando nelles até perto 
das tranqueiras do Pvajú 5 aonde elles -tor- 
naram a voltar fobre os noííbs com outros 
que recrefcêram , e fe travou entre todos 
huma batalha muito arrifcada , a que acu- 
dio o Capitão fora a cavallo , e alguns Ca- 
pitães com fuás companhias , mandando to- 
car a recolher, o que os noíTos fizeram com 
muita ordem , deixando o campo femeado 
de corpos mortos , trazendo pêra final da 
viítoria algumas cabeças , fem da noífa 
parte haver mais damno que dous Lafcarins 
pouco feridos ; e no mefmo dia mandou 
o Capitão os Araches Manoel Pereira , e 
Pedro Affoníb, e o Amouco , e Luiz Go- 
mes o Mulato , e hum filho da índia cha- 
mado o Mourinho com a gente da fua roí- 
da pêra desfazerem a tranqueira, que o Ra- 
ju tinha fabricada vinte paílbs do baluarte" 
S. Sebaítiao , porque não era bem confen- 
tir-lhe vizinhança de tão perto , porque 
tratava elle de paliar adiante com outra 
até fe abarbar com o baluarte , e mandou 
ellar prelles no campo alguns Capitães com 
fua gente pêra lhe acudirem. Sahidos os 

Ara- 



£63 A S I Â de Diogo de Couto 

Araches, levando alguns barris de alcatrão , 
€ muita pólvora pêra lhe lançarem, primei- 
ro que chegaílem , foram viílos pela parte 
da Ilha ; e dando final com fuás coquia- 
das , e gritos, foi correndo de tranqueira 
em tranqueira ; mas os nofíbs como era a 
diftancia de fó vinte paflbs , onde a tran- 
queira eílava , chegando a ella com gran- 
de determinação , lhe puzeram pela parte 
de fora encoítados aos páos os barris de 
alcatrão , e muita pólvora , a que deram 
fogo da parte do balravento , o qual fe 
ateou com tanta fúria, e braveza, que lo- 
go começou a arder por todas as partes , 
e aíllm fe apoíTou delia , que não foi poíTi- 
vel poderem-no apagar os de dentro quefa- 
híram ao campo , e travaram com os nof- 
íbs huma grande briga; e por recrefcerem 
os inimigos , fe recolheram , deixando mais 
de trinta delles mortos , e fem perderem 
nenhum \ mas quiz a fortuna que eftando 
vendo a briga Fernão de Lima em íima do 
cavalleiro do baluarte S. Sebaftião , que 
vieíTe huma efpingardada perdida , que o 
tomou pelas queixadas , de que logo cahio 
morto , tendo elle efcapado tantas vezes 
de perigos muito grandes em muitas fahidas 
em que fe achou, aífim no mar, como na 
terra , neíla , e em outras guerras ; e agora 
detrás dos muros ? e em fima do mais alto 

ba« 



Década X. Cap. V. 5-69 

baluarte de todos, o foi pefcar o pelouro, 
não vindo ferido nenhum dos que fe acha- 
ram no campo ás mãos com os inimigos ; 
iíto são juizos de Deos , a quem fe não po- 
de pedir razão deitas coufas. Foi fua mor- 
te muito fentida, porque era mui bom ca- 
valleiro , e não deixou de metter efpanto 
o modo delia. 

A tranqueira a que puzeram o fogo ar- 
deo quatro dias, por fer de madeiramento 
groíTo ; e deites , e de outros aífaltos hou- 
ve muitos , e mui continuos , em que os 
noífos fempre levaram o melhor, pelos quaes 
paífamos por ferem muito miúdos; e aíTim 
deixaremos por hum pouco eítas coufas , por-» 
que he neceífario continuarmos com outras. 

CAPITULO VI. 

De como o Tifo-Rey mandou Bernardim âe 
Carvalho a Ceilão : e da Armada que ef 
te anno de 1587. partio do Reyno : e do 
contrato que EIRey fez das nãos da car- 
reira : e do ejlanco que fez do anil : e da t 
altercação que na Cidade de Goa houve 
fobre ijfo^ e outras coufas. 

DEpois de Belchior Nogueira dar em 
Cochim o recado do cerco de Colum- 
bo, parxio pêra G03, e deo ao Vifo-Rey : 

as ' 



57o ÁSIA de Diogo de Couto 

as cartas de João Corrêa de Brito , rtas 
quaes lhe relatava o cerco , e lhe dava con- 
ta do eílado em que aquellas coufas fica- 
vam. O Viíò-Rey vendo aquella neceflida- 
de , foi-fe logo pôr na ribeira , e mandou 
lançar ao mar huma Galé , e féis navios , 
e pagou gente, e mandou embarcar muni- 
ções, eelegeo pêra efta jornada Bernardim 
de Carvalho , e aos quatro dias de Setem- 
bro deo á vela : os Capitães que o acompa^ 
nháram , foram D. Bernardo Coutinho , D. 
Luiz Mafcarenhas , Gafpar de Carvalho de 
Menezes , Vafco de Carvalho , Affonfo 
Ferreira da Silva, e o mefmo Belchior No- 
gueira. Levavam neftes navios 25*0 homens; 
e fem fe embaraçar em couía alguma , fo- 
ram feguindo feu caminho , a que logo tor- 
naremos. 

O Vifo-Rey foi dando muita preíTa ao 
Galeão, que havia de levar os provimentos 
pêra Ceilão , e ajuntando mantimentos , 
munições , e dinheiro pêra lhe mandar, e 
logo a 12. de Setembro furgíram na barra 
de Goa quatro náos de finco que partiram 
do Reyno em Março paílado , das quaes 
era Capitão Mór Francifco de Mello , ir- 
mão de Manoel de Mello , Monteiro Mór 
de EIRey , que vinha íia náo Santo Antó- 
nio; as mais eram Santo Alberto, Capitão 
António de Barros , de S. Francifco Gafpar 

de 



Dkcada X. Cap. VL 57* 

de Araújo , da náo Nazareth Heitor Velho 
Barreto , e a náo Santa Maria , de que erá 
Capitão Álvaro de Paiva , que arribou ao 
Reyno. Nefta Armada vieram muitos Fidal- 
gos , aííim defpachados , como a requerer; 
e dos que nos lembra são os feguintes : Pe- 
dro de Anhaia defpachado com a Capita- 
nia de Dio pêra entrar logo ; D. Fernan^ 
do de Menezes, filho de D. Simão de Me- 
nezes, que trazia a Capitania de Cananor, 
em quanto não entraíTe em hum a viagem 
de Japão , que também trazia D. Luiz da 
Gama, filho do Conde da Vidigueira ; D. 
Vafco da Gama, D. Fernando Lobo, filho 
de D. Rodrigo das Sarzedas , e outros ; e 
porque fe tinha acabado o contrato das náos 
que EIRey tinha feito com Manoel Caldei- 
ra o anno de 583 , o contratou efte anno a 
Jacome Gomes , Jeronymo Duarte , Manoel 
Martins, Franciíco Rodrigues d 5 Elvas, e 
outros , que foram os mefmos a que o an- 
no paíTado fe contratou a Cafa da índia de 
Lisboa, como atrás temos dito : efte contra-* 
to das náos fe fez por tempo de finco 
annos com as condições feguintes : 

» Que os Contratadores armariam to- 
» dos os annos féis náos , finco pêra a In- 
'» dia, e huma pêra Malaca. 

» Que poriam todos os annos mil ho* 
» mèns de armas á fua eufta. 

» Que 



572 AS IA de Diogo de Coura 

)> Que em lugar dos oitenta mil cruza* 
3> dos , que EIRey dava cada anno a Ma- 
» noel Caldeira pêra ajuda da fabrica das 
» mefmas náos , lhes concedia o eítanque 
y> do anil , pêra que nenhuma peííoa o pu- 
» deíTe levar pêra o Reyno, nem mandar 
» fazer a Cambaia , fenão os Contratado- 
» res. » 

Chegadas eftas náos, e declarado eíle 
contrato , houve logo alteração nos mora- 
dores de Goa pelo proveito que EIRey 
niífo lhes tirava pelo dar aos moradores de 
Portugal, que engroílavam com os provei- 
tos delia , fem eftarem offerecidos , como 
os moradores da índia, aos groílbs íbccor- 
tos , e empreftimos com que fempre loc- 
corrêram as Fortalezas cercadas , porque 
pela induftria deites homens lhe tinham já 
todos os portos tomados , e entupidos com 
groílbs cabedaes , fem ficar aos cafados da , 
Índia nenhum buraco, nem poftigo aberto 
por onde fe pudeífem fervir, nem remediar 
com ofeu pouco. Declarado o contrato da 
anil , como hiamos dizendo , começou a 
liaver entre os cafados de Goa grande 
união , e alteração contra os Contratadores j 
porque como tinham recolhido em fuás ca- 
fas muito anil , e viram que ninguém lho 
podia comprar, fenão os Contratadores por 
virtude do feu contrato, que lhe poderiam 

pôr 



Década X. Cap. VI. 573 

pôr os preços que elles quizeíTein , e que 
além diíTo lhes vinham tirar aquelle boca- 
do da boca, foi tamanha fua paixão, que 
eftiveram arriícados a huma grande defaven- 
tura , fe o Vilb-Rey D. Duarte não a ata- 
lhara com fua prudência , faber , e chriftan- 
dade , o qual tanto que foi avifado deite 
negocio , metteo a mão nelle por meio de 
Religiofos , e peflbas graves , mandando 
dizer aos cafados que os refpondentes lhes 
comprariam os feus anis por preços tão ho- 
neílos que ficaíTem elles fatisfeitos 3 e que 
pêra o mais , dle efcreveria a EIRey fo- 
bre aquelles negócios , e lhe fignificaria a 
grande perda que aífim fua fazenda, como 
feus povos recebiam com o eílanco do anil ; 
e tanto trabalhou niílo , e tantas fatisfacoes 
deo aos moradores que os quietou , e man- 
dou aos Contratadores que no preço do anil 
fe compuzeíTem com algumas peílbas que 
pêra iífo elegeo , o que tudo fe fez a golto 
do Vifo-Rey fobre aquella matéria , lem- 
brando-lhe os merecimentos , e ferviços dos 
vaílallos que na índia tinha , os quaes em 
todas as neceíhdades delia eram os primei- 
ros com fuás peífoas , com feu dinheiro, 
e com tudo ornais que delles queriam, co- 
mo havia pouco o fizeram na jornada de 
Jor , que fem iífo fe não pudera emprender , 
cíando-lhe fobre eítas coufas muitas, eboaa 

ra- 



574 ÁSIA de Diogo de Couto 

razões , como muito zelofo do bem com- 
mmn , ao que EIRey refpondeo , que fatif- 
faria aos moradores da índia ; mas todavia 
o eítanque do anil durou os finco annos 
do contrato ; porque quem deo o alvitre , 
parece que o acreditou. Muitas coulas man- 
dou EIRey prover nefta Armada acerca 
de juftiça ; e porque lhe diíleram haver al- 
guma defordem nella , efcreveo ao Viíb- 
Rey que elle em peífoa devaífaífe de to- 
dos os Capitães das Fortalezas 5 e dos Def- 
cmbargadores da Relação pelas muitas quei- 
xas que lhe efcrevêram de huns , e de ou- 
tros, Efta devafla tirou o Vifo-Rey em tan- 
to fegredo , que foi elle o Inqueredor del- 
ia , e o Defembargador Ruy , fobrinho de 
Mefquita , Inquiíidor Apoílolico na índia ? 
o Efcrivao 5 e foi mandada ao Reyno nas 
mefmas náos 5 na qual havia culpas bem 
grandes; mas nós não vimos ocaftigo dei- 
las , nem mais emendas em muitas defor- 
dens ; e porque também foi informado da 
groífidao das Minas de Sofala , e Cuama, 
e de como os Capitães fe logravam delias 
tn folidum , fem correr nenhum refgate por 
conta de fua fazenda , e que ainda faria 
defpezas das ordinárias de Moçambique, e 
Sofala , que montavam mais de vinte mil 
cruzados; eftando aquelles Capitães de pof- 
£e das minas havia muitos annos, elogran* 

do- 



Década X. Cap. VI. 57? 

do-fe das riquezas delias , não tendo por regi- 
mento mais que dez bares de fazenda cada 
monção , e os Feitores , e Alcaides mores 
quatro ? Efcrivão da Feitoria dous 5 e aílim 
todos os mais officiaes fegundo fe lhes al- 
vidrou pelo Regimento que fez Vicente Pe- 
gado , fendo Capitão de Moçambique ? o 
qual EIRey manda que fe guarde , o que 
íe fazia tão mal 3 que não entravam naquel- 
las minas por fua conta mais que aquillo 
que moderadamente bailava pêra as ordiná- 
rias , e que ainda efte cabedal fahio do ren- 
dimento da Índia , que tinha outras necef- 
íidades muito urgentes ; e que fe vieram 
a- trocar tanto eftas bolas , que ficava EIRey" 
quaíi com os dez bares de fazenda , que 
eítavam limitados aos Capitães, e elles met- 
tendo tão groílos cabedaes , que tiravam da- 
quellas Fortalezas duzentos mil pardaos : 
no que havia tantas defordens 5 que ainda 
eífe pouco fe mandava por conta de EIRey 
pêra as defpezas daquellas Fortalezas , man- 
dou com os Capitães por feus Feitores fe- 
char nas minas até fe refgatar fua fazenda; 
e que chegaram ainda alguns Capitães- por 
feus Feitores fechar nas minas até fe ref- 
gatar fua fazenda ; e que chegaram ainda 
alguns Capitães a trocarem fua fazenda com 
a do Rey 5 fe era melhor ; e tinha chegado 
a deshumanidade a tanto, que não çonfen- 

tiam 



57^ ÁSIA de Diogo de Couto 

tiam ao Feitor , e Alcaide Mór metter náf 
minas mais cabedal do que tinham por Re- 
gimento , íbbre o que faziam tantos exa- 
mes , que fe lhes achavam mais hum pan- 
210 , lho tomavam por perdido pêra íi , cou-* 
ia que nos confundio , quando a vimos * 
mais que todas as da índia; porque tendo 
os Capitães dez bares da fazenda pelo Re- 
gimento , como dizemos , mettiam 400, 500* 
600. e os Feitores que andaíTem atados ao 
Regimento que não metteflem nas minas mais 
hum fó panno ; e tendo nós fobre ifto hu- 
ma pratica com hum Capitão , eftranhando- 
lhe eíta deshumanidade , nos refpondeo , 
que na fua porçolana de mel ninguém ha- 
via de molhar copa fenão elle, não haven- 
do regimento , lei, nem razão pêra a poi- 
çolana fer mais fua que de outro, e a que 
dam os Capitães de todas as mais Forta- 
lezas da índia das muitas , e grandes des- 
ordens , e tyrannias que usão com os vaf- 
fallos de EIRey : e inda mal , porque del- 
ias vemos tão depreíTa o pago pela mão 
de Deos , já que tarda a do Rey , como 
o vimos nefte , com que tivemos . eftas pra- 
ticas, que o vimos morrer tão pobre, que 
lhe faltou lençol pêra o mortalharem , vin- 
do da fua Fortaleza muito rico. Deixando 
iílo , e tornando a continuar com a noífa 
prdem, fabendo EIRey as grandes defpezas 

que 



Década X. Caí. VI# 577 

tjile fazia com aquellas Fortalezas , fem te* 
algum proveito de fuás minas por conta 
de fua fazenda, e que os Capitães não ti- 
veíTem mais que o que lhes dava o Regi- 
mento ; e todavia porque tinha muito reí- 
peito aos merecimentos do Alferes Mór a 
que eitava por Capitão naquella Fortaleza v 
Iheefcreveo huma carta, naqnal lhe dizia a 
que toda a mudança que o Vifo-Rey D* 
Duarte fizeíTe naquellas Fortalezas, em que 
clle eílava por Capitão , a houveífe por 
bem , porque cumpria aílim a feu ferviço. 
Iílo mandou EIRey fazer ; porque vendo os 
outros Capitães providos que em tempo 
do Alferes Mor tornava a refervar as mi- 
nas pêra íi , não tiveíTem por matéria de ag- 
gravo j quando fobre aquelle negocio reque- 
reíTe não fé lhe reíponder , porque anda- 
vam outros defpachados com aquella For- 
taleza , requerendo já que lhes deixaífetn 
fervir como os paliados , fobre o que não 
foram ouvidos. O Vifo-Rey D. Duarte ven- 
do o que EIRey lhe mandava fobre aquel- 
la matéria, a poz em confelho com os of- 
-ficiaes da Fazenda; e debatido o negocio , 
apontáram-íe inconvenientes pêra por en- 
tão fe não bolir nas minas , e os princi- 
paes foram , o pouco cabedal que EIRey 
por então tinha, e as neceffidades em que 
o Eftado eílava por caufa dos cercos de 
Couto. Tm. VL ?. li. Go Cci* 



57<* ÁSIA de DroGO de Couto 

Ceilão , e Malaca , perá cujos foccorros 
citava tão empenhado 3 que andava o Vifo- 
Rey pedindo dinheiro aos povos da índia , 
e outras coufas que deixamos pêra feu tem- 
po ; e o Alferes Mor refpondeo a EiRey 
iòbreaquella matéria, que fe havia por mui- 
to ditoíò mandar em feu tempo bolir com 
as coufas daquellas Fortalezas , e que cor- 
reífem os refgates por conta de fua fa- 
zenda , pêra o que eftava muito preftes, 
porque o tinha por Rey tão Catholico , e 
de tanta juítiça, que lha não negaria quan- 
do lha requereíle ; e aflim ficaram por en- 
tão aquellas coufas fem bolir nellas , por- 
que teve o Vifo-Rey refpeito ao Alferes 
Mor, que era hum Fidalgo de merecimen- 
tos , e que eftava no meio do tempo de 
fua ferventia ; e porque cada dia chegavam 
recados apreílados do cerco de Columbo, 
querendo o Vifo-Rey tomar reíoluçao na- 
quellas coufas, ajuntou os Capitães a con- 
felho , e lhes leo as cartas , e propoz as 
neceffidades , e apertos em que aquella For- 
taleza eftava, eque fe trataífe fobre o mo- 
do de como fe defcercaria ; e votando fo- 
bre iífo , depois de muitas altercações de 
parte a parte , vieram a refumir-fe que o 
Eftado não tinha pêra acudir áquelle nego- 
cio mor cabedal que D. Paulo tinha em 
JMalaca, de que não havia novas : que fe 

tra- 



Deôada %. Ca?. VL Çfà 

trata fle de fe defender a Fortaleza , por* 
que pêra lua íegurança bailava agente que 
tinha , porque com a chegada de Bernar- 
dim de Carvalho haviam de ficar paliados 
de mil Portuguezes : que fe elegeífe hum 
Capitão com o poder que oEítado poren? 
tão pudeífe dar de íi , e que foífe a Co- 
lumbo , e que o Vifo-Rey efcreveífe a D. 
Paulo que com toda a fua Armada foíle to- 
mar aquella Fortaleza 5 e que junto o feu 
poder com o que foífe, e com o que já lá 
eftava , bailava pêra darem batalha ao ini- 
migo , e lançallo dalli , como já no cerco . 
paliado de Manoel deSoufa fizeram* Com 
eíla refoluçao efcreveo o Vifo-Rey a D. Pau- 
lo que fe apreflafle o mais que pudeífe 
por chegar a Columbo, e que alli acharia 
regimento do que havia de fazer , e de£ 
pachou as náos pêra Malaca , aonde man* 
dou prover em muitas coufas# 



Oo íí CA* 



580 ÁSIA de Díogo de Couto 

CAPITULO VIL 

De como Bernardim de Carvalho chegott 
a Columbo : e das coufas que mais acon- 
teceram no mefmo tempo : e das mi- 
nas que o Rajtí mandou fazer , que 
foram fentidas y e os nofjos lhas desfize- 
ram. 

PArtido de Goa Bernardim de Carvalho 
com a fua Armada toda junta , achan- 
do bons tempos , poílo que rijos , tanta 
preíTa fe deo , que em onze dias chegou a 
Columbo , que foi aos onze dias defte mez 
cm que andamos de Setembro. A viíla def- 
ta Armada foi pêra o inimigo mui efpan- 
tofa , mas pêra os noflbs de muita alegria , 
c alvoroço , acudindo á praia a feftejarem 
os novos hofpedes , que defembarcáram 
logo armados de muito boas armas. O Ca- 
pitão João Corrêa os levou a agazalhar, 
aííim como vinham , em huma eítancia' per- 
to do baluarte Madre de Deos pêra daíli 
por ordem do feu Capitão Mor acudirem 
a todas as coufas mais neceífarias. Com 
efte foccorro ficaram os da Fortaleza mais 
defalivados 5 e os inimigos mais receofos, 
porque bem fabiam que não foífriam os 
peitos Portuguezes eftarem encurralados , e 
que haviam de arrebentar em feu damno. 

Nef* 






Década X. Cap. VIL y8i 

Neíle mefmo tempo foi avifado o Ca- 
pitão que o Rajú vinha correndo com a 
mina daquella parte que diíTemos , que veio 
a fahir em íima da terra , por caufa dos 
tanques de agua , direita ao baluarte S, Se- 
baíliao pêra vir arrebentar debaixo delle, 
a qual já vinha muito perto , ao que foi 
neceíTario acudir, e mandou metter humas 
eftacas pela cava na parte em que a mina 
havia de vir arrebentar até chegarem áagua 
que alli eílava perto , pêra que tanto que 
a mina chegaíTe a ellas foíTem fentidas del- 
les , pêra pela mefma cava lhe furtarem o, 
entulho, e a terra que por íima trazia, que 
lhes fervia de vallos , com que fe entran- 
queiravam ; e aífím como corriam com a 
mina adiante, corriam com os vallos, que 
eram grandes ; mas como o Capitão não fa- 
bia a altura em que vinha a mina , mandou 
António .. . e António Dias, Capitães da 
fua roída, que com a fua gente fe metteífem 
na cava com os officiaes , e foliem defcu- 
brindo abaixo as minas , abrindo a terra , 
e aos Araches Pedro Aftbnfo , e Manoel 
Pereira mandou foííem queimar hum peda- 
ço de baluarte , do que lhe tinham quei- 
mado, que o Raju tornava a reforçar, os 
quaes com feus Lafcarins o foram com met- 
ter com muita determinação , e lhe puze- 
rcun o fogo , e fizeram affugentar os que 

nel- 



582 ÀS IA de Diogo de Couto 

jielle eftavam, com o que tiveram os noí- 
íòs, que eftavam na cava , tempo peradef- 
cubrirem a mina, que já entrava por debai- 
xo da cava, e vinha de meio a meio fahir 
ao baluarte; e acharam que a altura delia 
por dentro era hum grande homem , e a lar- 
gura de braça e meia , folhada por fim a de 
grofla madeira , e pelas ilhargas de largo 
taboado 5 pêra ter a mina que não arrumaf- 
fe pêra dentro , porque não perténdia o 
Rajú mais que levar os feus cncubertos da 
noíTa artilheria até chegarem ao baluarte, 
ou ao muro, e picarem-no, fem lho pode- 
rem defender , nem faberem o que deter- 
minavam , e a terra que tiravam lançavam 
por íima , que lhes ficava fervinda ( como 
diAemos) de vallos , a cujo amparo fe vi- 
nham chegando pêra o baluarte com outras 
maquinas , e baluartes de madeira , que 
hiam fabricando , aífim como a obra hia 
crefcendo. Os nofTos , que eftavam já na 
mina , vendo os inimigos que vinham ao 
trabalho , contra o regimento que levavam 
fe lhes defcubríram , e tiveram dentro hu- 
ma arrazoada briga , na qual mataram al- 
guns inimigos ; e por recrefcerem , fe fa- 
Jiíram , ficando morto hum bom foldado 
líoífo j chamado André de Queirós , ao 
qual os inimigos cortaram a cabeça , e a 
Içváram ao Rajú;, que foi o primeiro pre» 



Década X. Cai». VIL 5-83 

fente que daquelle Forte lhe fizeram , de- 
pois do cerco começado até então, O ini- 
migo já chegava á cava com a mina , e 
ficou fendo fenhor delia , com o que o Ca- 
pitão fetemeo muito que lhe picaííem por 
baixo o baluarte, ou lhe deílem fogo , o 
que quiz atalhar , ainda que fe arrifcafíe 
muito; pelo que lançou agente de fu a roí- 
da na cava pêra commetterem a mina 
com muitas lanças de fogo , e panellas de 
pólvora , e trabalhadores pêra a desfaze- 
rem , e mandou fahir ao campo hum cor- 
po de gente, e os Araches com os Lafca- 
rins favorecidos dos noííbs , pêra que fof- 
fem commetter a tranqueira por onde a 
mina fe começou a abrir , ficando todos 
poftos em armas pêra lhe foccorrerem , 
tendo diíío neceííidade. Os que haviam de 
commetter a mina pela banda da cava hu- 
ma hora antes de pôr o Sol, a foram en- 
trando com lanças de fogo, com que fize- 
ram caminho, lançando aos inimigos mui- 
tas panellas de pólvora , que os abrazá- 
ram , e affim tiveram huma fermofa briga 
dentro que durou muito ; os que foram 
commetter pela outra parte , deram de fu- 
pito nos inimigos , e mataram alguns , e 
com iílo tiveram os outros tempo de lan- 
çarem na boca da mina algumas panellas 
de pólvora, com que os inimigos que pe- 
lei- 



$$4 A S I A de Diogo de Cóítto 

leijavam de eftoutra parte da cava com os 
boíTos , cuidando ferem entrados pela ou- 
tra banda , viraram pêra fe recolherem , c 
os noííos apôs elles matando-os á fua von- 
tade ; e foi a mortandade tanta, que ficou 
a mina cheia de feus corpos , e com iílo 
tiveram os obreiros tempo pêra defman- 
charem a mina , e recolherem a madeira 
delia. Nefte tempo andava por todo o 
campo travada de ambas as partes huma 
perigofa briga de arcabuzaria > coufa me^ 
donha, e efpantofa, porque carregou quaíi 
todo o poder do inimigo , e os baluartes 
fizeram feu officio , difparando aquella tro- 
voada , que fez nos inimigos huma grande 
deftruiçao ; e lendo já huma hora de noi- 
te, fe recolheram os noífos , deixando fei- 
to hum bravo eítrago. 

Recolhidos os noflbs , avifáram ao Ca- 
pitão que naquella parte onde acharam os 
tanques de agua , fe dividia a mina em duas ? 
e que a outra tirava caminho das eftancias 
de António de Aguiar , e guarita de Ma- 
noel Borges ; e informado diílo , querendo 
atalhar a tudo , mandou fazer huma cava 
de dezefete palmos defde o baluarte S. Se- 
baftiao até á guarita 4e Manoel Borges 
pela banda de dentro , e huma tranqueira 
com pipas entulhadas , porque fe o inimi-? 
go lhe rompeíTe a outra , ou picaífe o ha-* 

luar* 



Década X, Cap. VII. v $%$ 

luarte , achafle outra cava pêra os elefan- 
tes empecerem. Andando nefta obra , fugio 
pêra a Fortaleza hum Lafcarim feu , que 
deo por novas que na briga das minas lhe 
mataram muita gente, aííim dentro nellas, 
como no arraial , e os mais de efpingar- 
dadas pela cabeça ; e que o Rajú determi- 
nava de commetter com todo o reíto y e 
dar dous combates á Fortaleza , e metter 
gcntQ na Cidade pelas minas, eque já por 
debaixo de S. Sebaíliao fe vinha chegando. 
Com efta certeza mandou o Capitão logo 
tirar-lhe a artilheria, e defentulhailo, e fa- 
£er-lhe algumas efcutas pêra fe faber por 
onde vinha a mina , o que fç fez com mui 
grande trabalho , na qual ie acharam to- 
dos os Capitães, e Fidalgos, e mais gen- 
te da Fortaleza , e todos os Religiofos. A 
efte tempo eftavam já os inimigos tão fe- 
nhores da noíTa cava ,' que dos feus altos 
nas canteiras , andaimos , e cavalleiros da 
noíTa parte , tanto que hum homem appa- 
recia , logo era pefcado com muita arca- 
buzaria que tinha , como fizeram a hum 
Fidalgo chamado D. Domingos , filho na- 
tural de D. Martinho de Caílello-Branco , 
que foi Capitão de Ormuz , e feriram ou- 
tros. O Capitão ficou tendo mui grande 
vigia nas efcutas por caufa das minas , e 
negociando-fe pêra os combates ^ que o 

Ra- 



?86 ÁSIA de Diogo de Couto 

Rajú pertendia dar. Nefte mefmo tempor 
chegaram humas efpias noífas , que havia 
vinte e quatro dias que eram idos a ef- 
piar, e citava a ver fe podiam trazer hum 
rortuguez , que lá eftava cativo , o qual 
trouxeram ; e por fer caio de muito ardil , 
e invenção , e que o Rajú fentio muito, 
daremos delle razão. 

Havia alguns annos que na coftá de 
Ceilão fe tinha perdido huma champana 
de hum Diogo Gonfalves , homem Portu- 
guez , o qual levava com r tgo hum íbbrinho 
menino , chamado Cuftodio da Ronda , que 
logo foram cativos , e levados ao Rajú ; e 
ao Cuftodio da Ronda , que era moço , 
mandou o Rajú furar as orelhas , e a eníi- 
nar os coftumes dos Chingalas 5 e o trazia 
em fua cafa em feu ferviço ; e vindo o mo- 
ço acrefcer, eafer mi mofo do Rajú 5 hou- 
ve delle mercê que VefgataíTe o tio , como 
fez contra fua religião , e leis , o qual fe 
veio pêra Columbo , onde em todos os 
cercos paííados fervio EIRey muito bem , 
fazendo grandes damnos ao Rajú. E porque 
nefte cerco tinha feito muitas coufas de ho- 
mem esforçado em damno dos feus , por 
fe vingarem delle , mandou levar o fobri- 
nho Cuftodio da Ronda pêra o pico à y A- 
dão , e que lhe enfinaííem o ofhcio de la- 
vrador, porque em nenhum tempo pudef- 

fe 



Década X. Cap. VII. 5*87 

fe dalli fahir , nem o tio ter efperanças de 
o ver. Deite moço deo razão hum Miguel 
Ferreira Baracho , que no principio do cer- 
co tinha fugido pêra nós , com as quaes 
novas o tio trabalhou por ver fe havia mo- 
do pêra o tirar dalli ; e faltando com hu- 
mas efpias , homens de muito recado , e que 
fabiam muito bem a terra , íbbre efte ne- 
gocio , fazendo-lhes luas promeífas , favore- 
cendo o Capitão niífo muito , deo-lhes ar- 
dis de que haviam de ufar, que eram hu- 
ma carta falia em nome do Rajú , a qual 
mandava aos homens a que o Ronda fora 
entregue, que tanto que aquella viífem , o 
deíTem logo á peífoa que aquella lhe apre- 
fentaffe, tomando-lhe o eftilo, e coítumes 
dos feus mandados , o que pode muito bem 
fazer , porque, efte tyranno era tão falfo , 
einjuftiçofo , que nunca paliava Alvará fel- 
lado com fello algum feu , pêra depois ter 
razão de não cumprir algum, quando qui- 
zeííe; e cometo carta lhe deo Diogo Gon- 
falves hum aflinado feu de fua letra, e pa- 
pel noíío pêra moftrarem ao fobrinho , pê- 
ra quefoubeííe irem por feu mandado. Par- 
tidos eftes homens, chegaram aCeitavaca, 
aonde acharam por novas que o Rajú man- 
dava matar dezefete Portugnezes que tíníia 
cativos , e de que fe mais fiava , que dos 
mefmos Chingalas $ porque a fugida de Mi- 
guel 



583 ÁSIA de Diotío de Couto 

guel Ferreira Baracho pêra Columbo , co- 
mo diflemos , de que fe elle fiava íbbre to- 
dos 9 o efcandalizou de maneira que fequiz 
vingar delia em quantos Portuguezes tinha 
cativos, mandando-os matar a todos ás pan- 
cadas , que he o género de morte pêra el- 
les mais affrontofa que todos , que fe não 
dá fenão a trcdores ; e fabendo eítar o mo- 
ço no pico d 5 Adão, foram-fe lá, e deram 
a carta do Rajú aos que delle tinham cui- 
dado , os quaes vendo nella como logo man- 
dava entregar aquelle homem , o cumpri- 
ram , dando-ihes com elle feífenta Lafcarins 
de armas pêra o acompanharem \ e vindo 
caminhando , fendo já perto de Ceitavaca , 
fingiram os efpias que tinham que fallar 
com o Ronda em íegredo , dizendo aos 
Lafcarins que fe affaftaíTem , requerendo-lhe 
da parte do Rajú, porque tinham huma di- 
ligencia que fazer com aquelle homem , a 
qual o Raju mandava fazer antes de en- 
trar em Ceitavaca. Os Lafcarins cuidando 
que feria mandallo matar , como fizeram 
havia poucos dias aos Portuguezes y de que 
já elles fabiam , aíFaftaram-fe , e os efpias 
fe mettêram com o Ronda peio mato , cui- 
dando elle (que até então não fabia nada, 
nem elles fe lhe tinham defcuberto ) que 
era pêra o matarem , ficou trafpaílado. Os 
efpias lhe deram conta de tudo > moftran- 

do- 



Década X. Cap. VIL $ty 

xío-lhe o affignado do tio , dizendo-lhc, 
que fe encommendaííe ao Grande Deos 
dos Chriftãos , que podia quanto queria , 
pêra que os favoreceííe naquelle negocio ? 
e os livrafle a todos das mãos do Rajú; 
e mettendo-fe pelo mato , que elles muito 
bem fabiam , tomaram hum caminho mui 
pouco trilhado pêra Columbo , dando-fe 
nelle muita preífa , embrenhando-fe de dia «, 
e caminhando de noite , paliando por três 
tranqueiras , que tantas ha de Ceitavaca a 
Columbo , com mui grande rifco, e peri- 
go ; e por invenção 9 e ordem das efpias 
no cabo de doze dias ao quarto da mador- 
ra chegaram a Columbo, e atraveííando o 
exercito do Rajú , fe foram á porta da Ci- 
dade ; e dando recado aos guardas , foram 
pela manha recolhidos , e levados ao Ca- 
pitão com grande alvoroço do tio, e con« 
curfo da gente , que acudio a vellos. O 
moço Ronda vendo-fe naquelle lugar , ef- 
tava como pafmado , porque os rifcos que 
paíFou , o traziam aiíombrado , e vinha 
quaíí alienado. O tio fallou com elle , e o 
fegurou de feição , que tornou em íi ; e 
como homem que defpertava de algum 
fonho trabaihofo , vendo-fe em parte fe- 
gura , dava muitas graças a Deos , e delle 
foube o Capitão algumas coufas ; mas não 
que revelaífe muito ; porque eítava fora do 

Ra- 



^9° A S I A de Diogo de Couto 

Rajú havia muito. E tornando a continuai* 
com o cerco , vendo o Rajú que fe lhe 
desfizera aquelia mina , mandou continuar 
com outras duas bocas , que hiam ferir an- 
tre as eftancias de António de Aguiar , e 
a guarita de Manoel Borges , de que o Ca- 
pitão também foi avifado , fem faber a que 
parte viriam arrebentar , de que na Cida- 
de andava hum geral medo, etao público, 
que mais trabalho tinham o Capitão , e 
Fidalgos a que elle não chegava em o 
quererem tirar, que em defender a Forta- 
leza ao Rajú , moftrando-fe muito alegres , 
e leves nefte negocio ; porque os mais ven- 
do o pouco cafo que elles faziam, houve- 
fe que não era tanto o perigo , quanto ti- 
nham concebido pela fama que andava ef- 
palhada pela Cidade. O Capitão poz to- 
do o feu cuidado , e metteo todas as fuás 
intelligencias pêra faber onde aquellas mi- 
nas haviam de refponder , pêra ver fe po- 
dia remediar o damno que fe delias arre- 
ceava ; mas não pode alcançar nada por 
totalmente coarem todos apertados por to- 
das as partes , que não digo fahirem fora 
das portas , mas nem podiam apontar as 
feteiras que não foífem logo peícados da 
arcabuzaria inimiga , coufa que os tinha 
pofto em grandes cuidados. Thomé de 
Soufa de Arronches , fobre que em todo 

Q 



Década X. Cap. VIL 5*91 

t> decurfo do tempo carregaram , como 
diíTemos , iguaes obrigações , como Capi- 
tão Mor da Armada de lua obrigação , não 
fe deícuidou nada , trabalhando, vigiando r 
aconfelhando , dando ordem a muitas cou- 
fas mui importantes , correndo as eílancias y 
e muros com muito cuidado ; e andando 
hum dia de longo do muro , que vai da 
guarita de Manoel Borges pêra o baluarte 
S. Sebaftião , que era de taipa } parte que 
mais fe receava , chegando-fe a hum lu- 
gar , em que enxergou hum agulheiro , vio 
hum buraco dos que ficam dos páos da 
taipa , que parece que Deos o defcubrio 
pêra aquelle effeito ; e pondo os olhos nel- 
le , vio da outra banda que era face da 
cava , que o Capitão tinha mandado fazer 
vir, arrebentando a mina áquella parte de 
fora da terra pêra fahirem com ella á ca- 
va ; e aílegurando-fe , trouxe o Capitão 
mui diílimuladamente alli , e lha moftrou. 
Vendo elle aquillo , mandou chamar pe- 
dreiros , fem dizer opera que, e lhes man- 
dou abrir huma bombardeira por efqua-?- 
dria , que refpondeífe ao meio da boca da 
cava , a qual não varalTe de todo fora por 
fe não ver , deixando groílura pêra a outra 
banda , que em dando com a boca de hum 
camello , que alli queriam aííentar , fe 
abriíTe P lavrando-fe a pedra alli logo pê- 
ra 



59* A S I A de Díogo de Couto 

ra a bombardeira. O buraco aberto com 
muita preíTa , e poílo nella hum camello 
carregado com fua carga , e pelouro , e 
hum cartucho de pedras mui bem negocia- 
do , ao outro dia pela manha mandou o 
Capitão lançar fora alguns Araches com 
feus Lafcarins pêra pucharem os inimigos 
aos virem demandar, o que elles fizeram; 
e como viram os noíTos fora 5 cubríram-fe 
os campos , e enchêram-fe as minas. Tho- 
me de Soufa j que eílava cavalgado em li- 
ma do camello vigiando pelo buraco, man 1 - 
dou apontar a peça pelos bombardeiros ; 
e tanto que vio os inimigos baralhados , e 
fentio a cava cheia y fez que fe abocaífe o 
camello aííim como eílava ; e tomando-lhe 
a pontaria na boca da mina , lhe deram 
fogo ; e como era perto , tomou o cartucho y 
e pelouro de meio a meio , e foi fazendo 
de longo tamanhos terremotos , e deftrui- 
ções , até que cangou de todo , deixando 
as minas cheias de corpos mortos. Os ini- 
migos fe recolheram , e deram recado ao 
Rajú do damno que era feito. Aífim por 
nós não fabermos o muito que lhe fize- 
mos , nem os feus o grande damno que re- 
ceberam , por não efeorçoarem , mandou 
que fe desfizeííe a mina , e lançaífem fo- 
bre ella toda a terra que por íima traziam 
pêra os vallos por encubrir com iíTo a def- 

trui- 



Década X. Caí>. VIL 5*93 

truição ? e multidão de corpos , que dentrd 
ficaram , feftejando-fe da noíTa parte mui- 
to , e fentindo-o o inimigo em extremo , 
accrefcentando-lhe o feito o ódio > e de- 
fejos de tomar huma grande fatisfaçao delle* 

CAPITULO VIIL 

De alguns foccorros que mah partiram pé 
ra Ceilão : e de como Filippe de Garva~ 
lho foi de foc corro em huma náo de pro* 
cimentos: e de como Thomé de Sou j a de 
Arronches peleijou com a Armada do Ra« 
jú , e do que lhe fuccedeo. 

COm as novas que a Goa chegaram do 
aperto da Fortaleza de Columbo > de- 
pois de Bernardim de Carvalho fer partido, 
fe negociaram alguns aventureiros pêra irem 
de foccorro ; e o primeiro que partio foi 
António de Brito em huma Galeota com 
foldados amigos , que pêra iflb bufcou , e 
foi feguindo fua jornada > a que depois tor- 
naremos. O Vifo-Rey fez dar prefla a hu- 
ma náo que tinha fretada pêra levar os pro- 
vimentos áquella Fortaleza , na qual man- 
dou embarcar quatrocentos candís de ar-* 
roz, cem de trigo i finco mil e quinhentos? 
pardaos em dinheiro , muitas munições, 
pelouros , pólvora 3 panellas j lanças de fo- 
QoutQ* Tem. VL P. li. Pp go } 



5*94' ÁSIA de Diogo de Couto 

go , e todos os demais petrechos de guer- 
ra , e a Capitania deíla náo deo a Filippe 
de Carvalho de Vafconcellos , homem Fi- 
dalgo , que eftava provido daquellas Capi- 
tanias das viagens : e acceitou efta por ler 
do ferviço de EIRey ir de foccorro áquel- 
la Fortaleza; e oViíb-Rey lhe deo lincoen- 
ta foldados, e os fez á vela em fim de Se- 
tembro ; e em quanto elle não chega, tra-. 
taremos das coufas que nelte tempo fuece- 
dêram em Ceilão. 

Afrrontado o Rajú dos íucceíTos paíTa- 
dos , traçava todos os modos pêra fe ía- 
tisfazer, e empecer aos noífos, até querer 
ufar de peçonha, e feitiços pêra iíTo : pêra 
o que lançou alguns Chingalas grandes fei- 
ticeiros , como fugidiços , os quaes foram 
ter a Columbo , e fe reprefentáram muito 
efeandalizados , e medrofos do Rajú ; e em 
algumas perguntas que o Capitão lhes fez, 
aíiim fe embaraçaram , que houve por fuf- 
peitofos , e lhes mandou dar tratos , nos 
quaes confeífáram a verdade, e foram mor- 
tos , e juíliçados : e neftes tratos que lhes 
deram , aconteceo hum cafo que contare- 
mos , pêra que fe veja a força que o de- 
mónio tem pofto em palavras pêra enga- 
nar a eíles malditos ; e o negocio foi efte. 
Eftando os Miniftros dando tratos a hum 
delles allij nas perguntas diífe hum delles 

cer- 



Década X. Càp. VÍIL tyç 

certas palavras , as quaes deviam de £et 
pronunciadas pela boca do demónio , por- 
que nenhuma peflba as entendeo ; e em as 
dizendo , logo deimprovifo quatro daquel* 
les , que eítavam pegados , ficaram como 
alienados, e começaram a vomitar com ac* 
cidentes mortaes , o que lhes durou vinte 
e quatro horas; e paliadas ellas , tornaram 
a feu juizo. 

Difto foi também o Rajú avifado , o 
que fentio em extremo , porque houve que 
o Capitão -nao poderia efeapar ; e foram 
eítas coufas pêra elle maiores tormentos , 
e tratos do que os que deram aos feus : e 
com eíla ira fez ajuntar por feus portos 
todos os navios que havia , e os mandou 
armar , é negociar da melhor artilheria , e 
geiite que tinha , e prefez dezoito deefpo^ 
rao 5 quatro calemutes , dezoito tones gran- 
des , e encarregou eíla jornada aos Mo de- 
li ares que tinha de mor confiança, enconv* 
mendando-lhes foliem pèleijar com a Ar- 
mada da Fortaleza, e trabalhaíTem por kh 
mar a Galé, Eíla Armada appareceo á vif- 
ta da Fortaleza aos 4. dias do mez de Ou- 
tubro, dia do Seráfico Padre S. Francifco* 
e fahio pela banda do Matual repartida 
em três efquadras : na direita vinham féis 
navios , e quatro calemUtes ; da efquerda 
os dezouto tones , e o Capitão Mor comi 
Pp ii âg* 



$96 ÁSIA de Diogo de Couto 

doze navios os melhores , e mais apercebi* 
dos ; e tudo quanto neíta Armada íe via, 
era gente de que todos os navios hiani 
niaííiílbs, armas que de todas as partes re- 
luziam , inílrumentos que atroavam , muitas 
bandeiras que com o vento fe encrefpavam. 
O Capitão da Fortaleza, que já tinha avi- 
fo daquella frota , mandou Thomé de Sou- 
fa de Arronches , Capitão Mor do mar, 
que lhe fahiíTe com os navios de fua obri- 
gação, e com os da de Bernardim de Car- 
valho , e Nuno Alvares de Atouguia , que 
por todos feriam doze , em que entrava 
huma Galeota , de que era Capitão Fran- 
cifco da Silva, Alcaide Mor da Fortaleza. 
Neíles navios fe embarcaram todos os fol- 
dados de foccorro com grande defejo de 
fe encontrarem com os inimigos , e na 
Galé com Thomé de Soufa muitos amigos 
feus , e todos com muito boa ordem fahí- 
ram ao mar aos inimigos que os vieram 
demandar ; e chegando a tiro de berço, 
difparáram fua artilheria com tamanha fú- 
ria , e efpanto , que fe paífou hum muito 
bom efpaço , que da Fortaleza não viram 
a noíTa iVrmáda , por ficar efcondida entre 
a efpeííura do fumo; ecomohiam huns pê- 
ra os outros voga arrancada , logofe inveftí- 
ram , e o Alcaide Mor Francifco da Silva 
foi o primeiro que ferrou de hum navio 

gran- 



Década X. Ca?. VIII. 5*97 

grande , que jogava hum camelete pela 
proa , e outras peças miúdas , e tinha em 
íi feíTenta foldados eícolhidos 5 e três Ca- 
pitães, hum da poppa, outro da proa , ou- 
tro da coxia , ordem em que todos os mais 
vinham ; e ferrados hum , e outro , come- 
çou-fe entre todos huma crefpa briga de 
lançadas , e cutiladas , e muitas panellas de 
pólvora. Francifco da Silva trabalhou tan- 
to , que por força fe lançou com feus fol- 
dados na Galeota inimiga , e á efpada , e 
rodella averiguaram o negocio , não lhe fi- 
cando de todos mais que doze vivos , que 
penduraram pela verga , como bandeiras. 
AíFonfo Ferreira da Silva ferrou de outro 
navio ; e depois de defpender a primeira 
carga , lançou-fe logo dentro com os com- 
panheiros , que peleijáram tão esforçada- 
mente , que pairaram todos os inimigos 
pelos fios das efpadas ; os mais Capitães 
inveítíram os navios que puderam alcançar , 
com os quaes tiveram fuás refertas , por 
fim das quaes os inimigos deftroçactos , e 
perdidos , fe foram defaferrando. O Capi- 
tão Mor no meio da Armada com a Galé 
andou favorecendo os que peleijavam , e 
deílroçando porfua parte tudo o que podia 
alcançar : e aífim fe viram os inimigos 
acoílados , perfeguidos , e desbaratados , 
que foram fugindo por íima daqueilas ref- 

tin- 



598 ASIÀ de Diogo de Couto 

tingas com fabçrem que o Rajú não havia 
de perdoar aos que elcapaflem ; e antes 
quizeram arrifcar afua ira, que aos golpes 
dos noiTos , que deixaram de os feguir por 
não vararem nas reftingas , e o Capitão Mor 
com o receio delias furgio pêra recolher os 
feus navios , que foram apôs os dos inimi- 
gos até os fazerem varar. Perdêram-fe del- 
les quatro navios , dons tomados , e outros 
dous mettidos no fundo ; mortos houve 
mais de trezentos , e maior numero dos fe- 
ridos ; e cativos vinte e finco, com que fe 
os navios embandeiraram. Dos noíTòs hou- 
ve dous mortos dos Lafcarins , vinte e três 
feridos ; a Galé que eítava furta na reítinga 
foi tão perto, que fe não pode aíFaftar tão 
de preífa , porque começou a ventar o No- 
roeite , que alli chamam cachão , que he 
travefsão , e naquella coita venta os mais 
dos dias, o qual veio defcahindo tão rijo 
que logo os mares fe começaram a empo- 
lar de feição que houveram todos a Galé 
por perdida ; e por eftar muito perto da 
reítinga , como diífemos , não fe oufou a 
levar , por não defcahir fobre ella , e o 
mefmo deixaram de fazer os navios de Ro- 
drigo Alvares, irmão deThomé de Soufa, 
c o de Simão Botelho , que furgíram jun- 
to da Galé , porque todos os mais ficaram 
tão d$ krgo y que puderam recolher-fe a 

Co- 



Década X. Cap. VIII. 5*99 

Columbo ^ e toda a noite ficáram-fe furtos 
naquella paragem a Deos mifericordia , por- 
que o tempo cada vez esbravecia mais ; e 
foi fua força tamanha , que quaíí o não pu- 
deram foffrer as amarras , e cada vez fe 
viam chegar mais pêra as rcítingas , por- 
que o vento as levava á caça. Os inimigos 
eftavam em terra efperando quando haviam 
de varar pêra tomarem a todos ás mãos , 
e ficarem-lhe os navios com toda a artilhe- 
ria 5 da qual elles já fe faziam conta; mas 
os nolfos fe encommendavam do coração 
a Deos, e trabalharam tudo o que podiam, 
lançando outras fateixas , e com grande 
refguardo nas amarras. Da Fortaleza bem 
fe via o trabalho , e rifco em que todos 
eftavam , e haviam que fó Deos os poderia 
livrar , e aííím andavam todos pelas ruas 
com as mãos alevantadas aos Ceos , pedin- 
do- os foccorreíTe naquelle trabalho. Os Re- 
ligiofos toda a noite gaitaram em oração , 
e em diciplinas , encommendando aquelle 
feito a Deos , e a noíTa Senhora, que pa- 
rece que ouvindo feus fervos , na mor for- 
ça da tormenta acalmou o vento , e o mar 
ficou brando, e fereno , com o que a Ga- 
lé , e os navios tomaram o remo com mui- 
ta preífa-, e aílim o apertaram, que emef- 
paço de duas horas chegaram á bahia de 
Columbo j e ainda bem não eram dentro-, 

quan- 



6oo ÁSIA de Diogo de Couto 

quando o tempo tornou a enfoberbecer-fe; 
como dantes, e mais : no que claramente 
moitrou o Altiífimo Deos fer aquelia mer- 
cê particular fua , e que não deiamparava 
aquelia Cidade , porque o remédio delia 
eítava naquella Armada. 

O Rajú fentio muito o desbarato dos 
feus ; e foi fua paixão tanta, que mandou 
cortar as cabeças aos Capitães que efcapá- 
ram , e andava como doudo dos ruins fuc- 
ceílbs que tinha tido em todas as fuás cou- 
fas , e não defcançava de bufcar modos , 
e ardis pêra empecer a Fortaleza, até ter 
tratos com hum Lafcarim , por nome Joan- 
ne , muito conhecido delle , e que já lá 
andara , ao qual mandou por peílbas de 
fegredo apalpar com grandes promeíTas ; 
e vieram a aílentar com elle , que em hum 
certo dia em que o Raju lhe faria final , fe 
ajuntaffe com alguns amigos , e défle fogo 
á Cidade, pêra em quanto os noífos andai- 
fem occupados em o apagar , commetteífem 
elles os baluartes com todo o poder, e que 
aílím lhe não efcaparia : e com ifto mandou 
hum Chingaia Chrhtão , por nome Marcos , 
que lá andava fugido , que fingiffe vir-fe 
pêra a Fortaleza de medo feu , e que na 
Cidade lançaífe peçonha em todos os po- 
ços , a qual elle lhe deo tão fina de tal 
tempera > que todos os que hebeíTem dei* 

la 






Década X. Cap. VIII. foi 

la não viviriam mais que féis dias. Efte 
Marcos vindo fugido pêra a Fortaleza , foi 
tomado de alguns peaes emMapano, e lo- 
go fe tornou de maneira que bem moftrou 
vir mal inclinado : pelo que foi bufcado , 
e achando-lhe a peçonha ., foi levado ao 
Capitão , que lhe mandou dar tratos , e 
nelles confeíFou ília culpa , e defcubrio as 
intelligencias de Joanne com o Rajú , o 
qual também confeííbu tudo, e foram juf- 
tiçados. Dalli por diante fe tinha muito 
refguardo nos que fugiam pêra a Fortale- 
za , e os mandavam fegurar , porque não 
fabiam de quem fe haviam de guardar. 

CAPITULO IX. 

Dos tratos que o Rajú teve com os Naiques 
da cofia de Negapatão , pêra lhes tolher 
os mantimentos que não pajjajfem a Co- 
lumbo : e dos foccorros que chegaram de 
fora : e de alguns ajf altos que os nojjos 
deram no Arraial : e do grande comba- 
te que o Rajú deo â Fortaleza. 

DE todas eílas coufas foi avifado o ty- 
ranno Rajú , e que foram pêra elle 
infoffriveis ; e ficou tal , que não oufava 
nenhum dos feus ao coníòlar de nada: em 
nenhuma outra coufa imaginava fenão co- 
mo 



6oz ÁSIA de Diogo de Couto 

mo fe vingaria de tanta áffronta ; e o dia- 
bo que neílas coufas anda fempre prompto , 
e lhe não faltam novos ardis pêra males, 
lhe reprefentou hum, que fe viera a effei- 
to, puzera aquella Fortaleza no ultimo ex- 
tremo ; e foi eíte. 

Sabendo o Rajú como o Capitão tinha 
mandado á coita de Negapatão a bufcar 
mantimentos , e que dalli fe provia Ma- 
nar , e Columbo todas as vezes que lhes era 
neceífario , e donde a todo o tempo lhes 
podiam vir mantimentos , defpedio homens 
de recado com dinheiro , e cartas pêra os 
Naiques y e fenhores daquella coita , nas 
quaes os perfuadia , que pois eram Gentios 
como elles, quizeíTem favoreceilo naquel- 
la guerra contra os Portuguezes , e acudi- 
rem por honra de feus idoíos ; e que por 
então não queria delles mais que não con- 
fen tirem fahirem de feus portos mantimen- 
tos nenhuns , e que todo o que houvefle 
lhe vendeífem a elle por maior preço do 
que os Portuguezes lhe compravam, e que 
por iífo lhe mandava muito dinheiro ; e al- 
guns delles acceitáram aquelles partidos, 
e fe lhe obrigaram a vender-lhe todo o ar- 
roz de feus portos por hum certo preço , 
e outros diífimuláram. Diíto avifáram logo 
ao Capitão João Corrêa , que foi a coufa 
que mor cuidado lhe deo de todas , porque 

por 



Década X. Cap. IX. 605 

por alli o poderiam pôr em defefperação , 
porque guerra contra fome não havia po- 
der humano que a pudeíTe aturar; e toda- 
via teve aquillo em fegredo , e affim por 
não caufar medo nos homens , como por- 
que os que tinham arroz o não encerraílem 
de feição , que vieííem os mefquinhos a 
perecer , mandou comprar todo o que po- 
de por mãos alheias, e o enterrou nos ar- 
mazéns pêra prover o povo delle até vir 
o navio dos provimentos da índia , pelo 
qual efperavam por horas , porque íabiam 
que havia de partir por fim de Setembro 
o mais tardar. 

O Rajú não quietava no ódio, e pai- 
xão com que eftava , o qual era tal , que 
com ver o muito reiguardo que na Forta- 
leza fe tinha nos fugidiços , e que todos 
quantos tinha mandado com ardis , foram 
tomados , e atormentados , nem por iíTo 
deixou demandar hum feiticeiro aífamado , 
o qual fe lhe offereceo pêra enfeitiçar a 
artilheria, e os Capitães das eítancias. E£ 
te foi também commetter efte negocio em 
trages de Lafcarim fugido ; mas como o 
diabo tem por natureza fer defcubridor dos 
males que elle ordena , chegando efte á 
Fortaleza, logo nas primeiras perguntas fe 
turbou , e deo a entender a peçonha que 
trazia no peito j e mettido a tormento, 

con- 



604 ÁSIA de Diogo de Couto 

confeíTou tudo , e moftrou a botica que tra- 
zia pêra effeituar fuás promeíTas , a qual 
foi hum livro de muitas figuras de homens, 
animaes , arvores, e letras a feu modo, em 
que trazia palavras encantadas , com que 
chamava o demónio pêra obrar o que que- 
ria : e affim mefmo lhe acharam hum en- 
voltório , em que tinha huma cabeça , e ca- 
bo de cobra de capello fecca , hum peda- 
ço de vibora , fete pedaços de cafcas de 
.arvores peçonhentas , huma pedra de confei- 
ções , que em chegando ap fogo lançava 
raios, e fazia o ar de cor de enxofre; cer- 
tos grãos de pimenta gengivre , e açafrão, 
e outras fementes , humas penas de pavão, 
e humas contas de jogue. Tudo iílo foi 
queimado, e o feiticeiro efpedaçado , fera 
lhe o diabo valer ; porque como iílo são 
artes illicitas ( , e damnofas , não tiveram 
poder por meio de íeus encantamentos pê- 
ra livrarem eíte feiticeiro , e todos os mais 
que delias ufaííem , de perigos , e rifcos ; 
porque o demónio depois que os mette 
nelies , os defampara , porque não tem po- 
der pêra mais. Nefte eftado eftavam as cou» 
fas de Ceilão com grande refguardo em 
tudo, não deixando de haver muitos reba- 
tes , e aífaltos , em que os noífos fempre 
efcandalizáram bem aos inimigos , quando 
aos 23. de Outubro chegou huma Galeota 

de 



Década X. Cap. IX. 60? 

de António de Brito, que tínhamos deixa- 
do partiria de Goa, o qual navegando com 
bom tempo , foi demandar a Ilha de Cei- 
lão ; e por ven tarem os ventos cachões ri- 
jos , defgarrou pêra fora da ponta de Ga- 
lé , e deo volta a toda ella , fazendo pelos 
portos do Rajú da outra coita alguns aílal- 
tos , e prezas , aílim no mar, como na ter- 
ra ; e voltando á outra banda , foi tomar 
Manar , aonde achou o navio de Adrião 
Nunes da companhia de Nuno Alvares de 
Atouguia , que diíTemos que com tempo 
arribara, o qual eítava preftes pêra fe par- 
tir, e Manoel de Macedo em hum coraço- 
ne, em que partira da outra coita pêra fe 
ir metter em Ceilão com alguns compa- 
nheiros , os quaes em companhia de Antó- 
nio de Brito chegaram ao porto de Colum- 
bo, aonde foram mui feítejados dosnoíTos, 
e agazalhados pelas eítancias mais perigo- 
fas. 

Depois deila jornada mandou o Capi- 
tão dar na tranqueira grande do Rajú por 
António Lourenço , Francifco Gomes Lei- 
tão , D. João Modeliar, e os Araches Ma- 
noel Pereira , e Pedro Aífonfo com feus 
Lafcarins , os quaes em huma madrugada 
deram defupito no primeiro forte com mui- 
tas lanças de fogo , e muitas panellas de 
pólvora , com que fizeram caminho pêra 

en- 



606 ÁSIA de Diogo de Couto 

entrarem dentro , onde tiveram huma mtíi 
perigofa batalha, que durou por efpaço de 
hora e meia , matando4he muita gente , e 
três Capitães , e dous bombardeiros 5 e re- 
colhêram-fe fem damno mais que de peque- 
nas feridas. Paliado ifto , fahio Francifco 
Gomes Leitão com trinta íbldados ; e dan- 
do no baluarte dos inimigos , o entraram 
a poder de muitas lançadas y e cutiladas i 
e lhe mataram muita gente ; e por virem 
recrefcendo os inimigos > fe foram recolhen- 
do fem perigar , e ao recolher foram por 
huma bombardeira hum e hum ; e o derra- 
deiro de todos 5 a que parece a ventura ti- 
nha chamado pêra aquella hora , depois 
de eftarem dentro , tornou a fahir fora por 
os inimigos virem perto ; e fazendo huma 
arremettida a elles , tornou-fe a reeolhef 
pêra dentro; e como a morte o chamava, 
diffe aos companheiros : Ainda hei âe tor* 
Tiar a fahir fora ; e aflim o fez em hora 
que lhe deram huma efpingardada , de que 
logo morreo : e dia de Todos os Santos 
a outra fahida que os noílbs fizeram , re- 
crefcêram os inimigos no campo > e fe co- 
meçou a atear das noflas eftancias huma 
fermofa briga de bombardadas , e arcabu- 
zaria , os quaes fizeram nelles muito bom 
emprego 3 por eílar todo o campo cuber to* 
Paliadas eíías coufas 7 e outros afíaltos mui* 

to*, 



Década X. Cap. IX. 607 

tos , que cada dia lhes os noflbs davam 
com perda dos inimigos, chegou a Colum- 
bo aos 4. de Novembro a náo , em que 
hia Filippe de Carvalho com o provimen- 
to , e trazia hum Galeão, que da Peitaria 
partira carregado de arroz , o qual achou 
12a outra coita qtiaíi perdido, e lheacudio, 
e o favoreceo iempre , e o trouxe comfigo 
até áquelle porto íem o largar, e áviíta da 
coíla de Ceilão eftiveram ambos perdidos 
com o vento cachão , que lhes deo muito 
újp ; e como alli he travefsão , fobre amarra 
o aguardaram com muito riíco. Foi efte 
íbccorro como vindo do Ceo pêra todos, 
e João Corrêa de Brito mandou pedir a 
Filippe de Carvalho não defembarcaíle a- 
quelle dia , porque efperava aquella noite 
por hum combate do Rajú , e que ficaííe 
elle fegurando o porto com os mais navios , 
porque a Armada do inimigo não vieíTe 
commetter as embarcações , e a náo em que 
vinha o remédio daquella Fortaleza ; e por- 
que eftava avifado que o Rajú havia de dar 
aquella noite combate , preparou-fe pêra o 
efperar; mas elle lhe deixou de o dar por 
chover muito ; e em a noite feguinte no 
quarto d 3 alva mandou commetter a Forta- 
leza por aflaltos , o que fizeram, levando 
diante mais de fincoenta mantas feitas de 
eíleirões groíTos pêra fe chegarem ao mu* 

ro 



6o8 ÁSIA de Diogo de Còutõ 

ro pêra os pedreiros , que eram mais de 
mil , picarem as paredes , e outros eom ef> 
cadas pêra commetterem a entrada toda 
em roda. Os noíTos como eítavam fobre 
avifb, em fentindo os inimigos, cada hum 
fe achou em feu lugar com fuás armas , dei*-* 
carregando fobre os de baixo muitas pa- 
nellas de pólvora , com que os abrazáram j 
e onde o negocio foi commettido com 
maior força , foi no baluarte Santo Antó- 
nio , de que era Capitão Luiz Dorta, onde 
a arcabuzaria era mais baila , e fe puzeram 
mais efcadas ; mas os noííos aífim os efcal* 
dáram com fogo , e os efcalavráram com 
toda a couía que a mão acharam , que os? 
fizeram deixar a contenda. Bernardim de 
Carvalho, e os Fidalgos de fua companhia , 
e Nuno Alvares à y Atouguia com os Capi- 
tães da fua Armada acudiram ás partes que 
lhes pareceram mais ncceíTarias , esforçando 
os que peleijavam , e fazendo-o elles com 
muito animo ; e o Capitão que eftava na 
baluarte Madre de Deos com os Capitães 
da roída , mandava dalli ver , e faber as 
neeeílídades onde as havia pêra prover nel- 
las : no baluarte S. Sebaftiao , de que era 
Capitão Luiz Corrêa da Silva , também 
houve grande commettlmento , e nelle fe 
achou Vafco de Carvalho, que de Goa foi 
embarcado com Bernardim de Carvalho^ 

no 






Década X. Ca?. IX. 609 

110 qual peleijou como muito bom Toldado; 
c no baluarte Santo Eílevao foi o trabalho 
grande , e no lanço de muro pegado com 
elie , porque fentíram alli mor pezo dos 
inimigos y e picarem a parede ? pelo que 
acudiram com muito fogo 5 mas dava nas 
mantas , e náo empecia aos debaixo: o que 
viílo por hum foldado, por. nome Luiz de 
Pina , cavalgando-fe em fima da cumieira 
da taipa com o corpo lançado fora , deitou 
fobre os inimigos muitas panellas de pól- 
vora , com as quaes fez muito damno ; e 
depois comhuma lança de fogo virada pê- 
ra baixo , por fer aquella parte baixa , fez 
tanto , que abrazando os pedreiros com el- 
la , os fez affaltar , e deixarem a obra. A 
grita , alaridos , e urros dos elefantes eram 
mais pêra recearem que fuás armas , por- 
que por todas as partes era difto tanto , 
que pudera metter medo ao que lho não 
tivera tão perdido , como os noílos que 
conheciam , quanto mais os Chingalas pe- 
leijão com a lingua que com as mãos ; e 
todavia nas mulheres 5 e gente mefquinha 
mettia iílo humefpanto, que cuidaram que 
a Cidade era entrada , e das janellas com 
gritos 5 . e prantos ao Ceo pediam o favor 
Divino 5 que não faltando aos noífos , aílim 
efeandalizáram os inimigos, que depois de 
por todas as partes commetterem maitas 
Couto. Tom. VL P. lu Qa ve- 



6io ÁSIA de Diogo de Couto 

vezes a fubida , e os elefantes de derrubar 
as taipas , e os pedreiros de as picar por 
baixo até efclarecer de todo a manhã , dei- 
xaram de todo o aftalto , indo bem eícala- 
yrados , íicando-lhes com a preíTa todos os 
petrechos que traziam pêra efcalarem os 
muros \ porque como foi de dia , acharam- 
fe ao pé delles .muitos picões , alavancas , 
enxadas , e muitas mantas, e efcadas , que 
tudo fe recolheo pêra dentro , e prefumio- 
fe que lhes mataram muitos ; porque como 
os que ficavam vivos são obrigados a levar 
os mortos , não fe foube entre os noífos 
mais que o que depois diíleram os efpias, 
a quem nefta matéria , e em outras tenho 
por muito fufpeitofos , porque ás vezes fal- 
iam á vontade dos Capitães , que folgam 
de engrandecer fuás coufas , principalmente 
nas certidões que paííam , em que fempre 
ha números certos, como feoselles foram 
contar , mas todavia o Rajii perdeo muita 
gente, e os feus com elle muito credito, e 
elle as ,e.fpe ranças de tomar Columbo, que 
bem entendia que não o havia de fazer por 
aííaltos , pois fabia que os feus não eram 
pêra efcalar muros que Portuguezes defcn-. 
deíTemj mas quiz canfar os noífos com re- 
bates , ainda que foífem á cufta dos feus , 
porque o feu intento era chegar com as mi- 
nas a alguma parte por onde fizeíTe alguma 

rui- 



Década X, Cap. IX. 6it 

ruína , pêra entrar por ella a fazer-lhes aí* 
gum mal. 

CAPITULO X* 

Do outro recado que o Vifo-Rey tenie dá 
aperto de Columbo : e de como mandoii 
de foccorro João Caiado de Gamboa em 
huma não com cento e fincoenta homens : 
e de como D. Francifco Mafcarenhaf 
par tio com duas Galés pêra o Malavar* 

DEpois de partido o Galeão da carrei- 
ra com os provimentos , chegou a Goa 
Bartholomeu Rodrigues , que o Capitão de 
Columbo tinha mandado com outro reca-* 
do ao Vifo-Rey do primeiro aíTalto que d 
Rajii deo áquella Fortaleza > que levava 
debuxado , pêra que viíTe o modo da for- 
tificação do inimigo 5 e o poder que tinha 
fobre aquella Fortaleza ; e vendo o Vifo- 5 
Rey aquella potencia > mandou fazer pref* 
tes hum Galeão , elegendo pêra Capitão 
daquelle foccorro , que havia de fer de 
cento e fincoenta homens , a João Caiada 
de Gamboa , o qual dando preífa á fuá 
embarcação > fe fez á vela a 7 de Outu- 
bro > embarcando-fe com elle muitos Fi* 
dalgos 5 e Cavalleiros amigos de honra 9 
que dos que pudemos faber os nomes são 

Qc£ ÍÍ Qti 



6i2 ÁSIA de Diogo de Couto 

os feguintes : D. Gilianes de Noronha, e 
D. Leão feu irmão , D. AfFonfo Henriques > 
Jeronymo de Caftro , Pedro Botelho , João 
Sobrinho , Ruy Vaz Pinto, D. Fernando 
de Menezes , Simão da Silva, Chriftovão 
Rebello , Paulo Pimenta de Bulhão , Ma- 
thias da Fonfeca , Manoel Pereira do La- 
go , Domingos Leitão Pereira , Baithazar 
de Freitas , e o meímo Bartholomeu Ro- 
drigues , que veio pedir o íòccorro , e le- 
vando dez mil pardaos em dinheiro , e o 
Galeão carregado de mantimentos , e muni- 
ções , foram feguindo fua viagem. Partido 
eíle foccorro , porque por razão das pazes 
do Malavar eftava tudo quieto , e porque 
oEftado não eftava pêra tanto, determinou 
o Vifo-Rey de diflimular eíle verão com 
a Armada pêra aquella coita , porque real- 
mente não havia vaziíhas pêra ellaj e por- 
que em Cochim eftava huma náo da Chi- 
na , que havia devir pagar direitos a Goa , 
e affim fe efperavam por outras náos de 
Cochim , como coftumam todos os annos , 
com fuás mercadorias pêra o Norte , quiz 
o Vifo-Rey mandar-lhe dar preíla á fua 
vinda , por caufa dos direitos que fe ha- 
viam de pagar , de que tinha neceíTidade 
pêra as defpezas da guerra, fem embargo 
de ter mandado grandes Provisões ao Ca- 
pitão daquella Cidade , e ás juíliças delia 

pe- 



Década X. Cap. X. 613 

pêra as fazerem partir de lá entrada de 
Outubro , quiz apreíTar iíío mais , e man- 
dou fazer preftes duas Galés pêra eíle ef- 
feito , cuja Capitania deo a D. Francifco 
Mafcarenhas , que hia em huma , e na ou- 
tra Luiz da Silva , filho do Regedor Lou- 
renço da Silva , e ibbrinho do Vifo-Rey , 
dando regimento a D. Francifco , por que 
lhe mandava foíTe a Cochim , e trouxefle 
comfigo as náos de paflagem , e viíítafíe a 
Fortaleza de Panane , da qual era já vin- 
do Ruy Gomes da Grã a fe ver com o Vi- 
fo-Rey. Eftas Galés fizeram-fe á vela a 20. 
dias deite mez de Outubro , e o Vifc-Rey 
ficou entendendo no negocio de Columbo , 
porque eítava affentado em Confelho , co- 
mo já diílemos , que fe ordenaífe huma 
Armada grande , e que o Capitão Mor, 
que nella folfe , efperaífe em Columbo por 
D. Paulo de Lima , que havia de vir de 
Malaca (como lhe tinha o Vifo-Rey eferi- 
to) pêra que ambos juntamente com todo 
o poder , que era o maior que a índia ti- 
nha , déífe no inimigo, e o defalojaílem ; 
e porque já não havia tempo pêra poder 
fer fenao em fim de Janeiro feguinte , co- 
meçou a preparar as coufas neceífarias pê- 
ra aquella jornada , nomeando a Manoel 
de Soufa Coutinho pêra eíta empreza com 
o titulo de Capitão Mor do mar da índia, 

por 



i6r4 AS! A de Diogo de Couto 

})pr fer muito prático nas coufas de Ceí- 
ao, como aquelle que eftivera por Capitão 
em Columbo havia finco , ou féis annos, 
é íuftentára aquelle grande cerco , que lhe 
poz o mefmo Raju, do qual fahio quebra- 
do, e desbaratado; e em quanto fe faziam 
preftes as vaíilhas pêra eíta jornada , des- 
pachou o Vifo-Rey as náos pêra irem to- 
mar carga a Cochim , na qual fe embarcou 
Ruy Gonfalves da Camará pelo mandar 
ElRey affim pelo tirar da Índia , pelas 
grandes defpezas , que nella fazia de fua 
Fazenda , por eftar comendo os ordenados 
de Capitão Mor do mar da índia , e da 
empreza do Achem, dos quaes cargos am- 
bos tinha alguns oito mil pardaos , como 
pelo cafo , e negocio de Nequilu , de que 
fe não houve por ferviço , pela qual razão 
pareceo bem a Pedro Homem Pereira ir-fe 
também pêra o Reyno a moftrar-fe feir* 
culpa daquella jornada ; porque fe Ruy 
Gonfalves appareceíTe lá fó , e fe livraííe , 
haviam todos de ficar cahindo fobre elle , 
e aífím fe embarcaram ambos , como foi 
tempo, Eftas náos tiveram, boa viagem , e 
no caminho faleceo Ruy Gonfalves da Ca- 
mará , e Pedro Homem chegou a Portugal, 
e íe livrou daquelle cafo , em que teve 
í.r^bialho, como em outra parte diremos. 

CA«* 



Década X. Cap. XI. 615: 

CAPITULO XI. 

Do que aconteceo na jornada a D. Francif- 
co Mafcarenhas : e de como Manoel de 
Sou fa foi com huma Armada á Cojía do 
Norte : e do que aconteceo na jornada a 
João Catado de Gamboa até chegar a 
Columbo : e das coufas que mais aconte- 
ceram naquella Fortaleza. 

PArtido de Goa D. Francifco Mafcare- 
nhas com a lua Galé , e a de Luiz da 
Silva , foi derrota pêra Côchim em bufca 
da náo da China 3 a qual com outras achou 
por Cananor , e com ellas voltou Luiz da 
Silva , e lhe foi dando guarda ; e D. Fran- 
cifeo paliou a Panane a viíitar aquella For- 
taleza, e provella, como levava por regi- 
mento ; e porque eíta jornada não foi de 
mais effeito , paífaremos por ella , e conti- 
nuaremos com outras coufas. 

Andando o Vifo-Rey occupado em fa- 
zer preítes a Armada , que havia de man- 
dar a Ceilão , teve por novas , que pêra a 
Cofta do Norte eram paliados alguns na- 
vios Malavares ás prezas ; e porque aquel- 
la cofta eftava fó , e cada dia vinham na- 
vios Portuguezes de todas aquellas Forta- 
lezas , quiz y em quanto não chegava a 
monção, em que Manoel de Soufa fe ha- 
via 



616 ÁSIA de Diogo de Couto 

via de partir, que era por fim de Janeiro, 
quegaítaíTe aquelle tempo por aquella Cof- 
ta , com o que ficava cumprindo com a 
obrigação da Armada , que havia de man- 
dar a ella , porque o reílo do verão tinha 
mandado armar em Baçaim D. Ruy Go- 
mes da Silva com alguns navios , pêra an- 
dar dando guarda ás cáfilas : e aííim man- 
dou Manoel de Soufa , e os Capitães que 
eftavam nomeados pêra irem com elle de 
foccorro a Ceilão , e que fe embarcaíTe 
logo, em quanto fe faziam preftes as cou- 
fas pêra a jornada , e que gaftaflem aquel- 
les dous mezes na Coita do Norte de Goa 
até Dabul. Eíta Armada partio por meiado 
de Novembro , e por aquella coita gaitou 
até Janeiro , em que fe recolheo pêra fe 
negociar a jornada de Columbo; e porque 
não aconteceo coufa notável , contamos aP 
fim em fumma ifto. 

Tornando a João Caiado de Gamboa , 
foi feguindo fua viagem , e em breves dias 
paífou o Cabo Comorim , e da outra ban- 
da achou ventos contrários pêra poder 
atraveífar Columbo , por fer já tarde •, e 
tomando parecer com o Piloto , eOfficiaes, 
homens práticos naquella coita , affentá- 
ram todos que feria grande rifco naquelle 
tempo querer atraveífar com o Galeão: que 
melhor remédio feria defembarcar alli gen- 
te, 



Década X. Ca?. XI. 617 

te ] e caminhar por terra até Remanacor, 
e dalli atraveffar a Manar , aonde acha- 
riam navios pêra paliarem a Ceilão : e que 
niito pofto que houveíle mais alguma de- 
tença , era mor legurança pêra quem hia 
foccorrer Fortaleza , que eftava cercada. 
Com efta refolucão defembarcáram em Tu- 
tocorí • e vendo-fe com os Padres da Com- 
panhia , debaixo de cuja adrniniftração no 
efpiritual efta toda aqueíla cofta , lheacon- 
felháram o mefmo , ofFerecendo-lhe a da- 
rem todo o aviamento de embarcações , e 
marinheiros que lhe foílem neceílarios pê- 
ra paílarem a Manar. Com iíto le dilpoz 
João Caiado pêra a jornada ? e ordenou 
deixar o Galeão com vinte foldados de 
guarda , por haver novas de algumas Ga- 
leotas de Malavares ; mas nenhum delles 
cjuiz ficar , dizendo que hiam de foccorro 
pêra a Fortaleza de EIRey, e que haviam 
de lá chegar. João Caiado vendo que era 
forçado ficar aquelle Galeão guardado , por 
ter em íi muita artilheria , e provimentos , 
os levou por invenção , e boas palavras , 
acabando com elles que e r a forçado ficar 
aquelle Galeão guardado : que os que fa- 
hiílem por fortes , eífes ficaílem ; e neftas 
teve elle tal modo que não fahíram fenao 
os que a elle pareceo que mais podia ef- 
cufar, e nomeou por Capitão Bartholomeu- 

Ro^ 



618 ÁSIA de Diogo de Couto 

Rodrigues : e deo por Regimento aos Of- 
ficiaes que foíTem pêra Goa ; e defembar- 
cando o dinheiro , e munições que pode , 
foram marchando por terra pêra Remana- 
cor , aonde os Padres haviam de ter as 
embarcações pêra paliarem a Manar, Os 
do Galeão ficaram defconfolados , e enfa» 
dados ; e querendo os Officiaes voltar pê- 
ra Goa, acudio oBarthoiomeu Rodrigues, 
e os foldados , e lhe não deixaram levan- 
tar as amarras, dizendo-lhes que feencom- 
írtendaífem a Deos ; porque ainda que fe 
arrifcaííem a fe perderem , que elles haviam 
de trabalhar por ir a Columbo a foccorrer 
a Fortaleza de EIRey , que eltava em ne- 
ceffidade , porque nelle citavam os provi- 
mentos , e munições que o Vifo-Rey lhe 
mandou de foccorro : que mais importa- 
va áquella Fortaleza ficar com elles , que 
o arrifcar-fe o Galeão : e que Deos havia 
de permittir dar-lhes muito bom tempo , e 
levallos a falvamento , pois hiam a coufa 
tanto de ferviço feu , e affim fe deixaram 
ficar alli fobre a amarra com vento norte 
muito rijo , que lhes durou três dias. Palia- 
dos elles , fe lhe mudou , e abonançou , e 
Bartholomeu Rodrigues fez dar á vela con- 
tra vontade dos Ofíiciaes , no que fizeram 
fuás exclamações , e proteftos , e foram cor- 
rendo a coita até á Ilha dos Jogues , e 

achan- 



Década X. Cap. XI. 619 

achando tempo profpero , atraveflaram lo^ 
go á outra banda junto do rio Cardiva , e 
de longo delia com o vento mais largo 
foram íurgir em Columbo com grande ai-? 
voroço de todos , por chegarem primeiro 
que João Caiado. Bartholomeu Rodrigues 
defembarcou , e deo conta ao Capitão da 
jornada de João Caiado , e que cada dia 

f)odcria fer alli , com o que os da Forta- 
eza começaram a alentar-íe , e a fartar-fe 
com os mantimentos que vinham no Ga^ 
leão, lançando o Capitão fama que vinham 
em poder de João Caiado vinte mil cru- 
zados , aííim pêra quebrar com iíTo o ani- 
mo dos inimigos , como pêra alvoroçar os 
foldados , que com o lhe pagarem , e os 
fartarem , não fentem os trabalhos , nem 
arreceam os perigos da guerra , por gran- 
des que fejam. 

João Caiado , depois de chegar a Re- 
manacor, ajuntou os Caraçones , que lhe 
pareceram neceffarios pêra paflar toda aquel- 
la gente , e fabrica , o que fez brevemente pe- 
lo grande aviamento que os Padres da Com- 
panhia lhe deram ; e porque ficava da pon- 
ta de Remanacor, que he a derradeira dos 
baixos , diftancia de hum tiro de béfta , 
mandou paíTar por terra os Caraçones , pê- 
ra ficar da outra banda de fora delles \ o 
que fez facilmente , ainda que com trabalho , 



620 A SI A de Diogo de Couto 

e alli fe embarcou ao outro dia, e foi ter 
a Manar , aonde João de Mello lhe nego- 
ciou huma Galeota , em que elle fe embar- 
cou com os que puderam caber, e o mais 
repartio por algumas embarcações de man- 
timentos que alli eftavam pêra Columbo; 
e em huma champana grande, que alli tam- 
bém eftava carregada de arroz , mandou 
embarcar Chriftovão Rebello com alguns 
foldados , e com todos eftes navios fe fez 
João Caiado a vela , levando comfigo Dio- 
go Fernandes Peífoa em fua companhia, 
que , como diíTemos , no primeiro foccor- 
ro partio de S. Thomé , e tinha arribado 
alli , onde até então efteve fuílentando os 
íeus foldados , fem ter tempo pêra fe par- 
tir. Com toda efta frota furgio João Caia- 
do na barra de Columbo aos 4. de Dezem- 
bro; e a champana grande ao furgir, por 
culpa do Piloto , foi tão perto da terra , 
que ao virar deo com a poppa nella , e fe 
fez em pedaços ; e quiz Deos que a mor par- 
te da gente fe falvaífe em terra , e a outra 
fe perdeo , por fer de noite efcura : perdê- 
ram-fe nella mil candís de arroz, roupas, 
manteigas , e outras coufas , o que além de 
fer perda notável pêra os donos , que le- 
vavam tudo pêra vender, o foi pêra aquel- 
la Fortaleza , porque com aquillo ficava 
farta de tudo ; mas nem com iífo deixou 

de 



Década X. Cap. XI. 621 

de fe feítejar muito aquelle íbccorro , por 
fer de tanto Fidalgo , e Cavalleiro , e de 
tanto mantimento como aquella cáfila leva- 
va; e porque fe fazia tempo pêra a náo da 
viagem fe tornar pêra a índia , Filippe de 
Carvalho , Capitão delia , que até então af» 
fiítíra naquella Fortaleza com todos os feus 
foldados , a que deo meza , e fe achou em 
todas as coufas que naquelle tempo fucce- 
deram , difle a João Corrêa que proveíle a 
náo de Capitão 5 porque elle havia de ficar 
naquella Fortaleza com todos os feus fol- 
dados , em quanto o cerco durafle, que por 
iífo acceitára aquella viagem. João Corrêa 
lhe não quiz acceitar o cumprimento , e 
lhediífe que era neceílario tornar-fe ánáo, 
aífim pêra fegurança da artilheria que nella 
hia , como pêra iignificar ao Vifo-Rey o 
eftado em que aquella Fortaleza ficava ; e 
pofto que elle repetio fobre iífo , o não 
confentio , e o fez embarcar , e dar á vela 
a 15. de Dezembro , ficando aquella For- 
taleza já em eftado , que não fó fe podia 
defender do Rajú ? mas ainda offendello , 
e bufcallo no campo , e mandar-lhe fazer 
guerra por toda a fua coita , e pêra iífo 
mandou armar finco fuftas , dous charato- 
nes , e dez tones pequenos , e fez Capitão 
Mor a Pedro AíFonfo Arache , homem mui- 
to prático em toda aquella coita, elhedea 

trin- 



621 ÀSIÃ de Diogo de Couto 

trinta Portuguezes , e cento e íincoenta La£ 
carins , e lhe mandou foííe pela banda de 
Gale, e deftruiiTe , e ailolaffe todos os por- 
tos do Rajú daquella parte. Partida efta 
Armada de Columbo , foram- fe a ponta 
da Galé deftruindo tudo o que acharam , 
principalmente os lugares de Berberi , Be- 
licote , e outros ; e voltando a ponta de 
Gale pêra fora, defembarcáram na Cidade 
de Beligao , onde fizeram grande deftrui- 
çao , e mataram , e cativaram muita gente, 
e os Laícarins fizeram mui grandes cruezas 
em mulheres , e meninos , porque por lhes 
tirarem as arrecadas , e braceletes , lhes 
cortaram as orelhas , e as mãos ; e deixan- 
do tudo abrazado j e roubado , pafsáram a 
outros lugares , que foram aflblando , e 
deftruindo : e aífim gafláram todo o tempo 
dos provimentos 5 e como fe lhe acaba- 
ram , voltaram pêra Columbo carregados de 
prezas, e com. cento e oitenta peííoas cati- 
vas. O Rajú tanto que ofoube, blasfemava 
de ira , e furor, vendo que tendo os nof- 
fos cercados , faziam tão pouco caio delle, 
que lhe hiam deftruir fuás Villas , e Cida- 
des , com o- que fe não fabia determinar; 
e receando outra jornada como aquella, 
mandou bradar hum dia aos da Fortaleza , 
que diífeíFem ao Capitão que lhe mandaífe 
Pedro Baião , porque tinha coufas que im- 
por- 



Década X, Caf. XI. 613 

portavam pêra tratar com elle , a que lhe 
não refpondêram a propoílto , porque logo 
foi entendido que aquillo eram entreteni- 
mentos pêra embaraçar os noflbs. Nefta 
meíma occaíiao , que era em Dezembro , 
poucos dias depois danáo da carreira parti- 
da , deo huma doença nova , e cruel , a qual 
foi geral na gente da terra \ e foi tão ef- 
pantofa , que pelos muitos que morriam, 
cuidaram que era peçonha que lhes tinham 
lançado nos poços ? com* o que todos an- 
davam aílbmbrados : o mal começava pelos 
pés com huma inchação , que hia fubindo 
ás pernas , e dalli á barriga , e aos peitos , 
aonde tanto que tocava , logo matava , fi- 
cando aquelles corpos disformes \ e como 
a doença era nova naquella terra , e não 
conhecida , nem vifta nunca dos naturaes , 
fizeram os Fyíicos anatomia em hum da- 
quelles corpos pêra verem fe lhe podiam 
entender o mal pêra fe lhe acudir , porque 
hia em grande crefcimento , e morriam 
muitos ; e viftos os inteftinos , acharam os 
fígados apoftemados 5 e fe affirmou proce- 
der aquillo da quentura , e humidade por 
caufa da grande fecca que houve , por não 
ter chovido todo aquelle anno , coufa de 
que fe não acordavam os velhos ; e pêra 
crefcer mais o mal , fuccedeo defcarregar 
a vara de Choromandel com tanta agua 

que 



624 ÁSIA de Diogo de Couto 

<jue parecia hum diluvio; e a quentura que 
eítava no fígado com aquella humidade da 
terra ? que ficou eníbpada , vieram os cor- 
pos a apoftemar daquella maneira ; e en* 
tendido ornai, applicáram-fe-lhes remédios 
de coufas frias , e feccas , como vinagre, 
com que o mitigavam ; e por faltar eíte , 
ufavam de huma fruta , a que chamam 
Gorfas , que tem a mefma virtude, e com 
outras algumas hervas ; mas como ainda 
iílo veio a faltar , não deixaram de morrer 
muitos ; mas quiz Deos que foíTe gente 
mefquinha , e coitada , e o mal duraíle 
pouco, porque logo ceifou. 

CAPITULO XIL 

Da revolta que em Malaca houve com hum 
Amouco : e cie como D. Pedro de Lima 
foi aos EJlr eitos de Sinc apura , e Sabão : 
e do que lhe aconteceo : e de como D. Pau- 
lo mandou Simão de Abreu de Mello 
com recado da viftoria ao Vifo-Pey : e 
de como fè perdeo na cofia de Ceilão : e 
dos trabalhos que paffou. 

POrque ha muito que deixámos as cou- 
fas de Malaca , fera razão tornarmos a 
ellas , porque quaíl aconteceram no mefmo 
tempo que as de Ceilão, em que até agora 

nos 



Década X. Cap. XIL 6if 

nos detivemos , porque nos pareceo melhoí 
ordem náo as míílurarmos pelas não con-> 
fundir. Deixámos D* Paulo em Malaca vi- 
éloriofo y e dando ordem a muitas coufas. 
Havendo poucos dias que era chegado, íuo* 
cedeo hum cafo , que alvoroçou toda a Ci- 
dade, e foi eíte. Entrando humjao Merca- 
dor na Fortaleza em hum baluarte, em que 
pouíava D* António de Neronha a pergun- 
tar por fazendas pêra comprar , levando 
hum crís na mão , como todos trazem , hum 
daquelles homens lhe lançou mão delle pê- 
ra lho tomar > e pagar , porque lho não 
quiz elle vender. O Jao affrontado daquil- 
Io, levou a mão de huma meia catana, e 
deo com ella no Veadôr de D* António $ 
€ o matou. Os foldados que alli eftavam 
levando logo das armas , mataram o Jao* 
Com eíte reboliço fe alevantou na Forta- 
leza huma voz de Amoucos , a qual correo 
por toda a Cidade, que he coufa que mais 
alfombra que todas 7 porque como naquel- 
le porto eftavam muitos juncos de Jaós, e 
pela terra andavam muitos , e eíles como 
ie determinam a fazer Amoucos > são co- 
mo doudos , efuriofos, e andam pelas ruas 
matando todas as peífoas que acham , pa- 
receo que poderia fer aquillo alguma trai- 
ção» Tanto que eík voz de Amoucos che- 
gou aos foldados da Armada de D. Paulo $ 
Couto. "Tom. VL P* lu Rr fem 



626 A Si A de Diogo de Couto 

fem perguntarem o que era , tomaram as 
armas , e foram acudir á Fortaleza , e to- 
dos os Jaós que pela rua encontraram, que 
andavam pacificamente fazendo feus negó- 
cios , mettêram á efpada ; e foi a revolta 
tamanha, que parecia que feaílblava ater- 
ra. D. Paulo de Lima acudio com muita 
preíTa a apaziguar o negocio , fem faber 
o que era , nem donde nalcêra aquelle mo- 
tim ; e quando chegou aos foldados, já ti- 
nham mortos fetenta Jaós , e com lua au- 
thoridade atalhou aquelle damno o melhor 
que pode ; e porque lhe diíTeram que os 
Jaós fe acolhiam ás embarcações , e que 
alguns Jaós fe faziam á vela , mandou al- 
guns Capitães de fuftas que os foíTem de- 
ter , e que os quietaflem , e lhes levaíTem 
os feus Capitães pêra os fegurar. Eíles Ca- 
pitães chegaram aos juncos, que eram mais 
de vinte , que haviam pouco que tinham 
chegado carregados de fazendas, e manti- 
mentos , dos quaes os mais hiam largando 
as velas , e com muitas branduras , e pala- 
vras os fizeram furgir , mandando-lhesfailar 
por fua lingua; e entrando nelles , fizeram 
embarcar os Capitães nas fuás fuftas com 
mimos , e o Embaixador de Jaoa , que o 
dia atrás tinha chegado , e com todos fe 
foram a D. Paulo, que recebeo o Embaixa- 
dor com muitas honras , e teve com elle , e 

com 



Década X. Cap* XIL $%$ 

côiti todos os Capitães muitas defcargas dd 
cafo acontecido , mandando-lhes dizer que 
íe quieta ífem , e fizeíTem feguramente fuás 
fazendas ; porque fe os que tinham a cul- 
pa daquelle negocio elle o vieífe a íaber, 
que lhe affirmava os caíligaria muito rija- 
mente. Os Jaós lhe refpondêram mais def* 
alivados do que chegaram ; e elle conti- 
nuou , dizendo, que bem viam que o ímpeto 
dos foldados não havia poder nenhum Ca-* 
pitão prover; e que não feria poífivel po* 
der averiguar quem tivera a culpa da* 
quelle cafo , pelo que melhor feria diífimu- 
Jalío 3 eque \1\q não pezava fenao dos que 
morreram fem culpa; mas queniífo já não 
havia que fazer. O Embaixador lhe man- 
dou dizer , que elle vinha tratar negócios 
com elle , e com o Capitão da Fortaleza i 
que depois o faria de vagar: que lhe déífe 
licença pêra fe recolher; e que lhe certifi- 
cava que nenhum pejo lhe ficava pêra dei- 
xar de o fazer, porque as coufas acriden- 
taes não eftavam na mão do homem , que 
elle faria logo defembarcar as fazendas dos 
juncos, e que fe não trataífe mais do paf- 
fado. D. Paulo o abraçou, e quietou a to- 
dos, e os defpedio pêra feus juncos, e el« 
les começaram a defembarcar as fazendas. 

Efte negocio como fuccedeo na Forta* 
leza entre os foldados de D. António > fou* 

Rr ii be« 



628 ÁSIA de Diogo de Couto 

beram poucos ocomopaífou, antes por cu* 
brirem a força que o morto fizera ao Jao , 
deitaram fama que clle íe fizera Amouco 
pêra matar a D. António , e que dera no 
feu Veador , que tinha muito boa peflba^ 
cuidando fer elle , e aífim ficaram muitos 
crendo , e affirmando que o Rajale o man- 
dava matar de efcandalizado delle. PaíFa- 
da eíta revolta , pedio a Cidade a D. Pau- 
lo que mandaíTe alguns navios aos eítreitos 
de Sincapura , e Sabão pêra favorecerem 
os juncos dos Jaós, que começaram a vir, 
porque a Armada do Rajale lhe não impe* 
diíTe apaííagem : pelo que elle mandou feu 
irmão O. Pedro de Lima com duas Galés , 
elle em huma, e Sebaftiao de Miranda na 
outra y e féis fuítas, de que tinha provido 
novos Capitães , porque tinha traçados mui- 
tos , e melhorados alguns, como Francifco 
de Soufa pêra a Galeaça , que vagou por 
morte de D. Manoel de Almada , e a feu 
irmão D. Pedro a Galé de D. Bernardo ; 
e nas fuítas que eítes deixaram , Martim 
Affonfo de Mello , e Francifco de Miran- 
da, filho de Martim Affonfo de Miranda, 
que tinha ido por foldado. Com efta Ar- 
mada partio D. Pedro a 1^. de Outubro; 
e em entrando emjor, achou ainda tudo af- 
folado , como deixaram , e no rio tomou hu- 
ma embarcação pequena com alguma gen- 
te, 



Década X. Cap. XII. 629 

te , da qual foube que efperava ao outro 
dia por EIRey lá pelo rio affima em hum 
certo lugar, onde eíiava afíentado fazer hu- 
ma nova Cidade pêra a traçar , e começar. 
D- Pedro defejou de haver EIRey ás mãos: 
foi-fe pelo rio alíima , levando os homens 
que tomara por guia , e por elle encontrou 
íete navios , de que era Capitão Mor hum 
Malaio , chamado Queinadão , homem 
principal entre elles , o qual levava aflim 
fua mulher , e filhos ; e commettidas as fuf- 
tas , tiveram com elle huma arrazoada ba- 
talha; e por fim o renderam, e o tomaram, 
fem lhe efcapar peííba alguma , e com eíla 
preza fe fizeram na volta deBintão, e def- 
embarcaram naquella Cidade , por fer do 
Rajale ; e como todos os feus moradores 
eftavam amedrontados do caftigo de Jor, 
vendo a Armada , defpejáram a Cidade, 
e fe mettêram nos matos. Os noíTos não 
achando reíiílencia , lhe puzeram fogo , e a 
abrazáram; e paíTando-fe ao eftreito de Sa- 
bão, andaram por elle todo o mez de No- 
vembro , dando em muitas povoações que 
deítruíram , e aflbláram , e cativaram mui- 
ta gente, e tomaram boas prezas , e fizeram 
arribar a Malaca todos os juncos que alli 
foram ter ; e acabado o tempo do feu pro- 
vimento , fe recolheram pêra Malaca. D. 
Paulo em quanto eítas coufas paliavam , pa- 
re- 



630 ÁSIA dê Diogo £>e Couto 

receo-lhe bem mandar avifar ao Vifo-Re? 
da mercê que Deos lhe fizera , porque ha- 
via o Eílado da índia eftar dependurado do 
íucceffo daqiíeíla jornada , e elegeo pêra 
iflb Simão de Abreu de Mello , pelo qual 
efcreveo ao Viíb-Rey , e á Cidade de Goa 
breves cartas das grandes mercês que nof- 
fo Senhor fizera , portando-fe em todas as 
coufas que íuccedêram ao mefmo Simão de 
Abreu, como homem que fe achou nellas , 
e em todas teve tamanho quinhão , o qual 
foi na fua Galcota com trinta e três Tolda- 
dos , pedindo-lhe D. Paulo muito fe apref- 
faífe pêra tomar as náos do Reyno em Co- 
chim , pêra repartir por ellas as vias que 
eferevia a EIRey , e na entrada de Dezem- 
bro fe fez á vela , e foi feguindo fua via- 
gem , a que logo tornaremos, 

E porque a náo do Reyno , de que era 
Capitão Francifco de Brito do Rio , havia 
de tomar a carga, fe a houveíle, determi- 
nou D.Paulo de mandar a EIRey algumas 
peças de artilheria de bronze mui grandes , 
ê fermofas , das que tomou em Jor , pêra 
que viífem na Europa que não peleijam os 
Portuguezes neftes Eítados da índia contra 
gente falvagem , e com páos , e pedras , fe- 
íião com outras tão politicas como todas , 
ç contra tão furiofos , e medonhos baíilif- 
ços y e canhões 2 reforçados como todos os 

da 



Década X. Cai». XII. 631 

da Europa. A' náo do Reyno foi-lhe fal- 
tando a carga ; e porque não fe efperava 
poder já vir de fora , aíTentáram os Con- 
tratadores delia com o Bifpo , e Veador 
da Fazenda de ficar alli invernando pêra 
fahir no anno feguinte. 

Simão de Abreu de Mello partio de 
Malaca, e em finco dias foi tomar as Ilhas 
de Nicubar, e alli fegurou a Lua cheia, e 
fez aguada ; e tomando feu caminho , foi 
feguindo fua derrota ; mas como o tempo 
era ainda muito verde , acharam tamanhos 
contraftes , que eíliveram muitas vezes per- 
didos , e alagados , e fete dias contínuos 
paliaram muitos tormentos tamanhos , que 
não havia quem fe lembraííe já mais que 
de Deos , nem comiam fenao alguma cou- 
fa pouca ; e como homens areados , e que 
já não faziam conta de li, hiam cada hora 
efperando que a Galeota fe fubmergiífe ; e 
indo aífim nefte tranfe , e defconfianças , 
vefpera de Natal ás onze horas do dia vi- 
ram terra, a qual o Piloto cuidou fer Ne- 
gapatao , com que fe fazia , e aífim a fo- 
ram demandar , porque hiam em eftado 
que houveram que mais feguro lhes era 
vararem em qualquer que foífe, que paíTa- 
rem avante ; e pondo a proa em terra , fo- 
ram encalhar nella com mares tão groflbs , 
que na praia o rolo da agua os encapelou 

lo- 



6^i ASIÀ de Diogo de Couto 

logo , e as ondas deram com os que tive- 
ram mais acordo em terra , onde fe hou- 
veram de eipedaçar, e outros de efcorçoa- 
dos não íbuberam falvar-fc , e affim fe per* 
deram dez foldados com alguns moços, 
Poílos os mais em terra , ajuntando-íe 
com os marinheiros , que eram quarenta, 
todos huns , e outros níis , e defpidos , e 
fem terem que comer, começaram a cami- 
nhar de longo domar, cuidando que hiam 
pêra Negapatão , conforme ao ponto do 
Piloto , e toda aquella noite não defcan- 
çáram , e fempre caminharam ; e amanhe- 
cendo , acharam alguns negros , de quem 
tomaram falia , e Íbuberam eftar no Reyno 
de Jafanapatao no Cabo da Ilha de Ceilão, 
porque fe perderam finco léguas de Trin- 
quimale pêra Jafanapatao ; e fe aílim como 
tomaram eílas finco diante , as tomaram 
atrás, não efcaparia huma fo peíToa , por- 
que tudo aquillo era do fenhorio do Rajú ; 
e dando graças a Deos pelos livrar das 
mãos daquelle tyranno , foram caminhando 
com muito trabalho nus , e defpedidos , 
porque o melhor negociado era Simão de 
Abreu, que a huma eileira velha que achou 
lhe fez hum buraco no meio , e a metteo 
pela cabeça , ficando-lhe como fambenito , 
e ern todo efte tempo não comeram mais 
que hervas , frutas do mato > fem terem 

mais 



Década X. Cap. XII. 633 

mais gazalhado pêra repoufarem que o cam- 
po, e a terra enfopada de muita agua, que 
cada dia chovia , com o que hiam todos 
tão debilitados , que fenão fora o animo , 
e natureza de Simão de Abreu , os mais 
delles pereceram por aquelle caminho , por- 
que alfim acudia aos trabalhos de cada hum , 
como fe elle não os paliara também , es- 
forçando-os , animando-os , e ajudando-os 
tanto , que cahindo-lhç hum companheiro 
de já não poder comfigo , pedindo-lhe com 
as mãos erguidas que o deixaffe ficar , lhe 
ordenou huma padiola de quatro páos atra- 
veflados , e pedio aos marinheiros que o 
levaffem , e elle foi o primeiro que ferrou 
delia , e a tomou aos hombros. O que deo 
muito trabalho a eftes perdidos , foram 
muitas , e grandes alagôàs , que atraveíTá- 
ram, que os detiveram muito, e ainda a£- 
fim hum dia lhe ficou atrás, como já mor- 
to , hum foldado , que alli levava hum ir- 
mão, que também não podia comfigo : o 
que fabido por Simão de Abreu, fez parar 
todos , e voltou elle fó com alguns mari- 
nheiros 5 e o confolou, e confortou, lem- 
brando-lhe fe encommendaífe a Deos , e 
aífim o fez levar. Paliados oito dias deíía 
defconfolação, chegaram a humas aldeias, 
onde os naturaes os detiveram , e os trata- 
ram bem, e mandaram recado a EIRey de 

te- 



634 ÁSIA de Diogo de Couto 

Jafanapatão , que logo mandou por elles, 
e os recebeo mui humanamente , mandan- 
do-os prover de tudo em muita abaílança ; 
e depois de cobrarem alento , fe foram pê- 
ra Manar ; e João de Mello , que era Ca- 
pitão , lhe deo hum navio, em que fe fo- 
ram pêra Cochim , e chegaram áquclla Ci- 
dade a 8, de Janeiro , onde ainda eítavam 
as náos do Reyno , e nellas efcreveo aEl- 
Rey o fucceífo de Jor, e de fua perdição, 
c o mefmo fez o Capitão daquella Cidade , 
dizendo-lhe o mefmo em fuás cartas , das 
quaes elle depois teve refpofta , porque to- 
das as náos chegaram ao Reyno a falva- 
mento. EIRey eítimou muito as novas do 
desbarato , e deílruição de Jor, e agrade- 
ceo a D. Paulo aquelle ferviço nas primei- 
ras náos com honras, e mercês , e lhe man- 
dou a Capitania de Malaca , e huma via- 
gem da China. Simão de Abreu de Mello , 
depois de dar as cartas pêra o Reyno , 
partio-fe pêra Goa, e deo ao Vifo-Rey, e 
á Cidade as novas da viftoria , com que 
o Vifo-Rcy , e todos fe fobrefaltáram pe- 
los receios com que eftavam : e logo fe 
ordenaram grandes feitas , e houve muitos 
repiques, e alvoroços, e o Vifo-Rey diífe 
á Cidade que preparaíle hum grande rece- 
bimento a D. Paulo , e que fe lhe fizeífe 
t udo quanto foífe poífivel , tirando recebei- 
lo 



Década X, Ca?. XII. 63? 

Io com Pállio , que era do Viíb-Rey ; mas 
que tudo o mais fe lhe preparaíTe da ma- 
neira que a Cidade quizeíte. Com eftas boas 
novas ficou o Viíb-Rey defalivado pêra acu- 
dir melhor ás coufas de Ceilão : logo man- 
dou dar prelTa á Armada de Manoel de 
Soufa, que havia de ir de foccorro. 

CAPITULO XIII. 

Das coufas que nejle tempo aconteceram em 

Columbo : e dos ajfaltos que o Rajú 

deo áquella Fortaleza : e do que 

nelle fuccedeo. 

ENtendendo João Corrêa de Brito que 
o Rajú fentia o pouco que tinha feito 
naquclle cerco, e o grande damno que ti- 
nha recebido dos noílbs , tratou de o aca- 
bar de quebrantar , e de o pôr emdefefpe- 
raçao com lhe fazer guerra por todos os 
feus portos , pêra o que mandou a Tho- 
mé deSoufa de Arronches com féis navios, 
e quatro tones , que foíle da ponta de Ga- 
le pêra fora , e deílruiíTe toda a cofta da 
outra banda , fem deixar nada em pé. Os 
Capitães que o acompanharam nos navios 
foram Diogo Alvares , feu irmão , Diogo 
Gonfalves , Miguel Ferreira Baracho , Bel- 
chior Rebello , e André Botelho. Hiam nef- 

tes 



6^6 ÁSIA de Diogo de Couto 

tes féis navios cento e dez Portuguezes, é 
nos tones feflenta Lafcarins , e era Capitão 
delies Diogo Pereira Arache. Deita Arma- 
da foi logo avifado o Rajú; e receando-íe 
que lhe fizefTe por feus portos grandes da- 
mnos , e também porque na verdade eftava 
enfadado da guerra , quiz apalpar o Capi- 
tão por ver íe lhe commettia pazes , defe- 
jando-as elle muito ; e como eftes Gentios 
todos vivem de opinião, havendo que era 
quebra fua , entrando no feu arraial Embai- 
xadores de alguns Reis feus amigos , com 
os quaes defejava de fuftentar feu credito, 
fem dar conta do que determinava , fenão 
a huma peífoa , de que não havia de fahir 
o fegredo daquelle negocio , mandou por 
ella lançar algumas olas na Fortaleza com 
frechas > nas quaes pedia ao Capitão lhe man- 
daífe Jeronymo Bayao , porque tinha nego* 
cio de importância que tratar com elle. If- 
to tratou neíte fegredo , porque fe lhe o 
Capitão mandaíle eíle homem fazer crer 
aos Embaixadores , que elle lhe mandou 
pedir pazes 9 e lhe pedia mifericordia ; e 
fe o Capitão deixaífe de a fazer , por alli 
fe abriria caminho pêra iífo. Eftas olas fo- 
ram achadas , e levadas a João Corrêa , 
o qual não deixou de entender a invenção 
do- Rajú , e pelo quebrantar lhe não re- 
fpondeo a propofito : do que elle aífrontado y 

de- 



Década X. Cap. XIII. 637 

determinou dar hum aíTalto geral á Forta- 
leza > pêra o qual fez preftes todo o fea 
poder , e meíteo todo o cabedal que po- 
de 5 e aos 10. dias de Janeiro deite anno 
de 588. em que com o favor Divino en- 
tramos , no quarto da Lua appareceo em 
muito íilencio fobre a noíía Fortaleza > e 
a rodeou toda , tendo repartido os baluartes , 
e eítancias pelos feus Modeliares 5 que já 
fabiam as partes que haviam de commet- 
ter ; e affim a hum mefmo tempo chegaram a 
cncoftar as efcadas nellas i porque a intenção 
do Rajú foi ver fe achavam os léus alguma 
eílancia tão defapercebida , que pudeíTem 
por ella entrar a Fortaleza : e ifto fe fez 
com tão pouco rumor, que não foram kn- 
tidos , fenão quando já fubiam pelas efca- 
das, e pela parte em que fe fentíram, que 
foi na eílancia de João Caiado no Baluarte 
Santo Eftevão , e na couraça , onde eftava 
D. Luiz Mafcarenhas. Eftes efpertando, to- 
maram as armas , e acudiram á defensão 
a tempo que já os inimigos lhes tinham lan- 
çado dentro algumas panellas de pólvora: 
e bem o pagaram , porque eftes Capitães 
os efcandalizáram , e lhes fizeram perder a 
vida a muitos , e o orgulho aos mais : pe- 
las outras partes por onde também foram 
fentidos , acharam já os noííos com as ar- 
mas nas mãos pêra lhes empecerem. A re- 

vol- 



638 ÁSIA de Diogo de Coxrro 

volta ouvio-fe logo por toda a Fortaleza* 
e acudio o Capitão ao baluarte Madre de 
Deos pêra dalli prover a tudo ; e Bernar- 
dim de Carvalho com feus foldados foram 
acudindo ás partes que lhe pareceram mais 
neceílarias , e o meímo fez Nuno Alvares de 
Atouguia , e affim fizeram os noflbs fentir 
aos inimigos aquelle atrevimento , que a 
poucos golpes os lançaram das efcadas a* 
baixo feitos pedaços , e tão efcandalizados 
todos , que não oufáram a commetter a fu- 
bida , e fe recolheram , deixando muitos 
mortos 5 eabrazados aos pés dos baluartes, 
e eílancias, O Rajú fentio muito ifto , e 
determinou de bater a Fortaleza , e derru- 
bar os muros todos em baixo, pêra o que 
mandou trazer muitas peças de artilheria 
de bronze, e algumas que lançavam pelou- 
ros de ferro coado de quarenta e quatro 
arráteis ; e affeftando-as contra o baluarte 
S. Gonçalo , e S. Miguel , os começou a 
bater com grande fúria por três dias contí- 
guos , fem fazer mais que derrubar todo o 
teélo do baluarte S. Gonçalo. Efta tormen- 
ta metteo medo á gente mefquinha , que 
nunca tinha viíto outro tal terremoto. Foi 
efte derradeiro dia da bateria aos 15*. de 
Janeiro, e até 27. fe preparou pêra dar ou- 
tro geral aíFalto , no qual determinava met- 
ter todo o poder : e aííim aquelle dia ao 

quar- 



Década X. Cap. XIII. 639 

quarto d 5 alva mandou commetter os balu* 
artes S. Gonçalo , e S. Miguel pela parte de 
Mapano , e os mais pelas outras partes: 
efta arremettida foi de grande determinação , 
e com tamanhos terremotos , alaridos , e 
alvoroços dos elefantes , que parecia que 
fe aflblava o Mundo. Os Capitães das eítan* 
cias em fentindo o eítrepito , logo fe pu- 
zeram com as armas nas mãos pêra rece- 
berem os inimigos. Os elefantes chegaram 
aos muros do baluarte S. Gonfalo , que eram 
de taipa , e lhe lançaram as trombas pêra 
o derrubarem ; mas os noííbs arremeçáram 
fobre elles tanto fogo que os fizeram aífaf- 
tar. No baluarte S. Sebaítiao foi o com- 
mettimento maior 5 porque o tomou á fua 
conta o Capitão da Atapeta , ou guarda 
de EIRey , com toda a gente de fua obri- 
gação ? que era efcolhida , e com as bandei- 
ras do Rajú. Aqui foi o trabalho grande, 
porque os nofíbs Lafcarins em vendo junto 
do baluarte aquellas bandeiras , e divifas, 
logo efcorçoárao , e fe foram recolhendo. 
A ? quella hora aportou por lá Nuno Alvares 
de Atouguia com os feus foldados; e ven- 
do a aífronta em que aquelle baluarte eíta- 
va , rnetteo-fe nelle, e o fegurou , pelei- 
jando com muito valor y e esforçando a to- 
dos a fazerem o mefmo. O Capitão da For- 
taleza trazia os Capitães das roídas repar- 
ti- 



640 ÁSIA de Diogo de Couto 

tidos por todas as partes pêra o aviíâreítt 
do que paliava ; e a tudo o de que era 
avifado provia logo com muito cuidado. 
Bernardim de Carvalho , e João Caiado de 
Gamboa com todos os Fidalgos ? e Capi« 
taes que com elle foram , acudiram a feus 
lugares os que os tinham , e os outros aon- 
de íentíram mor neceífidade* No baluarte 
S. Gonfalo fe peleijava mui apreíladamen- 
te , porque carregava alli o poder dos ini- 
migos , e dos elefantes ; e quiz Deos que 
difparafiem hum falcão do baluarte , que 
foi tão bem encaminhado , que matou três 
elefantes , e ferio féis muito mal , porque 
levava hum cartuxo de feixos , de forte 
que em todas as partes efcandalizáram os 
inimigos , aífim com armas 5 como com o 
fogo , de feição que já de vergonha > e te- 
mor do Rajú fe não affaftavam do baluar- 
te Sant-Iago , de que era Capitão António 
Guerreiro ; e no rebelim , que eftava fobre 
a ponta , em que eftava Paulo Pimenta * 
houve mui grande preíTa , porque carrega-* 
ram alli alguns Modcliares com groífo po- 
der ; mas elles fe defenderam muito vale* 
rofamente , pofto que o rebelim eftava em 
grande aperto , e correo a faina que entra- 
ram por elle os inimigos , a que acudio D. 
Gilianes de Noronha com os feus foldsdos, 
€ poz-fe fobre as portas 7 por eftarem nel- 

ía 



Década X. Caj>. XIII* 641 

Ia alguns elefantes , pondo-lhes as teílas 
pêra as lançarem dentro, e com lanças de 
fogo os abrazaram os noftos 5 e os fizeram 
afFaítar , e virar fobre os feus , que foram 
atropelando com a dor do fogo ; e por não 
particularizarmos tantas coufas , nem no- 
mearmos particularmente todos os Capi- 
tães , e foldados <, que fizeram feitos herói- 
cos , porque todos fizeram tanto , que havia 
queefcrever bem delles ? paliaremos pori£ 
íb , porque a gloria foi de todos , e todos 
fizeram tanto , que depois da batalha durar 
mais de duas horas , fizeram affaítar os 
inimigos perdidos , desbaratados \ e como 
a manha efclareceo > de todo viram os nof- 
fos o campo todo juncado de corpos mor- 
tos , e fe affirmou ferem perto de mil -os 
que fe perderam na batalha , a fora os fe- 
ridos , que haviam de fer muitos. Affafta- 
dos os inimigos , mandou o Capitão em- 
bandeirar os baluartes todos , e difparar a 
artilheria , e repicar os finos em nnal da 
vidoria , porque fó hum homem perdeo. 
Com iílo ficou o Rajú de todo defefpera- 
do, e houve que os idolos eílavam offen- 
didos delle : e logo tanto que amanheceo , 
acharam os noílbs dentro na Cidade , e em 
ílma das cafas grande quantidade de panei- 
las com os murróes accezos , fem fe que- 
brarem com darem no chão duro , o que 
Couto. Tom. VL -P. lu Ss fe 



6^z ÁSIA de Diogo de Couto 

fe notou a milagre : e aílim por iflb , como 
pela viéloria , foram todos dar muitas gra* 
ças a noflb Senhor. 

CAPITULO XIV. 

Das coufas em que D. Paulo proveo em 
Malaca antes de fe partir pêra Goa : e 
de como o Vifo-Rey mandou Manoel de 
Souja a Ceilão : e do que fez Thomé de 
Soufa de Arronches nas povoações do Ra- 
jú. 

PElas náos que partiram de Goa em fim 
de Setembro paflado , como já diífe- 
mos , que chegaram a Malaca entrada de 
Novembro , teve D. Paulo de Lima cartas 
do Vifo-Rey , em que lhe pedia fe apreífaf* 
fe , e defembaraçaffe das coufas daquella 
Fortaleza o mais de preífa que pudeífe, 
e que com toda a fua Armada foífe tomar 
Columbo, pêra com o Capitão da Cidade , 
e com o que mandaífe a íbccorro , darem 
nos inimigos , e que em Columbo acharia 
largos regimentos do que havia de fazer. 
Chegada a monção, foi D. Paulo concluin- 
do as coufas daquella Fortaleza , principal- 
mente na Armada que havia de deixar em 
guarda daquelles eítreitos , de que a rogo 
da Cidade ? e do Bifpo, que tinha elegido 

por 



Década ± Ca?. XIV. 645 

por Capitão Mor Francifco de Soufa Pe- 
reira , hum Fidalgo Cavalleiro da Ordem de 
íioflo Senhor Jefu Chrifto , de muito boas 
qualidades , e que nefta jornada o fez em 
tudo muito bem , como em algumas partes 
temos dito, ao qual deo a Galé, que fora 
de Mattheus Pereira , e deixou mais féis 
navios com munições , foldados , é Capi- 
tães que ao diante nomearemos 5 e dando 
expediente a todos os mais negócios , defc 
pedio-fe da Cidade a 24, de Janeiro , em 
que andamos , e fe fez a vela j dando por 
Regimento a todos os Capitães de fua Ar- 
mada , que fe apartaífem delle , e o foífem 
fefperar a Columbo, aonde havia de ir, por 
lho mandar aífim o Vifo-Rey, e foram fe- 
giíindo fua viagem , da qual adiante dare- 
mos razão por tornarmos áscoufas de Goa. 
Sendo recolhido Manoel de Soufa Cou- 
tinho da Cofta do Norte, como diffemos, 
Jogo o armou o Vifo-Rey pêra ir de foc- 
corro a Ceilão > e o defpedio com largos 
Regimentos que lhe deo , e o principal 
era , que tanto que chegalTe a Columbo, 
efperaíle pela Armada de Malaca pêra com 
o Capitão da Cidade , e com D. Paulo de 
Lima , de cujo entendimento , e esforço, 
€ bo# fortuna tinha grande confiança , da- 
fem no inimigo, edefcercarem aquellaCn 
dade a fem haver entre elles precedência 
Ss ii ne- 



*>44 AS IA de Diogo de Couto 

nenhuma , guardando-fe todos os decoros 
que fe deviam , a hum por Capitão Mor 
daquelle foccorro , e o outro por Capitão 
daquella Cidade , o que tudo deixava na 
prudência delles , porque de outra manei- 
ra perdia-fe huma tamanha occafião, como 
a que fe efperava daquella jornada , em 
que citava o remédio daquella Fortaleza , 
e de toda a índia, Preítes , e negociado 
tudo , foi o Vifo-Rey fazei Manoel de 
Soufa á vela aos 4. de Fevereiro com duas 
Galés, huma em que hia o Capitão Mor, 
e na outra D. Jeronymo de Azevedo , e 
dezefeis fuftas , de que eram Capitães Dio- 
go de Soufa , Clemente de Aguiar , Am- 
broíio Leitão , Nuno Alvares Pereira , Si- 
mão Rolim , Fradique Carneiro , Manoel 
de Macedo, Simão Brandão , Pedro Velío- 
fo , João de Soufa, Manoel Cabral da Vei- 
ga , Miguel da Maia , e Manoel Froes , 
Francifco Martins Marinho, Gonfalo Fer- 
nandes Coutinho , D. Filippe Principe de 
Cândia : iriam em todos eítes navios feis- 
centos homens , toda foldadefca efeolhida 
da índia , e muitos mancebos Fidalgos rei- 
noes. Dada á vela , foram feguindo fua jor- 
nada com bom tempo , na qual es deixa- 
mos por continuarmos com outra coufa. 

Partido Thomé de Soufa d 5 Arronches 
de Columbo com os feus nayios> e quatro 

to« 



Década X. Cap. XIV. 64? 

tones pêra fazer toda a guerra que pudef- 
fe por toda a Coita de Ceilão , o primei- 
ro lugar em que defembarcou, foi em hum 
chamado Cofcore , o qual queimaram , e 
cativaram onze peflbas, entre as quaes foi 
huma moça Chingala , cafada de pouco \ e 
depois de deixarem tudo feito , fe embar- 
caram. Eílando pêra fe affaftar , chegou 
muito apreflado hum homem Chingala ro- 
buílo , e que parecia montezinho , e fem 
efperar nada , fe metteo em hum daquelles 
navios , em que aquella Chingala eílava ; 
c remettendo a ella , fe abraçaram com 
grandes lagrimas , e pranto , ao que acu- 
dio o Capitão do navio ; e perguntando 
o que aquillo era y lhe diíle hum que falla- 
va a lingua , que aquelle homem era mari- 
do daquella mulher , e que não eílava na 
aldeia quando a cativaram ; e que acudin- 
do a ella, fabendo que os Portuguezes lhe 
levavam a mulher , arremetteo como dou- 
do ás embarcações , e metteo-fe naquella, 
em que a vio , e com ella fez fuás fauda- 
des. O Capitão do navio contou a Tho- 
mè de Soufa , o qual como era notável , o 
foi ver com feu olho , e achcu-os ambos 
afferrados a dizerem laílimas ; e pergun- 
tando a hum Chriílac Chingala , que os ef- 
tava ouvindo, o que aquilio era, e o que 
lhe dizia , lhe difle elle , que em chegan- 
do 



646 ÁSIA de Diogo de Couto 

do aquelle homem a fua mulher , fe affer* 
rara daquelle modo com ella , e lhe dik 
fera eílas palavras : » Nunca Deos queira 
y> que vindo vós cativa , fique eu livre, 
» mas que ambos tenhamos huma mefma 
>) fortuna : fede vós cativa dos Portugue- 
» zes 5 e eu cativo voíío , e por amor de 
» vós , porque affim fera o cativeiro de 
» ambos mais foífrivel , porque o amor 
)) nos aliviará os trabalhos delle ; » e que 
ella com muitas lagrimas lhe refpondeo : 
» Agora que vejo ifto , me tenho pela mais 
» ditofa de todas as Chingalas : puzeíles 
> hoje huma coroa em vós, e em mim hu* 
>> ma braga muito forte de amor , e leal- 
3> dade , que em quanto viver , me terá 
)> preza, y Thomé de Soufa ficou interne- 
eido do que lhe o Lingua diífe que lhes 
ouvira , e em ver que eílavam eftes dous 
amantes tão embebidos em fuás faudades , 
que nem viam o Capitão Mor , nem lhe 
dava nada delle ; e admirado o Capitão da«* 
quella firmeza , e conllancia de amor da-* 
quelles dous bárbaros • e entendendo bem 
queaquillo não o fazia fazer qualquer amor , 
fenão huma força mui grande delle , que 
era o que fazia a hum livre por fua pro^ 
pria vontade otFerecer-fe ao cativeiro , mo- 
vido a piedade daquelle adio , os fez ale- 
yantar \ e tomando-os pelas mãos ., lhes maik 

4ow 



Década X. Cap. XIV* 647 

ídou dizer : » Que nunca Deos quizeíTe 
a que dous tão bons cafados , e que tanto 
2 fe amavam , folTem já mais apartados , 
» nem tiveíTem mor cativeiro que a obri- 
* g a çã° em que o amor os tinha pojlo : 
» que elle os libertava , que fefofíem mui- 
a to embora , e vivefíem em quanto Deos 
)> quizeíTe naquella conformidade : e elles 
» entendendo pelo Lingua aquillo , lança- 
» ram-fe-lhe aos pés , e lhe diíferam , que 
í já que elle ufava com elles aquella hu- 
» manidade , que também fe não queriam 
» moílrar ingratos a tamanha mercê : que 
)> elles de fuás próprias vontades fe que- 
» riam ir viver a Columbo , pêra ambos 
» o fervirem lá , e dahi a toda a parte aon- 
» de mais foíTe. » O Capitão o mandou 
ficar no navio , e encommendou muito ao 
Capitão delle os trataíTe bem , e depois fe 
fervio do marido de efpia , em que fem- 
pre o achou muito fiei , aííim em quanto 
alli efteve, como depois em Columbo, on- 
de fempre viveo. 

Agora fabulem os Poetas quanto qui- 
zerem pêra moftrar ao mundo as grandes 
provas de amor que muitos fizeram , por- 
que eíles dous bárbaros pafláram por tu- 
do quanto elles pintaram , e por quantos 
mettêram no inferno, penando por amor: 
e o cafo quando no-lo contaram no» cau- 

fou 



648 ÁSIA de Diogo de Couto 

fou tamanha inveja ; e ainda depois quan- 
do ifto efcrevemos , a lingua emmudeceo , 
a penna fe encolheo , e o entendimento fe 
embaraçou pêra o não podermos realçar 
com aquella gravidade , e eftilo que tama- 
nho, e tão defufado amor merece: e aílim 
deixamos pêra os tocados de amor fabe- 
rem melhor fentir ifto , do que nós efçre* 
velio. 

CAPITULO XV. 

Dos grandes ajfaltos que Thorné de Soufa 

mais deo por aquella Co/la : e de como 

deftruio a Cidade , e Pagode de Tan- 

cuarem. 

PArtido Thomé de Soufa de Arronches 
defte lugar deCoícore, foi dar em ou- 
tro mais abaixo deíle chamado de Mada- 
ma , o qual deftruio , e poz a fogo , e a 
ferro , e lhe queimou dous Pagodes que ti- 
nha de muitas romagens entre elles. Daqui 
voltou pêra Gale, e defembarcou em hum 
lugar chamado Guidurem no quarto da ma- 
dorra pêra dar em Gale , que he povoação 
principal do Rajú, e dalli defpedio feu ir- 
mão Rodrigo Alvares , Diogo Gonfalves, 
^Miguel Ferreira com oitenta foldados , e 
çoji* elles o Arachç Domingos Pereira com 

feus 



Década X. Ca?. XV. 649 

feus Lafcarins , e lhes mandou fe foíTem 
embrenhar junto do forte de Gale ; e que 
como ouvilfem hum íinal , que lhes elle 
havia de fazer do mar , commetteífem o 
Forte. Eftes Capitães foram guiados por 
dous efpias que tomaram , os quaes leva- 
vam amarrados ; ç antes de chegarem ao 
forte, embrenháram-fe , e fe deixaram eítar 
a muito filencio. Thomé de Soufa foi-fe 
logo com fua Armada lançar fobre a pon- 
ta de Gale; e hum pouco antes da manha 
romper , defembarcou em terra com toda 
a mais gente que levava , e fez íinal com 
algumas bombardadas aos que eftavam em- 
brenhados , os quaes em ouvindo o final, 
commettèram a tranqueira pela banda do 
Certao, e Thomé de Soufa commetteo ou- 
tra , porque as tranqueiras são como dous 
baluartes , que fe correm de hum ao outro ; 
e tomando os inimigos de fobrefalto , pof- 
ío que achavam nelles grande reíiítencia , as 
tranqueiras foram entradas , e muitos dos 
inimigos mortos , e todos os mais fugiram 
por onde puderam , ficando as tranqueiras 
em mãos dos noífos , que fe deixaram ficar 
nellas três dias , nos quaes queimaram a 
povoação, quê era muito grande, na qual 
Jiavia alguns armazéns de fazendas: e affim 
lhes cortaram todas as hortas , e palmares 
que tinha por derredor, e todas as embar- 
ca- 



650 ÁSIA de Diogo de Couto 

cações que eítavam varadas , deixando tudo 
deftruido , feito em pó , e cinza , desfizeram 
as tranqueiras , e as queimaram , e fe reco- 
lheram ás embarcações carregados de pre- 
zas - y o que tudo fizeram fem lhes cuftar mais 
que algumas feridas. E porque determinou 
o Capitão Mór de dar jia Cidade de Beli- 
gao , que he dalli quatro léguas , mandou 
Miguei Ferreira com feus foldados , e os 
Araches com feus Lafcarins que foliem dal- 
li de Gale por terra do longo da agua fem- 
pre á viíta dos navios ; e Thomé de Soufa 
foi feguindo a ribeira até chegarem á Ci- 
dade no quarto d 5 alva ; e commettendo-a 
os que hiam por terra, e Thomé de Soufa, 
que lo.go defembarcou pela face da praia, 
e tomando os inimigos defcuidados , foi a 
Cidade entrada , e poíla a fogo logo , por- 
que não fe embaraçaíTem os noífos , o qual 
confumia a mór parte delia , e feus mora- 
dores defprezáram, e fugiram pêra o Cer- 
tão. Alli ficaram os noífos aquelle dia dan- 
do bufca na Cidade , na qual acharam algu- 
mas prezas. De noite mandou Thomé de 
Soufa ao mefmo Miguel Ferreira que foíle 
no feu navio pelo rio affima , e déífc de 
noite em huma povoação , pêra onde fe re- 
colheram os que efcapáram de Beligão. 
Chegado Miguel Ferreira , foi pêra com- 
inetter; mas como eítavam já fobre avifo, 



Década X. Cap. XV. 651 

e alli havia alguns Mouros , achou tal re- 
íiílencia de bombardadas , e efpingardadas r 
que lhe foi forçado recolher-fe á Armada. 
Thomé de Soufa foi ao outro dia com to- 
da ella pelo rioaíTima, e no quarto d 5 alva 
commetteo a defembarcaçao , dando a di- 
anteira a feu irmão Rodrigo Alvares , q 
aos Araches ; e poíios em terra , ainda que 
houve muitas bombardadas , commettêram 
huma tranqueira , que tinha á entrada da 
povoação , na qual eílavam os Mouros y 
mas os noflbs ás efpingardadas , e cutiía-* 
das a entraram , e os Mouros íe recolhe- 
ram a huma ponta que faz fobre o rio pê- 
ra defenderem a pallagem aos noífos , que 
os hiam feguindo , na qual tiveram huma 
briga mui arrazoada , em que foram mui- 
tos dos inimigos mortos , e a pezar delles 
os lançaram dalli , e lhes ganharam a pon- 
te , e lhes foram feguindo o alcance por ef- 
paço de meia légua. Desbaratados elles de 
todo 5 entraram os noífos na povoação, na 
qual acharam três cafas , huma cheia de 
ferro , que lançaram no mar, e as outras de 
falitre, e amarras, e cordoalhas, a que tu- 
do puzeram fogo , porque não aproveitaf- 
fem os inimigos. Aqui eíliveram alguns dias , 
nos quaes deram alguns aífaltos pelas al- 
deias vizinhas , em que fizeram grandes 
ciamnçs 3 e feito ifto , fe pairaram ao rio de 



6çi AS IA de Diogo de Couto 

Melifeu , que era adiante, no qual defem- 
barcáram , e tomaram huma tranqueira, e 
deram fogo ao lugar, que fe lhe defpejou 
todo ; e porque a Cidade de Mature , que 
era pelo rio aífíma meia légua , e eftava 
muito profpera de Mercadores , e fazen- 
das , quiz dar hum cevo aos foldados , e 
hum dia no quarto d 5 alva a foi commet- 
ter y e polto que acharam grande reíiften- 
cia , a entraram com morte de muitos dos 
inimigos , e o Capitão Mor lhe mandou 
pôr fogo por algumas partes , no qual fe 
confumio a mor parte , depois dos folda- 
dos facjuearem o que melhor lhes pareceo , 
c dentro nella arderam três Pagodes mui- 
to fermofos } e huma cafa cheia de canel- 
la , e cativaram cento e dez peífoas , e 
queimaram huma embarcação de trezentos 
candís , que eftava no rio. Feito ifto, re- 
colhcram-íe ás embarcações , lem lhes fal- 
tar mais que hum foldado, de que nenhum 
da Armada dava razão , nem fe fabia fe 
o mataram , ou fe ficara mettido pelas ca- 
fas a roubar ; e como os noífos andavam 
vi&oriofos , não queriam que efcapaífe o 
Pagode de Tanaverem meia légua deita 
Cidade, o mais célebre, e de maior roma- 
gem que todos os da Ilha , tirando o da 
Pico de Adão , o qual na fabrica reprefen- 
tava huma fermofa Cidade , por ter de cir- 

cui- 



Década X. Cap. XV. 65*3 

cuito huma arrazoada légua. O corpo def- 
te Pagode era mui grande , todo em íima 
da abobada , mui lavrado , e á roda mui- 
tas capellas fermofiíTimas , e íbbre a porra 
principal tinha huma torre muito alta , e 
forte com o telhado todo de cobre dou- 
rado em muitas partes , a qual ficava no 
meio de hum craíto quadrado mui fermo- 
fo , e bem obrado com fuás varandas , e 
eirados , e em cada quadra huma fermofa 
porta pêra a fua ferventia , e toda era á ro- 
da cheia de alegretes , de boninas, e her- 
vas cheirofas pêra o feu Pagode fe alegrar, 
quando por alli o tiram em procifsão. Tem 
cfte Pagode da cerca pêra dentro ruas mui 
fermofas , nas quaes vivem officiaes de to- 
da a mecânica , e a principal delias he de 
mulheres dedicadas ao ferviço do Pagode. 
Pela fumptuofidade deita obra, e pelo que 
anda de boca em boca nos antigos , affir- 
mam fer feita pelos Cherins , e que naquel- 
la Cidade fe apofentou hum Chim , que 
foi fenhor de toda aquella coita pela banda 
de fora, e aífim o Pagode tem afeição das 
varellas da China , e por caufa delle he 
eíta Cidade muito povoada , e continuada 
de eítrangeiros , pelo que prefumíram os 
nofíbs eítar muito rica. O Capitão Mor fe 
embarcou na Armada , e foi de longo da 
terra pêra a ir commetter : e o mefmo dia 

que 



6$ 4 ÁSIA de Diogo £>e Couto 

que fe embarcou fe armou huma trovoada ^ 
a qual defcarregou com o vento traveiião^ 
e tão furiofo , que eftiveram os navios 
quaíl perdidos ; e fe lhes durará muito ( por- 
que não paliou de duas horas) fem dúvi* 
da que não puderam efcapar. Os Lafcarins 
Gentios, que hiam embarcados com o Capi- 
tão Mor no feu navio ^ e alguns que íervíram 
de efpias 5 em quanto durou a tempeítade j 
puzeram-fe a failar huns com os outros , 
e por tal modo , que attentou o Capitão 
Mor nelles , e perguntou o que fallavam , 
ao que hum Chriftão lhe diíTe > que eítavam 
aquelles Gentios ledos , porque o feu Pa- 
gode acudira por fua honra ; e que faben- 1 
do que os Portuguezes fe hiam pêra o of- 
fendcr, mandara aquella tormenta pêra os 
caíligar. Efta abusão era muito antiga en- 
tre elles ; porque como aquella cofia fica 
ao travefsao defronte , e alli de continuo 
anda o mar foberbo , e fe armam algumas 
trovoadas , aconteceo algumas vezes andar 
por alli Armadas de Portuguezes , e fer 
em conjunção que davam eftes tempos , 
com que ellas fe alfaftavam da terra 5 e fe 
recolhiam , por onde lhes ficou aquella 
imaginação de terem pêra íi que o Pago- 
de ordenava aquillo , porque as Armadas 
Portuguezas não pudelfem chegar a terra $ 
e iíto foi caufa de fe povoar tanto aquel- 



Década X. Cap. XV. 65$ 

la Cidade , cuidando que ficavam alli fe- 
guros dos aílaltos das noíTas Armadas. 
Thomé de Soufa tanto que os Lafcarins 
Chriftaos Jhe deram conta difto , jurou de 
deftruir aquelíe Pagode , por tirar aquella 
abusão da imaginação dos Gentios , pêra 
que viíTem quão enganados eílavam , e o 
pouco que o feu idolo podia ; e aíTim paf- 
fada a tormenta , ao outro dia pela manhã 
chegou-fe a terra, e faltaram nella, dando 
a dianteira a Rodrigo Alvares , e com el- 
les Miguel Fernandes Baracho , e Domin- 
gos Pereira Arache , e a primeira coufa 
que fizeram , foi commetter huma tranquei- 
ra que tinham na praia fobre hum tezo , 
a qual os noílbs ganharam a poder degol- 

Çes em damno dos inimigos ; e deixando 
'home de Soufa em fua guarda alguns foi- 
dados , foi marchando pêra a Cidade , a 
qual commettêram com grande determina- 
ção ; e não fe fiando os moradores na guar- 
da do feu Pagode , em fentindo os Portu- 
guezes , largaram a Cidade , e fe recolhe- 
ram pêra o Certão. Os noífos foram en- 
trando por eila fem acharem refiítencia, 
e chegaram ao Pagode 5 e arrombaram as 

}>ortas 3 e o entraram fem acharem quem 
he reíiíliíTe , e o foram rodeando todo por 
verem fe achavam alguma gente ; e vendo 
que tudo eítavadefpejado, entregou-o Tho- 
mé 



656 ÁSIA de Diogo de Couto 

mé de Soufa aos foldados , pêra que flzeA 
fem feu officio : e a primeira eoufa em que 
entenderam , foi em derrubar os ídolos , 
que eram mais de mil de diverfas figuras i 
huns de barro , outros de páos , outros de 
cobre , e muitos delles dourados* Feito i£ 
to , defpezáram toda aquella máquina in- 
fernal de Pagodes , derrubando^lhes fuás 
abobadas , e era fios , fazendo-lhes tudo em 
pedaços , e depois foram faquear as terce-* 
nas , em que acharam muito marfim , rou* 
pas finas , cobre, pimenta, fandalo , jóias , 
pedraria , e ornamentos dos Pagodes , e de 
tudo tomaram o que quizeram, e ao mais 
deram fogo , em que tudo fe confumio ; e 
pêra móraíFronta do Pagode, mataram den- 
tro nelle algumas vacas, quehe couía mais 
immunda que pode fer, pêra cuja purifica- 
ção fe ha de miíter muito grandes ceremo- 
nias : e aflim puzeram fogo a hum carro 
de madeira feito a modo de cafa torreado 
de fete fobrados , todos de grandes , e fer- 
mofillimas lacriadas de diverfas cores , e 
dourados por muitas partes , obra cuílofa , 
e foberba , que fervia de levar o idolo 
principal a efparecer pela Cidade , a que 
também puzeram o fogo, em que tudo fe 
confumio. Com ifto recolhêrnm-fe os nof- 
fos cheios de prezas , e dalli fe tornaram 
pêra Beligão, aonde foi ter aquelie folda- 

do 



Década X. Caí. XV- 6$y 

do que dilTemos atrás que lhe defappare* 
cera em Mature , o qual contou que an- 
dando na Cidade , fe perdera , que indo 
buícar as embarcações , já as não achara , e 
que até então eftivera embrenhado de dia ^ 
e de noite caminhara em bufcá da Arma^ 
da. Efte homem foi feltejado de todos* 
porque o tiniram por morto 5 e por alli fe 
deixou Thomé de Soufa andar, até que o 
Capitão de Ceilão o mandaífe recolher. 

CAPITULO XVL 

2)e como Matioeí de Soufa Coutinho chegou 

d Cofia de Ceilão : e dos grandes ef* 

tragos que foi fazendo por ella até 

chegar a Columbo, 

PArtido Manoel de Soufa Coutinho de 
Goa , como diífemos , foi fazendo fua 
viagem íem fe embaraçar em nada , até 
paílar o Cabo deCómorim, e longo dacof* 
ta até á Ilha de Jogues , donde atraveílbu 
á outra banda , e foi tomar de Manar pêra 
Cardiva: dalli defpedio huma embarcação 
ligeira ao Capitão de Columbo com huma 
carta , em que lhe pedia lhe mandaífe o 
Mode.liar Diogo da Silva , e o Arache Pe-* 
dro Aífonfo com os feus Lafcatins em to- 
nes , porque efoerava por élles no rio d© 
Couto. Tom, Vti 1 P. li* Ti Çm 



6fó ÁSIA de Diogo de Couto 

Cardiva pêra dalli até Columbo ir deítruin- 
do tudoè A carta chegou a Columbo em 
dous dias : e logo João Corrêa negoceou 
huma fuíta , e nove tones , em que iriam 
oitenta Portuguezes , e os Modeliares , que 
elle mandou pedir; e fahidos de Columbo, 
foram tomar o Abilao dos Jogues , e des- 
embarcaram em terra, e entraram o lugar, 
e o deítruíram , e abrazáram de todo , e 
daqui fe foram á barra deChilão, onde ef- 
tava gente de guarnição doRajú; e queren- 
do dar. em terra, viram três bandeiras com 
muita gente, pelo que diflimuláram , epaS- 
fáram adiante a hum lugarejo ; onde des- 
embarcaram , e tomaram três negros , dos 
quaes Souberam a difpoííção do lugar de 
Maripo , que eítava perto , e da gente que 
havia , porque deSejavam dar-lhes hum gran- 
de caftigo , pelo máo tratamento que fizeram 
á gente de huma Armada que Se alli per- 
deo em tempo do Conde D. Luiz de Ataí- 
de, que hia de Soccorro a Ceilão, de que 
era Capitão Mor Diogo Lopes Coutinho ; 
e Sabendo que Se podia commetter Sem riS- 
co , o fizeram , e a pezar dos moradores o 
entraram , e Saquearam, matando alguns, 
e tomando vivos quarenta e oito peíloas , 
e Sete embarcações carregadas de Sal , que 
tinham já prefles pêra levar aos poítos do 
Rajú, onde vale muito, porque em toda a 

Uha 



Década X* Ca?, XVL 659 

Ilha não o lia. Daqui foram dando em al- 
guns portos até chegarem ao mar fundo * 
onde encontraram a Armada ^ e deram ràzao 
ao Capitão Mor das coufas de Columbo £ 
e do que tinham feito pela còíta , e como a 
Cidade de Chilãõ eftava guarnecida $ e forte, 
Manoel de Soufa foi logo furgir fobré feU 
porto > e mandou Do Jerohymõ de Azeve- 
do com quatrocentos homens , e os Ara- 
ches com feus Lafcarins que defembarcaf- 
fem , como fizeram , commettendó duas tran- 
queiras que os inimigos tinham , com tama- 
nho impeto 5 que logo lhas largaram com 
morte de alguns , que fe mettêrani quatro 
léguas pelo certao , fazendo nelles grandes 
éítragos ; e como os èrifacáram de todo, 
tornaram a voltar , dando de caminho em 
muitas aldeias > e povoações > que queima- 
ram ^ e deftruíram até chegarem á Cidade 
deChilão, a qual mettêfam â ferro, e fo- 
go , não perdoando a coufa alguma, fem 
cuitar tudo iílo mais que dotis Lafcarins 
íioílos. Nó rio havia mais de fítlcoenta pa- 
gueis j e muitos tones j e outras embarca- 
ções a qué^puzerani fogo $ fem deixarem 
nada em pé , queimando-^fe affim na Cida- 
de , como nas embarcações muita fazenda ; 
€ deixando tudo deílruido , carregados de 
prezas , fe embarcaram, andando o Capi-* 
tão Mói 4 na fua bateira de longo da praia r < 

Tê ii £or« 



66o ÁSIA de Diogo de Couto 

porque não houveíTe algum defarranjo ao 
recolher, Partindo-fe daqui , chegaram a 
Columbo aos 18. de Fevereiro 5 entrando 
a bahia com a fua Armada toda embandei- 
rada fermofamente , e íalvando a Cidade 
com toda a artiíheria, e depois com a ar- 
cabuzaria por algumas vezes , com que pof- 
to que o numero parecia mui grande , mui- 
to maior appareceo nas orelhas do inimi- 
go , que vendo chegar aquella Armada , 
bem vio que fe lhe apparelhavam traba- 
lhos , porque já começavam a vir também 
navios da Armada de D. Paulo , porque 
havia dous , ou três dias que eram chega- 
dos os Galeões de D.João Pereira, e Fran- 
cifeo da Silva , e as fuílas de D. Nuno Al- 
vares Pereira , e a Galé de D. Pedro de 
Lima j e o dia de antes a Galeaça de Mat- 
theus Pereira de Sampaio, fendo já avifa- 
do que fe efperava por D. Paulo de Li- 
ma , que já fabia vinha tão viéloriofo de 
hum tamanho Rey , com o que andava 
aiTombrado , e o ficou de todo , depois que 
vio tamanhas Armadas , tantos regozijos y 
e falvas , porque a Cidade difparou toda 
a artilheria por feítejar Manoel de Soufa , 
que logo defembarcou com todos os Capi- 
tães , e foldados , fendo recebido na praia 
do Capitão , Fidalgos , Prelados , e todo 
o povo com muito alvoroço > moítrando-fe 

nos 



Década X Cap. XVI. 66i 

nos abraços o goíto que todos levavam da- 
quelle foccorro : foi levado Manoel de 
Soufa a feu apofento, e os feus Capitães, 
e foldados foram repartidos por eítancias, 
e cada hum bufcou feu gazalhado. Ao ou- 
tro dia fe ajuntaram Manoel de Soufa , e 
João Corrêa pêra tomarem refolução nas 
coufas do Rajú, e mandaram recado a to- 
dos os Capitães que eílavam naquella Ci- 
dade , Prelados , e Religiofos que acudi- 
ram ; fomente D. João Pereira , que fe ef- 
cufou com lhe mandar dizer, que elle era 
foldado de D, Paulo de Lima, que não fe 
havia de achar no Confelho em que fe el- 
le não achaiTe ; e juntos todos , lhes fez 
Manoel de Soufa huma breve falia , cuja 
fubílancia era: » Que elle pela muito gran- 
3> de experiência que tinha do Rajú de fua 
)> malícia, e fraqueza , entendia muito bem 
» que não havia de efperar o golpe de ef- 
)> pada ; e que quando fe não precataílem , 
» o haviam de achar menos dalli , e reco- 
» lher-fe fem o caftigo que merecia : que 
» o bom feria dar-lho logo, e tão grande, 
» que ficaífe por exemplo a todos osReys 
» de Ceilão pêra mais não tentarem trai- 
)> ção contra aquella Fortaleza, a que elles 
» deviam obediência, e vaífallagem ; e que 
» lhes fegurava com o favor Divino huma 
» tamanha vi&oria , que ficaífe por efpan- 

» ta 



66% AS IA be Diogo pe Couro 

» to na memoria de todos os Reys do 
j) Oriente, com o que fe enfreariam , efe* 
)> riamos ferppre temidos , e rçfpeitados 
» delies : e que alevantando-fe elle dalli 
» fem o caftigo que merecia , não fó fe- 
>> ria muito grande mágoa , e dor pêra 
)> todos que com tamanha vontade vinham 
» pêra fe verem ás mãos com eiks , mas 
» ainda Jiuma vituperofa affronta , porque 
» já fe havia de dizer que de medo dei- 
» xáram de dar nelle 3 e diíftmulára com 
» fua ida. » Bem fe çntendeo que Manoel 
de Soufa defejava muito de fe achar na- 
quelle negocio fem D. Paulo , por ficar 
fendo a honra toda fua , porque fe lhe não 
podia negar inveja a tamanha violo ria , co- 
mo Deos lhe dera do Rajale; e que fe lhe 
Deos déíle a elle a do Pvajú , feria toda a 
gloria fua , porque naturalmente era cite 
Fidalgo ambiciofo de honras , e defejava 
de fe ver em oçcafioes de as poder ganhar» 
João Corrêa de Brito tomou a mão a fal- 
lar naquelle negocio , e difle que o Viícw 
Rey além das inftrucções , em todas as 
Cartas lhe mandava que fe não fizeílç 
aquelle negocio fem D, Paulo de Lima ; 
que fenão fabia o que elle poderia tratar; 
mas quç elle também entendia que o Ra-* 
jú não havia de efperar a batalha , antes 
tratar de fe recolher : que elle era de pá** 



Década X. Cap. XVI. 66$ 

recer de Manoel de Soufa , que primeiro 
que elle fe levantaíTe , deflem nelle, por- 
que fem dúvida a viíloria eítava nas mãos. 
Pareceo efte parecer aíFeiçoado ao de Ma- 
noel de Soufa ; mas João Caiado de Gam- 
boa refpondeo , que fobre hum de dous 
prefuppoftos fe havia de votar , ou que fe 
havia de alevantar o Rajú , ou não ; por- 
que fe a coufa eftava duvidofa de fua de* 
terminação , bom feria efperar-fe por D.- 
Paulo , que não poderia tardar mais que até 
ao outro dia , pois o Vifo-Rey o mandava 
aífim , e que por iífo mefmo andava efpe- 
rando por elle Thomé de Soufa de Arron- 
ches , que trazia na fua Armada muito boa 
gente : que fe trouxeííem efpias de con- 
fiança: e que quando houveífem novas cer- 
tas , que o inimigo fazia mudança de íl, 
então fe podiam quebrar todos os regi- 
mentos. Os mais dos Capitães, e Fidalgos 
que alli eftavam , votaram pelo mefmo pa- 
recer , principalmente os da companhia 
de D. Paulo , que falláram fobre aquelle 
negocio mais largamente ; porque como 
eram de lua obrigação , e entenderam que 
tudo o que' fe tratava era afim de fe tomar 
aquella honra a D. Paulo , debatido o ne- 
gocio , veio-fe a refumir que fe efperaífe 
por elle , e que fe trouxeííem intelligen- 
ciasj e que havendo avifo que o Rajú tra-- 

ta- 



664 ÁSIA de Diogo de -Cotio 

tava de fe alevantar, então fe défle nelle,- 
porque ahi lhe ficava lugar pêra alcançar 
delle huma grande viíloria , com que a 
honra ficaíTe fendo de todos , e affim fe 
levantaram, encarregando ao Capitão asin- 
telligencias , o qual lançou fora fuás ef» 
pias , fazendo-fe todos preftes pêra em 
tendo rebate fahirem ao inimigo , defpe- 
dindo logo recado a Thomé de Soufa , 
que tanto que D. Paulo chegaífe, o tomaf- 
fe nos feus navios ligeiros , e fe foílç pêra 
Columbo. 

CAPITULO XVIL 

De como o Rajtí Jecretamente fe ãefalojou > 

dando fogo ao arraial : e de como os 

nojfos lhe fahíram : e do que lhes 

aconteceo no alcance , e do 

que mais pajfou. 

VEndo oRajú chegado Manoel de Sou- 
fa com tantos navios , e parte da Ar- 
mada de D. Paulo de Lima, por quem ca- 
da dia fe efperava , o qual vinha viélorio- 
fodehumRey tamanho como o de Viantana , 
deixando-lhedeftruida huma Cidade tão po- 
tente, forte, e cheia de tanta gente, eartilhe- 
ria, epaífando pela memoria o damno que 
tinha recebido dos noífos , antes de virçiu 

ta- 



Decaída X. Cap. XVII. 665- 

tamanhos foccorros , e a deítruiçao que lhe 
fizeram por huma , e outra coita as Arma- 
das de Manoel de Soufa , e Thomé de Sou- 
fa de Arronches ; e que tanto poder como 
lhe tinha chegado , não era pêra eítar fe- 
chado na Fortaleza, reprefentando-lhe fua 
total deítruiçao , fe alli efperalTe os noílbs , 
poz em fua vontade o recoiher-fe , fem dar 
conta a ninguém : e pêra maior diffimula- 
çao , determinou de enganar , e entreter os 
noílbs, pêra mais a feu falvo fe poder re- 
colher : e aínm logo aquelle dia mandou 
lançar huma carta na Fortaleza com huma 
frecha, na qual pedia aos Capitães que lhe 
deífem licença pêra lhe mandar Embaixado- 
res a tratar negócios de importância, por- 
que eftava dcfenganado que aíiim como el- 
les lhe não podiam tomar Ceitavaca , aífim 
çlle não podia tomar Cochim , por não di- 
zer Columbo. Foi levada efta carta aos Ca- 
pitães ; e ajuntando-fe todos a Confelho , 
foi debatido o negocio , e aífentáram que 
íe ouviíTem os Embaixadores, que ao me- 
nos ferviria de entretenimento até chegar 
D. Paulo de Lima. Com efta refpofta lhe 
vieram logo três , ou quatro Embaixadores 
acompanhados , que foram bem recebidos 
dos Capitães; e a primeira coufa que pedi- 
ram foi , que não fe atiraífe da Fortaleza 
com artxljieria , em quanto elles alli eftivef. 

fem j 



666 ÁSIA de Diogo de Couto 

fem ; e dando ília embaixada , prefentes 
todos os Capitães dos foccorros , differam 
que o Rajú feu Senhor lhes mandava di- 
zer que elle tinha huma fefta mui grande, 
que lhe fahia dalli a três dias , a qual era 
forçado ir celebrar aCeitavaca, e que den- 
tro nefte tempo acceitaria pazes j e quan- 
do não , que não tinha neceííidade de fal- 
larniííb. Eítando niífo , antes delherefpon- 
derem , chegaram alguns efpias , que os 
noilos traziam entre os inimigos , e diííe- 
ram que o Rajú fe defalojava , como de 
feito aílím era ; porque tanto que os Em- 
baixadores eftiveram dentro , fendo já per- 
to da noite , mandou recolher a fua bagagem , 
e deo recado aos feus Modeliares que ale- 
vantafle n o campo , começando elle a cami- 
nhar, deixando encommendado a retaguar- 
da a Vifacon Modeliar 3 Capitão general 
do feu campo, com a gente da fua guarda. 
Com efta nova começou a haver tal reboli- 
ço entre os noífos , que ficaram os Embai- 
xadores como aífombrados , porque não 
fabiam a determinação do Rajú. Os Capi- 
tães fem tomarem conclusão , por fegura- 
rem os Embaixadores dos foldados , por fe 
não quebrar a fé que fe deve aguardar a to- 
dos , os mandaram embarcar em hum tone, 
pêra que os puzeílem da banda do Calapa- 
te , porque fe os mandaffem pelas portas , 

cor- 



Década X. Cap. XIVL 667 

cornam muito rifco pela união que já ha- 
via, Defpedidos elles , ajuntáram-fe todos 
os Capitães em Confelho pêra fe determi- 
narem no que fariam , e afientáram todos 
que fe lançaflem efpias fora ; e fe o Rajú 
fe abalaífe , deílem logo nelle , porque fé 
não foíle fem o caftigo que merecia 3 e ar- 
mando-fe todos , puzeram-fe em fom de ba- 
talha 5 pêra que fe foíle neceífario , fahif- 
fem a dar no inimigo , e ordenaram fuás 
bandeiras , e Capitanias por efta maneira. 
Manoel de Soufa Coutinho com toda a 
gente da fua Armada , e a de Nuno Alva- 
res de Atouguia , que ferião mil Portugue- 
ses, e todos osAraches, eModeliares com 
feus Lafçarins , e por feu Capitão Francis- 
co Gomes Leitão, que fahiiíe na dianteira 
pelo campo de S. Thomé , e foíle logo occu- 
par a Pedreira; Bernardim de Carvalho com 
a gente de fua Armada , e outra que fe lhe 
ajuntou , com que perfez trezentos homens, 
que tomaííe o caminho da alagôa, pêra fe 
ir pôr na ponta da Ilha ; e o Capitão da 
Cidade João Corrêa de Brito com a bandei- 
ra de Ch riflo com toda a gente de fua roí- 
da , e a que veio de focccrro de Manar, e 
S. Thomé, e a de João Caiado de Gamboa, 
e toda a Armada de D. Paulo (por quere- 
rem os fcus Capitães ir com elle) que paf- 
fariara de quinhentos homens 3 havia de ir 

na 



668 ÁSIA de Diogo de Cottto 

35a reta-guarda. O Alcaide Mor Franciícd 
da Silva havia de ficar em guarda da Cida- 
de com trezentos homens cafados velhos , e 
outros que fe pêra iflb efcolhêram : e logo 
repartiram as munições por todos em abaf- 
tança , entregando as panellas de pólvora, 
e lanças de fogo a foldados forço fos , e de 
animo , pêra terem o encontro aos elefan- 
tes , dando ordem ao Alcaide Mor pêra ter 
preítes muitas munições pêra mandar á for- 
miga , vaíilhas de agua, ecoufas neceflarias 
pêra foccorro dos canfados , e que tiveíTern 
pannos , ovos , e mais coufas pêra cura 
dos feridos , que fe vieíTem recolhendo pê- 
ra não faltar nada. Por todas as bombardei- 
ras fe repartiram os Prelados , e Religiofos 
com Crucifixos pêra esforçarem os que pe- 
leijaífem , e pêra confeílarem os que diífo 
tiveíTern neceíiidade ; e tendo dado ordem 
a tudo , fendo fabbado 21. de Fevereiro 
ás nove horas da noite , viram no arraial 
do inimigo grandes fogos : e foi , que tan- 
to que fe defaíojou , o mandou dar em 
todas as tranqueiras que arderam com gran- 
de braveza. Muitos foram de parecer que 
logo fefahiíTem; mas os Capitães arrecean- 
do que aíllm como aquillo podia ler fugi- 
da , pudeífe também fer cilada pêra aco- 
lherem os noflbs defordenados , mandaram 
fechar as portas , lançando fora algumas 

ef- 



Década X. Cap. XVII. 669 

efpias , pêra verem o que hia no campo, 
e o Capitão João Corrêa fe foi com a gen- 
te de fua batalha pêra a porta de S.João, 
donde defpedio o Modeliar Diogo da Sil- 
va com os feus Laícarins , e trinta Tolda- 
dos eícolhidos bem armados, pêra que fof- 
fem occupar a tranqueira do monte ; e fe 
achaífem nella gente do inimigo, lhe fiz ef- 
fem final com três efpingardadas : e man- 
dou a D, João Pereira que com os feus 
foldados , e de feu irmão D. Nuno Alva- 
res , com o feu Guião , fe puzeffe no cam- 
po da banda de fora pêra os favorecer : o 
Modeliar Diogo da Silva foi caminhando 
pêra a tranqueira do monte ; e achando-a 
ainda occupada dos inimigos , fizeram o 
íinal que lhe o Capitão mandou , o qual 
fendo ouvido de D. João Pereira , por or- 
dem que pêra iílb tinha , foi abalando pê- 
ra elles : e Diogo da Silva com feus Laf- 
carins commettêram a tranqueira com mui- 
to animo , fentindo em feu favor a gente 
de D. João Pereira 5 que logo chegou , e 
a poucos golpes foi entrada , porque os 
inimigos a largaram. Os nolios Capitães 
que citavam preftes , ao final das efpingarda- 
das fahíram da Cidade na ordem que efta- 
va aílentado 5 levando a dianteira Manoel 
de Soufa Coutinho , que chegou a tranquei- 
ra da primeira cava ; onde ainda eftava 

hum 



6yo A SI A de Diogo de Couto 

hum grande corpo de inimigos 5 que com- 5 
mettêram com grande fúria; mas como el- 
les eítavam alevantados > puzeram fogo á 
tranqueira , e a tudo o que nella havia, e 
foram fugindo , e o mefrno fizeram os das 
mais tranqueiras , indo Vifacón Modeliar 
na reta-guarda recolhendo toda a gente. 
Francifco Gomes Leitão , e o Modeliar 
Diogo da Silva lhe foram feguindo. o al- 
cance , levando nas coitas D. João Pereira , 
que fempre foi tocando huma trombeta 
baílarda pêra os favorecer, Vefacon Mo- 
deliar tanto* que chegou á ponte da Mata- 
core , fabendo que o hiam feguindo os 
noífos , deteve-fe nella da outra banda t man- 
dando-a com muita preíla desfazer , peraí 
os noífos o não poderem feguir. Os da 
dianteira em chegando á ponte , em que 
acharam aquelle poder do Atapata do Ra- 
jú , tocaram os atabales 5 ao que lhe te- 
fpondeo a trombeta de D. João Pereira , 
a cujo final Manoel de Soufa Coutinho fe 
apreíTou ? adiantando-fe alguns aventureiros f 
como João Caiado de Gamboa com tre- 
zentos 5 ou quatrocentos homens foldados 5 
e cavalleiros , em que entrava Manoel Pe- 
reira do Lago , Domingos Leitão Pereira , 
e outros , a que não foubemos os nomes 5 
e chegarem á ponte , na qual acharam Fran- 
cifco da Silva Caítelhano , cafado em Co-* 

lum- 



Década X. Cap. XVII. 6 7 i 

Jumbo , Francifco Gomes Leitão , Pedra 
da Silva Modeliar , tendo o encontro aos 
inimigos com grande valor , e esforço , 
lendo o dianteiro Francifco da Silva , que 
como hum leão eítava na ponte ás cutila- 
.das com os inimigos , e tinha mortos dous 
Chingalas dos principaes foídados do Ra- 
jú , homens agigantados. O Capitão geral 
do Rajú tornou a voltar fobre os noííbs 
com tanta fúria , que derrubando , e ferin- 
do dez , ou doze ,. os tornou a lançar da 
ponte; e foi iíto atempo, que chegava Do 
João Pereira , e os mais He íua companhia ; 
e dando nos inimigos , tornaram a ganhar 
a ponte , a qual paflaram , e foram íeguin- 
do os inimigos , que hiam em desbarato 
até o rio de Calane, que he perto de hu- 
ma légua , por caminhos mui ruins , e in- 
trincados, matando, e fazendo nelles gran- 
de eílrago. Os Capitães com o reílo do 
exercito foram até á parte , onde fe deti- 
veram ; e fabendo que os noífos levavam 
os inimigos de arrancada, e que João Caia- 
do hia diante, mandáram-lhe dizer que fi- 
zefle o oíEcio de Capitão da dianteira por 
então, porque nãohouveíTe algum defman- 
cho y ao que lhe mandou refponder , que 
elle hia fazendo o officio de foldado , mas 
que faria o que niífo pudeíle. Manoel de 
Soufa defpedio Jogo D. Jeronymo de Aze- 

ver 



6yt ÁSIA de Diogo de Cotrro 

vedo que foíTe em favor dos que hiam pc* 
leijando comos inimigos. Braz de Aguiar 5 
e feu irmão Ambroíio Leitão , e outros 
foldados , e cavalleiros ^ que fe adianta-' 
ram , indo no alcance dos nofíbs que fe* 
guiam os inimigos , chegaram a hum lu-* 
gar, aonde fe apartava o caminho em dous ^ 
e pareceo-lhes melhor deixarem-fe ficar na- 
quella parte, porque não arrebentaílêm os 
inimigos por qualquer daquelles caminhos i 
e foílem dando nas coitas aos noíTos que 
hiam diante , o que foi mui bem confide- 
rado : e aífim ficaram ajuntando todos os 
foldados , que alli hiam ter , até fazerem 
hum arrazoado corpo delles. Nefte tempo 
chegaram ao porto de Columbo Thomé de 
Soufa de Arronches com fua Armada , e 
Diogo Soares de Albergaria 5 que vindo 
de longo da coita , vendo fogo no arraial 
doRajú, parecendo-lhes o que era, arpref- 
fáram-fe de maneira, que chegaram áquel^ 
las horas com fua gente poíta em armas , 
e chegaram os Capitães , que eftavam com 
todo o poder na ponte , tendo mandado 
recado a Francifco Gomes Leitão , Capi- 
tão do campo , que não paíTaffe das Var- 
geas de Vagore, como fizeram, por já não 
haver inimigos com quem peleijar , por 
ferem de todo recolhidos : feria iíto ás três 
horas depois da meia noite 7 e deixaram-fe 



Década X. Gap. XVII. 675 

ficar , apanhando por todos os caminhos 
muitas armas, que os inimigos foram lar- 
gando na fugida; e chegados aponte, on^ 
de eítavam os Capitães , deram conta de 
eomo o Rajú hia de todo desbaratado : 
com o que todos deram muitas graças a 
Deos noíTo Senhor por tamanha mercê , 
como lhes fez. Dalli fe tomaram pêra o 
arraial , que eftava entre as duas cavas * 
que o Rajú mandou abrir pêra efgotar a 
aiagôa , onde andaram vendo os fortes ^ 
baluartes , revezes , fòílos , tranqueiras , 
ruas , e caminhos que tinha feitos pêra fua 
defensão , que era coufa de efpanto^ por- 
que a obra parecia exceder á induftria hu* 
mana. Alli eítiveram até o meio dia, man- 
dando dar fogo nas tranqueiras ; e por te-** 
rem neceflidade derepoufar, fe recolheram 
á Cidade viétoriofos. Ficou o Rajú mui 
desbaratado defte cerco , porque lhe cuf- 
tou muito , e perdeo por difcurfo da guer- 
ra mais de finco mil homens , e finco Ci- 
dades , e muitas Villas ^ e aldeias ^ e dei- 
íruidos muitos navios , tomados , e queima- 
dos , e muita artilheria , e fazendas , e fobre 
tudo quebrada i e abatida fua foberba , cre- 
dito j e reputação 5 que com os Reys vizinhos 
tinha 5 coufa que mais fentio de todas. A1-* 
gumas peífoas que efcrevêram eíle cerco 
accrefcentáram , e engrandeceram muitas 
Ceuta. Tom. VI. P. li. Vv cou- 



<574 ÁSIA de Diogo de Couto 

coufas mais do que fuccedêram , cuidando 
que com iílb grangeavam ao Capitão João 
Corrêa de Brito , que era tão bom Caval- 
leiro , que fe não fatisfazia fenão do que 
na verdade paflbu. Hum deíles affirma per- 
der o Rajú mais de dez mil homens , e 
grande numero de cativos: muitos houve, 
mas não tantos como diife. Da nofla parte 
pelo difeurfo todo morreram vinte e qua- 
tro Portuguezes , e oitenta Lafcarins na 
guerra , e foram mais de quinhentos da 
gente da terra mefquinha que morreram 
de doença. 

Ao outro dia , depois de recolhido o 
inimigo, chegou D, Paulo de Lima, edef- 
embarcando em terra , foube dos Capi- 
tães o íucceílb paíTado , o que em extremo 
feftejou ; e porque tudo era feito, e fe fa- 
zia tempo de fe irem pêra Goa , trataram 
dos provimentos daquella Fortaleza , e da 
guarnição que lhe haviam de deixar; por- 
que como o inimigo eílava tão perto , e 
em elles virando coílas , poderia voltar, e 
dar-lhe outra vez trabalho : pelo que foram 
continuando no desfazer dos entulhos , e 
baluartes , cavas , e todas as mais fortifica- 
ções do inimigo , o que tudo fazia huma 
máquina de huma arrazoada Cidade , no 
que fe detiveram oito dias , nos quaes con- 
tinuadamente trabalharam todos até os Ca* 



Década X. Ca?. XVÍL 6?ç 

pitaes, e Religicfos. João Corrêa de Bri- 
to trouxe efpias na Cidade de Ceitavaca, 
que cada dia o avifavam do que lá pafla* 
va , e foube que o Rajú eftava tão anoja- 
do 3 e envergonhado, que não havia quem 
oufaíTe de lhe ver o rofto. Desfeito tudo, 
e dado ordem ás mais coufas , entraram 
em os provimentos daquella Fortaleza y e 
aílen taram que ficaíTem feiscentos homens 
debaixo das bandeiras dos Capitães feguin* 
tes : D. Luiz Mafcarenhas > D. Gileanes de 
Noronha , feu irmão D. Leão , João de 
Soufa Coutinho , Simão Rolim , Ruy Pe- 
reira deSande, Francifco da Silva, eTho- 
jmé de Soufa Arronches por Capitão do 
mar com huma Galé , e féis fuílas. Dada 
eíta ordem 5 e deixando todos os provi- 
mentos 5 munições , e dinheiro que lhes 
pareceo necefíario , fizeram-fe todos & vé* 
la pêra Goa. 



Vv u CA* 



6j6 À S I A de Diogo de Coítto 

CAPITULO XVIÍI. 

De como Ruy Gomes da Silva andou na 
cojia do Norte o rejlo do verão : e de 
como chegaram a Goa Manoel de Soufa , 
e D. Paulo de Lima : e dos Capitães 
que o Vifo-Rey defpachou pêra fora. 

REcolhido Manoel de Soufa Coutinho 
da Coita do Norte , como diíTemos , 
ficando ella fem guarda , ordenou o Vifo-Rey 
que o refto do verão andaíTe nella D. Ruy 
Gomes da Silva , que tinha vindo com a 
cáfila dos portos do Canará , e pêra ifto o 
tornou a prover de novo , e lhe armou al- 
guns navios mais , e partio de Goa a 16. 
de Fevereiro deite anno de 1588. levando 
por Regimento, que depois que deixaííe hu- 
ma grande cáfila , que levava pêra as For- 
talezas do Norte , voltaíTe até Carapatão, 
e fe deixaíTe andar por alli o reíto do ve- 
rão. Os Capitães que o acompanharam nef- 
ta jornada foram D. Luiz de Noronha , Fer- 
não Lobo de Brito, António Colaço, Pedro 
Barbofa, Jorge Dias Pinto, e Ruy Gomes 
Arei , e com eíta Armada andou D. Ruy 
Gomes todo o verão , fem lhe acontecer 
coufa notável , e por iíTo concluímos com 
elle. O Vifo-Rey eítava por horas efperan- 
do novas de Ceilão 7 aonde tinha os olhos, 

por- 



Década X. Cai». XVIII. 6 7 j 

porque era a coufa que então mais o can- 
lava -j porque já de Malaca lhe tinha Deos 
noíTo Senhor trazido melhores ainda do que 
fe efperava : eftas de Ceilão não tardaram 
muito, porque em breves dias chegou hum 
navio ligeiro, que aquelles Capitães defpe- 
díram com ellas. Sabendo o Vifo-Rey pelas 
cartas a mercê que Deos fizera , deo-lhe 
muitas graças , e mandou repicar os finos , 
porque a Cidade fe alegrafTe, e logo efcre- 
veo a todas as Fortalezas do Norte aquel- 
las boas novas , pelas quaes fe feftejáram 
muito, Vendo-fe o Vifo-Rey defalivado do 
que tanto o trazia pejado , começou a en- 
tender nos provimentos de Malaca , e Ma- 
luco , a que mandou dar muita prefia, e fi- 
cou efperando por aquelles Capitães pêra 
os receber 5 efeílejar, como era razão, en- 
commendando aos Vereadores que lhe fizef- 
fem todo o recebimento , principalmente a 
D. Paulo, a quem mandou que tirado Pál- 
lio , que era do Vifo-Rey, que tudo ornais 
fe lhefizeíle, porque tudo merecia. Manoel 
de Soufa , que vinha em Armada ligeira , 
chegou a Cochim , e deixou naquella Cida- 
de O. Jeronymo de Azevedo na fua galé , 
e duas fuftas mais pêra recolher as náos da 
China , e lhe ir dando guarda até Goa, e 
-clle foi vifitando as Fortalezas deCananor, 
e do Canará , e chegou a Goa em fim de 

Mar- 



67% ÁSIA de Diogo de Couto 

Março, onde entrou embandeirado, e en- 
ramado , e a Cidade o recebeo com muitas 
feitas , e muitas íalvas de artiiheria com to- 
das as náos , e galés fermofamente emban- 
deiradas j e em meio dos Vereadores , e acom- 
panhado de todos os Fidalgos que em Goa 
havia , foi levado ao Vifo-Rey que o efpe- 
rou na faia , e alli o recebeo com muitas 
honras , gaitando algum efpaço ern louvores 
feus , e de todos os que fe acharam naquelle 
feito. Dalli fe recolheo a fua cafa acompa- 
nhado de grande coneuríò de Fidalgos, e 
foldados, e depois feftejou oVifo-Rey a vi- 
ítoria, ecorreo as carreiras, levando á fua 
ilharga Manoel de Soufa. 

D, Pauio de Lima depois de chegar 
aCochim, por ferem osNoroeítes grandes, 
pareceo-lhe melhor mudarem-fe aos navios 
de remo , e em breve tempo chegou a 
Goa, alguns dias depois de Manoel de Sou- 
fa, e foi recebido com grandes feitas, e alvo- 
roço de todo o povo , que acudio ao ver, 
e acompanhar , principalmente de muitos 
eftrangeiros que andavam na Cidade , que 
o foram ver como por efpanto , e andavam 
comoaffombrados deverem tantas vidtorias, 
como Deos noflb Senhor tinha dado aos 
Porcugezes. O Vifo-Rey efp erou D. Paulo 
fora das porta, dos Paços , onde o abraçou, 
ç lixe diífe muito graves, e muito honradas 

pa- 



Década X. Cap. XVIII. 679 

palavras em feu louvor , e o defpedio pêra 
lua cafaaté onde foi acompanhado de todos. 
Depois do Vifo-Rey feftejar elfos vidto- 
rias , logo defpachou os provimentos pêra 
fora , e D. Diogo Lobo pêra ir entrar na 
Fortaleza de Malaca, por lhe caber, e en- 
trar apôs João da Silva , e levou em fua 
companhia outras náos , e huma delias pê- 
ra Japão , do qual era Capitão Roque de 
Mello, provido daquella viagem; e porque 
nefte tempo eftava a Cidade falta de man- 
timentos , ordenou o Vifo-Rey huma galé, 
e finco fuftas pêra ir dar guarda á cáfila 
dos navios dos Mercadores que eftava pref- 
tes , e defta Armada foi por Capitão Mor 
D. Francifco Mafcarenhas ; e os Capitães 
de fua companhia eram Leão de Andrade, 
Francifco de Almeida , Sebaílião Bugalho, 
Ruy Gomes Arei, Jorge Dias Pinto, ambos 
eftes da companhia de D, Ruy Gomes da 
Silva , que havia poucos dias eram chega- 
dos , por elle fer já recolhido em Raçaim , 
onde era cafado. Eíla Armada levou huma 
grande cáfila de navios , e na entrada de 
Maio fe recolheo com eíla carregada de 
mantimentos , com que a Cidade ficou far- 
ta, e abaítada. 



CA- 



68o ÁSIA de Díogo de Couto 

CAPITULO XIX. 

De corno faleceo o Vifo-Rey D. Duarte de 

Menezes de humas febres : e das par* 

tes , e qualidades de Jua pejfoa. 

ANdando o Vifo-Rey occupado no de£ 
pacho das coufas de Maluco , e Co-? 
lumbo , pêra onde defpedio huma galeaça 
carregada de mantimentos , munições , e 
dez , ou doze mil pardaos em dinheiro , da 
qual foi por Capitão Pedro Vaz, que partio 
de Goa a 20. de Abril, pouco depois adoe- 
ceo o Vifo-Rey de humas febres ', que pa- 
reciam não ferem perigofas , e de que fe 
fez logo pouco cafo ; mas como eram mor- 
taes , ao fetimo faleceo defta vida prefente 
aos 4. dias do mez de Maio de 1588. Ou-: 
viram todos que fora fobegidão defangue, 
e que fora poucas vezes fangrado , por fer 
hum homem cheio de carnes , e havido 
por continente ; mas são achaques da mor- 
te , que foi fentida com grande dor , má- 
goa , e efpanto de todos , porque foi fua 
doença tão pouca na opinião dos homens , 
que em dizendo que adoecera , logo fe dif- 
fe que era falecido. Foi grande mágoa ver 
hum Fidalgo tão honrado, e virtuofo aca- 
tar affim entre as mãos em quatro dias : e 
certo que parece fonhoj e fe fepóde dizer ^ 



Década X. Cap. XIX. 62t 

que era efte Fidalgo tal , que antes de fua 
morte precederam íinaes , como em morte 
de grandes , póde-fe com razão affirmar 
delle , porque aquelle verão três , ou qua^ 
tro mezes antes nefta Cidade de Goa huma 
noite no quarto da prima rendido , appareceo 
no Ceo aquelle íinal ,a que os Gregos chamam 
Cafma, que quer dizer abertura, porque fe 
vio abrir o Ceo com tanto refplendor , e 
claridade , que alumiou quaíi como de dia ; 
e alguns Religiofos da Ordem de Santo Ar 
goftinho, que o notaram bem, nos affirmar 
ram que fora tamanha a luz , que lhes en- 
trou pelas freftas , que lhes alumiou todas 
as cellas : e houve pefíbas que affirmáram 
que viram no ar tochas accezas. Algumas 
vezes fe tem viílo femelhantes finaes , prin- 
cipalmente em tempo de Romanos no Con- 
fulado de Cayo Celio , e de Cneo Papirio. 
Hum Fidalgo honrado nos contou , que eí- 
tando o dia feguinte converfando o Vifo- 
Rey, praticando nefta matéria, que diíTera 
elle que vira o final , e que fempre apôs el- 
les fuccediam mortes de Reys , ç Príncipes ; 
mas que aquelle íinal , porque durara pou- 
co , lhe parecia denunciar morte de pef- 
foa menor que o Rey, por onde podemos 
(dizer que efte íinal de falecer peflba de me- 
nor eftado que Rey , os Vifo-Reys da índia 
abaixp de Reys tem o maior eílado da ter- 
ra; 



6$i ÁSIA de Diogo de Couto 

ra ; e além diflb pela antiguidade de feu 
illuílre fangue fe pode contar entre os Gran- 
des de feu tempo , e porque era fenhor da 
cafa de Tarouca, Bifneto daquelle valeroíb 
Capitão D. João de Menezes , filho herdei- 
ro do mefmo D. João , Capitão , e Gover- 
nador da Cidade de Tangere , e que foi 
Governador da índia. Foi o Vifo-Rey D. 
Duarte cafado com Dona Leonor da Silva, 
filha de Diogo da Silva , filho mais velho do 
Regedor João da Silva , que faleceo em vi- 
da de feu pai , e de Dona Antónia de Vi- 
lhena, irmã do Barão de Alvito , da qual 
houve três filhos , e outras tantas filhas ; D. 
João de Menezes , e mais velho , que mor- 
reo na batalha com EIRey D. Sebaílião, 
eílando naquelle tempo vencendo huma 
Commenda em Tangere em companhia de 
feu pai , que era Capitão , e Governador 
daquella Cidade; o fegundo filho he D. Luiz 
de Menezes, que herdou fua cafa, a quem 
depois EIRey D. Filippe deo o Titulo de 
Conde de Tarouca , o qual foi cafado com 
Dona Joanna Henriques , filha de Baítião de 
Sá de Menezes , irmão do Conde de Ma- 
tozinho, e de Dona Luiza Henriques, filha 
de D. Francifco Pereira de Santarém , da 
qual viuvou , e lhe ficou huma filha chama- 
da Dona Juliana ; o terceiro filho foi D. 
António de Menezes , Cominendador do Sar- 
doal, 



Década X. Cap, XIX, 685 

doai , e tem a Capitania de Malaca , e via-* 
gem da China : as filhas , a mais velha cha- 
mada Dona Maria de Vilhena , que foi ca- 
fada com D. Francifco da Gama , quarto 
Conde da Vidigueira , e Vifo-Rey que foi 
da índia, que houve filhos, e filhas ; e Do- 
na Luiza , que ainda vive; e Dona Antónia > 
que já he falecida. Foi D. Duarte de Me- 
nezes Capitão , e Governador da Cidade de 
Tangere; e na defaílrada jornada deElRey 
D. Sebaílião á Africa foi Capitão Geral de 
feu campo , depois foi Governador do Al- 
garve duas vezes , faleceo de idade de íin- 
coenta e hum annos , era pequeno de cor- 
po , muito bem feito , de muito bom con- 
íeiho, e de grande authoridade, e tão bom 
latino , que podia julgar de entre eílilo a 
eftilo : era grande Italiano, muito affeiçoa^ 
do á poezia , e fazia muito bons fonetos , 
e outros verfos : foi pouco cubiçofo , por- 
que fe lhe não acharam peíTas , curiolidades , 
nem fazendas de quem governara a índia 
perto de quatro annos: havia- fe por caílo : 
foi tão zeloíb da juftiça, que dizia que ne- 
nhum gofto tinha maior que quando a fa- 
zia ; e tão foífrido , que pedindo-lhe hum. 
foldado mercê , defculpando-fe elle que não 
tinha dinheiro , lhe diiTe o foldado : Bem 
parvo he o homem que em tempo de V. iSV- 
nhoria ferve a E/Rey y ao que elle com 

mui- 



6S4 ÁSIA de Diogo de Couto 

muita brandura refpondeo : Dizeis verda- 
de , foldado fois muito parvo , não firvais 
a EIRey. Achou-fe-lhe entre os feus papeis 
hum memorial, em que tinha aífentado por 
itens muitas coufas pêra a jornada do A- 
ehem , que EIRey pertendia mandar fazer 
por elie ; e porque iíto eram coufas que 
correram em fegredo , e os feus papeis , e 
cartas foram pêra o Reyno , não foubemos 
a realidade deite ; fomente ouvimos dizer 
que lhe tinha EIRey efcrito, que fe prepa- 
raííe pêra ir fazer a empreza do Achem , e 
que levaífe toda a Armada, e gente que lhe 
pareceífe , e que deixaífe a índia entregue 
a Mathias de Albuquerque , que ficaria por 
Governador; e não eftando na índia, dei- 
xaria a quem lhe pareceífe. Tinha no me- 
morial os Galeões que havia de levar com 
feus Capitães , e os mefmos os navios de 
remo, os meííres da artilheria de bater, e 
os petrechos todos , que mais lhe parecef- 
fem neceífarios , porque aífim como lhe hia 
lembrando a coufa , a hia logo pondo no 
memorial; eefperava-fe que o anno feguin- 
te lhe mandaífe EIRey gente , e dinheiro 
pêra profeguir naquella conquifta, como de 
feito dizem que lhe mandou oitenta mil 
cruzados em reales , que fe deram ao Go- 
vernador Manoel de Soufa. Foi em fua vi- 
da tirado pelo natural hum painel, e pofta 

na 



Década X. Cap. XIX. 68? 

na fegunda cafa , onde eftava o retrato do 
Conde D. FranciícoMaícarenhas ; e eílá tão 
natural , que parece vivo > e aífim o deve 
eftar fua alma na Gloria , porque era jufti- 
çofo, piedofo , virtuoío , continente, e te- 
mente a Deos ; e conforme a nofla Fé , de- 
ve fer dos feus eícolhidos nelle. Seu corpo 
foi enterrado na Igreja dos Reys Magos., 
conforme a feu Teitamento ; depois foram 
levados feus oíTos á Capella Mor do Con- 
vento da Trindade de Santarém. 

Com iílo temos concluido efta Decima 
Década á gloria , e louvor de Deos noíTo 
Senhor, que vive, e reina in fécula feculor 
rum. Amen. 

Diogo de Couto. 



Fim da Década Decima. 




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DS Barros, João de 

411 Da Ásia de João de Barros e 

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